miniaturadaimagem|350x350px|Um navio com camuflagem disruptiva (1918) A camuflagem disruptiva, também conhecida como camuflagem deslumbrante ou ofuscante (), é uma técnica de pintura de embarcações que foi usada na Primeira Guerra Mundial e, em menor grau, na Segunda Guerra Mundial e posteriormente. Ela consiste de padrões complexos de formas geométricas em cores contrastantes, que se interrompem e cruzam, e, diferentemente de outras formas de camuflagem, seu objetivo não é ocultar o objeto mas sim enganar unidades ofensivas inimigas quanto ao seu alcance, velocidade e rumo, de forma a levá-las a ocupar posições de assalto ruins.
Desenvolvida progressivamente pelo pintor e naturalista americano Abbott Handerson Thayer, pelo zoólogo britânico John Graham Kerr e pelo pintor e oficial naval Norman Wilkinson, a camuflagem disruptiva foi adotada pelo Almirantado Britânico e, mais tarde, pela Marinha dos Estados Unidos e outras forças navais, no contexto da guerra submarina irrestrita promovida pela Marinha Imperial Alemã durante a Primeira Guerra Mundial. Mais especificamente, ela foi concebida como parte de um esforço para proteger as frotas mercantes dos Aliados contra os ataques dos u-boot alemães, não ao evitar esses ataques, mas sim ao frustrar a sua efetividade. Essa proteção se daria essencialmente pela perturbação no uso do telêmetro pelo oficial do submarino inimigo, isto é, ao levá-lo a estimar erroneamente a distância do seu alvo; por meio da perturbação da estimação da direção em que o navio camuflado se movia; e pela perturbação do cálculo da sua velocidade, isto é, ao sugerir ao inimigo que o navio deslocava-se a uma velocidade incorreta.
O padrão aplicado a cada navio era único e projetado sob medida. Como resultado, navios utilizaram uma profusão de esquemas de cor e forma, e, por conta disso e de outras variáveis, estudos da época foram inconclusivos em demonstrar o seu sucesso e identificar os esquemas de cores mais eficazes e em quais situações. Essas investigações, contudo, notaram uma preferência pela camuflagem disruptiva dentre oficiais navais e um claro aumento do moral dos marinheiros, que se sentiam mais bem protegidos. Além disso, a camuflagem deslumbrante tem encontrado um interesse científico duradouro, e estudos mais recentes, por meio de simulações de computador, têm sugerido a sua efetividade.
Do ponto de vista artístico, esta técnica de camuflagem foi influenciada principalmente pelas concepções da arte moderna. Ela atraiu a atenção de artistas como Picasso, que alegou que cubistas, como ele, a haviam inventado, e de artistas que tiveram envolvimento direto nos esforços Aliados na Primeira Guerra Mundial, como o britânico Edward Wadsworth, o americano Burnell Poole e o canadense Arthur Lismer, que produziram telas retratando navios camuflados. Como parte do seu legado, a camuflagem disruptiva continua a ser usada no meio naval, sobretudo em embarcações com tecnologia furtiva, e em aplicações civis, como protótipos de automóveis e tecnologias de bloqueio de detecção facial.
Concepção
Contexto Até o início da Primeira Guerra Mundial o Império Alemão havia investido pouco na construção e desenvolvimento de submarinos, e os planos do grande almirante Alfred von Tirpitz haviam se concentrado sobretudo na constituição de uma marinha de alto mar. Quando do início do conflito, em 1914, o país contava com apenas 28 embarcações desse tipo, e a chefia da Marinha Imperial Alemã via seu uso sobretudo em uma tática de guerrilha contra a Marinha Real Britânica, quando esta viesse a instituir um bloqueio naval estreito dos portos alemães. Contudo, com o desenrolar da guerra o Reino Unido evitou levar a cabo um tal bloqueio em torno dos portos, preferindo bloqueá-los à distância nas saídas do Mar do Norte. Assim, os submarinos alemães foram despachados para essas regiões com ordens de patrulhá-las e afundar navios de guerra britânicos que por lá estivessem. alt=|miniaturadaimagem|260x260px|A camuflagem disruptiva foi uma resposta à guerra submarina irrestrita deflagrada pelos u-boot alemães. Na imagem, o torpedeamento do RMS Lusitania.|esquerda Contudo, logo de início alguns comandantes de submarinos alemães preferiram capturar navios mercantes britânicos, e isso levou o governo em Londres a armar as embarcações desse tipo, inclusive por meio de uma estratégia chamada "Navios Q", que consistia em dotá-las de armamento disfarçado, de maneira que pudessem reagir inesperadamente a tentativas de captura. Por essa época os submarinos normalmente careciam emergir para atacar seus oponentes, e os ataques alemães haviam mostrado com alguma clareza que os seus submarinos eram frágeis quando expostos e demoravam consideravelmente a reimergir.
O uso de navios de guerra contra navios mercantes, dito guerre de course, é governado por uma série de regras de direito internacional, e o direito de ataque a um navio mercante de país inimigo, em situação de conflito militar declarado, está subordinado à abordagem e busca desse navio mercante. De acordo com o resultado da busca, isto é, caso seja constatado que o navio mercante carrega itens que serão usados militarmente, o comando do navio militar pode decidir pela captura ou afundamento do navio mercante, resguardada a sua tripulação, que deve receber provisões assegurando a sua sobrevivência. Contudo, as medidas de proteção adotadas pelos britânicos tornaram esse procedimento difícil de ser seguido pelos submarinos alemães, visto que ao se aproximarem de navios marcantes se sujeitavam a ataques.
Assim, em resposta à tática adotada pelos britânicos, o governo alemão declarou o entorno da Grã-Bretanha uma zona de confronto e a Marinha Imperial deu ordens aos seus submarinos de atacar sem qualquer aviso todo navio que entrasse na área, independentemente de serem mercantes ou militares, incluindo aqueles com bandeiras de outras nações. Essa prática implicava atacar navios mercantes em flagrante desrespeito às regras do direito internacional, e ficou conhecida como guerra submarina irrestrita. Imediatamente os britânicos passaram a perder quantidades críticas de navios mercantes carregando passageiros, alimento e material bélico. Como forma de resguardar a sua frota, o Reino Unido – e mais tarde os Estados Unidos (EUA) e outros países envolvidos no conflito – instituiu o chamado sistema de comboios, para que seus navios mercantes navegassem em grupo e se apoiassem e protegessem mutuamente, e passou a empregar alguns dos primeiros padrões modernos de camuflagem naval. Três figuras centrais tiveram papel preponderante na concepção e posterior adoção desses padrões: Abbott Handerson Thayer, John Graham Kerr e Norman Wilkinson.
Abbott Handerson Thayer Amplamente referido como o "pai da camuflagem", Abbott Handerson Thayer estudou pintura na École des Beaux-Arts de Paris, sob a tutela de Jean-Léon Gérôme, e, ao voltar ao seu país natal, em meados do século XIX, ganhou reputação como professor e um dos melhores pintores de figuras (artistas cujo objeto principal é a figura humana) dos Estados Unidos. Grandemente inspirado pelo transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson, ele também dedicou parte considerável de sua atenção à pintura de paisagens naturais, e esse interesse o levou a desenvolver uma carreira em paralelo como naturalista.
Como pintor, Thayer tornou-se conhecido por sua técnica e interesse na teoria das cores, notadamente quanto aos valores e intensidades das cores e sua intensificação e cancelamento quando justapostas. No campo de sua atividade como naturalista, ele viria a desenvolver teorias pioneiras sobre a coloração dos animais. Mais especificamente, Thayer pesquisou aquilo que ficou conhecido como "ocultação pela coloração", argumentando que a coloração dos animais tem como objetivo reduzir a sua visibilidade em seus habitats naturais, por meio do que ficaria conhecido como camuflagem, e perturbar a interpretação de suas formas, principalmente por meio de fortes padrões arbitrários de cores que achatam a forma e interrompem os contornos do animal. A distorção das formas dos animais teria dois efeitos protetores, isto é, os faria desaparecer no ambiente e/ou aparentaria ser algo diferente do que são.
Ao longo de seu trabalho nessa área, Thayer propôs duas noções principais. De um lado, ele tratou extensamente do fenômeno do contrassombreamento, a pigmentação mais escura dos animais nas superfícies expostas à maior iluminação e sua menor pigmentação em áreas sombreadas. A chamada Lei de Thayer, proposta em um artigo de 1896 e ainda amplamente estudada pela comunidade científica, afirma que a parte inferior branca e a parte superior colorida dos animais é uma estratégia evolutiva para reduzir o contraste entre a parte superior (iluminada) e a parte inferior (sombreada) e assim achatar as formas dos animais e torná-los menos visíveis à distância. De outro lado, ele também tratou da noção de coloração disruptiva, aquela que quebra os contornos de um animal por meio de um padrão fortemente contrastante, dificultando a identificação da sua forma.
Thayer realizou demonstrações de suas teorias, e seu livro Concealing-Coloration in the Animal Kingdom, publicado em 1909, reuniu suas ideias em um único volume. Suas teorias suscitaram controvérsias dentre a comunidade científica da época, pois parte dela se ressentia da insistência de Thayer de que suas teorias fossem aceitas de maneira absoluta, argumentando – corretamente, como mais tarde se demonstrou – que a coloração dos animais também responde a estratégias evolutivas para alertar predadores e atrair parceiros. Apesar disso, suas teorias continuam relevantes e sendo estudadas.
Um dos colaboradores mais próximos de Thayer foi o pintor americano George de Forest Brush, que levou Thayer a se concentrar na aplicação de suas teorias à camuflagem militar. O emprego militar da camuflagem data de tempos imemoriáveis e diversos exemplos podem ser notados em diferentes culturas e momentos históricos. Noções primitivas de camuflagem de embarcações eram conhecidas desde a Antiguidade, notadamente dentre os Romanos e os Danos, e o próprio Thayer citou em seus escritos os cocares e pinturas de guerra usadas por guerreiros africanos para confundir suas silhuetas. Contudo, até o final do século XIX a camuflagem militar permaneceu usada de maneira intuitiva, e foi Thayer quem, no início da década de 1890, começou a criar teorias, fundadas na observação e em experimentos, sobre a ocultação pela coloração.
Thayer e Brush experimentaram com modelos em larga escala de navios com pinturas contrassombreadas e, durante a Guerra Hispano-Americana, foram convidados a submeter ao Departamento da Marinha suas recomendações para a "pintura protetiva de navios". Contudo, o fim do conflito sepultou qualquer possibilidade de avanço desse projeto. Thayer submeteu novos planos ao governo americano em 1908, mas impôs condições de sigilo tão rigorosas que o governo abandonou o assunto; mais tarde, quando essas condições foram modificadas, a contraprestação monetária exigida foi tão alta que, em agosto de 1911, o assunto foi encerrado em definitivo.