thumb|350px|Pintura romana da Casa de Giuseppe II, de Pompeia, no início do , provavelmente representando Cleópatra, usando seu diadema real, consumindo veneno em um ato suicida, enquanto seu filho Ptolemeu XV Cesarião, também usando um diadema real, está atrás dela
A morte de Cleópatra, a última governante do Reino Ptolemaico, ocorreu entre 10 ou 12 de agosto, de , em Alexandria. Na época com 39 anos de idade, Cleópatra, de acordo com a crença popular, cometeu suicídio ao permitir que fosse mordida por uma áspide (cobra egípcia). Segundo os historiadores gregos e romanos, Cleópatra se envenenou usando uma pomada tóxica ou um instrumento afiado, como um grampo de cabelo. As fontes primárias são derivadas principalmente das obras dos historiadores romanos antigos Estrabão, Plutarco e Dião Cássio. Estudiosos modernos debatem a validade de relatos antigos envolvendo mordidas de cobras como causa da morte e se foi assassinada ou não. Alguns acadêmicos levantam a hipótese de que seu rival político romano Augusto a forçou a cometer suicídio da maneira que escolhesse. A localização do túmulo de Cleópatra é desconhecida. Ficou registrado que Augusto permitiu que ela e seu marido, o político romano e general Marco Antônio, que se esfaqueou com uma espada, fossem enterrados adequadamente.
A morte de Cleópatra efetivamente encerrou a Última Guerra Civil da República Romana entre os triúnviros Augusto e Marco Antônio, em que Cleópatra se alinhou com Antônio, pai de três de seus filhos. Antônio e Cleópatra fugiram para o Egito após serem derrotados na Batalha de Áccio, em , na Grécia romana, após a qual Augusto invadiu o Egito e derrotou suas forças. Cometer suicídio lhe permitiu evitar a humilhação de ser apresentada como prisioneira em um triunfo romano, celebrando as vitórias militares de Augusto, que se tornaria o primeiro imperador de Roma em . Augusto mandou matar o filho de Cleópatra, Ptolemeu XV Cesarião, herdeiro do rival Júlio César, morto no Egito, mas poupou seus filhos com Marco Antônio e os levou para Roma. A morte de Cleópatra marcou o fim do período helenístico e do domínio ptolemaico do Egito, bem como o início do Egito romano, que se tornou uma província do Império Romano.
A morte de Cleópatra foi retratada em várias obras de arte ao longo da história. Entre as quais incluem-se artes visuais, literárias e performáticas, desde esculturas e pinturas a poesia e peças de teatro, além de filmes modernos. Cleópatra apareceu com destaque na prosa e poesia da literatura latina antiga. Enquanto sobrevivem as antigas representações romanas de sua morte nas artes visuais, são raras as obras medievais, renascentistas, barrocas e modernas. Esculturas greco-romanas antigas, como Vênus Esquilina e Ariadne Adormecida, serviram de inspiração para obras de arte posteriores que retratavam sua morte, envolvendo universalmente a mordida de uma cobra. A morte de Cleópatra evocou temas de erotismo e sexualidade, em obras que incluem pinturas, peças e filmes, especialmente da era vitoriana. Obras modernas que retratam a morte de Cleópatra incluem escultura neoclássica, pintura orientalista e cinema.
Prelúdio
thumb|300px|Cleópatra e Marco Antônio no anverso e reverso, respectivamente, de uma tetradracma de prata concluída na Casa da Moeda de Antioquia em
Após o Primeiro Triunvirato e o assassinato de Júlio César em , os estadistas romanos Otaviano, Marco Antônio e Emílio Lépido foram eleitos como triúnviros para levar os assassinos de César à justiça, formando o Segundo Triunvirato. Com Lépido marginalizado na África e posteriormente colocado em prisão domiciliar por Otaviano, os dois triúnviros restantes dividiram o controle sobre o mundo romano entre o leste grego (comandado por Antônio) e o oeste latino (comandado por Otaviano). Cleópatra III, do Egito ptolomaico, uma faraó de ascendência grega macedônia que governou de Alexandria, teve um caso extraconjugal com Júlio César, com quem teve um filho, Cesarião, que se tornou um co-governante ptolemaico. Após a morte de César, Cleópatra teve um relacionamento com Antônio.
Com o incentivo de Cleópatra, Antônio se divorciou oficialmente da irmã de Otaviano, Otávia, a Jovem, em . É provável que já tenha se casado com Cleópatra durante as Doações de Alexandria em O divórcio de Antônio e Otávia, a revelação pública por Otaviano da vontade de Antônio de delinear as ambições de Cleópatra para o território romano nas Doações de Alexandria e seu continuado apoio militar ilegal para um cidadão romano que não possuía um cargo eletivo convenceu o senado romano, agora sobre o controle de Otaviano, a declarar guerra contra Cleópatra.
Após a derrota na batalha naval de Áccio no golfo ambraciano da Grécia em , Cleópatra e Antônio se retiraram para o Egito para se recuperarem e se prepararem para um ataque de Otaviano, cujas forças cresceram com a rendição de muitos oficiais e soldados de Antônio na Grécia. Após um longo período de negociações fracassadas, as forças de Otaviano invadiram o Egito na primavera de . Enquanto Otaviano capturou Pelúsio perto das fronteiras orientais do Egito ptolomaico, seu oficial Cornélio Galo marchou de Cirene e capturou a Paretônio a oeste. Embora Antônio tenha conseguido uma pequena vitória sobre as tropas cansadas de Otaviano ao se aproximarem do hipódromo de Alexandria em 1º de agosto de , sua frota naval e cavalaria desertaram para Otaviano logo depois.
Suicídio de Cleópatra e Marco Antônio
Com as forças de Otaviano em Alexandria, Cleópatra retirou-se para sua tumba com os seus assistentes mais próximos e mandou uma mensagem a Antônio de que se suicidara. Antônio ordenou que seu escravo Eros o matasse, mas em vez disso Eros virou a espada contra si mesmo e cometeu suicídio. Desesperado, Antônio se apunhalou no estômago com uma espada, morrendo aos 53 anos de idade. Na narração de Plutarco, Antônio ainda estava vivo quando foi levado para a tumba de Cleópatra, dizendo a ela, em suas últimas palavras, que morreria honrosamente e que poderia confiar em um certo homem chamado Caio Proculeio, ligado ao grupo de Otaviano, para tratá-la bem. O mesmo Proculeio usou uma escada para abrir uma janela da tumba de Cleópatra e detê-la lá de dentro antes que pudesse ter a chance de cometer suicídio ou se queimar até morrer junto com seu vasto tesouro. Cleópatra foi autorizada a embalsamar o corpo de Antônio antes de ser levada à força para o palácio, onde finalmente se encontrou com Otaviano, que também havia detido três de seus filhos: Alexandre Hélio, Cleópatra Selene II e Ptolemeu Filadelfo.
Conforme relatado por Lívio, em seu encontro com Otaviano, Cleópatra lhe disse francamente que "não serei levada como uma conquista", mas Otaviano só deu a resposta enigmática de que sua vida seria poupada. Não lhe ofereceu detalhes específicos sobre seus planos para o Egito ou sua família real. Quando um espião informou a Cleópatra que Otaviano pretendia levá-la a Roma para ser apresentada como prisioneira em seu triunfo romano, decidiu evitar essa humilhação e tirou a própria vida aos 39 anos, em 30 de agosto. Plutarco elabora como Cleópatra se aproximou de seu suicídio em um processo quase ritual que envolveu banhos e depois uma boa refeição que incluía figos trazidos em uma cesta.
thumb|esquerda|Cleópatra e Otaviano, uma pintura de Louis Gauffier, em 1787
Plutarco escreveu que Otaviano ordenou que seu liberto Epafrodito a protegesse e a impedisse de cometer suicídio. No entanto, Cleópatra foi capaz de enganá-lo e se matar. Quando Otaviano recebeu uma nota de Cleópatra solicitando que fosse enterrada ao lado de Antônio, mandou que seus mensageiros corressem em direção a ela. Os criados arrombaram a porta, mas chegaram tarde demais. Plutarco afirmou que foi encontrada com suas servas Iras, morrendo a seus pés, e Carmião, ajustando a diadema de Cleópatra antes que caísse. Não é claro a partir de fontes primárias se seus suicídios ocorreram dentro do palácio ou dentro da tumba de Cleópatra. Dião Cássio afirma que Otaviano chamou encantadores de serpentes treinados da tribo dos psilos, da Antiga Líbia, para tentar uma extração de veneno oral e ressuscitar Cleópatra, mas seus esforços falharam. Embora Otaviano tenha ficado indignado com esses eventos e "foi roubado do esplendor de sua vitória" de acordo com Dião Cássio, permitiu o enterro de Cleópatra ao lado de Antônio em sua tumba, conforme desejado por ela, e também permitiu que Iras e Carmião recebessem enterros apropriados.
Data da morte
thumb|300px|Uma moeda de hemiobol de Cleópatra VII concluída em (o ano em que ela e Marco Antônio perderam a Batalha de Áccio), mostrando-a usando o diadema real.
Não há registros sobreviventes datando a morte de Cleópatra. Theodore Cressy Skeat deduziu que morreu em 12 de agosto de , com base em registros contemporâneos de eventos fixos juntamente com o exame cruzado de fontes históricas. Sua suposição é apoiada por Stanley M. Burstein, James Grout, Aidan Dodson e Dyan Hitlon, embora os últimos sejam mais cautelosos ao se referirem como "circa" de 12 de agosto. Uma data alternativa de 10 de agosto de é apoiada por estudiosos como Duane W. Roller, Joann Fletcher, e Jaynie Anderson.
Causa da morte
thumb|Uma gravura em aço representando a pintura de Cleópatra VII feita por Otaviano
O médico pessoal de Cleópatra, Olimpo, citado por Plutarco, não mencionou a causa da morte de Cleópatra nem uma picada de áspide ou uma cobra egípcia. Estrabão, que forneceu o mais antigo relato histórico conhecido, acreditava que Cleópatra havia cometido suicídio por mordida de áspide ou pelo uso de uma pomada tóxica. Plutarco mencionou o conto da áspide como tendo sido trazida a ela em uma cesta de figos, embora oferece outras alternativas para sua causa de morte, como o uso de um implemento oco, talvez um grampo, o qual teria usado para arranhar a pele e introduzir a toxina. De acordo com Dião Cássio, pequenas feridas foram encontradas no braço de Cleópatra, mas repetiu a afirmação de Plutarco de que ninguém sabia a verdadeira causa de sua morte. Dião mencionou a alegação da áspide e até sugeriu o uso de uma agulha, possivelmente de um grampo de cabelo, o que parece corroborar o relato de Plutarco. Outros historiadores contemporâneos, como Floro e Veleio Patérculo, apoiaram a versão de que Cleópatra foi mordida por uma áspide. O médico romano Galeno mencionou a história da áspide, mas favoreceu uma versão onde Cleópatra mordeu seu próprio braço e introduziu veneno trazido em um recipiente. Suetónio retransmitiu a história da áspide, mas expressou dúvidas sobre sua veracidade.
A causa da morte de Cleópatra raramente foi mencionada e debatida no início dos estudos modernos. O escritor enciclopédico Thomas Browne, em seu livro Pseudodoxia Epidemica, de 1646, explicou que era incerto como Cleópatra havia morrido e que representações artísticas de pequenas cobras que a mordiam não mostravam com precisão o tamanho maior da áspide. Em 1717, o anatomista Giovanni Battista Morgagni manteve uma breve e recreativa correspondência literária com o médico papal Giovanni Maria Lancisi sobre a causa da morte da rainha, conforme referenciado por De Sedibus, de 1761, escrito por Morgagni, e publicado em uma série de epístolas em sua obra Opera omnis, de 1764. Morgagni argumentou que Cleópatra provavelmente foi morta por picada de cobra e contestou a sugestão de Lancisi de que o consumo de veneno era mais plausível, notando que nenhum autor greco-romano antigo havia mencionado que ela o bebera. Lancisi rebateu argumentando que os relatos oferecidos pelos poetas romanos não eram confiáveis, uma vez que muitas vezes exageravam os acontecimentos. Em suas memórias literárias publicadas em 1777, o médico Jean Goulin apoiou o argumento de Morgagni de que a mordida de cobra era a causa mais provável da morte.
thumb|esquerda|Cleopatra, por Benedetto Gennari, 1674–1675