Viradouro de Alma Lavada foi o enredo apresentado pela Unidos do Viradouro no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 2020, com o qual a escola conquistou o seu segundo título de campeã do Grupo Especial do carnaval carioca, 23 anos depois da primeira conquista, no carnaval de 1997. O enredo da escola homenageou as Ganhadeiras de Itapuã, lembrando o sistema de ganho da Bahia no período da escravidão; as manifestações culturais e religiosas de Itapuã que influenciaram a grupo musical das Ganhadeiras; e os outros grupos regionais femininos do Brasil. O enredo foi desenvolvido pelos carnavalescos Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon, que foram campeões pela primeira vez na elite do carnaval. Também foi a primeira vez que o casal trabalhou junto e a estreia de Marcus no Especial. O samba-enredo do desfile foi composto por Cláudio Russo, Paulo César Feital, Diego Nicolau, Júlio Alves, Dadinho, Rildo Seixas, Manolo, Anderson Lemos e Carlinhos Fionda.

A Viradouro foi a segunda escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, na noite do domingo, dia 23 de fevereiro de 2020, sendo a primeira escola de samba a ser campeã desfilando nesta posição. O desfile da agremiação foi amplamente elogiado pela imprensa especializada, ganhando adjetivos como "excelente", "impecável" e "arrebatador". Especialistas destacaram a comissão de frente, em que a atleta Anna Giulia Veloso mergulhava em um aquário; o casal de mestre-sala e porta-bandeira Julinho Nascimento e Rute Alves; a bateria de Mestre Ciça; o luxo das fantasias e alegorias; e o sucesso do samba-enredo. A escola recebeu diversas premiações, incluindo o Estandarte de Ouro de melhor enredo e de melhor comissão de frente; e o Prêmio SRzd de melhor escola do ano.

A escola foi campeã com a mesma pontuação da vice, Acadêmicos do Grande Rio, superando a rival nos critérios de desempate, por ter tido melhor desempenho no quesito Evolução. A Viradouro recebeu dez notas abaixo da máxima, sendo que seis foram descartadas seguindo o regulamento do concurso. Com isso, a agremiação perdeu apenas quatro décimos na avaliação oficial.

Antecedentes

Retrospecto miniaturadaimagem|276x276px|Abre-Alas da Viradouro no desfile de 1997

A Unidos do Viradouro conquistou seu primeiro título no carnaval do Rio de Janeiro em 1997, com "Trevas! Luz! A Explosão do Universo", desfile assinado pelo carnavalesco Joãosinho Trinta. A escola se manteve no Grupo Especial até o carnaval de 2010, quando foi rebaixada para a segunda divisão. A Viradouro chegou a retornar ao Grupo Especial em 2015, após vencer a Série A de 2014, mas foi rebaixada no mesmo ano. A situação da escola mudou após o carnaval de 2017, com a eleição de Marcelo Calil Petrus Filho (Marcelinho Calil). A nova diretoria sanou as dívidas da agremiação e contratou profissionais gabaritados, como o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho Nascimento e Rute Alves. Com um enredo de Edson Pereira sobre personalidades e personagens considerados "geniais", a Viradouro venceu a Série A de 2018, garantindo seu retorno ao Grupo Especial. Para o carnaval de 2019, a escola contratou o carnavalesco Paulo Barros e o diretor de bateria Mestre Ciça. Ambos já tinham passagens pela escola na década de 2000. Com o enredo "Viraviradouro!", de Paulo Barros, sobre histórias encantadas e grandes transformações, tendo como fio condutor a ave fênix, figura da mitologia grega que tem o poder de se regenerar das cinzas, a Viradouro conquistou o vice-campeonato do Grupo Especial, com três décimos de diferença para a campeã, Mangueira.

Preparação para 2020 Paulo Barros renovou com a Viradouro seu contrato para o carnaval de 2020, mas também foi contratado pela Gaviões da Fiel, de São Paulo. A ideia do carnavalesco era assumir as duas escolas. Ele ficaria na Viradouro de segunda a quinta e na Gaviões no final de semana. A Viradouro queria exclusividade e não aceitou "dividir" o carnavalesco com outra escola. Sem chegarem a um acordo, Paulo e Viradouro decidiram romper a parceria. Uma semana após a saída do carnavalesco, a Viradouro anunciou a contratação do casal Marcus Ferreira e Tarcisio Zanon, que nos anos anteriores trabalharam em agremiações da Série A, segunda divisão das escolas de samba do Rio. Pela primeira vez os dois assinariam um desfile juntos. Tarcísio deixou a Estácio de Sá, escola pela qual venceu a Série A de 2019 e que já havia renovado o contrato para trabalhar em dupla com Rosa Magalhães. Marcus estava contratado pelo Império da Tijuca, mas se desligou da agremiação do Morro da Formiga, onde permaneceu por apenas dois meses, pouco após o lançamento de seu enredo. Tarcísio já havia assinado o desfile da Estácio em 2016 no Grupo Especial, enquanto Marcus faria sua estreia na elite do carnaval.

No dia 2 de junho de 2019, a Viradouro divulgou oficialmente seu enredo para o carnaval de 2020 através de um vídeo publicado nas redes sociais da escola. A sinopse do enredo, assinada por Marcus Ferreira, Tarcísio Zanon e Igor Ricardo, foi divulgada pouco mais de um mês depois, no dia 10 de julho. A escola também divulgou seis logomarcas diferentes para o enredo, sendo uma para cada setor do desfile. No dia 18 de julho de 2019 a LIESA sorteou a ordem de apresentação das escolas de samba para o desfile de 2020. A Viradouro foi sorteada para ser a segunda agremiação a se apresentar na primeira noite do Grupo Especial, mesma posição em que desfilou no ano anterior. O desfile da Viradouro recebeu patrocínio de 2,5 milhões de reais da Prefeitura de Niterói (sua cidade-sede), diferente das escolas do Rio de Janeiro, que não receberam subvenção oficial. Após dois anos seguidos cortando a verba pública do Grupo Especial pela metade, o então prefeito do Rio, Marcelo Crivella, decidiu cortar integralmente a subvenção das escolas que desfilam no Sambódromo. Ao longo das semanas que antecederam ao desfile, a Viradouro realizou diversos ensaios em sua quadra, no Barreto, e na Avenida Amaral Peixoto. O enredo "Viradouro de Alma Lavada" conta a história do grupo As Ganhadeiras de Itapuã, tratando-as como as "primeiras feministas do Brasil" pela força que tiveram para ir atrás de sua liberdade e pela importância para a cultura da Bahia. O enredo parte da origem do grupo, quando as antigas lavadeiras de roupas da Lagoa do Abaeté, em Itapuã, faziam trabalho de ganho vendendo frutas, milho, condimentos e peixes e caranguejos trazido por seus maridos, comprando a alforria de escravizados da região quando conseguiam juntar dinheiro. Para ajudar a sustentar a família, essas mulheres – muitas delas ex-escravizadas – faziam trabalhos manuais e vendiam cestos de palha, colares e adereços, como as chamadas joias de crioula – adornos geralmente de prata usados por africanas. Foi durante a lavagem de ganho que muitas ganhadeiras se tornaram compositoras, pois a música fazia do trabalho um momento de partilha e, ao mesmo tempo, um gesto de apoio mútuo entre aquelas mulheres, nascendo o samba de mar aberto, que mescla características com as cirandas nordestina. miniaturadaimagem|O grupo musical Ganhadeiras de Itapuã, tema do enredo da Viradouro no Prêmio da Música Brasileira 2015.|270x270px "Viradouro de Alma Lavada é inspirado na obra musical das Ganhadeiras de Itapuã, que cantam a saga de mulheres que lutaram por sua alforria e a de seu povo. Cânticos de domínio público foram resgatados da memória afetiva das descendentes das primeiras lavadeiras de ganho da Lagoa do Abaeté. Apresentamos três propostas de enredos inéditos à presidência da escola. Sempre buscamos temas não explorados para o carnaval. O carnaval carioca necessita de ineditismo a nosso ver. A diretoria escolheu esse enredo por se aproximar do momento que a escola vive. De renovação e retomada ao Grupo Especial, se sente de alma lavada por reconstruir uma trajetória de sucesso."

No desfile, o enredo foi desenvolvido em seis setores:

Setor 1: "Prelúdio das Águas"

O primeiro setor abordou o mergulho nas águas da Lagoa do Abaeté e no Mar de Itapuã para resgatar a ancestralidade das Ganhadeiras históricas da Bahia em meio a lendas míticas, em torno da lavagem de roupas na Lagoa e na busca do quinhão através das puxadas de rede ao mar aberto.

Setor 2: "Bando do Mercadejo"

O segundo setor retratou os diversos ofícios existentes do sistema de ganho, como a mercação de frutas, animais, condimentos, o encontro nas bicas públicas repletas da camaradagem, tendo a Bica de Itapuã como o local de encontro da população negra/cafuza itapuãzeira. Neles, os escravos de ganho eram vistos (e até confundidos) com os próprios produtos de venda diante da grande quantidade que carregavam.miniaturadaimagem|338x338px|Terceira alegoria do desfile, que abordou a produção das joias de crioula pelas ganhadeiras em Itapuã.

Setor 3: "Caixinheiros de Terreiro"

O terceiro setor abordou os terreiros que se tornam ateliês das diferentes manufaturas utilizadas como venda de ganho e forma de sustento para mulheres e para seus companheiros, fazendo referência direta às manufaturas vendidas no sistema de ganho, e ao visual adotado pelos negros nesta época, que era inspirado na moda europeia.

Setor 4: "Festa na Aldeia"

O quarto setor fez referência às principais manifestações folclóricas da negritude de Itapuã, abordando influências culturais e históricas que levaram ao surgimento do grupo musical das Ganhadeiras de Itapuã. A incorporação dessas manifestações por parte das musicistas ajuda a entender a classificação do chamado "samba de mar aberto", cirandado à beira-mar, misto de batuque de roda, cirandas nordestinas e dos afoxés.

Setor 5: "Sagrada Matriz"

O quinto setor abordou os festejos religiosos de Itapuã, como o de Nossa Senhora da Conceição – padroeira do grupo e do bairro.

Setor 6: "Tesouros do Brasil"

O sexto setor celebrou a congregação das Ganhadeiras com outros grupos de mulheres do país, que como elas se unem para o trabalho em conjunto numa união movida à cânticos em grupos de lutas e bravuras que mostram a força da mulher brasileira.

O samba-enredo

Processo de escolha miniaturadaimagem|270x270px|Cláudio Russo é um dos compositores do samba da Viradouro.

A disputa de samba-enredo da Unidos do Viradouro teve início em 6 de agosto de 2019 com a inscrição de vinte e sete sambas concorrentes. O processo de escolha foi realizado em forma de classificatória, com os sambas sendo apresentados na quadra e avaliados pela direção da escola com eliminatórias semanais. A primeira eliminatória aconteceu em 17 de agosto com doze obras classificadas. A final da disputa foi realizada na madrugada do domingo, dia 22 de setembro de 2019, na quadra da escola. O evento foi aberto com um show do grupo Ganhadeiras de Itapuã, tema do enredo da escola. Três obras disputaram a final do concurso e venceu o samba dos compositores Cláudio Russo, Paulo César Feital, Diego Nicolau, Júlio Alves, Dadinho, Rildo Seixas, Manolo, Anderson Lemos e Carlinhos Fionda. É o oitavo samba de Dadinho na Viradouro; o terceiro de Manolo; o segundo de Anderson, Feital e Nicolau; e o primeiro de Russo, Júlio, Rildo e Carlinhos. Dias depois da escolha, o samba da escola foi gravado por Zé Paulo Sierra, intérprete oficial da escola desde 2014. A obra é a faixa dois do álbum Sambas de Enredo 2020, lançado em 12 de dezembro de 2019. Integrante do grupo musical das Ganhadeiras de Itapuã, Maria do Xindó fez uma rápida participação no início da faixa, cantando o trecho de maior sucesso da obra ("Ó, Mãe! Ensaboa, Mãe..."). A faixa teve arranjo do maestro Jorge Cardoso, que também é diretor musical da escola."O samba da Viradouro tem uma particularidade, pois ele entra em um tom menor, fazendo um prelúdio, um lamento, que em seguida traz um tom maior para a cabeça da obra. Acredito que seja o grande momento da Viradouro na Avenida. O Zé Paulo canta a obra com extrema propriedade, pois estudou muito esse enredo."

Letra e melodia