O Fumaça é um podcast narrativo português de jornalismo de investigação fundado em 2016. Produz principalmente documentários episódicos em áudio, com verificação de factos frase a frase, sonoplastia e banda sonora original.

A publicação, sem fins lucrativos, define-se como "independente" por ser auto-gerida, horizontalmente, pelos jornalistas que emprega. Assume uma tendência antiautoritária, dissidente e contrapoder, defendendo o acesso gratuito ao jornalismo, a manutenção de políticas de transparência radical nos média, e a remuneração digna dos profissionais de comunicação social. As entrevistas, séries, reportagens e debates que publica evitam temas de atualidade, focando-se em "escrutinar e desafiar sistemas de opressão".

História Inicialmente intitulado É Apenas Fumaça, o projeto foi lançado em 2016 como uma série de entrevistas semanais sobre política, sociedade e direitos humanos. Da equipa fundadora, faziam parte Diana Pereira, Bernardo Afonso, Maria Almeida, Pedro Zuzarte, Pedro Cardoso, Ricardo Esteves Ribeiro e Tomás Pereira. O nome do grupo cita uma intervenção de José Baptista Pinheiro de Azevedo. A música original de genérico foi criada pelos Lotus Fever, banda a que pertencem João Bernardo Afonso e Pedro Zuzarte.

O primeiro episódio, uma entrevista ao fundador do LIVRE, Rui Tavares, foi lançado a 22 de junho de 2016. Meses depois, o coletivo lançaria a série "Na Rua", que cobre pontualmente manifestações públicas, começando com a Manifestação “Salvar o Clima, Parar o Petróleo”. Só em 2017 se juntaria à redação o primeiro membro com experiência num órgão de comunicação social, Pedro Miguel Santos, antigo jornalista da Visão, que ficaria com o projeto até 2023.

O É Apenas Fumaça profissionalizou-se em 2018, ano em que se registou como um periódico e passou a designar-se Fumaça. Tendo desde aí um diretor editorial por obrigação legal, define o cargo como "fictício", destacando que a sua redação compôs coletivamente o estatuto editorial que a rege. Para deter a publicação foi formada a Verdes Memórias, uma associação sem fins lucrativos. Bernardo Afonso, Ricardo Esteves Ribeiro, Tomás Pereira, Pedro Miguel Santos e Frederico Raposo ficarem empregues na nova redação. Sofia Rocha, Ana Freitas e Tomás Pinho passaram a desenvolver imagem e website da publicação. Atualmente, não constam como trabalhadores, sendo Fred Rocha responsável pelo website desde 2022. Frederico Raposo deixou a equipa em 2019, tal como Tomás Pereira, este para assessorar os deputados do LIVRE à Câmara Municipal de Lisboa.

A equipa editorial, que abarca praticamente todos os trabalhadores, tem-se mantido estável. Margarida David Cardoso, vencedora de um Prémio Gazeta Revelação e então jornalista do Público, juntou-se à equipa por esta altura. G. C.Viegas chegou depois, tendo integrado antes a equipa fundadora da Rádio Observador. A comunicação foi assumida sequencialmente por Mo Tafech, Maria Almeida, e, atualmente, Lucas Grimault de Freitas, vindo do Público. Joana Teresa Batista mantém-se responsável pela produção multimédia, tendo António Assunção assumido responsabilidade pela proteção de fontes e jornalistas.

Após a profissionalização, o Fumaça lançou, em parceria com o Portal Hemiciclo, um programa de entrevistas políticas, "Passos Perdidos", que terminou meses depois para prevenir um potencial conflito de interesses. Sem continuidade na nomenclatura do atual arquivo do podcast, existiu ainda o programa de grande reportagem "Dois Pontos". No passado, mantiveram colaborações de longa data com o jornalista brasileiro Danilo Thomaz, e a repórter Rafaela Cortez.

O coletivo define-se como um "podcast de jornalismo de investigação", focando-se na produção de séries audio-documentais serializadas, começando com "Palestina: Histórias de um país ocupado", a que se seguiram "Dá-lhe Gás", sobre a exploração de recursos naturais na Bajouca, "Aquilo é a Europa", sobre políticas anti-imigração, "A Serpente, o Leão e o Caçador", sobre refugiados climáticos, "Exército de Precários", sobre segurança privada, "Desassossego", sobre doença mental, "Quase da Família", sobre trabalho doméstico, "Indústria da Ajuda na Palestina", sobre como fundos internacionais perpetuam a ocupação israelita, e "Fronteira do Medo", sobre o policiamento de bairros guetizados, esta com a Divergente.. Estes trabalhos têm sido republicados no todo ou em parte por órgãos de comunicação social tradicionais, passando em rádios nacionais como a TSF, Renascença e Antena 1, chegando ao papel de jornais incluindo o Público, Diário de Notícias, Jornal de Notícias, e Correio da Manhã, e motivando reportagens televisivas da RTP e SIC.

Através da sua newsletter, publica esporadicamente textos de opinião, crónica e poesia de pessoas externas à redação. Escreveram para o Fumaça, entre outros, Maria Teresa Horta, Mia Couto, Richard Zenith, Leonor Caldeira, Xullaji, Inês Henriques, Isabél Zuaa, Luaty Beirão, Cláudia R. Sampaio, Sara Barros Leitão, Shahd Wadi, e Mamadou Ba.

Financiamento O Fumaça foi financiada principalmente pela Open Society Foundation. A rede filantrópica fez entre 2018 e 2021 quatro doações ao projeto, totalizando 509 mil euros. Desde 2023, a holandesa Limelight Foundation comprometeu-se a doar 615 mil euros, largamente financiando a redação nos seis anos seguintes. Outras instituições, incluindo as fundações Calouste Gulbenkian, Rosa-Luxemburg, Guerrilla, Fred e o European Journalism Center deram bolsas de apoio ao jornalismo ao podcast. Em 2021, conclui três campanhas de crowdunfing simultâneas, totalizando mais de 21 mil euros, a maior recolha alguma vez feita em Portugal para financiar trabalhos jornalísticos. Lançou a primeira dessas peças - a série "Quase da Família", sobre trabalho doméstico - vários anos depois.

O projeto recusa distribuir publicidade ou fechar conteúdos através de paywalls, e incentiva a republicação gratuita dos seus trabalhos, que passam em FM em várias rádios locais. Sublinhando a sua organização horizontal e respeito por direitos laborais, propõem-se a ser totalmente financiado por doações mensais voluntárias do público. Em 2026 cerca de duas mil pessoas faziam parte da Comunidade Fumaça, cobrindo perto de metade dos custos da equipa.

O Fumaça divulga publicamente orçamentos anuais e contratos de financiamento, no que considera uma política de "transparência radical", tendo um custo anual acima dos 300 mil euros desde 2025. Integra desde 2022 a rede Reference - The European Media Circle, que defende junto de decisores políticos europeus a criação de modelos de financiamento público do jornalismo independente. Defende publicamente, e junto de representantes políticos, o financiamento público do jornalismo, e apela regularmente ao financiamento filantrópico do jornalismo sem fins lucrativos.

Prémios O primeiro e principal galardão conquistado pelo projeto chegou com a conquista do Prémio Gazeta Revelação 2018 com a série "Palestina: Histórias de um país ocupado", assinada por Ricardo Esteves Ribeiro e Maria Almeida.. Esse mesmo trabalho recebeu os prémios do júri e do público na categoria “Narrativa Sonora Digital” da 11.ª edição dos Prémios de Ciberjornalismo do Obciber. O projeto recebeu o Maze Runner Award 2020, o Tributo de Jornalismo das Jornadas de Comunicação do Instituto Politécnico de Portalegre, no ano seguinte, e uma menção honrosa na categoria de jornalismo dos 8.º Prémios Corações Capazes de Construir.

Muitas outras séries e reportagem do Fumaça receberam distinções nos anos seguintes. "Dá-lhe Gás", assinado por Pedro Miguel Santos, recebeu a Menção Honrosa de Melhor Podcast nos Prémios Sapo 2020. "Aquilo é a Europa", de Pedro Miguel Santos e Ricardo Esteves Ribeiro, recebeu o prémio do júri para “Narrativa Sonora Digital” nos Prémios de Ciberjornalismo, e foi nomeada para o Prémio de Jornalismo, Direitos Humanos e Integração da Comissão Nacional da UNESCO na categoria de rádio. Na edição seguinte desse galardão, em 2021, "A Serpente, o Leão e o Caçador", de Margarida David Cardoso, recebeu uma menção honrosa na mesma categoria. Seria "Exército de Precários", escrito por G. C. Viegas, a vencer o prémio, em 2022. A reportagem em duas partes “Yazidis, o genocídio esquecido”, produzida pela freelancer Marta Vidal, recebeu uma menção honrosa nos Prémio AMI – Jornalismo Contra a Indiferença. "Desassossego", série de 13 episódios da autoria de Margarida David Cardoso, recebeu aí, em 2023, o primeiro galardão ex-aqueo, tendo conquistado ainda a categoria de "Narrativa Jornalística Explicativa" nos primeiros Prémios Inovação nos Média, e dois galardões Direitos Humanos & Integração da UNESCO.

O Fumaça é o podcast mais premiado de sempre nos Prémios Podes, entregues pela rede Portcasts e o Público, sendo o único projeto considerado por duas vezes "Podcast do Ano", em 2019 e 2023. Ao longo dos anos, foi ainda premiado, repetidamente, como melhor podcast de entrevista,, "Informação e Educação", "Narrativa", "Política, economia e informação", e "Questões Sociais".

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