João dos Santos (Anjos, Lisboa, – Alcântara, Lisboa, ) foi o criador da moderna Saúde Mental Infantil em Portugale um dos primeiros psicanalistas portugueses. Foi membro fundador da Sociedade Portuguesa de Psicanálisee o inspirador da criação do Instituto de Apoio à Criança . Como democrata lutou durante o fascismo pela criação de serviços de saúde mental de qualidade. O seu percurso académico e a sua sólida formação em Psiquiatria e Psicanálise permitiram-lhe proceder a rigorosas pesquisas sobre a criança. Criou uma obra escrita inovadora concretizada numa obra institucional em prol da criança e da Saúde Mental Infantil. Instaurou a teoria santiana de conectividade entre a neurologia, psiquiatria, psicanálise, psicologia e educação. A sua pesquisa e prática tiveram como foco a articulação inseparável entre o desenvolvimento infantil, saúde mental e recuperabilidade.

Vida e Obra João dos SantosBRANCO, Maria Eugénia Carvalho e. Santos, João Augusto dos. In: NÓVOA, António Sampaio da (Org.). Dicionário de Educadores Portugueses. Porto: Ed. Asa, 2003. p. 1268-1277. - filho único de Augusto Santos, alfaiate de profissão e trabalhador por conta própria, natural de Lisboa (freguesia do Socorro), e de Justina de Jesus Santos, costureira de alfaiate, natural de Penela - nasce em casa de seus pais, no 4.º andar do n.º 20 da Rua Álvaro Coutinho, na freguesia dos Anjos em Lisboa, a 15 de setembro de 1913.

Seu pai, republicano convicto - bate-se pela República, presente no 5 de Outubro na Rotunda com o grupo liderado por Machado dos Santos -, pertence a uma família de republicanos e livres pensadores, é progressista, aberto a novas ideias e doutrinas, naturista, esperantista, apaixonado pela Natureza e pelos desportos. Opondo-se ao regime do Estado Novo, e movido, como os grupos anarco-sindicalistas da classe operária que integra, por ideais de mudança social, marcando para sempre o perfil do filho como democrata e homem solidário, atento às necessidades e sentir das pessoas e dos grupos.

Em 1919, começa a frequentar a escola primária. João dos Santos sofre de dislexia, quadro que ainda não estava descrito como entidade nosológica, mas que já o marginaliza e provoca sofrimento. Seu pai proporciona-lhe uma vida ao ar livre, passeios, grandes caminhadas a pé e visitas, ocasiões que o levam a observar os fenómenos da Natureza e a conversar com as mais variadas pessoas - pescadores, gente do povo, camponeses -, ajudando-o assim a "ler na Natureza, nas pessoas e nas coisas". Segundo João dos Santos, esta atitude de seu pai encontra-se na origem do seu interesse e vocação pela educação e pela Pedagogia, pela opção que, por volta dos 15 anos fará pelo curso do Magistério Primário (que não chega a concretizar) e pela ideia que, mais tarde, orientará a sua pesquisa sobre a origem das dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita.

Em 1924, matricula-se no Liceu Gil Vicente (Lisboa). Desta época, recorda de modo significativo um seu Mestre, José Rodrigues Miguéis, a quem dedica o artigo "Homenagem a José Rodrigues Miguéis", publicado no Jornal das Letras (Novembro de 1980). Em 1929, ingressa na recém-criada Escola Superior de Educação Física, sediada na Sociedade de Geografia de Lisboa. Começa então a ler tudo o que encontra sobre Pedagogia. Destaca a obra de Faria de Vasconcelos, homem que o impressionara quando, no fim do curso do liceu, o procura para saber qual será para si a melhor via. Os seus livros de Pedologia, Pedagogia e Psicologia, com esquemas e inventários sobre todo o tipo de problemas psicopedagógicos, ajudam-no a atenuar as suas angústias escolares de adolescente e levam-no, pela primeira vez, a imaginar "um organismo estatal - que seria talvez uma espécie de Instituto da Criança - onde se encaixasse tudo o que dissesse respeito à educação e à saúde da criança". Em 1936, conclui o curso de Educação Física. Começa a leccionar no ensino particular, dando ao mesmo tempo aulas gratuitas de Ginástica às crianças dos bairros pobres de Alfama (Lisboa) e Barcarena, aderindo ao movimento lançado pelo jornal Os Sports.

Em 1931, ingressa no curso de Medicina em Coimbra, onde permanecerá apenas um ano. É o primeiro afastamento da casa paterna e, por isso, seu pai recomenda-o a um amigo e correligionário de ideias republicanas e naturistas: Viana de Lemos, professor da Escola Normal de Coimbra e introdutor em Portugal das ideias de Freinet (retomadas por Maria Amália Borges, Rosalina Gomes de Almeida, Maria Isabel Vieira Pereira, Sérgio Niza e outros). João dos Santos torna-se seu amigo e admirador, considera-o modelo de educador e de pedagogo, e homenageá-lo-á recordando que através dele tomou contacto, pela primeira vez, com a Escola Moderna. Entre 1934 e 1939 retoma e conclui o curso de Medicina em Lisboa. Entre os seus mestres, destaca Egas Moniz, Sobral Cid, Juvenal Esteves e Barahona Fernandes. Inicia o estágio nos serviços da faculdade e nos hospitais civis de Lisboa. Em 1940 faz, sob a orientação de Vítor Fontes, a especialização em Psiquiatria infantil, no Instituto Aurélio da Costa Ferreira. Em 1941, especializa-se, sob a orientação de Barahona Fernandes, em Psiquiatria Geral, nos hospitais Miguel Bombarda e Júlio de Matos, o que não o impede de continuar ligado à problemática da educação.

A 11 de setembro de 1941, casou primeira vez em Lisboa com Hermínia Augusta Grijó (Santa Isabel, Lisboa, 22 de agosto de 1913 — Santa Maria dos Olivais, Lisboa, 31 de dezembro de 1976), médica, filha ilegítima de José Valente Grijó, funcionário público, natural de Baião (freguesia de Santa Leocádia), e de Teodolinda Augusta de Mira Teias, natural de Montemor-o-Novo.

Em 1942, funda, com mais dois amigos, uma editora, O Centro Bibliográfico. Nela são publicados alguns livros de António José Saraiva, José Júlio Andrade Santos, José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires e Armindo Rodrigues.

Em 1944, no Hospital Júlio de Matos, organiza os pavilhões da Secção Infantil imprimindo uma nova orientação, com rigor científico que consiste na realização de observações psicopatológicas sistemáticas, na aplicação de novas terapias, no atendimento humanizado, formação do pessoal hospitalar e na preocupação com a educação e formação das crianças. Em 1945, faz estágio no serviço de Neurologia do Hospital Escolar, sob a orientação de António Flores. No Instituto António Aurélio da Costa Ferreira, João dos Santos faz uma ruptura com a médico-pedagogia aí praticada, devido ao recurso exagerado à psicometria e à psiquiatrização das dificuldades de adaptação e aprendizagem escolares das crianças, rotuladas, por vezes de forma definitiva, como débeis mentais. Avança um paradigma relacional que implique os pais das crianças nos problemas destas, mas a burocracia que reina no Instituto não deixa lugar para este tipo de iniciativas. Por isso pede, em 1945, a transferência para os Serviços de Psiquiatria Geral do Hospital Júlio de Matos.

A 8 de Outubro deste ano, reúne-se no Centro Almirante Reis com o grupo do Movimento de Unidade Democrática (MUD), a que pertence, para pedir eleições livres. João dos Santos dirá, numa entrevista ao Diário de Notícias (4 de Novembro de 1984), que a sua adesão ao MUD foi motivada pelos seus ideais políticos e sociais. Fiel à herança paterna, que o ensinara a lutar pelos ideais de democracia e de liberdade como condições indispensáveis da saúde e da educação, João dos Santos subscreve o pedido de eleições. Em 1946, é demitido do cargo de 1º assistente do Hospital Júlio de Matos e proibido de entrar em qualquer hospital de Lisboa. Fica desempregado. Barahona Fernandes, seu chefe de serviço e amigo, declara “Enquanto eu for director, o Dr. João dos Santos entrará no meu serviço quando quiser!”. Mas João dos Santos não quer causar-lhe embaraços e começa a tratar da sua ida para Paris. Antes do Natal deste ano já aí se encontra, com o estatuto de funcionário público conseguido por influência de Henri Wallon, do director do Instituto Francês e do chefe das relações exteriores do gabinete de De Gaulle, em Londres. Durante os quatro anos que dura o seu exílio, estuda e trabalha com os grandes vultos da Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise, não só de Paris, mas de outros lugares do mundo. Chega mesmo a fazer amizade com cientistas de outras áreas, políticos e artistas. Trabalha com Henri Wallon no Laboratório de Biopsicologia da Criança, com Georges Heuyer, André Thomas, Julian de Ajuriaguerra, Serge Lebovici, Henri Ey, no Centro de Pesquisas Científicas de França (CNRS), com o estatuto de investigador em Psicologia. Da sua formação em Paris, destaca: a aprendizagem com Wallon sobre a importância da emoção nas origens do carácter na criança; o Curso de Psiquiatria do Centro Internacional da Infância; o ensino de Henri Ey sobre a concepção organodinâmica da integração biopsicológica e de desintegração da consciência, pela eclosão da angústia; o ensino de Lebovici sobre a importância dos factores dinâmicos, e o trabalho que com ele realiza no Serviço de Georges Heuyer, no Hospital Enfants Malades e, juntamente com René Diatkine, no Centro de Higiene Mental, com jovens delinquentes; a prática clínica na prisão de Fresnes, que consiste em exames psiquiátricos aos detidos; o trabalho com Maurice Bachet, na consulta de Psicossomática do Serviço de Cirurgia do Professor Padovani, com crianças vítimas de amputação. Para além do serviço oficial e dos cursos que frequenta, visita, por sua iniciativa, hospitais e institutos de crianças deficientes e delinquentes.

Em 1947, é admitido pela Comissão de Ensino da Sociedade Psicanalítica de Paris, começando a fazer a sua análise didáctica. Pertence à segunda geração dos psicanalistas franceses ligados a Freud. Diz, com graça, considerar-se como espécie de neto ou bisneto de Freud, por o seu analista ter sido analisado por um analisando de Freud. Faz supervisão com a princesa Maria Bonaparte, amiga e analisada de Freud. Foi admitido como psicanalista na Sociedade Psicanalítica de Paris. Em 1948, participa no Congresso Mundial dos Intelectuais para a Paz, realizado na Polónia.

Em 1950 regressa a Portugal. Luta, como antes de ir para Paris, pela criação de condições que tornassem possível uma política de aliança entre educação e saúde. Assim, participa num grupo que funciona na Seara Nova, com Alberto Candeias, Manuel Valadares, Fernando Navas, Vitorino Nemésio, Flávio Resende, Francisco Mendes, Xavier de Brito, e outros, e com eles estuda, discute e projecta uma "Reforma do Ensino". Empreende, também, uma empenhada actividade cativando médicos, ávidos de aprenderem novas doutrinas, métodos de observação e terapias, sobretudo no domínio da Psiquiatria infantil. Realiza reuniões, palestras e seminários não só para médicos, mas também para pedagogos, educadores e pais, em várias cidades do país, tendo sempre em vista a prevenção precoce e em tempo útil dos distúrbios de desenvolvimento da criança. Promove e dinamiza a criação, nos Serviços de Saúde Mental, de trabalhos de equipa regulares, de preferência semanais, que reúnam todos os técnicos, que devem dialogar, aprendendo-ensinando, com os utentes, as suas famílias e a comunidade. Despende, como diz, um terço da sua vida profissional a elaborar relatórios e pareceres para acudir aos vários problemas da criança normal e deficiente. Se muito desse trabalho, como afirma, ficou perdido nos arquivos da burocracia, consegue, porém, acolhendo ou dinamizando iniciativas, criar muitos serviços e instituições que são ainda hoje o que de melhor possuímos em Portugal na assistência à criança, nos campos da Saúde Mental Infantil e da Pedagogia.