A Cervejaria Backer é uma das pioneiras do movimento de cervejas artesanais no Brasil, com mais de 26 anos de atuação no mercado. Fundada em Belo Horizonte, Minas Gerais, a empresa teve papel relevante na consolidação do setor cervejeiro nacional, contribuindo para a profissionalização da produção, a formação técnica de profissionais e a difusão da cultura cervejeira no país. Ao longo de sua trajetória, a Backer promoveu intercâmbios técnicos com mestres cervejeiros brasileiros e internacionais, participou ativamente de eventos do setor e acumulou prêmios em competições nacionais e internacionais, sendo reconhecida por inovação, diversidade de estilos e qualidade sensorial de seus produtos.

Em janeiro de 2020, após mais de duas décadas de operação, a cervejaria foi impactada por um grave incidente industrial envolvendo a contaminação de determinados lotes de cerveja por monoetilenoglicol (MEG) e dietilenoglicol (DEG), substâncias tóxicas utilizadas em sistemas industriais de refrigeração. O episódio resultou em casos de intoxicação grave e óbitos, gerando ampla repercussão nacional e levando à interrupção das atividades da empresa.

No âmbito administrativo, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicou, em 4 de agosto de 2020, relatório técnico sobre o caso, no qual apontou falhas relevantes nos sistemas de refrigeração então utilizados e descreveu a ocorrência de contaminações em diferentes períodos produtivos.

Paralelamente, a empresa firmou acordos de indenização com vítimas e familiares, reconhecendo sua responsabilidade civil pelos danos causados, sem admissão de dolo. No âmbito criminal, decisões judiciais posteriores absolveram os réus, ao concluir que não houve comprovação de intenção ou culpa penal direta por parte da administração da cervejaria. As sentenças destacaram falhas atribuídas a fornecedores externos, incluindo a fabricante de tanques industriais Serra Inox e a fornecedora do líquido refrigerante Hiperquímica, apontada por adulteração do produto fornecido.

Após o incidente, a Backer declarou ter reformulado integralmente seus processos industriais, adotado novos protocolos de controle, segurança e governança, e iniciado um processo de reconstrução de sua atuação no mercado, com foco em conformidade regulatória, transparência e prevenção de riscos.

História Situada no bairro Olhos D’água, na Região Oeste de Belo Horizonte, foi fundada em 1999 e está registrada em cartório como a primeira cerveja artesanal de Minas Gerais. É uma empresa familiar que nasceu da iniciativa dos irmãos Halim e Munir Lebbos para suprir a sua casa noturna chamada de 3 Lobos em um momento de renascimento da cerveja artesanal no Brasil, semelhante ao Craft Beer Renaissance ocorrido nas Estados Unidos. "Uma das cervejarias artesanais mais promissoras do País", escreveu a revista Isto É em 16 de janeiro de 2020, que adicionou que quando ela foi fundada, "o mercado dominado por grandes companhias observava o surgimento de uma demanda por cervejas especiais".

A cerveja mais vendida, a Belorizontina, foi criada em dezembro de 2017 para homenagear os 120 anos da capital mineira. "Virou o carro-chefe entre os 21 rótulos da Backer por agradar ao paladar dos brasileiros", escreveu a Isto É também, acrescentando que, dos 70 tanques da fábrica da Backer, 20 haviam sido adquiridos entre 2018 e 2019.

Em 2024, a empresa entrou em processo de recuperação judicial, face ao evento de contaminação ocorrido em um dos tanques da cervejaria. A partir daquele ano a empresa vem, aos poucos, retornando a sua posição no mercado de cervejas artesanais e especiais, focado em poucos rótulos, porém admirados pelo público, como a linha Capitão Senra.

Contaminação com dietilenoglicol Entre os dias 27 de dezembro de 2019 e 05 de janeiro de 2020, após a entrada em hospitais de 8 pessoas com sintomas de intoxicação, começaram a circular, nas redes sociais, as primeiras informações sobre o assunto. "Uma doença misteriosa, que assombra o estado", escreveu o Correio Braziliense no dia 08 de janeiro. Já o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs-Minas) havia recebido a primeira notificação no dia 30 de dezembro, conforme nota oficial. "Diversas hipóteses sobre a provável origem dos casos de síndrome nefroneural estão circulando pelas redes sociais. A SES-MG esclarece, no entanto, que nenhuma dessas foi comprovada pelas investigações", dizia a nota.

Na segunda-feira, dia 06, o Cievs anunciou em nota a internação de ao menos sete pacientes em Minas Gerais e uma força-tarefa foi montada. Os sintomas apresentados pelas pessoas internadas eram: dor abdominal, náuseas, vômitos, insuficiência renal aguda de rápida evolução (até 72 horas) e alterações neurológicas centrais e periféricas.

Foi após a morte do primeiro paciente, Paschoal Dermatini Filho, em 07 de janeiro, que a filha deste, Camila, que é farmacêutica, começou a investigar o assunto. Ela entrou em contato com os familiares de pessoas internadas com sintomas parecidos ao da doença do pai e chegou à possível substância tóxica: dietilenoglicol (DEG). Em 19 de janeiro de 2020, Camila falou ao Fantástico da Globo: "pesquisando esses casos clínicos é que a gente achou que o que tinha causado essa sintomatologia neles era o monoetilenoglicol”. Segundo o Fantástico também, um dos médicos disse: "o que ajudou muito o nosso trabalho foi a investigação epidemiológica feita pelas famílias, que chegaram e foram enfáticas em falar que todos usaram a mesma cerveja”. O programa também enfatizou: "quando a Camila foi à delegacia pela primeira vez, já trouxe as informações que tinha apurado. E isso acabou sendo fundamental: foi o ponto de partida da investigação".''

As primeiras investigações feitas pela Polícia Civil do Estado de Minas Gerais apontaram que todas as pessoas intoxicadas haviam passado as festividades na região do bairro Buritis, em Belo Horizonte, e, aparentemente, consumido a cerveja Belorizontina, produzida pela Backer. No dia 09, a Polícia visitou a cervejaria e, horas depois, numa coletiva de imprensa, anunciou a presença da substância tóxica DEG em duas amostras da cerveja Belorizontina. A empresa foi interditada e as vendas foram suspensas no dia 10.

No dia 15, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) anunciou que o MEG havia sido encontrado na água usada na fabricação da cerveja, sendo que dias antes a Polícia Civil havia encontrado a substância também em um dos tanques de fermentação. Ao mesmo tempo, a Backer apresentava à Justiça um vídeo com um suposto indício de sabotagem nos barris de MEG, substância usada em serpentinas de resfriamento da cervejaria.

No dia 16, a Polícia Civil fez busca e apreensão na distribuidora Imperquímica, que fornecia o MEG para a Backer. A Imperquímica foi fechada pela vigilância sanitária de Contagem no dia 17, por não ter alvará para comercializar o MEG fracionado.

O último boletim de investigação dos casos de intoxicação exógena por MEG emitido pela Secretaria da Saúde de MG em 07 de fevereiro, anunciava que havia 31 casos suspeitos de intoxicação por MEG, que quatro (04) casos haviam sido confirmados e que seis (06) casos haviam evoluído para óbito.

No dia 20 de fevereiro, o Ministério da Agricultura corrigiu o número de lotes contaminados para 53, incluindo os rótulos Backer D2, Backer Pilsen, Backer Trigo, Belorizontina, Brown, Capitão Senra, Capixaba, Corleone, Fargo 46 e Pele Vermelha, mas houve suspeitas de que poderia haver cerca de 82 lotes contaminados.

Em 04 de agosto de 2020, o Mapa divulgou seu relatório final, escrevendo que "o relatório confirma a ocorrência de contaminações desde janeiro de 2019, afastando a possibilidade deste ser um evento isolado no histórico de produção da cervejaria. (...) As apurações fiscais indicaram que a cervejaria Backer adotou práticas irresponsáveis ao utilizar líquidos refrigerantes tóxicos de forma deliberada em seu estabelecimento".

As investigações Em 12 de janeiro de 2020, O Globo escreveu que a Polícia não descartava nenhuma possibilidade, inclusive a de sabotagem. Já a revista Isto É escreveu no dia 17 de janeiro que "a mineira Backer, uma das principais protagonistas da ascensão das cervejas especiais do País, está no centro de uma investigação policial deflagrada pela morte e contaminação de consumidores – em uma trama que levanta suspeitas sobre funcionários e concorrentes".

Segundo a Isto É também, no Ministério da Agricultura as principais linhas de investigação eram o vazamento do tanque, a utilização incorreta do DEG e mesmo a sabotagem, enquanto o delegado Flávio Grossi teria dito: "acreditamos que houve crime, por isso instauramos um inquérito policial”.

Técnicos em Química falaram para a imprensa que o MEG pode se transformar em DEG a partir de uma reação química. "Uma das suspeitas é que tenha havido um vazamento do MEG. Ao entrar em contato com o ambiente ácido da cerveja, a substância pode ter se transformado em DEG", escreveu o UOL Notícias em 16 de janeiro.

No dia 21, a imprensa reportou uma "guerra de laudos", já que um especialista contratado pela Backer havia indicado resultados diferentes do laudo feito pelo Mapa. No entanto, a cervejaria anunciou que o laudo privado servia apenas para ajudar a esclarecer a situação e também admitiu pela primeira vez a "possível contaminação eventual", segundo o jornal Estado de Minas Gerais.

Cerca de três meses depois do início das investigações, a Polícia anunciou no dia 08 de abril numa coletiva de imprensa que a "sabotagem" havia sido descartada. Segundo o delegado Flávio Grossi, “a Backer não comprava DEG, mas o usava dentro da empresa", o que configurava uma situação de negligencia por parte da empresa. Até este dia, 66 pessoas, entre elas vítimas, testemunhas e investigados já haviam sido ouvidos para apuração do caso.

O término do inquérito O inquérito foi finalizado em meados de junho, quando foi enviado ao Ministério Público, e segundo o delegado responsável pelo caso durante as investigações se apurou que:

a Backer realmente não comprava DEG, mas sim o MEG. No entanto, este era alterado por um fornecedor, que entregava o produto adulterado para a Backer; este fato, no entanto, não mudava o caso, já que o MEG teria provocado os mesmos danos à saúde dos consumidores; um pequeno furo, de cerca de 2mm, causou o vazamento da substância tóxica para um dos tanque, o tanque JB10; sete pessoas foram responsabilizados por crime culposo, sem intenção de matar, por crime de "negligência e imperícia técnica", e outras quatro por outros crimes; os donos da Backer não responderiam por homicídio culposo, pois segundo o delegado, "não tinham conhecimentos técnicos para evitar o vazamento".

Posição da empresa Inicialmente, a Backer havia classificado as mensagens nas redes sociais como “mentira”, mas, após o primeiro laudo pericial, informou que os lotes L1 1348 e L2 1348 da cerveja com o rótulo Belorizontina seriam recolhidos e que não deveriam ser consumidos.

No dia 10, a empresa foi interditada e num acordo com o Ministério Público de Minas Gerais e o Procon estadual, a venda de todas as cervejas foi suspensa.

Dias depois, a Backer apresentou à Justiça um vídeo com um suposto indício de sabotagem nos barris de MEG, substância usada em serpentinas de resfriamento da cervejaria.

A Backer negou que usasse o DEG no processo de fabricação e a diretora da empresa anunciou que não sabia o que estava acontecendo, mas que ninguém deveria consumir as cervejas da marca.