O governo Artur Bernardes iniciou-se em 15 de novembro de 1922, após a vitória do líder do Partido Republicano Mineiro (PRM) na eleição à presidência da República do Brasil. O governo durou até 15 de novembro de 1926, quando transmitiu o poder a Washington Luís. O presidente Artur Bernardes, representante da política do café com leite e dos últimos anos da Primeira República, governou quase continuamente sob estado de sítio, ancorado na classe política, oligarquias rurais e urbanas e altas patentes das Forças Armadas contra uma série de revoltas militares tenentistas.
Nas cidades, especialmente no Rio de Janeiro, o governo Bernardes foi impopular devido à inflação e à moeda depreciada pelos esquemas de valorização do café. A administração cortou despesas públicas, transformou o Banco do Brasil num banco emissor e buscou um empréstimo com banqueiros britânicos. As negociações foram infrutíferas, mas muitas das recomendações da missão de especialistas financeiros, liderada por Edwin Montagu, foram seguidas. Ao final de 1924 o governo expeliu os paulistas da direção da economia, abandonou o apoio federal à defesa do café e, através de uma política contracionista e recessiva, controlou o câmbio e a inflação às custas da produção industrial.
Nos estados apoiadores do candidato vencido, Nilo Peçanha, o governo federal apoiou a derrubada de partidos dominantes (intervenção federal no Rio de Janeiro e estado de sítio na Bahia) e intermediou conflitos armados (Revolução de 1923 no Rio Grande do Sul e expedições contra Horácio de Matos na Bahia). De julho de 1924 até o final do mandato, conspiradores no baixo oficialato militar tentaram derrubar o regime, que consideravam corrupto e atrasado. A campanha mais demorada, a Coluna Prestes, desacreditou o governo mas não conseguiu ameaçar a capital federal.
O poder foi conservado com medidas repressivas: a reorganização da polícia política da capital (a 4.ª Delegacia Auxiliar), bombardeio a São Paulo, censura à imprensa, fechamento de sindicatos, prisões em massa, tortura e desterro à colônia penal de Clevelândia. Com maioria no Congresso, o governo promulgou leis trabalhistas, introduziu o imposto de renda, instituiu o direito de resposta na imprensa e facilitou denúncias a jornalistas por calúnia e difamação, incluiu a educação moral e cívica nos currículos e revisou a Constituição de 1891 numa direção centralizadora. No exterior, as manobras para conseguir um assento permanente no Conselho Deliberativo da Liga das Nações culminaram na saída do Brasil da organização. A eleição de 1926 elegeu o paulista Washington Luiz.
Contexto miniaturadaimagem|Cartão postal da candidatura Bernardes: "São Paulo e Minas pela união do Brasil"|esquerda A administração de Artur Bernardes, entre 15 de novembro de 1922 e 15 de novembro de 1926, ocorreu em plena crise da Primeira República Brasileira. Este foi um período de efervescência cultural e expansão das classes médias urbanas e operariado. O sistema político começava a demonstrar esgotamento, que culminaria na sua queda em 1930., Introdução e Os fundamentos do sistema político na Primeira República. O presidente anterior, Epitácio Pessoa (1919–1922), desgastou-se com os militares, a população urbana e as oligarquias mineira e paulista. A economia brasileira em 1922 estava em crescimento, mas sofria de uma inflação elevada, moeda depreciada, receita fiscal erodida e baixos preços internacionais do café, seu principal produto de exportação. Os credores estrangeiros tinham pouca disposição a fazer empréstimos, e o déficit só podia ser financiado pela emissão de moeda ou venda de títulos da dívida pública.
miniaturadaimagem|Os últimos rebeldes do Forte de Copacabana caminham para o combate em 6 de julho Bernardes, líder do Partido Republicano Mineiro, foi o candidato do governo federal, Minas Gerais e São Paulo na eleição presidencial de 1922, escolhido à revelia de outros estados. Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia lançaram as candidaturas oposicionistas de Nilo Peçanha (fluminense) a presidente e J. J. Seabra (baiano) a vice-presidente. A campanha foi violenta. O pleito foi um dos poucos competitivos da Primeira República e a oposição acusou os resultados de fraude. A Revolta dos 18 do Forte tentou impedir a posse e o governo declarou estado de sítio.
Na data da posse ainda vigorava o estado de sítio, e 118 militares revoltosos aguardavam julgamento na prisão. O país dividia-se entre vencedores e vencidos. O pacto entre as elites estava enfraquecido. O novo governo começava com inimigos nas oligarquias dissidentes, setores urbanos e militares. Os anos seguintes seriam instáveis e o presidente preferiu reprimir a conciliar, aprofundando as divergências. A historiografia normalmente considera Bernardes um governante revanchista e vingativo.
Em discurso no Senado, em 1929, Bernardes recapitulou as sucessões presidenciais de 1922 e 1926:
Programa de governo miniaturadaimagem|O novo presidente lê o compromisso constitucional perante o Congresso, em 15 de novembro|esquerda A plataforma da candidatura Bernardes concentrava-se nos problemas econômicos, com três metas: o equilíbrio orçamentário, valorização da moeda e criação de um banco central independente. Prometia-se reduzir o déficit público sem cortes de gastos, apenas apertando os sonegadores e os gastos não autorizados do Tesouro. O equilíbrio na balança comercial viria da defesa permanente do café, do incremento de outras exportações, como o algodão, e da substituição de importações, especialmente pelo desenvolvimento da produção carvoeira e da industrialização das jazidas de ferro de Minas Gerais. Um ponto adicional era sanar a imensa dívida do Tesouro Nacional com o Banco do Brasil.
Outras propostas não diferiam muito da plataforma de Nilo Peçanha. Ambos candidatos vagamente denunciavam a degeneração dos costumes republicanos e defendiam a reforma da Constituição e a ampliação da instrução pública e da assistência aos trabalhadores e desprivilegiados. Os fundamentos ideológicos de Bernardes eram o desenvolvimentismo mineiro ao estilo da administração de João Pinheiro (1906–1908), as críticas nacionalistas e autoritárias ao liberalismo, o Executivo forte e o Estado voluntarista e dirigista, almejando uma modernização conservadora.
1922 Gabinete miniaturadaimagem|Retratos do presidente, vice-presidente e ministros de Estado Os ministros de Estado foram escolhidos desde o começo de outubro e representaram um apoio quase total entre os políticos civis. O paulista Rafael de Abreu Sampaio Vidal ficou com o Ministério da Fazenda, assegurando o controle de seu estado sobre a política econômica — um típico acordo "café com leite". Mas a aliança mineiro-paulista guardava uma contradição: de um lado os plutocratas paulistas, menos ortodoxos, e do outro os políticos de carreira mineiros, que prezavam pelo equilíbrio fiscal. Sampaio Vidal era conhecido por sua proposta, quando deputado, de emitir notas sem lastro para financiar a defesa do café. Seu nome desagradava aos ortodoxos mineiros: Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, líder da maioria na Câmara dos Deputados, Mário Brant e Afonso Pena Júnior.
A pasta do Interior ficou com o mineiro João Luís Alves, o Exterior, com o piauiense Félix Pacheco, a Viação e Obras Públicas, com o mineiro Francisco Sá, e a Agricultura, com o baiano Miguel Calmon. Nas pastas militares da Guerra e Marinha, os indicados foram o marechal Setembrino de Carvalho e o almirante Alexandrino de Alencar. Abandonou-se o experimento de Epitácio, primeiro chefe de Estado republicano a pôr as Forças Armadas sob ministros civis. A escolha do ministro da Guerra foi especialmente difícil, pois não eram muitos os oficiais ao mesmo tempo fiéis ao governo e respeitados entre os pares. O escolhido tinha habilidade política, conseguindo a proeza de usar o Exército como pilar de sustentação do governo.
As substituições nos anos seguintes foram de Sampaio Vidal por Aníbal Freire, em janeiro de 1925, e, no mês seguinte, João Luís Alves, nomeado ao STF, por Afonso Pena Júnior, mantendo a pasta do Interior em mãos mineiras. Em abril de 1926, o contra-almirante Arnaldo de Siqueira Pinto da Luz substituiu na Marinha o falecido Alexandrino de Alencar.
Polícia política miniaturadaimagem|Inauguração do retrato presidencial no Prédio da Polícia Central, no Rio de Janeiro. Ao centro, de uniforme branco, o marechal Fontoura.|esquerda Dizia-se nos quartéis que os apoiadores do marechal Carneiro da Fontoura se revoltariam se ele não fosse escolhido ao ministério da Guerra. O marechal, que "prometia exterminar as conspirações", foi encaixado na Chefia de Polícia do Distrito Federal. Revoltosos e conspiradores poderiam esperar compreensão e tolerância de um bacharel em Direito, como todos os seus antecessores no cargo, mas não de Fontoura, "acostumado ao trato com os piores elementos da criminalidade carioca".
Sua nomeação foi acompanhada por um decreto de reorganização da polícia, apenas cinco dias após a posse. Entre outras medidas, a Inspetoria de Investigação e Segurança Política foi transformada na 4.ª Delegacia Auxiliar, que tinha várias seções com funções de polícia política e foi antecessora do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) carioca. Seus agentes vigiavam suspeitos, investigavam conspirações e monitoravam centros associativos, logradouros, fábricas, o movimento da hotelaria e o embarque e desembarque de passageiros, por vezes recorrendo a escutas telefônicas, agentes infiltrados e delatores. O 4.° delegado era o major Carlos Reis, "indivíduo de sangue frio e politicamente habilidoso". Ele e Fontoura, apelidados de "General Escuridão" e "Major Metralha" pelos inimigos, foram as principais figuras da repressão no Distrito Federal.
O estado de sítio, que expirava em 31 de dezembro, foi sucessivamente prorrogado até abril e depois até 31 dezembro de 1923, com apenas alguns votos contrários no Congresso. Essa medida suspendia as garantias constitucionais por tempo determinado, legitimando prisões sem julgamento e fortalecendo a polícia em relação ao Judiciário. Grande parte da imprensa foi censurada. Pelo entendimento predominante no Congresso e STF, o estado de sítio era o meio-termo entre o de guerra e o de plena paz e poderia ser empregado preventivamente por qualquer governo que se sentisse ameaçado de derrubada.
Após o final do governo Bernardes e do estado de sítio, a imprensa publicou denúncias contra seu aparato repressivo. O jornal O Combate, de São Paulo, mencionou os "novos ricos do bernardismo", os chefes da polícia política enriquecidos por meios ilícitos., cap. 7. O Globo acusou o grupo palaciano de ter usado a censura em prol de seus interesses particulares, como a proibição a relatar as cotações do açúcar no mercado internacional, protegendo negócios de amigos do presidente.
Imposto de renda miniaturadaimagem|O ministro da Fazenda inaugura novas instalações do Tesouro Nacional|180px Em 31 de dezembro, a lei que orçou a Receita Geral para o ano seguinte instituiu o imposto de renda no Brasil. Esse foi também o primeiro imposto direto cobrado a nível federal. Um imposto de rendimentos já existia em alguns períodos desde o Império, mas só se aplicava aos salários pagos pelos cofres públicos. A cobrança sobre a renda global, decidida em dezembro de 1922, foi promovida por Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente da Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados e relator do orçamento. O complexo tributo, criticado pela máquina administrativa que necessitava, não foi cobrado de imediato. O sistema arrecadador foi estudado e organizado pelo engenheiro Francisco Tito de Souza Reis.