A pintura da Grécia Antiga, embora no seu tempo uma das mais populares e prestigiadas formas de arte da Grécia Antiga, é uma das menos conhecidas nos dias de hoje, graças à inexistência quase total de exemplos sobreviventes em mural , e a maior parte do que se sabe deriva de fontes literárias e de cópias romanas. O caso da cerâmica é diferente, e ainda existe um grande acervo de vasos pintados. Porém, a pintura em cerâmica tinha convenções próprias e só vagamente serve como guia na compreensão do estilo pictórico grego como um todo. A pintura foi aplicada sobre diversos tipos de suporte e integrou outras modalidades de arte, como a estatuária, cenografia e arquitetura. Os gregos foram os inventores de técnicas como o modelado tridimensional com o uso de sombras e o ilusionismo trompe l'oeil. Eles fizeram experiências geométricas a partir de um ponto fixo, que quase os levou a descobrir a perspectiva.Panofsky, Erwin - A perspectiva como forma simbólica (1927). Trad. Elisabete Nunes. Lisboa: Edições 70, 1993.

Todas essas técnicas novas foram avidamente recebidas em seu tempo, tornaram-se a base da pintura ocidental ao longo dos séculos e ainda hoje são largamente utilizadas na prática da pintura contemporânea, o que demonstra a importância do seu legado e o brilho de seu engenho para encontrar soluções práticas para o problema, crucial para a pintura figurativa, como foi praticamente toda a pintura grega antiga, da representação em duas dimensões de uma realidade tridimensional. O desenvolvimento de grandes novas capacidades para essa representação e o impacto da produção da época entre seu público fez com que a pintura contribuísse, junto com a escultura, para o florescimento de um rico debate teórico a respeito da ética na arte, sobre os seus fundamentos científicos, suas capacidades pedagógicas e sua utilidade cívica, e sobre a natureza, o caráter e a função da mímese, um debate que mereceu a atenção de homens notáveis como Anaxágoras, Demócrito, Sócrates, Platão e Aristóteles.

História thumb|esquerda|250px|Placa de madeira pintada, encontrada em Corinto. Museu Arqueológico Nacional de Atenas thumb|esquerda|250px|Afresco na Tumba do Mergulhador, em Pesto, com cena de simpósio,

O estudo da pintura da Grécia Antiga é problematizado por dois fatores principais. Em primeiro lugar, certamente, vem a extrema escassez de relíquias; em segundo, a outra fonte importante de informação, a literatura, muitas vezes foi produzida bem depois das obras que cita ou descreve, e não raro apresenta biografias, cronologias e atribuições de autoria pouco confiáveis. Além disso, ainda persistem grande confusão e disputas acerca do significado preciso da terminologia técnica usada naquele tempo, complicando os estudos teóricos.Mylonopoulos, Ioannis. Greek Art. Oxford University Press, sd., p. 29

Acerca da pintura durante o Período Arcaico sabe-se muito pouco. Foram registrados alguns nomes de pintores, como Cleantes, Ecfantos, Teléfanes, Eumaros e Cimon, mas só são citados como introdutores de alguma técnica particular - por exemplo, a Cleantes foi atribuída a realização do primeiro perfil, e de Cimon foi dito que distinguiu as figuras de homens e mulheres com cores diferentes - e só podemos especular como teria sido a sua produção.Lübke, Wilhelm. History of art. Smith, Elder, 1869, volume 1. pp. 194-195 Alguns vestígios da pintura daquele período são encontrados em Termo e em algumas placas de madeira e cerâmica encontradas em Corinto,Steingräber, Stephan. Abundance of life: Etruscan wall painting. Getty Publications, 2006, p. 11 que traem a influência da arte egípcia e asiática, mantendo uma similitude com as técnicas de pintura em vasos, sendo em essência um desenho colorido. Outro exemplo importante por sua raridade, embora de qualidade medíocre, são os murais da Tumba do Mergulhador em Pesto, na Itália, de c. , revelando um bom conhecimento de anatomia e um desenho habilidoso, com olhos em perfil e elementos paisagísticos.Keuls, Eva C. Plato and Greek painting. Brill, 1978, pp. 59-64 Outros murais do Período Arcaico tardio são encontrados em tumbas na Ásia Menor. A arte mural etrusca desta época deve muito à arte grega, mas mesmo desenvolvendo-se em linhas próprias é uma fonte de informação preciosa para o conhecimento da pintura grega arcaica.Steingräber, pp. 10-11

A partir do Período Clássico, na segunda metade do , a pintura rapidamente adquire independência do estilo gráfico típico da cerâmica, passando para um tratamento de fato pictórico das superfícies, com emprego de vivos efeitos de pincel, velaturas, pontilhismos e chiaroscuro, além do desenvolvimento de superfícies pintadas em passagens sutis de uma cor para outra (degradê), em vez de áreas planas uniformes. Também se iniciaram frutíferas pesquisas de ilusionismo visual, escorço e perspectiva, possivelmente por influência da cenografia teatral, cujo sucesso de público foi instantâneo. Sua temática era basicamente a mitologia e a história, bem como a celebração da grandeza da cidade e de seus heróis e cidadãos exemplares. Assim, a pintura encontrava utilidade geralmente na decoração de edifícios públicos e templos. Desde então a pintura se tornou ubíqua em toda a área de influência grega, tendo Atenas como seu principal pólo irradiador.Burckhardt, Jacob. History of Greek Culture. 1898-1902, Reimpressão Courier Dover Publications, 2002. pp. 145-147 thumb|300px|Afresco O Rapto de Perséfone, de autor anônimo, na Pequena Tumba Real em Vergina, thumb|300px|Cena de caça ao leão na Tumba Real de Vergina thumb|300px|Afresco na Tumba de Kalanzak

Nesta fase outros artistas deixaram seu nome na memória dos pósteros, como Agatarcos, um pintor ligado ao teatro que introduziu inovações na perspectiva,Keuls, p. 64 e Polignoto, o mais importante do Período Clássico, ativo em Atenas, que aparece na literatura como autor de várias cenas complexas e movimentadas, como batalhas entre os atenienses e os lacedemônios, entre Teseu e as amazonas, a Batalha de Maratona e a tomada de Troia. Foi auxiliado por Mícon, outro grande mestre do período, na decoração do templo dos Dióscuros. Em Delfos deixou sua obra mais célebre, uma série de afrescos sobre a tomada de Troia e a viagem de Odisseu. Segundo os relatos, usou uma técnica muito simplificada, somente com quatro cores - branco, vermelho, preto e amarelo - e sem perspectiva, mas foi muito louvada pela harmonia da composição, pelo desenho delicado, pela rica expressão das figuras e pela nobreza de suas formas.Lübke, pp. 195-196 Mícon e seu irmão Paneno ganharam reputação própria, e elevada. Trabalharam juntos em murais e foram comparados a Polignoto em estilo.Earp, F.R. "Painting". In: A Companion to Greek Studies. CUP Archive, p. 325 Também deve ser lembrado Apolodoro pela introdução do sombreado, pelo que foi conhecido como "Pintor Sombra".Lübke, p. 196

Depois da Guerra do Peloponeso , Sicião começou a se tornar um importante centro irradiador de influência, desencadeando uma mudança no uso social da arte. O interesse da representação se deslocou do ethos para o pathos, e apareceram outros temas, como cenas domésticas e festejos seculares. Também foram explorados as capacidades da linha e da cor e os aspectos científicos da forma e da representação. Até então principalmente entendida como uma atividade de utilidade pública e coletiva, recaindo as preferências nos grandes afrescos em edifícios públicos, agora a pintura se popularizava e se tornava também um bem de consumo privado. Multiplicam-se os painéis portáteis pintados sobre madeira para uso doméstico ou puramente decorativo, e de custo muito menor. Mas, sobretudo, enfatizou-se a busca de um ilusionismo ainda mais acentuado. O nome mais notável da Escola de Sicião é Eupompo, citado como autor de uma pintura de um atleta vencedor. Segue-se o seu discípulo Pânfilo, também um grande professor. Melâncio foi citado como mestre na composição, e Páusias, como mestre na perspectiva e no escorço, além de ser creditado como o introdutor da técnica da encáustica. Ao mesmo tempo outros centros despontavam na Jônia, em especial em Éfeso.Keuls, p. 62Lübke, pp. 196-198

O mérito maior da chamada Escola Jônia estava na sutilização do colorismo e no aperfeiçoamento do sombreado, conferindo às imagens uma acentuada ilusão de tridimensionalidade, efeito que se tornou um interesse central nesta fase. Muitas anedotas sobrevivem a respeito dos esforços dos pintores em busca de um ilusionismo perfeito. Como exemplo, citam-se frequentemente as disputas entre dois dos nomes mais célebres deste período, Zêuxis e Parrásio. O primeiro teria pintado uma tela mostrando uvas tão perfeitas que induziram aves a bicá-las; o outro, por seu turno, teria enganado até o seu rival com um painel de perspectiva. À parte as anedotas, Zêuxis foi celebrado pela terna delicadeza de seus retratos femininos, pela vivacidade de expressão de suas figuras e pela escolha de temas mitológicos raramente representados. Parrásio ganhou fama como introdutor de um cânone de proporções, como desenhista insuperável e como pintor de retratos cheios de graça e beleza sensual, dando grande atenção aos detalhes. Além disso, teria alcançado grande penetração psicológica no retrato de seus personagens, pintando temas de fúria, melancolia e loucura. Ainda deve ser lembrado o pintor Timantes, elogiado pela sua fertilíssima criatividade em composições complexas, onde explorou temáticas de forte apelo emocional.Lübke, pp. 197-198Earp, p. 326

Apeles, talvez o mais ilustre dos pintores da Grécia antiga, foi um artista de transição entre o classicismo e o helenismo, introdutor de inovações técnicas, autor de um tratado sobre pintura, infelizmente perdido, e pintor oficial de Alexandre o Grande. Nada de sua produção chegou até nós, mas as descrições que foram feitas por Plínio e Pausânias influenciaram artistas até no Renascimento. Foi descrito como dominando e fundindo os estilos das escolas de Sicião e da Jônia, e autor de obras de beleza e graça insuperáveis, conseguidas pelo uso virtuosístico de um cromatismo sutil, um desenho requintado e nobres formas. Sua peça mais famosa foi um Nascimento de Afrodite, produzido para o Templo de Asclépio em Cós e mais tarde levado para Roma para ser depositado no Templo de César como preciosíssima aquisição, cujo custo foi a fortuna de cem talentos, e que talvez sobreviva em uma cópia mural em Pompeia. Pintou vários retratos de Alexandre, que o apreciava enormemente e só para ele posava. Entre os contemporâneos de Apeles devem ser citado Protógenes, cuja pintura de Ialiso, segundo a tradição, petrificou de admiração o próprio Apeles; Écion, autor de uma aplaudida cena de Alexandre e Roxana; Antifilo, que preferia cenas burlescas e domésticas, e Téon, distinguido por suas cenas dramáticas e cheias de movimento.Lübke, pp. 198-199

thumb|esquerda|150px|Retrato fúnebre em encáustica, , de Faium

Entre o pouco que sobreviveu da transição do Período Clássico tardio para o helenismo estão os importantes e sofisticados afrescos das Tumbas Reais de Vergina, compostos por uma grande cena de caça ao leão e pelo rapto de Perséfone, de grande maestria no desenho e na liberdade das pinceladas;Summers, David. Vision, reflection, and desire in western painting. University of North Carolina Press, 2007, p. 36 o bem conhecido Sarcófago das Amazonas, achado em Tarquinia, na Etrúria, mas provavelmente produzido por um pintor da Magna Grécia, e os afrescos da Grande Tumba de Lefcádia, que incluem surpreendentes métopes pintadas imitando ilusionisticamente as métopes em relevo do Partenon.Summers, p. 31 Bruno, Vincent J. Hellenistic painting techniques: the evidence of the Delos fragments. Brill, 1985, p. 57