Abu Alfaraje Iacube ibne Iúçufe ibne Quilis (), mais conhecido como Iacube ibne Quilis ou Ibne Quilis (; ; Baguedade, 930 – fevereiro de 991), foi um estadista e administrador de origem judaica que serviu sucessivamente ao Reino Iquíxida e ao Califado Fatímida. Estabelecido no Egito, entrou a serviço de Abu Almisque Cafur e converteu-se ao islamismo em 967. Após a morte de Cafur e um período de conflito com Jafar ibne Alfurate, refugiou-se na Ifríquia, onde passou ao serviço do califa fatímida Almuiz Lidim Alá , acompanhando posteriormente os fatímidas ao Egito.

Especialista em administração fiscal, Iacube desempenhou papel central na reorganização das finanças do Estado fatímida e tornou-se vizir do califa Alaziz em 977. Durante seu vizirato, participou da condução da política interna e externa do califado e destacou-se também como patrono de estudiosos, juristas, médicos, homens de letras e poetas. Versado no fique ismailita, compôs o tratado jurídico al-Risāla al-wazīriyya e contribuiu para o desenvolvimento das instituições de ensino e do cerimonial da corte fatímida. Morreu em fevereiro de 991.

Vida

thumb|upright=1.05|Dinar de ouro de Abu Almisque Cafur emitido em 965/966 em Ramla thumb|upright=1.05|Dinar do califa Almuiz Lidim Alá

Iacube era judeu e nasceu em 930, em Baguedade, então parte do Califado Abássida . Migrou com o pai para a Síria e estabeleceu-se em Ramla, onde se tornou agente de mercadores. Segundo certa tradição, teria se apropriado do dinheiro deles e, não podendo restituí-lo, fugiu para o Reino Iquíxida do Egito, onde entrou a serviço de Abu Almisque Cafur. Depois de conquistar a confiança de Cafur, apropriou-se de várias heranças cuja existência lhe comunicava e realizou em benefício próprio compras que Cafur pagava mediante concessões sobre terras estatais. Adquiriu conhecimento preciso das receitas de todas as vilas do país e passou a controlar as despesas na Síria e no Egito. Em 967, converteu-se ao islamismo e, diante da promessa de receber o vizirato, dedicou-se ao estudo assíduo do Alcorão e das leis sob a orientação de um professor. Em 968, porém, Cafur morreu e seu sucessor, Jafar ibne Alfurate, mandou prender Iacube por ciúmes. Mais tarde, uma filha de Iacube se casaria com Alfurate, e Iacube seria libertado graças a subornos e intervenções da corte, fugindo em seguida para a Ifríquia. É possível que, nessa época, tenha sido influenciado pela propaganda fatímida que então se difundia.

thumb|esquerda|upright=1.05|Bilade Xame no

Iacube entrou a serviço do califa Almuiz Lidim Alá , que se impressionou com suas qualidades como administrador. Retornou com Almuiz ao Egito em 969, tendo-o encorajado a conquistar o país. A partir do início de outubro de 973, foi encarregado da reorganização do sistema fiscal com o auxílio de . Suas medidas aumentaram sensivelmente as receitas do Estado e garantiram a confiança no dinar almuizita. Após a morte do califa, em 975, continuou a administrar as finanças em nome de seu filho Alaziz , que o nomeou vizir no início de agosto de 977 e al-wazīr al-ajall ("ilustre vizir") no Ramadã (fevereiro) de 979. Alaziz concedeu-lhe honras e riquezas, e foi durante seu vizirato, sob esse califa, que o Egito desfrutou de grande prosperidade e o Califado Fatímida atingiu seu apogeu territorial.

Na política externa, reconquistou Damasco do turco Alpetequim, aliado dos cármatas, mas, quando este, após conquistar o favor califal, lhe faltou com respeito, Iacube o envenenou. Pôs fim à situação complicada que se desenvolvera na Síria e na Palestina em decorrência da atuação de Cassam, sucessor de Alpetequim em Damasco, do hamedânidas Abu Taglibe, que chegara da Jazira (Alta Mesopotâmia) em busca de fortuna na Síria, e de Mufarrije ibne Daguefal ibne Aljarrá. Em seguida, forçou Baquejur, representante hamedânida em Hómece e governador de Damasco por nomeação de Alaziz, a abandonar a capital; Iacube o odiava por ele ter matado seu representante nas propriedades que possuía na região e se apoderado delas. Na política interna, perdeu brevemente o favor do califa durante alguns meses em 983–984, talvez em razão do envenenamento de Alpetequim ou dos distúrbios provocados por uma fome no Egito, mas logo recuperou seus cargos e sua imensa fortuna. Sabe-se que recorria à bajulação de seu senhor, como no episódio em que lhe enviou cerejas da Síria transportadas por pombos ou nos versos com que procurou explicar como um de seus pombos havia superado o do califa numa corrida, episódio que seus inimigos utilizaram para caluniá-lo.

Iacube destacou-se pela vida suntuosa que levava em seu palácio, pela liberalidade para com estudiosos, juristas, médicos, homens de letras e poetas e pela preocupação em promover o aprendizado. Manteve 35 juristas e foi o primeiro a conceber a transformação da Mesquita de Alazar em uma universidade. Como sincero defensor do fatimismo, mandou aprisionar um álida de Damasco que zombava da genealogia da dinastia reinante. Era especialista no fique ismailita, e todos os seus biógrafos ressaltam que compôs, a partir de tradições recebidas de Almuiz e Alaziz, o tratado jurídico al-Risāla al-wazīriyya, cujo conteúdo ensinou pessoalmente em palestras e com base no qual foram emitidas fátuas. Construiu uma mesquita em seu palácio, supervisionou a construção da Mesquita de Aláqueme e acrescentou, em 988, a fawwāra (fonte) da Mesquita de Anre.

Contribuiu também para o desenvolvimento do cerimonial fatímida, instituindo na corte um corpo de tropas escolhidas (os ), que desfilavam em procissão, e fundando o regimento que levava seu nome, a altaifa vaziria (al-ṭāʾifa al-wazīriyya). Seus biógrafos o elogiam amplamente, mas não ocultam os meios questionáveis que empregou para alcançar o sucesso ou se livrar de seus próprios inimigos e dos adversários da dinastia. Quando morreu, no final de fevereiro de 991, Alaziz, que presidiu a oração fúnebre, chorou e demonstrou grande pesar. O cristão afirma que Iacube era merecedor dessa demonstração, mas a população egípcia o acusava de favorecer excessivamente os cristãos e os judeus.

Bibliografia

Categoria:Judeus do Iraque Categoria:Vizires do Califado Fatímida