A insurreição islamista na Tunísia ou insurgência jihadista na Tunísia foi um conflito armado que opõe, desde 2012, o governo da Tunísia aos grupos jihadistas salafistas.Charlotte Bozonnet, « La plus grande menace des djihadistes de l'Ouest tunisien est leur capacité de résilience », Le Monde, 10 de julho de 2018.

No que se refere a atividade militante e terrorista do ramo do Estado Islâmico na Tunísia, esta teria inicio no verão de 2015, com os ataques de Sousse, embora um incidente terrorista anterior no Museu Nacional do Bardo em março de 2015 fosse reivindicado pelo Estado Islâmico, enquanto o governo da Tunísia responsabilizou a Brigada Okba Ibn Nafaa. Na sequência de pesados confrontos fronteiriços próximos a Ben Gardane em março de 2016, a atividade do grupo Estado Islâmico foi descrita como insurgência armada, devido a mudança das táticas anteriores de ataques suicidas esporádicos a tentativas de obter controle territorial.

Desenvolvimento Formação de grupos jihadistas na Tunísia Em fevereiro de 2011, a Revolução Tunisiana derrubou o presidente Zine el-Abidine Ben Ali. Entre os diversos oponentes políticos que deixaram as prisões do regime, os salafistas jihadistas se organizaram muito rapidamente.Frida Dahmani, « Tunisie : Abou Iyadh, l'ennemi public numéro un », Jeune Afrique, 1 de outubro de 2012. Hélène Sallon, « Ansar Al-Charia, le djihadisme au défi de la Tunisie », Le Monde, 20 de maio de 2013. Em abril de 2011, foi fundado o grupo Ansar al-Sharia, liderado por Abou Iyadh. Próximo da al-Qaeda, este último reivindica ações não violentas e pregações ao afirmar que "a Tunísia não é uma terra de jihad". Aproveitou a fraqueza do Estado para estabelecer ações econômicas e sociais e operações de caridade em favor das populações mais pobres.

Depois de 2011, milhares de jihadistas tunisianos também partiram para combater na Síria e na Líbia.David Thomson, « Tunisie : un rapport pour comprendre la naissance et l'essor du jihadisme », Radio France internationale, 31 de janeiro de 2017. Assim, durante a Segunda Guerra Civil Líbia, de acordo com um relatório do Instituto de Washington para a Política do Oriente Próximo publicado em janeiro de 2018, os tunisianos formam a grande maioria dos combatentes estrangeiros do Estado Islâmico na Líbia com 1 500 indivíduos.« Les Tunisiens forment le premier contingent jihadiste de l'EI en Libye », Radio France internationale, 30 de janeiro de 2018. Segundo várias estimativas, cerca de 3.000 a 6.000 tunisianos também se juntaram a grupos jihadistas na Síria.Catherine Gouëset, « Face au retour des djihadistes sur son sol, la Tunisie frise la crise de nerfs », L'Express, 12 de fevereiro de 2017. Maxime Bourdier, « Nombre, origine... les affolants chiffres des jihadistes en Syrie ont été publiés », Huffington Post com l'Agence France-Presse, 8 de dezembro de 2015. « Le nombre de jihadistes en Irak et en Syrie a doublé depuis juin 2014, selon une étude », France 24, 8 de dezembro de 2015. « Qui sont les combattants étrangers de l'État islamique ? », I-Télé, 14 de dezembro de 2015. Na Líbia assim como na Síria, a Tunísia constitui o primeiro contingente de voluntários estrangeiros dentro do Estado Islâmico.« Attaque au musée du Bardo : la Tunisie, premier fournisseur de djihadistes à Daesh », 20 minutes, 18 de março de 2015.

Em 2012, baseado na Argélia, a al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) aproveitou a hesitação pós-revolucionária para se estabelecer na Tunísia. A katiba Okba Ibn Nafaa é fundada e se torna o ramo tunisino da AQMI, da qual Lokman Abou Sakhr assume o comando. Os jihadistas se instalam principalmente próximo da fronteira com a Argélia, e especialmente no Djebel Chambi.

Segundo Matt Herbert, pesquisador da Fundação Carnegie para a Paz Internacional: “O fato de se tratar de uma fronteira também é um aspecto muito importante. Os jihadistas a utilizam para escapar das patrulhas e receber apoio logístico, incluindo armas. Segundo um relatório do International Crisis Group, as taxas sobre os traficantes locais são uma fonte de financiamento. Finalmente, a região está enfrentando, como todas as outras do interior da Tunísia, grandes dificuldades econômicas. A AQMI ganhou parte de seus apoiadores graças ao dinheiro. Em uma região onde o desemprego é massivo, alguns podem ter assumido o risco de vender bens e serviços a esses grupos.”

Em 2014, alguns combatentes da katiba Okba Ibn Nafaa se separaram e fundaram o grupo Djound al-Khilafa, que jura lealdade ao Estado Islâmico. A AQMI estava então ativa principalmente na província de Jendouba, enquanto o Estado Islâmico estava presente na província de Sidi Bouzid e na província de Kasserine. Os dois grupos são constituídos principalmente por tunisianos. Suas estratégias diferem, no entanto, de acordo com Matt Herbert: "Okba Ibn Nafaa evita ataques contra civis a fim de não colocar a população contra si, enquanto que Jund Al-Khilafa os tornou um alvo para intimidá-los e impedi-los de cooperar com as forças de segurança."

Ataques jihadistas de 2012 a 2016 Em 14 de setembro de 2012, em resposta ao filme Innocence of Muslims, mil manifestantes invadiram a embaixada estadunidense em Túnis, incendiando dois de seus edifícios e hasteando a bandeira negra dos salafistas jihadistas.Frida Dahmani, « Tunisie : deux morts dans l'attaque de l'ambassade américaine par des islamistes », Jeune Afrique, 14 de setembro de 2012.« Tunisie : deux morts dans l'attaque de l'ambassade américaine », Radio France internationale, 15 de setembro de 2012. A manifestação foi finalmente dispersada pelo exército; a violência resultou em cinco mortos e pelo menos 28 feridos. Suspeito de provocar o ataque, o chefe do Ansar al-Sharia, Abou Iyadh, desmente, mas depois passa à clandestinidade.Isabelle Mandraud, « Abou Ayad, le chef salafiste qui embarrasse Tunis », Le Monde, 25 de setembro de 2012.Samy Ghorbal, « Tunisie : Abou Iyadh, victime collatérale du raid américain en Libye ? », Jeune Afrique, 3 de julho de 2015.

No final de 2012, os primeiros confrontos entre as forças de segurança da Tunísia e a katiba Okba Ibn Nafaa da al-Qaeda no Magrebe Islâmico, eclodiram em Jebel Chambi.

Em 6 de fevereiro de 2013, Chokri Belaïd, secretário-geral do Partido Unificado dos Patriotas Democráticos, um partido tunisiano de esquerda, foi morto a tiros em frente à sua casa.Frida Dahmani, « Tunisie : le mystère entoure toujours l'assassinat de Chokri Belaid », Jeune Afrique, 6 de fevereiro de 2018. Meses depois, em 25 de julho de 2013, Mohamed Brahmi, um líder nacionalista de esquerda, também seria assassinado.Frida Dahmani, « Assassinat de Mohamed Brahmi : la Tunisie plonge dans l'inconnu », Jeune Afrique, 26 de julho de 2013. Essas mortes provocam uma grave crise política na Tunísia: dezenas de milhares de pessoas tomam às ruas e acusam o Ennahdha, o partido islamita então no poder, de ser parcialmente responsável pela morte dos principais líderes da oposição.Frida Dahmani, « Tunisie : Chokri Belaïd, chronique d'une mort annoncée », Jeune Afrique, 14 de fevereiro de 2013.

Em abril de 2013, o exército tunisiano começou a realizar operações militares contra os jihadistas no Djebel Chambi.Benjamin Roger, « Tunisie : le gouvernement interdit le rassemblement d'Ansar al-Charia », Jeune Afrique com l'Agence France Presse, 15 de maio de 2013. Dezesseis soldados e gendarmes foram feridos na região entre o final de abril e início de maio. O governo passou então a acusar o Ansar al-Sharia de estar ligado aos jihadistas de Djebel Chambi, o que o grupo nega. Até então acusado de negligência, o Ennahdha passa a endurecer sua posição contra os jihadistas. Em 18 de maio de 2013, o chefe de governo da Tunísia, Ali Larayedh, acusou pela primeira vez o Ansar al-Sharia de estar "ligado ao terrorismo". No dia seguinte, uma reunião do Ansar al-Sharia ocorreu em Kairouan, apesar da proibição governamental. A situação deteriora-se em Kairouan e em Túnis, os confrontos com as forças policiais deixam um morto e vários feridos, enquanto 300 salafistas são presos.« Heurts entre salafistes et policiers en Tunisie : un mort et des blessés », France 24 , 19 de maio de 2013.Lilia Blaise, « Ansar al-Charia et Ennahda, la rupture », France 24, 22 de maio de 2013.

Em 27 de agosto de 2013, Ansar al-Sharia foi oficialmente classificado pelo governo tunisiano como uma "organização terrorista"; Ali Larayedh acusa o grupo de estar ligado à al-Qaeda e de ser responsável pelos assassinatos de Chokri Belaïd e Mohamed Brahmi.Monia Ben Hamadi, « Ali Larayedh : Ansar Al-Charia est officiellement classée en tant qu'organisation terroriste », Al Huffington Post, 27 de agosto de 2013.« Tunisie : le gouvernement accuse Ansar Al-Charia des meurtres d'opposants », France 24 , 21 de novembro de 2013. No entanto, o assassinato dos dois políticos tunisianos é finalmente reivindicado por Boubaker El Hakim, conforme dito por Abu Mouqatel, um jihadista franco-tunisiano do Estado Islâmico, em um vídeo divulgado em 18 de dezembro de 2014.« Tunisie : Boubaker Al Hakim revendique les assassinats de Chokri Belaïd et Mohamed Brahmi », Al Huffington Post, 18 de dezembro de 2014« Des jihadistes revendiquent les assassinats d'opposants tunisiens de 2013 », France 24, 18 de dezembro de 2014« Tunisie : des djihadistes ralliés à l'EI revendiquent l'assassinat de deux opposants », Le Monde, 18 de dezembro de 2014

Entre 2013 e 2014, o grupo Ansar al-Sharia gradualmente se dissolveu: muitos de seus membros partiram para a Síria ou para a Líbia e ingressaram no Estado Islâmico ou no grupo Ansar al-Sharia da Líbia; o próprio Abu Iyadh encontra refúgio na Líbia. No entanto, alguns combatentes permanecem na Tunísia e se juntam à katiba Okba Ibn Nafaa, o braço tunisiano da al-Qaeda no Magrebe Islâmico comandado por Lokman Abou Sakhr.« Qui sont les groupes jihadistes en Tunisie ? », Libération, 18 de março de 2015

Em 29 de julho de 2013, um grupo de militares tunisianos foi emboscado em Sabaa Diar, em Jebel Chambi. Seu caminhão foi metralhado por cerca de trinta jihadistas: oito soldados foram mortos e vários dos cadáveres foram decapitados.« Tunisie : 8 martyrs dont 5 égorgés à Djebel Chaambi », Investir en Tunisie, 30 de julho de 2013« Mohamed Ali Aroui : ‘Kamel Gadhgadhi a égorgé l'un des militaires dans l'embuscade de Chaambi' », Tuniscope, 30 de agosto de 2013 Em 1 de agosto, o exército lançou uma ofensiva em Jebel Chambi.« Tunisie : vaste opération militaire au mont Chaambi », Jeune Afrique, 3 de agosto de 2013. Os combates pontuais continuaram durante vários anos, provocando dezenas de mortos em ambos os lados, porém o exército não conseguiu erradicar os jihadistas da montanha.