thumb|180px|Charles Darwin aos 51 anos, na época da publicação da primeira edição de A Origem das Espécies Em Biologia, designa-se gradualismo à corrente que defende que a evolução ocorre através da acumulação de pequenas modificações ao longo de várias gerações. Em ciência, esta corrente é contrária ao saltacionismo, que defende que a evolução ocorre através de grandes mudanças, possivelmente numa única geração.

O termo gradualismo foi proposto por Charles Darwin em seu livro 'A Origem das Espécies' (1859), no qual argumenta que a evolução procede por pequenas mudanças sucessivas (gradualismo) ao invés de por grandes saltos (saltacionismo). Assim, as diferenças entre os organismos, mesmo com diferenças radicais, envolveriam o incremento de pequenos passos através de formas intermediárias.Futuyma, D. J. Evolution. Sunderland, Massachusetts: Sinauer Associates, 2ndEd, 2009

Até a publicação, em 1859, do livro 'A Origem das Espécies', o pensamento científico não oferecia alternativa à visão religiosa. Assim, a teoria do gradualismo representou um afastamento drástico da tradição no que se refere à presença de um criador todo-poderoso e onisciente. Dessa forma, o gradualismo de Darwin sofreu forte oposição, já que na época, quase todo mundo era essencialista e as teorias saltacionistas eram compatíveis com o essencialismo. A ocorrência de novas espécies, documentadas no registro fóssil, só poderia ter lugar por novas criações – isto é por saltos. No entanto, como as novas espécies eram perfeitamente adaptadas e não havia evidência de produção frequente de espécies mal adaptadas, Darwin viu apenas duas opções: ou a nova espécie perfeita havia sido especialmente criada por um criador todo-poderoso e onisciente, ou então – se esse processo sobrenatural fosse inaceitável – havia evoluído gradualmente de espécies preexistentes por um processo lento, em que mantinha sua adaptação a cada estágio. Foi essa segunda opção que Darwin adotou.Mayr, E. Biologia, Ciência Única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica. Tradução Marcelo Leite. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. Original inglês.

Darwin acreditava que o gradualismo era inerentemente mais racional e científico do que a evolução explicada por saltacionismo. Assim, Ernst Mayr afirma que “como resultado de estudar os escritos do teólogo Sumner, Darwin tinha chegado à conclusão de que todas as coisas naturais evoluem gradualmente a partir de seus precursores, enquanto descontinuidades, tais como saltações súbitas, são indicativos de uma origem sobrenatural, que é indicativo de intervenção por parte do criador. Por toda a sua vida Darwin teve muito trabalho para reconstruir uma evolução gradual dos fenômenos que à primeira vista parecia claramente o resultado de origem súbita.”.Darwin's Emphasis on Gradualism. Disponível em: http://www.macroevolution.net/darwins-emphasis-on-gradualism.html#.TsmcHWNNURo, acessado em: 5 de novembro de 2011.

Histórico thumb|180px|Charles Lyell|esquerda Acredita-se que Darwin baseou o seu gradualismo a partir do uniformitarismo de Charles Lyell, assim estendeu a teoria de Lyell da geologia para o mundo orgânico.

Charles Lyell defendia que a Terra estava em constante mudança e que essas mudanças geológicas eram pequenas, graduais, cumulativas e ocorriam ao longo de imensos períodos de tempo. Assim a partir da idealização de James Hutton em sua publicação intitulada ‘Teoria da Terra’ (1785), Lyell desenvolveu uma corrente de pensamento designada uniformitarismo, demonstrada em sua obra intitulada ‘Princípios de Geologia’ (1830-1833, um trabalho de três volumes), o qual propõe a formação da Terra através de um lento processo em que intervêm forças físicas e forças naturais como a erosão, os vulcões ou os terramotos. As concepções gradualistas de Lyell influenciaram Charles Darwin em seu livro ‘A Origem das Espécies’ (1859) conduzindo ao desenvolvimento de ideias evolucionistas no campo da Biologia. A partir das ideias de Lyell, Darwin raciocinou que ‘se as rochas se transformam lentamente numa teia de mudança uniforme, o mesmo podia acontecer aos animais e às plantas’. Assim, cada espécie fora criada gradualmente uma a uma, resultando no chamado gradualismo biológico.Uniformitarismo. Disponível em: http://www.allaboutcreation.org/portuguese/uniformitarismo.htm, acessado em: 5 de novembro de 2011.Do catastrofismo ao Gradualismo. Disponível em: http://www.darwin2009.pt/darwin/antes/catastrofismo/, acessado em: 5 de novembro de 2011.

A Teoria Evolucionista A teoria evolucionista apresentada por Darwin em ‘A Origem das Espécies’ é referida por ele mesmo no singular como “minha teoria”, mas na verdade a chamada “teoria de Darwin” engloba várias teorias autônomas. Segundo Mayr, o paradigma de Darwin consiste de cinco principais teorias independentes: evolução propriamente dita, descendência comum, gradualismo, multiplicação das espécies e seleção natural. O próprio Darwin reconhecia essas cinco teorias, mas para ele elas eram um pacote inseparável. No entanto, isso pode ser refutado, já que a maioria dos evolucionistas no período imediatamente após 1859 rejeitou uma ou várias das teorias de Darwin. Assim, demonstra-se que as cinco teorias não são como um todo indivisível.

Aceitação de teorias Darwinianas por evolucionistas Descendência comum Caráter gradual Especiação populacional Seleção natural Lamarck Não Sim Não Não Darwin Sim Sim Sim Sim Haeckel Sim Sim ? Em parte Neolamarckistas Sim Sim Sim Não T. H. Huxley Sim Não Não (Não) De Vries Sim Não Não Não T. H. Morgan Sim (Não) Não Sem importância

No capítulo quatro de "Ideological Opposition to Darwin's Five Theories", Mayr resume a “Teoria de Darwin", ou "Darwinismo", da seguinte forma: “Tanto na literatura escolar quanto na popular, frequentemente encontram-se referências para a ‘teoria evolutiva de Darwin’, como se fosse uma entidade unitária. Na realidade, a teoria da evolução de Darwin foi um pacote inteiro de teorias, e é impossível discutir o pensamento evolutivo de Darwin construtivamente se alguém não distingue seus vários componentes [...] O termo ‘Darwinismo’[...] tem significados numerosos dependendo de quem o utilize e em que período. Uma melhor compreensão do significado deste termo é apenas uma razão para chamar a atenção à natureza composta de pensamento da evolução de Darwin [...]”.Hanes, J. (2005) O que é Darwinismo? Projeto Evoluindo - Biociência.org. Trad.: Fernando S. Aldado. Disponível em: http://biociencia.org/index.php?option=com_content&task=view&id=103&Itemid=83, acessado em: 5 de novembro de 2011.

Resistência Os naturalistas foram os principais defensores da evolução gradual, que eles encontravam por toda parte na forma de variação geográfica. Mais adiante, geneticistas chegaram a mesma conclusão pela descoberta de mutações mais e mais sutis, de poligenia e de pleiotropia. O resultado é que o gradualismo conseguiu celebrar uma vitória completa durante a síntese evolucionista, apesar da continua oposição de Goldshimidt e Schindewolf.

Antes de Darwin, a maioria dos defensores da evolução eram saltacionistas, como Saint-Hilaire (que defendia que as aves originaram a partir dos dinossauros por saltação) ou Cuvier. Mesmo após a publicação de 'A Origem das Espécies' em 1859, vários naturalistas continuaram a defender alguma forma de saltacionismo, normalmente combinada com o gradualismo de Darwin tal como defendido por T. H. Huxley ou Albert von Kölliker.Saltation versus Gradualism. Disponível em: http://www.macroevolution.net/saltation.html#.Tsmb5WNNURo, acessado em: 5 de novembro de 2011.

Gradualismo X Equilíbrio pontuado O documentário fóssil contém muitos casos de espécies novas que apareceram e então, durante milhões de anos, permaneceram sem mudanças aparentes. Em certos grupos, a evolução parece consistir em longos períodos de estase que ocasionalmente são pontuados por eventos de especiação surgidos instantaneamente no tempo geológico. Não há explosão de especiação ou de mudanças morfológicas, como na irradiação adaptativa, nem mudança gradual com o tempo em resposta a mudanças ambientais.Freeman, S. Análise Evolutiva. Tradução Maria Regina Borges-Osório, Rivo Fischer. 4ªed. Porto Alegre: Artmed, 2009. Original inglês.

Darwin estava bem a par dessas observações e considerou-as uma dificuldade à sua teoria. Como suas ideias eram apresentadas em oposição à teoria da criação das espécies, que prevê a criação instantânea de novas formas, Darwin enfatizava repetidamente a natureza gradual da evolução por seleção natural: “Como a seleção natural age somente pela acumulação de sutis variações favoráveis sucessivas, ela não pode produzir modificações grandes ou súbitas; pode apenas agir por passos muito curtos e lentos”. Ele atribuiu o súbito aparecimento de novos táxons à incompletude do documentário fóssil e previu que, a medida que as coleções de espécimes crescessem, os hiatos aparentes entre formas fósseis, causados por estase e pontuados por saltos súbitos, seriam preenchidos por formas que mostrassem as transições graduais entre as espécies. A partir desse momento, a maioria dos paleontólogos seguiu com as ideias de Darwin durante todo um século.Darwin, C. On The Origin of species by means of natural selection or the preservation of favored races in the struggle for life. Londres, John Murray [1964, fac-simile da primeira edição; Cambridge, Massachusetts, Havard University Press], 1859.

Em 1972, entretanto, Niles Eldredge e Stephen Jay Gould romperam essa tradição ao propor que a estase é um padrão real no documentário fóssil e que a maioria das mudanças morfológicas ocorre durante a especiação. Eles denominaram sua proposta de teoria do equilíbrio pontuado. Segundo esta teoria, a evolução de uma espécie não ocorre de forma constante, mas alternada em períodos de escassas mudanças, com súbitos saltos que caracterizam alterações estruturais ou orgânicas adaptadas e selecionadas. Este entendimento, para compreensão da especiação, fundamentou-se em questionamentos acerca da descontinuidade do registro fóssil, consequência da não constatação de indícios com relação às mudanças graduais.