A luta armada contra a ditadura militar brasileira consistiu em uma série de ações promovidas por diversos grupos de esquerda, especialmente entre 1968 e 1972, período marcado pelo endurecimento do regime. Embora tenha assumido um caráter de resistência, a maior parte dos grupos que integraram a luta armada não tinha como objetivo o retorno à ordem democrática anterior ao golpe militar, mas sim a realização de uma revolução socialista no Brasil, inspirando-se na Revolução Chinesa e na Revolução Cubana. Apesar de algumas ações realizadas entre 1965 e 1967, o confrontamento aprofundou-se após a proclamação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 1968 e, com o acirramento do autoritarismo do regime militar, diversas organizações se convenceram de que somente o recurso às armas poderia derrubar a ditadura. Neste cenário, lançaram-se à luta armada dezenas de organizações, das quais destacaram-se a Ação Libertadora Nacional (ALN), o Comando de Libertação Nacional (COLINA), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).
Embora almejassem iniciar a guerrilha rural, as organizações revolucionárias se notabilizaram por suas ações urbanas. Vistas como atos de propaganda armada da revolução, estas ações — que incluíam assaltos a agências bancárias e a carros pagadores, roubos de armamentos do Exército e, posteriormente, o sequestro de embaixadores e diplomatas com objetivo de trocá-los por presos políticos — serviam para arrecadar fundos para desencadear a guerrilha no campo e sustentar a infraestrutura clandestina destas organizações.
A guerrilha urbana, qualificada como terrorismo pelo governo ditatorial e pela imprensa do país, inicialmente surpreendeu o aparelho repressivo do Estado, que, no entanto, não tardou em aperfeiçoar-se e profissionalizar-se no combate aos guerrilheiros. Para isso, o alto comando militar iniciou a construção de uma estrutura policial e burocrática calcada na espionagem, na coleta de informações, em operações policiais voltadas à captura e ao interrogatório de opositores políticos do regime através do uso sistemático da tortura.
A despeito de seu sucesso inicial, as organizações revolucionárias foram caminhando para um crescente isolamento social, que piorou muito após a escalada repressiva e a campanha de desinformação perpetrada por alguns setores da ditadura, que chegaram a realizar atentados terroristas de bandeira falsa contra civis e militares, que foram efetuados por paramilitares ligados à autoridades do próprio governo federal, com a finalidade de erodir o apoio popular aos revoltosos e justificar o aprofundamento do autoritarismo. As ações armadas nas cidades duraram pouco tempo. De todas as organizações envolvidas na luta armada, apenas o PCdoB conseguiu promover efetivamente a guerrilha rural. O desmantelamento da guerrilha do Araguaia em 1974 marcou a desarticulação total da luta armada no Brasil, ao custo de centenas de mortos, exilados e desaparecidos durante a ditadura. Contexto
Hegemonia do PCB Até 1964, a força hegemônica da esquerda no Brasil era o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que, embora ilegal, viveu seu ápice durante o breve período democrático de 1945 a 1964. Nessa época, o partido contava com muitas adesões e as suas ideias influenciaram a luta política e sindical e parte das elites intelectuais. O programa do PCB era basicamente reformista, uma vez que visava a realização de uma revolução burguesa no Brasil. Os comunistas entendiam que a sociedade brasileira ainda apresentava características feudais no campo, o que impedia o desenvolvimento das forças produtivas capitalistas. Segundo a avaliação do PCB, o setores feudais contavam com o apoio dos imperialistas estrangeiros, que não teriam interesse no desenvolvimento autônomo da economia brasileira. Sendo assim, os comunistas propunham uma aliança com a burguesia nacional e outros setores progressistas da sociedade, para levar a cabo uma revolução democrático-burguesa, etapa necessária para a realização de uma futura revolução socialista. O programa dos comunistas tinha muitos pontos em comum com as propostas defendidas pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do então presidente João Goulart. Na época, os dois grupos se empenharam na luta pela realização das chamadas reformas de base.
Impacto das revoluções cubana e chinesa A vitória da Revolução Cubana e a proclamação de seu caráter socialista, no entanto, puseram em cheque as teses do PCB e colocaram a revolução no horizonte político da América Latina. O movimento guerrilheiro de Fidel Castro contou com a ampla simpatia das mais diversas tendências de esquerda, nacionalistas e anti-imperialistas, aparecendo como uma alternativa para aqueles que se contrapunham às diretrizes da União Soviética. Inspiradas pelos sucessos revolucionários em Cuba, duas organizações surgiram em contraposição ao PCB: a Ação Popular (AP) e a Política Operária (POLOP). A AP surgiu em 1962 como uma organização autônoma, com influência no movimento estudantil, chegando a manter a diretoria da União Nacional dos Estudantes (UNE) e de outras entidades estudantis durante a década de 1960. Com raízes no interior da Juventude Universitária Católica (JUC), a AP defendia a criação de uma alternativa política ao capitalismo e ao comunismo soviético, inspirada num humanismo cristão e com influências castristas. A POLOP, por sua vez, nasceu em 1961, agrupando elementos de várias pequenas tendências que se opunham ao PCB, com influência também entre os meios universitários. A POLOP contestava o reformismo do PCB e defendia a luta armada revolucionária pelo socialismo. Também influenciado pela Revolução Cubana, Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, fundou em 1961 o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), que pretendia ser o embrião de uma guerrilha rural. O MRT chegou a enviar militantes para realizar treinamento guerrilheiro em algumas fazendas espalhadas pelo país, mas um dos campos de treinamento, em Dianópolis, no estado de Goiás, foi descoberto pela polícia em novembro de 1962 e o projeto guerrilheiro foi desarticulado antes de ser efetivamente deflagrado.
A ruptura sino-soviética em 1963 também possibilitou a percepção do maoísmo como uma alternativa ao movimento comunista internacional. Já em 1962, o PCB passou por uma cisão, que resultou na formação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O novo partido logo voltou-se para a China maoísta, criticando o reformismo do PCB e defendendo a luta armada. No entanto, mesmo sem ser descartada, a luta armada não constituía, efetivamente, uma opção política imediata ou consistente para a maior parte das esquerdas no período anterior à 1964. Mesmo assim, o foquismo e o maoísmo ofereciam novas perspectivas para as esquerdas brasileiras, uma vez que o foquismo "adaptava" a revolução para a realidade latino-americana e o maoísmo, por sua vez, legitimava a revolução em um país de fortes tradições rurais.
Golpe militar de 1964 e fragmentação das esquerdas
Com o golpe militar de 1964 e a derrota sem resistência por parte das forças progressistas, os partidos e movimentos de esquerda tradicionais entraram em crise e passaram por um processo de autocrítica. Para uma parcela considerável das esquerdas, a derrota de 1964 confirmou os equívocos da linha política pacifista e reformista adotada pelo PCB, que logo foi responsabilizado pela desmobilização dos trabalhadores e das forças progressistas no momento do golpe. Se o reformismo do PCB desviou a classe operária de seu pretenso destino revolucionário e não conseguiu deter as forças da reação, a luta armada e o enfrentamento ao regime militar se colocavam enquanto possibilidades para grande parte da esquerda naquele momento. A direção do PCB, por sua vez, não soube lidar com a derrota e nem foi capaz de realizar uma autocrítica profunda de sua própria atuação antes de 1964. Entre 1965 e 1968, as bases universitárias romperam com o partido e formaram dissidências locais (DIs). No estado do Rio de Janeiro surgiu a DI-RJ; na Guanabara, a Dissidência Comunista da Guanabara (DI-GB) (ambas posteriormente denominadas Movimento Revolucionário 8 de Outubro — MR-8); no Rio Grande do Sul, a DI-RS; em São Paulo, a Dissidência Universitária de São Paulo (DISP); e em Minas Gerais, a chamada Corrente. Na própria cúpula do PCB houve cisões, capitaneadas por Carlos Marighella, que criou a Ação Libertadora Nacional (ALN), e pelo dirigente Mário Alves, que deu origem ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). As duas organizações levaram consigo militantes do PCB em todo o país, organizando-se nacionalmente, embora o ALN tivesse sua força principal concentrada em São Paulo e o PCBR, na Guanabara. Estima-se que o PCB, até 1968, perdeu pelo menos metade de seus integrantes remanescentes, que debandaram para as organizações que propunham a resistência armada imediata.
Até mesmo os grupos minoritários de esquerda passaram por diversas cisões no período. A suposta morosidade na preparação da resistência armada ao regime militar também causou cisões no interior do PCdoB, que, entre 1966 e 1967, perdeu mais da metade de seus membros, os quais constituíram, no Nordeste, o Partido Comunista Revolucionário (PCR), e, no Centro-Sudeste, a Ala Vermelha do PCdoB (PCdoB-AV ou ALA), que, por sua vez, também sofreria cismas que gerariam o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) em São Paulo e o Movimento Revolucionário Marxista (MRM) em Minas Gerais. Entre os demais grupos minoritários de esquerda, a AP adotou o maoísmo, desagradando suas bases e setores da organização que optaram por uma linha política mais próxima do foquismo, que se juntaram a outros revolucionários para fundar, entre 1968 e 1969, o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). No decorrer da luta armada, também houve militantes que trocaram a AP por outros grupos guerrilheiros. A POLOP também enfrentou cisões, que mais tarde dariam origem ao Comando de Libertação Nacional (COLINA), em Minas Gerais; ao Partido Operário Comunista (POC) no Rio Grande do Sul; e, em São Paulo, uma dissidência da POLOP fundiu-se com uma parcela do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) para dar origem, em 1968, à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Pressupostos teóricos dos grupos revolucionários Convergências Críticas ao PCB
As organizações da esquerda armada, apesar de bastante fragmentadas, compartilhavam uma série de pressupostos teóricos comuns. Todas elas faziam severas críticas à linha política e à prática que vinha sendo adotada pelo PCB até então. Esses grupos consideravam que a análise do PCB acerca da realidade brasileira era equivocada e levou a um posicionamento igualmente incorreto na luta política. De uma forma ou de outra, essas organizações justificavam a necessidade do enfrentamento armado ao invés da adoção de uma linha política pacífica e reformista, além de negarem o papel revolucionário da burguesia nacional. O espaço de experiência do período pré-1964 deveria ser descartado e os erros cometidos pelo PCB e pelas lideranças políticas reformistas não deveriam ser repetidos.
Leitura da realidade brasileira