thumb|300px|Boiada sendo conduzida por pantaneiros no Mato Grosso A pecuária no Brasil é parte significativa da economia deste país desde o período colonial. O Brasil tinha um rebanho de 218,23 milhões de cabeças em 2016, criadas em aproximadamente 167 milhões de hectares. A lotação média no país é de 1,25 cab. /ha (unidade de cabeça por hectare).IBGE: rebanho de bovinos tinha 218,23 milhões de cabeças em 2016. Beef Point Atualmente a produção pecuária de bovinos é partilhada principalmente pelo Centro-Oeste, Sudeste e Sul, cabendo ao Nordeste o predomínio sobre as criações de caprinos e muares. Os ovinos se concentram no Sul e Nordeste (Rio Grande do Sul, Bahia e Ceará são os principais produtores). Os suínos e as aves se concentram no Sudeste e no Sul. No Brasil dia 15 de julho, é comemorado o Dia Nacional do Pecuarista.
O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango: 3,77 milhões de toneladas em 2019. O país é dono do segundo maior rebanho bovino do mundo, 22,2% do rebanho mundial. O país foi o segundo maior produtor de carne bovina em 2019, responsável por 15,4% da produção mundial. Foi também o terceiro maior produtor de leite do mundo em 2018. Este ano o país produziu 35,1 bilhões de litros.O Brasil é o 3º maior produtor de leite do mundo, superando o padrão europeu em alguns municípios Em 2019, o Brasil era o 4º maior produtor de carne de porco do mundo, com quase 4 milhões de toneladas.
Apesar da sua grande importância para a economia brasileira, a pecuária na forma como tem sido desenvolvida no país tem alto grau de ineficiência,Azevedo, Ana Lúcia. "Com 1 boi por hectare, pecuária extensiva degrada cerrado". O Globo, 15//09/2015 e é uma das atividades que geram os maiores danos ao meio ambiente, especialmente a criação de gado, sendo uma das principais causas de desmatamento e emissão dos gases do efeito estufa produtores do aquecimento global. Atualmente o Brasil é o quarto maior emissor global de gases estufa. Tem sido também causa importante de degradação dos solos, poluição das águas e conflitos violentos no campo. Os vastos prejuízos econômicos e sociais dos danos ambientais decorrentes da pecuária raramente são contabilizados, e por isso a atividade tem se mantido tão rendosa e competitiva, mas no longo prazo esses prejuízos podem se acumular a ponto de torná-la inviável."Pesquisa realizada na Universidade de Brasília (UnB) mostra que o modelo de desenvolvimento agropecuário existente no país pode se tornar insustentável no longo prazo devido aos impactos que produz sobre o meio ambiente". Jornal da USP, 15/01/2010 O debate público sobre esses problemas é intenso mas é desvirtuado por um forte discurso negacionista e pseudocientífico produzido por políticos, empresários e representantes do governo, confundindo e desmobilizando a população e dificultando a adoção de legislação e políticas públicas baseadas na sustentabilidade.Lenharo, Mariana. "Indústria da carne controla debate ambiental e lança metas vagas". UOL, 06/12/2021 Gragnani, Juliana. "Agronegócio banca palestras que espalham mito de que aquecimento global pelo homem é fraude". BBC Brasil, 18/11/2021Vilani, Rodrigo Machado. "Negacionismo que nada; o negócio é afirmar o pasto da boiada". O Eco, 28/05/2020
História
A história da pecuária brasileira remonta aos primórdios da ocupação portuguesa do território. Em torno de 1534 foram introduzidas as primeiras cabeças de gado na Capitania de São Vicente. Diz a tradição que a responsável pela iniciativa teria sido Ana Pimentel, esposa e procuradora de Martim Afonso de Sousa. As reses teriam vindo de Cabo Verde ou da Ilha da Madeira. A introdução foi um sucesso, e em 1576 Pero Gândavo escrevia que "há também grande cópia de gado que da mesma ilha foi levado a estas partes, principalmente do vacum há muita abundância, o qual pelos pastos serem muitos, vai sempre em grande crescimento".Apud Sagrilo, Lauro Pereira Zago. Origem e evolução da pecuária de corte no Rio Grande do Sul. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015, p. 14 Em 1535 Duarte Coelho levou gado para Pernambuco, e em 1550 Tomé de Sousa introduziu um rebanho na Bahia, de onde a atividade se espalharia por outras regiões nordestinas. Nesta primeira etapa a criação de gado era uma atividade marginal na economia agrária colonial, e as reses eram usadas principalmente para tração nos engenhos de cana,Menez, Jhonatas Rosa et al. "Análise da Pecuária de Corte no Sudeste do Brasil: Comparativo dos Dois. Últimos Censos (2006-2017)". In: Revista Científica da AJES, 2020; 9 (19) e pouco mais tarde, principalmente no Ceará e no Rio Grande do Norte, para a produção de carne de sol para alimentação dos escravos dos engenhos da Bahia e Pernambuco.Sagrilo, p. 50 Esses primeiros rebanhos eram criados de forma extensiva em campos naturais. Fortkamp, Cristiane. "Estrada da Mata: Espaço, Economia e Sociedade entre os séculos XVIII e XXI". In: Revista Geográfica de América Central, 2011; 2 (47) — Número Especial XIII Encuentro de Geógrafos de América Latina: Abordajes de la Geografía Política, Económica e Histórica No século XVII a pecuária começa a se tornar uma atividade autônoma, e ao mesmo tempo se tornava um importante fator de povoamento dos sertões do Nordeste e do Centro-Oeste.Leutz, Bruna Fontes & Ulbanere, Rubens Carneiro. A exportação de carne bovina - desenvolvimento do porto de Santos". In: XV Simpósio Internacional de Ciências Integradas. Guarujá: UNAERP, 2010 A pecuária no Nordeste tem sido associada ao crescimento de importantes morgados coloniais, mas a história antiga da pecuária no Centro-Oeste ainda é mal conhecida.Medrado, Joana. Do pastoreio à pecuária: a invenção da modernização rural nos sertões do Brasil Central. Universidade Federal Fluminense, 2013, p. 8
Na década de 1550 algumas reses foram levadas clandestinamente de São Vicente para Assunção no Paraguai por alguns espanhóis, pouco depois este pequeno rebanho foi aumentado com várias remessas de reses peruanas, chilenas e bolivianas, e no início do século XVII jesuítas espanhóis da Província do Paraguai incorporaram o gado à economia das reduções indígenas que pontilharam a região. Criados de forma livre, quase sem interferência humana, esses rebanhos se tornaram praticamente selvagens, se multiplicaram muito pelo Paraguai, Argentina e Uruguai, favorecidos pelos vastos campos naturais da área e a abundância de fontes de água, espalhando-se também no sul do Brasil, onde deram origem às "Vacarias do Mar" (do sul do rio Jacuí até o litoral) e às "Vacarias dos Pinhais" (nos Campos de Cima da Serra, onde trechos de campo alternavam com pinhais de araucárias). Os jesuítas também introduziram o cavalo na região, que da mesma formar proliferou abundantemente.Sagrilo, pp. 18-25
A partir dessas vacarias se desenvolveu todo um ciclo econômico de produção de couro e charque, de grande importância para a economia até o fim do século XIX, "fundamentais para a configuração das rotas de abastecimento, a formação de novas praças comerciais e surpreendentes enriquecimentos fora do círculo agro-exportador", segundo análise de Joana Medrado.Medrado, p. 85 Embora houvesse algum consumo pela população em geral, no período colonial a carne de gado era pouco valorizada e pouco consumida, o charque era destinado principalmente à alimentação dos escravos, e o interesse econômico principal pelo gado residia no couro, que era em grande parte exportado.Sagrilo, p. 31Faustino, Gitibá Guichard. "O Negro Gaúcho e suas origens". In: Triumpho, Vera et alii (eds.). Rio Grande do Sul: Aspectos da Negritude. Martins Livreiro, 1991, pp. 97-103 Expedições de bandeirantes e tropeiros no sul foram responsáveis por levar parte desse gado para outras regiões do Brasil, contribuindo para miscigenar as raças e abrir novas rotas de comércio.
Em 1701 uma provisão da Coroa portuguesa determinou que os rebanhos deveriam permanecer afastados pelo menos dez léguas das lavouras, o que acentuou o impulso para a busca de novas áreas. Em meados do século XVIII alguns intelectuais ingleses se interessaram pela abundância de gado na colônia portuguesa, considerando que seria uma fonte importante para abastecer o crescente mercado de carne europeu, fazendo alguns estudos sobre as melhores maneiras de aproveitamento. No fim do século, com o progressivo esgotamento das minas de ouro e diamantes, a atenção dos intelectuais portugueses e brasileiros ligados ao Iluminismo e às instituições oficiais se voltaram para o estudo científico das atividades rurais da colônia brasileira, a fim de modernizar, melhorar e diversificar as chamadas "economias rústicas", aumentando a produção de alimentos e as rendas auferidas pela Metrópole. Vários estudos foram publicados em função desse movimento, alguns traduzidos de autores de outros países, tratando de uma variedade de assuntos, incluindo produção e uso do leite, queijo e carne. Destacam-se entre esses estudos História e cura das moléstias mais essenciais, internas do boi e análogas as do cavalo, do italiano Francesco Toggia, traduzido por Vicente Silva Teles; A arte de curar bois, de Manuel Martins Cavaco, e sobretudo Método de se aproveitarem todas as carnes do gado vacum nos países em que só o matam e esfolam para proveito das peles, de frei José Mariano Veloso, que teve grande circulação por ter sido mandado distribuir por dom Rodrigo de Souza Coutinho entre todos os criadores.Medrado, pp. 53-55; 65-84
A partir do século XIX os novos conhecimentos desenvolvidos pelos iluministas começaram a se disseminar por vários pontos do Brasil, sendo aperfeiçoados principalmente nas escolas agrotécnicas. Contudo, com a consolidação do Império independente, temas nacionalistas entraram em pauta, com reflexos na economia agrária. Havia a preocupação de que a sempre crescente demanda internacional por carne, couro e leite levasse ao desabastecimento interno, levantando-se um aceso debate público onde eram criticados o modelo agroexportador, os monopólios e as vantagens concedidas ao capital estrangeiro. No fim do século, em parte por influência do darwinismo, passou a ser um tópico de grande interesse dos pecuaristas o melhoramento genético do gado crioulo com a importação de reprodutores europeus. Paralelamente, eram divulgadas novas técnicas de industrialização dos produtos bovinos. Com o fim do regime escravista houve escassez de mão-de-obra, acrescentando novos elementos de insatisfação entre a elite produtora.Medrado, pp. 89-93
Em 1897 foi fundada a Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), que teve um papel central no debate sobre a diversificação da agricultura e pecuária nacionais, organizando eventos para troca de conhecimentos, promovendo a produção e publicação de estudos e se tornando um dos principais órgãos consultivos do governo. Na passagem do século XIX para o século XX, em boa parte por pressão britânica, a cultura do consumo de carne se enraizou definitivamente na população, sendo até então um artigo relativamente comum mas secundário na dieta do brasileiro. Em função dessa mudança cultural, alguns países, incluindo o Brasil, passaram a dar grande ênfase e se especializar nesta área para abastecer um mundo cada vez mais carnívoro. Conforme Medrado, "no caso da história da pecuária na Argentina e no Brasil há uma mudança sensível e qualitativa nessa atividade quando ela se integra ao mercado internacional de carne, em grande medida porque isso reforçava o papel dos países colonizados na divisão internacional do trabalho — exportador de matéria prima, a carne, e importador de tecnologia de produção, a genética ou os animais reprodutores".Medrado, p. 181