thumb|Afresco do julgamento de Salomão, Wallfahrtskirche Frauenberg, Frauenberg, Estíria thumb|Grupo esculpido O Julgamento de Salomão (1430), adornando a capital do pilar do canto noroeste do Palácio do Doge em Veneza (Itália). O Julgamento de Salomão é uma história da Bíblia hebraica na qual Salomão, o rei de Israel, realiza um julgamento entre duas mulheres que afirmavam ser mãe de um filho. O rei revelou seus verdadeiros sentimentos e relacionamento com a criança, sugerindo cortar o bebê em dois, com cada mulher recebendo uma metade. Com essa estratégia, conseguiu discernir a impostora como a mulher que aprovou completamente essa proposta, enquanto a mãe real implorava que a espada fosse embainhada e a criança dada aos cuidados de sua rival. Alguns consideram essa abordagem da justiça um exemplo arquetípico de um juiz imparcial que mostra sabedoria ao tomar uma decisão.
Narrativa bíblica relata que duas mulheres que moravam na mesma casa, ambas mães de um filho pequeno, vieram a Salomão. Um dos bebês havia sido sufocado e cada uma reivindicou o garoto restante como seu. Pedindo por uma espada, o rei declarou seu julgamento: o bebê seria cortado em dois, cada mulher recebendo uma metade. Uma mãe não contestou a decisão, declarando que, se não podia ter o bebê, nenhuma delas poderia, mas a outra implorou ao rei: "dai-lhe a ela o menino que está vivo, e de modo nenhum o mateis!"
O rei declarou a segunda mulher a verdadeira mãe, pois esta desistiria do bebê caso isso fosse necessário para salvar sua vida. Esse julgamento ficou conhecido em todo o Israel e foi considerado um exemplo de profunda sabedoria.
Classificação e paralelos A história é comumente vista no conhecimento acadêmico como um exemplo ou reformulação de um conto popular. Sua natureza folclórica é aparente, entre outras coisas, no domínio do discurso direto, que move a trama e contribui para a caracterização.Mordechai Cogan, I Kings (Anchor Bible), Nova Iorque: Doubleday, 2001, p. 196. A história é classificada como um conto de Aarne-Thompson de tipo 926, e muitas histórias paralelas foram encontradas no folclore mundial. Na edição de Uther do índice de Aarne-Thompson,Hans-Jörg Uther, The Types of International Folktales: A Classification and Bibliography, Based on the System of Antii Aarne and Stith Thompson, I, Helsinki: Suomalainen Tiedeakatemia, 2004. esse tipo de conto é classificado como uma novela folclórica e pertence a um subgrupo designado – "Atos e palavras inteligentes". Eli Yassif define a novela folclórica como "uma história realista, cujo tempo e lugar são determinados ... A novela enfatiza traços humanos como inteligência, erotismo, lealdade e astúcia, que impulsionam a trama mais adiante do que qualquer outro elemento".Eli Yassif, The Hebrew Folktale: History, Genre, Meaning (Folklore Studies in Translation), Bloomington, IN: Indiana University Press, 1999, p. 27
Hugo Gressmann encontrou 22 histórias semelhantes no folclore e na literatura mundiais, especialmente na Índia e no Extremo Oriente.Veja Hugo Gressmann, "Das salomonische Urteil", Deutsche Rundschau 130 (1907), pp. 212–28 Uma versão indiana é uma história de Jataka que trata de Buda em uma de suas encarnações anteriores como o sábio Mahosadha, que arbitra entre uma mãe e um Yakshini que tem a forma de uma mulher, que sequestrou o bebê da mãe e afirmou que ele era dela. O sábio anunciou uma disputa por cabo de guerra: ele desenhou uma linha no chão e pediu às duas para ficarem em lados opostos da linha, uma segurando os pés e a outra as mãos – aquela que puxasse o corpo inteiro do bebê além da linha o pegaria. A mãe, vendo como a criança sofre, o soltou e deixou a Yakshini levá-lo, chorando. Quando o sábio viu isso, devolveu o bebê para as mãos da verdadeira mãe, expôs a identidade da Yakshini e a expulsou.Veja E. B. Cowell (ed.), The Jātaka, or Stories of the Buddha's Former Births, VI, Cambridge: Cambridge University Press, 1907, p. 163. Em outras versões indianas, as duas mulheres são viúvas de um marido.Veja for example G. R. Subramiah Pantulu, Indian Antiquary 26 (1897), p. 111 Outra versão aparece no drama chinês O Círculo de Giz (nesta versão, o juiz desenha um círculo no chão),Theodor Herzl Gaster, Myth, Legend, and Custom in the Old Testament: A Comparative Study with Chapters from Sir James G. Frazer's Folklore in the Old Testament, II, Nova Iorque: Harper & Row, 1969, p. 493. que tem sido difundido em todo o mundo e muitas versões e retrabalhos foram feitos posteriormente, entre eles O Círculo de Giz Caucasiano, uma peça de Bertolt Brecht.
O tema comum nesses diferentes paralelos é que o juiz sábio anuncia uma decisão absurda, que é razoável de uma maneira perversa: dividir o bebê, de acordo com o princípio do compromisso; ou uma guerra de cabos, na qual se pode supor que a verdadeira mãe estará motivada a se esforçar mais. Mas essa decisão é na verdade um teste emocional oculto, projetado para forçar cada mulher a decidir se sua compaixão pelo bebê supera sua vontade de vencer.William Hansen, Ariadne's Thread: A Guide to International Tales Found in Classical Literature, Ithaca, NY: Cornell University Press, 2002, p. 228.
Há evidências indiretas de que a história também foi difundida nos tempos antigos no mundo ocidental. Um fragmento de papiro grego,P. Oxy. XLI 2944 datado do início do século II dC, inclui uma referência fragmentada a um caso jurídico antigo que é semelhante ao julgamento de Salomão. A história é atribuída a Phliliskos de Mileto, vivo no século IV aC.William Hansen, Ariadne's Thread: A Guide to International Tales Found in Classical Literature, Ithaca, NY: Cornell University Press, 2002, pp. 229–30.Eric G. Turner, The Papyrologist at work (Greek, Roman and Byzantine Monographs 6), Durham, NC: Duke University, 1973, pp. 7-14 Um afresco encontrado na "Casa do Médico" em Pompeia mostra pigmeus apresentando uma cena semelhante à história bíblica.William Hansen, Ariadne's Thread: A Guide to International Tales Found in Classical Literature, Ithaca, NY: Cornell University Press, 2002, pp. 231–32. A picture of the fresco. Alguns acreditam que o afresco relaciona-se diretamente com a história bíblica,Frederick E. Brenk, "Greek, Greeks; C. Religion", Encyclopedia of the Bible and its Reception, v. 10, 2015, p. 889. enquanto que segundo outros representa uma tradição paralela.
Várias sugestões para o gênero da história bíblica foram levantadas, além de sua caracterização como um conto popular de um tipo conhecido. Edward Lipiński sugere que a história é um exemplo de "contos do rei", um subgênero da literatura de sabedoria com a qual ele encontra paralelos na literatura suméria.Edward Lipinski, "Ancient Types of Wisdom Literature in Biblical Narrative", in Alexander Rofé and Yair Zakovitch (eds.), Isac Leo Seeligmann Volume, Jerusalem: E. Rubenstein, 1983, pp. 51–55
Os estudiosos apontaram que o conto assemelha-se ao gênero de história de detetive moderna. Tanto o rei Salomão quanto o leitor são confrontados com algum tipo de enigma jurídico-detetive. Meir Sternberg observa que dois gêneros se fundem na história: Um mistério e uma prova; o dilema jurídico, que é o enigma, também constitui um teste para o jovem rei: se ele o resolver, será reconhecido como possuidor de sabedoria divina.Meir Sternberg, The Poetics of Biblical Narrative: Ideological Literature and the Drama of Reading (Indiana Studies in Biblical Literature), Bloomington: Indiana University Press, 1985, p. 167. Stuart Lasine classifica a história como um enigma da corte.Stuart Lasine, "The Riddle of Solomon’s Judgment and the Riddle of Human Nature in the Hebrew Bible", Journal for the Study of the Old Testament 45 (1989), p. 61
Segundo Raymond Westbrook, a história é essencialmente um problema hipotético, apresentada ao interlocutor como um simples desafio intelectual e não como um caso jurídico concreto. Em tais problemas, qualquer detalhe desnecessário é geralmente omitido, e é por isso que os personagens da história não têm características distintivas. Além disso, a descrição do caso elimina a possibilidade de obter evidências circunstanciais, forçando o destinatário a enfrentar o dilema diretamente e a não procurar formas indiretas de resolvê-lo.Raymond Westbrook, "Law in Kings", in André Lemaire, Baruch Halpern, and Matthew J. Adams (eds.), The Book of Kings: Sources, Composition, Historiography and Reception (Suplementos ao Vetus Testamentum 129), Leiden: Brill, 2010, pp. 446–47.
Alguns estudiosos pensam que a história folclórica original sofreu uma reformulação literária significativa, de modo que em sua cristalização bíblica não pode mais ser definida como um conto popular. Jacob Liver observa a ausência de qualquer "coloração local" na história e conclui que ela "não é um conto popular real, mas uma reformulação acadêmica de um conto popular (aparentemente de uma fonte não israelita) que, de alguma forma, alcançou os círculos judiciais de Jerusalém nos tempos de Salomão".Jacob Liver, "The Book of the Acts of Solomon", Biblica 48 (1967), p. 82 Da mesma forma, Jeev Weisman a caracteriza como "uma anedota de sabedoria originada nos círculos judiciais".Tradução do original em hebraico: "אנקדוטה חכמתית שמוצאה מחוגי החצר" (Jeev Weisman, Political Satire in the Bible [The Biblical Encyclopaedia Library 13], Jerusalém: Bialik Institute, 1996, p. 213). George W. Coats também a caracteriza como uma anedota ("Parable, Fable, and Anecdote: Storytelling in the Succession Narrative", Interpretation 35 , p. 379)
Origem A história tem vários paralelos em contos populares de várias culturas. Todos os paralelos conhecidos, entre os quais vários da Índia, foram registrados em períodos posteriores à história bíblica; no entanto, não está claro se elas refletem tradições anteriores ou posteriores. Hermann Gunkel exclui a possibilidade de que um tema tão sofisticado tenha se desenvolvido independentemente em lugares diferentes.Hermann Gunkel, The Folktale in the Old Testament (Historic Texts and Interpreters in Biblical Scholarship), traduzido por Michael D. Rutter, Sheffield, UK: Almond, 1987, p. 156. Alguns estudiosos têm a opinião de que a fonte da história não pode ser rastreada.James A. Montgomery and Henry Snyder Gehman, Kings (International Critical Commentary), Edinburgh: T. & T. Clark, 1951, p. 109.Gwilym H. Jones, 1 and 2 Kings (New Century Bible), I, Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1984, p. 131.
Na versão bíblica, as duas mulheres são identificadas como prostitutas, em oposição a algumas versões indianas nas quais são viúvas de um marido. Alguns estudiosos inferiram dessa diferença quanto à origem da história. Seguindo Gressmann,Hugo Gressmann, "Das salomonische Urteil", Deutsche Rundschau 130 (1907), pp. 218 Gunkel especula uma possível origem indiana, com base em que "tais histórias de julgamentos sábios são o material da vida real do povo indiano" e que, em sua opinião, "uma prostituta não tem motivos para valorizar uma criança que não nasceu dela"; ele reconhece, no entanto, que as versões indianas "pertencem a um período posterior". Por outro lado, Lasine opina que a história hebraica é mais motivada que a indiana, pois é a única em que a motivação para o comportamento de ambas as mulheres está enraizada em sentimentos maternos típicos: a compaixão da verdadeira mãe e o ciúme da impostora.Stuart Lasine, "The Riddle of Solomon’s Judgment and the Riddle of Human Nature in the Hebrew Bible", Journal for the Study of the Old Testament 45 (1989), p. 70. Outros estudiosos apontam que esse conto popular itinerante pode se tornar, em suas várias formas, mais ou menos coerente; a afirmação de que uma versão é mais coerente que a outra não leva à conclusão de que a primeira é mais original. Consequentemente, o argumento de quais mulheres da versão tinham razões mais convincentes para brigar pela criança seria irrelevante.
Composição e enquadramento editorial