A cirurgia minimamente invasiva do estrabismo (MISS, na sigla em inglês) é uma técnica de cirurgia do estrabismo que utiliza incisões mais pequenas do que a intervenção cirúrgica convencional para corrigir o problema, minimizando assim a disrupção tecidual. Esta técnica foi introduzida em 2007 D. S. Mojon: Comparison of a new, minimally invasive strabismus surgery technique with the usual limbal approach for rectus muscle recession and plication. In: Br J Ophthalmol. 91(1), Jan 2007, S. 76–82. pelo oftalmologista suíço Daniel Mojon, depois de o oftalmologista belga Marc Gobin ter descrito a ideia em 1994 numa obra de referência francófona. M. H. Gobin, J. J. M. Bierlaagh: Chirurgie horizontale et cycloverticale simultane´e du strabisme. Centrum voor Strabologie, Antwerp 1994.
Indicações A cirurgia minimamente invasiva do estrabismo é uma técnica que pode ser aplicada aos principais tipos de cirurgia corretora do estrabismo como recessões, ressecções, plicaturas, reintervenções, transposições do músculo reto, recessões do músculo oblíquo, ou plicaturas, e suturas ajustáveis, mesmo na presença de motilidade ocular limitada. As aberturas mais pequenas e o procedimento menos traumático estão em geral associados a uma reabilitação pós-operatória mais rápida e a menor edema e desconforto por parte do paciente imediatamente após a intervenção. Tudo leva a crer que esta técnica possa ser realizada em muitos pacientes (sobretudo adultos) como intervenção ambulatória que de outra forma obrigaria a hospitalização. D. S. Mojon: Review: minimally invasive strabismus surgery. In: Eye. 29, 2015, S. 225–233. Um estudo publicado em 2017 documentou um número inferior de complicações de edema conjuntival e palpebral no período pós-operatório imediato após a cirurgia minimamente invasiva do estrabismo do que após a cirurgia corretora do estrabismo convencional sendo os resultados de longo prazo semelhantes entre os dois grupos. Gupta P, Dadeya S, Kamlesh, Bhambhawani V: Comparison of Minimally Invasive Strabismus Surgery (MISS) and Conventional Strabismus Surgery Using the Limbal ApproachJ Pediatr Ophthalmol Strabismus. 2017;54:208-215.. Uma outra vantagem é que esta técnica pode diminuir o risco de isquemia do segmento anterior do globo ocular nalguns pacientes, em particular nos que sofrem de oftalmopatia de Graves . Kushner BJ. Minimally invasive strabismus surgery. Comparison of a new, minimally invasive strabismus surgery technique with the usual limbal approach for rectus muscle recession and plication. Br J Ophthalmol 2007;91:5.
Princípio Durante esta intervenção, é preferível a utilização do microscópio cirúrgico em lugar da lente. Em vez de uma grande abertura da conjuntiva como no caso da cirurgia corretora do estrabismo convencional, o acesso ao campo operatório faz-se por pequenas incisões na proximidade do músculo a suturar. As aberturas são praticadas tão afastadas do limbo corneano quanto possível para minimizar o desconforto pós-operatório. Entre duas destas incisões, chamadas mini-incisões, forma-se um "túnel" utilizado pelo cirurgião para inserir o instrumento para o tratamento dos músculos oculomotores. Asproudis I, Kozeis N, Katsanos A, Jain S, Tranos PG, Konstas AG. A Review of Minimally Invasive Strabismus Surgery (MISS): Is This the Way Forward?Adv Ther. 2017;34:826-833. No termo da intervenção, as mini-incisões são fechadas com suturas absorvíveis. Estas mini-incisões são cobertas pelas pálpebras depois da intervenção. As aberturas na MISS reduzem significativamente a frequência e a gravidade das complicações corneanas como, por exemplo, a síndrome do olho seco e o adelgaçamento da córnea, e permitirão usar lentes de contato mais cedo. Os benefícios de longo prazo são o impedimento do aumento da vermelhidão da conjuntiva visível e a redução do tecido cicatricial, o que facilitará as reintervenções – caso venham a ser necessárias.
Resultados clínicos Os resultados da cirurgia minimamente invasiva do estrabismo no que se refere ao alinhamento ocular pós-operatório estão amplamente descritos na literatura sobre a técnica, ainda limitada, em termos comparáveis à cirurgia corretora do estrabismo convencional. Tal foi documentado, por exemplo, numa comparação direta das duas técnicas envolvendo 40 crianças, tendo o grupo submetido à técnica minimamente invasiva apresentado menor edema conjuntival e palpebral após a cirurgia. P. Gupta, S. Dadeya, Kamlesh, V. Bhambhawani: Comparison of Minimally Invasive Strabismus Surgery (MISS) and Conventional Strabismus Surgery Using the Limbal Approach. In: J Pediatr Ophthalmol Strabismus. 54(4), 1. Jul 2017, S. 208–215. Taxas de complicações inferiores e restabelecimentos mais rápidos foram apontados como as vantagens principais da MISS. I. Asproudis, N. Kozeis, A. Katsanos, S. Jain, P. G. Tranos, A. G. Konstas: A Review of Minimally Invasive Strabismus Surgery (MISS): Is This the Way Forward? In: Adv Ther. 34(4), Apr 2017, S. 826–833. A eficácia da técnica foi demonstrada para a cirurgia dos músculos retos P. Merino, I. Blanco Domínguez, P. Gómez de Liaño: Outcomes of minimally invasive strabismus surgery for horizontal deviation. In: Arch Soc Esp Oftalmol. 91(2), Feb 2016, S. 69–73. N. Pellanda, D. S. Mojon: Combined horizontal rectus muscle minimally invasive strabismus surgery for exotropia. In: Can J Ophthalmol. 45(4), Aug 2010, S. 363–367. D. S. Mojon: Minimally invasive strabismus surgery for rectus muscle posterior fixation. In: Ophthalmologica. 223(2), 2009, S. 111–115., bem como para a cirurgia dos músculos oblíquos. D. S. Mojon: Minimally invasive strabismus surgery (MISS) for inferior obliquus recession. In: Graefes Arch Clin Exp Ophthalmol. 247(2), 2009, S. 261–265. Um grupo de autores indianos reportou a eficácia da MISS em pacientes com a orbitopatia de Graves. M. N. Naik, A. G. Nair, A. Gupta, S. Kamal: Minimally invasive surgery for thyroid eye disease. In: Indian J Ophthalmol. 63(11), Nov 2015, S. 847–853.
Desvantagens e complicações potenciais A MISS é mais morosa do que a cirurgia convencional. Operar os músculos através do túnel é mais complexo para o cirurgião. As mini-incisões correm o risco de lacerar em pacientes mais idosos. Se a laceração envolver a cápsula de Tenon, pode resultar numa cicatriz visível. Uma manifestação hemorrágica grave que não estanca exige o alargamento das incisões para proceder à cauterização. Geralmente, pode ser evitada uma conversão numa abertura límbica como na cirurgia corretora do estrabismo convencional. No entanto, os relatos sobre complicações específicas da MISS são em número reduzido.
Referências
Hiperligações externas
The American Academy of Ophthalmology on MISS
Categoria:Oftalmologia