Joaquim Tomás del Negro, na grafia da época Joaquim Thomaz Del-Negro e geralmente conhecido por Thomaz Del-Negro (Lisboa, 5 de junho de 1850 — Lisboa, 12 de fevereiro de 1933), foi um trompista, maestro e compositor português. Primeiro-trompa do Teatro Real de São Carlos e do Teatro Real de Madrid, dirigente da Associação Música 24 de Junho, professor de trompa do Conservatório durante 27 anos e director musical de vários teatros de Lisboa e do Porto, foi um dos compositores mais prolíficos do teatro de revista e da opereta em Portugal, com mais de uma centena de obras para teatro musicado.

Origens e formação Nasceu em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho, e foi baptizado na Igreja de Nossa Senhora do Loreto, numa família de origem italiana estabelecida no comércio lisboeta desde finais do século XVIII, oriunda de Trento, então no Tirol austríaco. O pai, Michelangelo Del-Negro (Miguel Ângelo, nas fontes portuguesas), professor de música, e o tio, José Del-Negro, foram músicos amadores destacados da Sociedade Filarmónica de João Domingos Bontempo. A família tinha origem em Bieno, na Valsugana, então na diocese de Trento: o irmão mais velho de Thomaz, Giuseppe Francesco (José Francisco) Del-Negro, nasceu nessa localidade em 9 de Janeiro de 1843, filho de Michel-Angelo Del-Negro e de Rosa Diniz, natural de Lisboa.Certidão de baptismo de Giuseppe Francesco Del-Negro, passada pelo cura de Bieno, Giuseppe Moser, em 22 de Maio de 1844, a partir do registo de nascimentos da cura de Bieno, p. 50 (colecção da família Del-Negro). Aos sete anos acompanhava já, na viola francesa, quartetos e quintetos executados pelo pai e por músicos como Pedro Gazul e Carlos Fiorenzolla.

Entrou aos onze anos no Conservatório Real de Música, onde foi, segundo o programa das comemorações do seu 150.º aniversário, «o aluno mais premiado do seu tempo».

Trompista Ainda estudante, com dezassete anos, foi contratado como primeiro-trompa da orquestra do Teatro Real de São Carlos e da Real Câmara, tendo ocupado igual posição nas orquestras dos teatros de São Fernando, em Sevilha, e de D. Afonso, em Madrid. Entre 1869 e 1871 foi director musical e co-proprietário de O Álbum — Jornal de Música para Piano.

Em 1878, na sequência de divergências entre a Associação Música 24 de Junho, organização de classe de que era secretário, e a empresa do São Carlos, abandonou o seu lugar, acompanhado pelos principais músicos da época. À frente da Associação promoveu concertos de grande orquestra dirigidos por maestros estrangeiros como Francisco Asenjo Barbieri, Édouard Colonne, Olivier Métra, Ludwig Brenner e Ernst Rudorff, apresentando pela primeira vez em Lisboa a 5.ª e a 6.ª sinfonias de Beethoven e obras de Haydn, Mendelssohn, Saint-Saëns, Gounod, Weber, Glinka e Wagner; o programa comemorativo de 2001 atribui-lhe «em grande parte» a introdução em Portugal dos concertos regulares de música sinfónica.

Em 1879 tocou a solo em Madrid em dois concertos da Sociedad de Conciertos dirigidos por Tomás Bretón e venceu o concurso para primeiro-trompa do Teatro Real de Madrid e da Capela Real de Afonso XII. Segundo o mesmo programa, regressou ao seu lugar no São Carlos em 1881; outras fontes situam a sua permanência em Madrid entre 1879 e 1889 e o regresso ao São Carlos depois de 1890. Em 1883 foi director musical de O Mundo Artístico — Gazeta Musical de Lisboa.

Compositor A sua produção, em grande parte perdida, foi inventariada em mais de três centenas de obras por ocasião das comemorações de 2001. Num primeiro período, entre 1867 e meados da década de 1890, escreveu música de câmara, música sacra, lieder, música para banda, numerosas peças para piano (entre elas Le Délire du Bal, de 1870, e Walsa Catalá, de 1878) e obras para trompa, de que subsiste o original da Fantasia em Fá para trompa e piano. Para o teatro compôs nesse período o ensaio lírico em dois actos Amores na Aldeia (1876) e a ópera cómica René, representada em Outubro de 1883 no Teatro da Trindade. A Gazeta Musical de Lisboa escrevia em Janeiro de 1883 que as peças que executava nos concertos eram «quasi sempre composições suas» e que tinha escrito «quatro operas comicas completamente desconhecidas».«Perfis artísticos», Gazeta Musical de Lisboa, n.º 37, Janeiro de 1883, citado em Portugal (2001).

A partir de meados da década de 1890 dedicou-se sobretudo ao teatro musicado, compondo cerca de quatro dezenas de operetas, vaudevilles e mágicas e a música de cerca de 54 revistas, que se mantiveram em cena durante cerca de trinta anos. António de Sousa Bastos escrevia em 1900 que «até hoje tem composto 147 actos».Sousa Bastos, citado em Portugal (2001). Entre as operetas contam-se O Capitão Lobishomem (libreto de Gervásio Lobato e Lopes Teixeira), Os Filhos do Capitão-Mor (Eduardo Schwalbach), O Porteiro do Inferno (1895) e O Carvalho Milagroso (1896), estreadas no Teatro D. Afonso, no Porto, A Musa dos Estudantes, A Espinha do Diabo (Teatro Avenida, 1906), Templo de Salomão (Teatro do Príncipe Real, 1906), O Kiki, A Menina de Chocolate, Mestre de Armas e Ovarinos. Entre as revistas, escritas com os principais autores do género, figuram Retalhos de Lisboa (1896, com Freitas Gazul), O Reino da Bolha (1897), Formigas e Formigueiros (1898), ABC (1908, de Ernesto Rodrigues e Acácio de Paiva), Sol e Dó (1909), Zig Zag (1910), Peço a Palavra (1911), Ponha-lhe Papas (1912), O 31 (1913, com Alves Coelho, que se manteve em cena dez anos), Verdades e Mentiras (1914), O Dia do Juízo (1915), Castelos no Ar (1916), O Ovo de Colombo (1917), Ao Deus Dará (1918), Gato por Lebre (1921), Águas Passadas (1924) e Pó de Arroz, composta para a inauguração do Teatro Variedades e tida como a sua última obra.

Direcção de teatros e ensino Foi director musical do Teatro da Trindade, em Lisboa, e, no Porto, dos teatros Carlos Alberto, Real de São João e do Príncipe Real (actual Teatro Sá da Bandeira), e empresário e director musical do desaparecido Teatro D. Afonso, também no Porto. Foi professor de trompa do Conservatório Nacional de Lisboa durante 27 anos.

Condecorações e homenagens Foi agraciado com a Ordem Militar de Cristo, a Ordem Militar de Sant'Iago da Espada e a Ordem de Isabel a Católica, de Espanha.

Em 2001 uma Comissão das Comemorações do 150.º Aniversário do seu nascimento promoveu em Lisboa um concerto comemorativo, com a apresentação de obras suas, incluindo o inédito Amores na Aldeia, e, em 24 de Junho, no Teatro da Trindade, uma conferência sobre o compositor, o Salão Trindade e a divulgação da música sinfónica em Portugal. No mesmo ano foi editado o CD comemorativo Thomaz Del-Negro — Músico e Compositor: 150 Anos, com direcção musical de Fernando Correia Martins e interpretações de Fernando Serafim, Gonçalo Salgueiro, Marina Mota e Lia Altavilla, reunindo números de revistas e operetas suas. Por sugestão dessa comissão, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu o seu nome, por edital de 15 de Dezembro de 2003, a uma rua do Alto do Lumiar, na freguesia do Lumiar, inaugurada em 1 de Outubro de 2004, Dia Mundial da Música. Um concurso para trompistas tem igualmente o seu nome.

Família Era irmão de José Francisco Del-Negro (1843–?) e tio de Pedro Del-Negro (1874–1962), desportista e dirigente desportivo, introdutor da luta greco-romana em Portugal.

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