A língua bakairi (Em bakairi: Kurâ) é um idioma da família karibe, falada por cerca de 1.000 (2014) pessoas do povo Bakairi, sendo a língua classificada como vulnerável, segundo o Ethnologue. Sua população se encontra dividida em duas terras indígenas, a Terra Indígena Bakairi e a Terra Indígena Santana, localizadas, respectivamente, nos municípios de Paranatinga e Nobres do estado de Mato Grosso, na região Centro-Oeste do Brasil.
Por ser uma língua de matriz indígena, o bakairi foi primeiro documentado somente no século XVIII por Karl von den Steinen, um pesquisador alemão que, em suas expedições para o Brasil colonial, conheceu o povo Bakairi e publicou suas observações sobre seu idioma no seu livro Die Bakaïrí-Sprache publicado em 1892.
No idioma bakairi, a identidade do povo está diretamente ligada com a língua, com em um de seus fenômenos linguísticos mais marcantes sendo sua "pessoa inclusiva", que está presente no significado dual no uso de kurâ, podendo se referir a generalização 'gente', mas sendo empregado excusivamente quando duas pessoas de um mesmo povo estão se referindo um ao outro, como duas pessoas Bakairi, e uʃəmə ('eu e você') entre duas pessoas de origem diferentes, como um karaiwa ('não índio') e bakairi se comunicando, por exemplo. Além disso, ela também se refere ao que é próprio ao povo Bakairi.
Etimologia A palavra bakairi é um exônimo usado para se referir tanto ao povo quanto a sua língua, e sua origem remete ao século XVIII, quando membros da sociedade colonial e pesquisadores estrangeiros, os karaiwa (não índigenas), se engajaram em pesquisas sobre os povos indígenas daquela região com a expansão do território brasileiro e a tentativa de catequização desses povos. Além disso, ela também foi incorporada pelos nativos para se auto-designarem quando estão se comunicando com não nativos. Vale ressaltar que a palavra não segue as restrições fonotáticas da língua.
O nome endônimo, ou seja, aquele que é usado pelo povo para se referirem a si mesmos, é o kurâ. Ele surge, de acordo com a crença mitíca bakairi, na separação entre os animais e os humanos (chamados de kurâ), que teria ocorrido quando o deus-sol (ʃiʃi) invadiu o mundo e diferenciou os seres, antes de mesma forma e língua, ao colocá-los sobre raios de luz. Aqueles que eram totalmente "alcançados" se tornavam kurâ, o povo Bakairi, e os apenas parcialmente atingidos tornavam-se híbridos, chamados de kurâma ('gente excluída') e eram atirados no fundo do mar.
Distribuição Dos grupos da família karibe, o bakairi é o idioma mais ao sul da Amazônia, sendo improvável que tenham chegado a região Mato-grossense por terra, mas sim por meio das rotas mais especuladas: o rio Tapajós e o rio Xingu, totalizando uma jornada de 2 mil quilômetros da região norte amazônica, onde a maioria dos povos caribes estão localizados, e a área ocupada pelos bakairi.
No início do século XVIII, registros de oficiais da coroa portuguesa mencionaram a existência do povo Bakairi no Mato Grosso, inicialmente nas margens do rio Tapajós de onde teriam se dividido em três grupos. O grupo ocidental buscou se localizar mais próximo de Cuiabá, a capital do estado, para poder vender sua arte e produtos manufaturados enquanto o grupo oriental se estabeleceu no leste de Paranatinga, se ramificando em dois grupos que mais tarde seriam reunificados novamente.
Atualmente, os Bakairi permanecem, majoritariamente, no mesmo território designado pelo Serviço de Proteção ao Índio, regularizada desde 1920. A Terra Indígena Bakairi está localizado no estado de Mato Grosso, nos municípios de Paranatinga e Planalto da Serra, possuindo c. 61 mil hectares de área. Ao total, 794 pessoas residem nessa terra indígena. Ademais, 206 pessoas do povo Bakairi vivem na Terra Indígena Santana do município de Nobres, também no estado de Mato Grosso em uma área de c.35 mil hectares.
Embora os falantes das duas áreas consigam comunicar-se sem prejudicar seu entendimento, existem diferenças fundamentais entre os dialetos separados geograficamente. Elas abrangem a fonologia, a morfologia e a sintaxe das palavras. A diferenciação entre as variantes é feita pela separação do bakairi ocidental e oriental, feita pela primeira vez por Karl von den Steinen ao denominar como ocidentais os mais dispostos a socializar com os colonizadores e orientais os que preferiam se manter independentes. Tal denominação se tornou utilizada para diferenciar também os dialetos falados nas respectivas terras indígenas. Línguas relacionadas A língua bakairi pertence à subfamília pekodiana, um conjunto de línguas faladas nos estados do Pará e Mato Grosso, sendo o nome da subfamília dado pela existência do cognato para a palavra 'mulher' presente no bakairi e na língua ikpeng, respectivamente pekodo e petkom, mas que não é encontrada em outras línguas caribe.
As línguas pekodian são: bakairi ikpeng arara
História Por ser uma língua de tradição oral e indígena, os seus primeiros registros na forma escrita se originam do contato entre o povo Bakairi e os colonos europeus, em destaque o alemão Karl von den Steinen, responsável por documentar vários aspectos dos nativos, entre 1884 e 1892, incluindo a língua bakairi, a qual dedicou o seu livro Die Bakaïrí-Sprache, em que transcreve mitos kurâ na língua Bakairi e traduzidos para o alemão.
Na documentação do bakairi, questões como o uso de alfabetos europeus e falhas de interpretações na transcrição fonética por Karl von den Steinen, e o uso da gramática da língua portuguesa para representar a língua kurâ pelos pesquisadores do Summer Institute of Linguistics, na década de 1960, tornaram muitos desses registros insatisfatórios para uma compreensão correta da língua, levando os próprios Bakairi a possuírem dúvidas em relação à escrita.
Em relação a história da língua, a fonologia atual do bakairi se diferencia de múltiplas maneiras da registrada no século XIX por Von den Steinen. Naquela conjuntura, o bakairi não continha consoantes marcadas pelo traço sonoro, mas sim as consoantes plosivas surdas /p/, /t/ e /k/ e o chamado "/h/ aspirado" (como no espanhol nos héros /no.e.ʁo/ 'nossos heróis'), que alternava na mesma palavra de maneira livre com /s/ e /z/. Existia também uma consoante plosiva seguida de aspiração [kχ],sendo a maioria destes não explicados conforme uma previsão segura. Nos processos fonológicos, foi registrado por Karl von den Steinen que havia uma alta oscilação no uso de alguns sons nas palavras, como as plosivas /d/, /g/ e /b/, que, segundo o autor alemão, aconteceriam dependendo do humor do falante, variação que atualmente poderia ser classificada como variação livre. Além disso, as palavras também passavam por alterações em um processo de assimilação, que, como mencionado, ocorriam conforme a vontade do falante.
Atualmente, além dos processos de assimilação de sons, uma mudança observada é a perda na fala da população mais jovem da plosiva velar [kχ], mas que ainda encontrada é na fala dos mais velhos. A plosiva [tχ] agora é uma africada [ts] em início de palavra para os mais velhos e substituída pelos mais novos pela fricativa pós-alveolar /ʃ/.
Fonologia Processos fonológicos abrangem de assimilação a lenição, ao alongamento vocal,que consiste em uma mudança de som causada pela perda da consoante seguinte ou de uma vogal próxima.
Como pode ser observado abaixo nas tabelas de fonemas, por mais que a língua bakairi mantenha a maioria de suas características, as diferenças entre os dois dialetos torna válido que sejam representados separadamente, respeitando as particularidades de cada região. Consoantes
Nos sons consonantais orientais, verifica-se a harmonia consonantal de traço sonoro fricativo, oclusivo, nasal e líquido. É válido ressaltar que não há contraste fonêmico consonantal no bakairi por conta do processo de harmonia.
Vogais Todas as vogais de ambos os dialetos podem ocorrer na posição inicial, média e final da palavra, em sílabas átonas e tônicas, e bem como em monossílabas. Embora ambos os dialetos exijam que as vogais sejam alongadas em monossílabas, a duração da vogal não é contrastiva no bakairi, seguindo uma estrutura simples de consoante-vogal.
No dialeto oriental, existem sete sons vocálicos, sendo eles nasalisados e orais e sujeitos ao processo de harmonia vocálica:
Usando como referencial as tabelas representadas acima, podem ser percebidas as seguintes mudanças entre o bakairi ocidental e oriental:
O bakairi ocidental não possui a vogal /ɨ/ e as consoantes /ʃ/ e /ʒ/, que são presentes na versão oriental;
O bakairi oriental não utiliza a consoante /ʔ/, observada no dialeto ocidental.
Essas divergências acabam ocasionando uma dificuldade em criar uma escrita para a língua bakairi, já que gera uma lacuna de sons que existem apenas em um dos dialetos, refletidos na pronúncia das palavras entre as variações.
Ortografia O sistema de escrita para o bakairi é um projeto em andamento desde a década de 60, quando a presença dos missionários do Summer Institute of Linguistics desenvolveram uma ortografia bakairi que divergisse o menos possível da língua portuguesa, com o objetivo de alfabetizar a população.Entretanto, considerando a inexistência de algumas vogais essenciais ao bakairi no português, especialmente na região do Mato Grosso onde estão localizadas ambas as terras indígenas, torna inviável o uso único do português para representar o bakairi. +Ortografia do bakairiSímbolo no bakairiFonema AFIAproximação'/Ɂ/Oh-oh! interjeição no inglêsgu + e, i, y/ɡ/Sangue(o /u/ não é pronúnciado)gü + e, i, y/ɡw/Águax/ʃ/cháj/ʒ/jacanhṼ/i//ṽ/Pão(/ṽ/) e Ilha(/i/)V + n/ṽ//h/Tempo(/ṽ/) e Hat(/h/), em inglêsâ/ə/Computer, em inglêsy/ɨ/Syn, no polonês
Gramática A língua bakairi é uma língua altamente aglutinativa, com uma forte tendência ao uso de sufixos. Além dos tipos de sufixos presente na língua portuguesa que indicam modo, intensidade e aspecto, outros sufixos adicionam significado de repetição, totalidade, evidencialidade e verdade. Afixos, de um modo geral, são usados para originar novas palavras, como um substantivo a partir de outro substantivo, e modificar a classe de uma palavra, como um substantivo em verbo.
Na morfologia dos verbos, a característica mais marcante é a distinção clara nos sufixos verbais. Quando um verbo é transitivo, deve aderir a um dos sufixos próprios aos transitivos, enquanto verbos intransitivos possuem outra série de sufixos. Outra característica notável da língua bakairi é que substantivos diretamente ligados à posse, como partes do corpo, são incorporados aos verbos, o que cria verbos como 'escovar os dentes' e 'lavar as mãos', que devem apresentar afixos adicionais. Quanto a sufixos nominais, é possível indicar que as características do sufixos não são mais verdadeiras no presente, como 'uma casa abandonada'.
O bakairi é uma das poucas línguas conhecidas cuja ordem das palavras é objeto-verbo-sujeito, sendo as ordens sujeito-objeto-verbo e sujeito-verbo usadas apenas para dar ênfase, contraste ou manter a progressão textual.
Pronomes pessoais No bakairi, tanto a primeira pessoa quanto a segunda pessoa usam pronomes específicos, enquanto a terceira pessoa do singular e do plural são expressas por meio de um conjunto de pronomes demonstrativos. Existem dois pronomes de primeira pessoa do plural, um se designando a exclusão e outro a inclusão do interlocutor, ou seja, um 'nós' inclusivo e um 'nós' exclusivo. Embora sejam semanticamente plurais, esses pronomes não recebem sufixo plural. Os pronomes de segunda e terceira pessoa, recebem o sufixo plural -[mo]. Abaixo, seguem os respectivos pronomes e exemplos de frases. +Pronomes pessoais no bakairiBakairiPessoaExemploTraduçãourə1PSt-utue-lə urə'eu conheço algo/alguém'əmə2PSie əmə?'você quer?'əmae-mo ou əmare-mo2PPədara pão-be=ka əmae-mo?'quantos pães vocês têm?'sina ou ina1PP(EX)toe͂-ze-pa kehoe͂ 33 sina i-eiṼle-dɨlɨ'nós rimos muito'kurə1PP(INC)kurə-do tərə ətɨ-də'há pessoas na festa' Verbos