A estética totalitária é um tipo de manifestação estética típica dos regimes totalitários e seus fenômenos do século XX, como o estalinismo, o nazismo, o fascismo, o maoísmo e até o salazarismo. A arte totalitária é um tipo incontestável de cultura de massa que utiliza de forma peculiar a indústria cultural sob o controle rígido do Estado (e políticas estatais para a produção cultural). Essa estética, assim, é geralmente considerada típica da arte e design de propaganda, bem como resultante dela, eventualmente aliada ao uso da violência do estado. Desta forma, pensadores mais atuais, como Noam Chomsky apontam para a existência de uma outra forma de estética totalitária, sustentada basicamente pela propaganda e reinante no âmbito das democracias ocidentais.
Características thumb|400px|right|O Campo de Zeppelin, em Nuremberga, onde o Partido Nazista realizava os seus congressos, foi projetado nos traços típicos da estética totalitária. As linhas gerais da estética totalitária são, entre outras, as proporções monumentais e grandiloquentes, a padronização das técnicas de representação, o estilo hiper-realista, a simulação de movimento, as linhas retas e homogêneas (geralmente apontando para o céu), a preponderância de uma cor sobre outras (geralmente, o vermelho), a desindividualização dos personagens e narrativas em detrimento de personagens coletivos (a massa), a coreografia e os corais, a reverência ao ao esforço físico, ao trabalho braçal, ao atletismo e ao corpo.
A estética totalitária tem em comum à cultura dos regimes totalitários o revivalismo de civilizações antigas que representassem suas raízes, como o Império Romano, o Império Bizantino e a Grécia antiga, tendo sido perseguidas todas as manifestações de vanguarda na arte. A esse respeito, note-se que Hitler criou um rol de obras vistas como "arte degenerada", enquanto Stalin substituiu programaticamente as vanguardas russas, como o cubofuturismo pelo chamado "realismo socialista".
Os regimes totalitários fizeram uso da arte e outras expressões estéticas (vestuário, design de objetos, produção gráfica, símbolos nacionais) como parte de uma lógica de dominação total da vida humana. No caso do nazismo e do stalinismo, foram estabelecidas verdadeiras políticas de Estado para estética. A política apropriou-se da retórica da arte: era a "a arte na sua fase romântica tardia", segundo Susan Sontag. Não por acaso, muitos dos comícios-espetáculos da Alemanha, da Itália e da União Soviética nos anos 1930s-1940s seguem os mesmos princípios da "obra de arte total" conceituada pelo compositor alemão Richard Wagner, romântico tardio: drama, música e coreografia eram fundidos num único espetáculo, carregado de emoção e ideologia, com o ethos enunciado através do pathos. As massas foram convertidas ao mesmo tempo em espectadores e figurantes. Em seu ensaio "Fascinante Fascismo" (1972), Sontag resumiu as orientações gerais da estética totalitária: "O gosto pelo monumental e pela reverência massiva ao herói são comuns tanto à arte fascista quanto à comunista (...). A apresentação do movimento em padrões grandiosos e rígidos é um outro elemento comum, pois tal coreografia reflete a própria unidade do Estado. As massas são feitas para tomarem forma a serem desenhadas. Daí as manifestações atléticas de massa, exibições coreografadas de corpos, serem atividades valorizadas em todos os países totalitários."1
A estética em diferentes regimes Como apontado acima, as principais manifestações daquilo que se pode chamar de estética totalitária encontram-se nos dois principais regimes totalitários do século XX, o nazi-fascismo de Hitler, acentuadamente, e o comunismo soviético de Stalin. A forma como tal estética é usada em ambos, porém, possui diferenças, ora su(b)tis e ora bastante gritantes. A estética nazista procurava rejeitar absolutamente qualquer referência às inovações artísticas atingidas pelas vanguardas do início do século, as quais considerava desvio mental, devassidão ou mesmo como "arte comunista". Por outro lado, a estética adotada pelo regime stalinista chegou a incorporar algumas das pesquisas construtivistas, ainda que aplicando-as de forma antagônica às suas origens.
Realismo Socialista
O Realismo Socialista foi o conjunto de diretrizes formais, estilísticas e poéticas oficial da União Soviética entre a década de 1930 e a morte de Stalin e o subsequente processo de desestalinização. O Realismo Socialista era, mais que um estilo, uma política oficial que pretendia adequar a produção cultural soviética (e dos demais artistas militantes comunistas do mundo) à interpretação marxista-leninista (na verdade, a visão stalinista desta) da realidade.
O principal artífice do Realismo Socialista foi Andrei Jdanov.
Contra o Realismo Socialista levantaram-se vários críticos e detratores ativos, como Pablo Picasso, Piet Mondriaan e Clement Greenberg. No contexto histórico da Revolução Russa, o Realismo Socialista consagrou-se como política estética oficial do Estado em antagonismo às várias tendências estéticas genericamente denominadas como vanguarda russa, através do repúdio de Stálin ao aspeto supostamente libertador das estéticas anteriores. Os membros da vanguarda russa, artistas em geral ligados ao Construtivismo, ao Abstracionismo e ao Suprematismo, possuíram papel importante na primeira fase da revolução, propondo a criação de grandes ateliês públicos de arte, nos quais a livre expressão estética seria incentivada pelo Estado, em busca da libertação, tanto individual quanto coletiva, dos valores pré-revolucionários. Com a política totalitária stalinista, este tipo de posicionamento artístico foi duramente combatido, sendo perseguidos nomes ligados à arte abstrata, em especial. Kasimir Malievith é considerado o caso exemplar: proibido de continuar sua pesquisa suprematista (considerada revolucionária por vários críticos e estudiosos da arte ocidental), passou a pintar apenas obras figurativas e realistas quando da promulgação do Realismo soviético. Mesmo aquele poeta que era considerado a principal voz da revolução na literatura, Vladimir Maiakovski, passou a ser criticado pelos ideólogos da estética governamental, tendo tal pressão sido considerada como uma das causa do seu suicídio por Trotsky, enquanto outros consideram a possibilidade de um assassinato político engendrado pelo próprio regime stalinista.Trotsky, Leon. O suicídio de Maiakovski. Boletim da oposição russa. Maio de 1930.
Durante praticamente todo o período de existência da União Soviética, a vanguarda russa original foi esquecida e pouco estudada, privilegiando-se o Realismo socialista. Apenas com a queda do comunismo stalinista do Leste Europeu tal movimento passou a despertar novos interesses.
Estética nazista thumb|right|250px|Desfile folclórico na Alemanha dos anos 1930. A estética, para o Nacional-Socialismo, era um ponto central de sua política de reorganização do mundo. Para a ideologia hitlerista, a sociedade ocidental vivia um processo de decadência, atribuída a uma contaminação social que tinha como dois fatores principais os judeus, no plano étnico, e os comunistas, no plano ideológico. Uma vez erradicados ambos, a nação alemã estaria purificada e livre para alcançar seu papel de supremacia na Humanidade, segundo a promessa nazista. Assim, a reforma do mundo seria um processo de "purificação", "higienização" e "embelezamento", ainda que isto significasse o extermínio físico de indivíduos (incluindo ainda os chamados "arianos" com deformidades físicas e doenças mentais).
Os nazistas também decidiram banir a arte modernista produzida pelas vanguardas artísticas, especialmente na pintura e na escultura, exibindo suas obras para execração pública nas chamadas "Exposições de Arte Degenerada".
A estética nazista foi aplicada por funcionários do partido NSDAP sob a orientação pessoal de Adolf Hitler, que era um designer (gráfico e de produto) por formação e profissão, e um artista plástico frustrado em sua juventude. O principal colaborador de Hitler neste campo foi o orador e propagandista Josef Goebbels.
Para os nazistas a arte deveria criar efeito, tais como monumentalidade e grandiloquência. Deveria também glorificar a pureza da raça ariana. Assim, judeus no campo étnico e comunistas no campo ideológico - seres, em sua visão, contaminados - deveriam ser combatidos. O conceito de arte degenerada possui esse propósito.
Modernismo e totalitarismo thumb|200px|right|Torres Flak como esta em Hamburgo foram construções comuns dos nazistas na Alemanha e na Áustria. Após a Primeira Guerra Mundial e o fim da Belle Époque, o pessimismo tomou conta da intelectualidade e fez muitos artistas procurarem esquecer o passado e construir novos valores, a partir do zero. A Arte não poderia deixar de acompanhar essa mudança, e passou a buscar também uma nova estética, para romper com o que se produzira em todos os séculos anteriores. Um ideal que passou a ser objetivo comum a vários artistas de vanguarda do período foi a democratização da arte, ou seja, a produção de um gênero artístico que atingisse todas as classes sociais, igualmente, através de formas e temas universais, comuns a todos os Homens.
Foram vários os artistas que perseguiram esse "estágio". Os estilos modernistas, em suas nuances, inserem-se quase todos nessa busca pela arte universal. No entanto, conseguimos distinguir claramente dois grupos de artistas que buscavam essa universalidade, de acordo com seus comportamentos em relação ao fenômeno totalitário que se erguia: os "a favor", que concordavam com a reforma estética proposta pelos novos regimes, que não se alinham em hipótese algumas com as vanguardas, com exceção, do Futurismo de Marinetti, apenas na sua louvação à força; e os "contra", que também propunham uma reforma estética, mas justamente através do distanciamento do passadismo, do uso, também, da abstração e do rompimento definitivo com os estilos anteriores.
Como um todo, porém, os artistas apolíticos praticamente já não existiam naquela época. A participação de muitos deles na Guerra Civil Espanhola, tanto nas Brigadas Internacionais socialistas como nas forças falangistas, era uma evidência disso.
No segundo grupo, temos a ação destacada de Piet Mondriaan, o pintor holandês que propôs um verdadeiro plano de reforma social através da estética. Para ele, a estética ideal e era aquela não-figurativa, composta apenas de elementos geométricos abstratos, portanto universal. Ao fazer representações da realidade, o artista estaria apresentando suas próprias impressões da verdade, influenciando assim o observador — o que Mondrian condena veementemente. Ele justifica essa condenação argumentando que a figuração (em especial o realismo) pressupõe o pré-aprendizado de determinados conceitos para sua compreensão, tanto formal como simbólica, enquanto o abstracionismo não. Para Mondrian, se o objetivo é a universalização, não se pode de forma alguma haver representação figurativa ou significativa numa obra de arte: os únicos elementos visuais que são percetíveis igualmente por todos os Homens são as formas geométricas regulares.
No pós-guerra de 1918, várias tendências vanguardistas que surgiam desde o final do século XIX foram se afirmando e se consolidando. O Modernismo não foi a única vanguarda dessa época e nem a que mais causou consequências no século XX. Entretanto, foi a vanguarda vencedora e, desta forma, é essa a História que foi escrita, a do vencedor.
Manifestações estéticas totalitárias Artes gráficas
As artes gráficas, principalmente o cartazismo, foram extensivamente usadas na propaganda dos regimes totalitários, bem como na criação de um ambiente esteticamente permeado pela ideologia oficial.