A Igreja Católica na Bolívia é parte da Igreja Católica universal, em comunhão com a liderança espiritual do Papa, em Roma, e da Santa Sé. A religião em geral está muito presente na vida pública. Em meio às crises políticas do país, a religião tem sido instrumentalizada nos meios políticos, dentre eles notadamente o ex-presidente Evo Morales. No relatório de 2020 da Fundação ACN, nenhum episódio de intolerância religiosa ou discriminação foi relatado na Bolívia, mas há risco de politização da fé. A situação pode vir a mudar com o regresso do governo socialista, mas, em geral, as perspectivas religiosas futuras no país permanecem positivas.

História Descoberta e colonização O catolicismo foi trazido à América do Sul em 1530 com os primeiros espanhóis, que vieram atraídos pelos metais preciosos e outros depósitos minerais abundantes na região montanhosa da Bolívia e que fundaram as comunidades urbanas de La Plata (atual Sucre), Potosí e La Paz. Hernando Pizarro, que conquistou a região em 1538, trouxe consigo padres católicos encarregados do ministério paroquial entre os espanhóis e da evangelização dos povos originários. Um bispado foi erigido em La Plata em 1552, com jurisdição sobre a maior parte da América do Sul, e o dominicano Tomás de San Martín foi nomeado o primeiro bispo. Em sua maioria, os padres, tanto seculares quanto religiosos, eram de origem europeia; especialmente nascidos na Espanha, mas alguns eram mestiços. Uma exceção foi o bispo de La Plata, Fernando Arias de Ugarte, que se disse aborígine e assinou seus documentos pastorais como "Fernando indio arzobispo" ().

Durante o domínio espanhol, mosteiros e residências foram estabelecidos por franciscanos, mercedários, dominicanos, agostinianos, jesuítas e hospitalários. Os franciscanos e jesuítas trabalhavam principalmente nas missões ameríndias, enquanto os mercedários e agostinianos cuidavam das paróquias entre os quíchuas e aimarás nas cidades e vilas rurais. Os dominicanos assumiram como trabalho principal as paróquias entre os povos de origem europeia, enquanto os hospitalários se concentraram em instituições de saúde. Os jesuítas em residências urbanas assumiram o trabalho de educação e estabeleceram a Universidade de São Francisco Xavier em La Plata em 1624. Enquanto isso, as congregações femininas ficaram restritas às freiras que viviam na clausura, como as irmãs clarissas, e as freiras agostinianas. No século XVII, os carmelitas da reforma teresiana entraram na região, e conventos foram estabelecidos em La Plata, La Paz, Potosí e Cochabamba. A função especial das freiras era fornecer às igrejas móveis e paramentos litúrgicos, costurar e bordar e fazer doces finos. No século XVIII, algumas dessas congregações encarregavam-se da educação das crianças e do cuidado dos órfãos.

Na época colonial dois santuários tiveram destaque na vida religiosa do país, tornando-se centros de peregrinação nacional. Na cidade de Copacabana, situada às margens do Lago Titicaca, é venerada a imagem da Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora de Copacabana, esculpida por Tito Yupanqui em meados do século XVII em circunstâncias milagrosas. Na planície oriental da cidade de Cotoca, uma pequena imagem da Mãe de Deus é venerada, chamada Nossa Senhora de Cotoca. Diz a lenda que a imagem foi encontrada em uma densa floresta dentro do tronco de uma árvore por alguns humildes fazendeiros em meados do século XVIII. Ambos os santuários atraem grandes multidões de devotos, especialmente em seus respectivos dias de festa.

thumb|250px|right|Igreja de São Xavier em San Javier, uma das reduções jesuíticas da Bolívia.

Poucos anos depois de chegar à Bolívia, padres seculares e religiosos viajaram para as comunidades ameríndias habitantes das montanhas, como os aimarás e os quíchuas. Eles aprenderam as línguas e conquistaram os nativos para o cristianismo, embora alguns aspectos de suas religiões indígenas – como rituais e superstições em torno de colheitas e sorte – permanecessem entrelaçados em suas crenças espirituais. Ao contrário dos aimarás e quíchuas, os nativos das planícies eram guerreiros nômades que resistiam à dominação estrangeira. Foram necessários muitos anos de trabalho dos missionários jesuítas entre os mojos e chiquitanos; também foi necessária perseverança dos franciscanos entre os avá-guaranis para trazê-los às missões. Entre os primeiros missionários estavam os jesuítas Pedro Marbán e Cipriano Barace, fundadores das Reduções entre os mojos em meados do século XVII; José de Arce, primeiro a catequizar os chiquitanos, e seu sucessor, Lucas Caballero; o irmão franciscano Francisco del Pilar, que fundou missões entre os indígenas avá-guaranis; e o mercedário Diego de Porres. O primeiro sínodo realizado em território boliviano foi em 1629.

Em meados do século XVIII, a evangelização entre os mojos e chiquitanos atingiu seu estopim — nada menos que 22 missões, sob os cuidados de 45 missionários. Quando a coroa espanhola expulsou os jesuítas, em 1767, e os padres seculares assumiram o comando, as missões declinaram. Brancos e mestiços passaram a morar nas comunidades, que foram transformadas em paróquias diretamente ligadas às suas respectivas dioceses. As missões franciscanas entre os avá-guaranis atingiram seu apogeu por volta de 1800, com 16 cidades. Infelizmente, durante a guerra de independência que logo começou, bandos de guerrilheiros, contrários a tudo que era espanhol, destruíram as missões. No final dos combates, em 1825, restavam apenas algumas missões e a autoridade diocesana as converteu em "curatos doutrinários".

As missões entre os avá-guaranis foram restabelecidas entre 1840 e 1850 pelos franciscanos da Espanha, Itália e Áustria. Também estabeleceram novas missões na região e estenderam seus esforços no território dos guaraios e nas regiões do noroeste entre outras tribos indígenas amazônicas. A missão dos avá-guaranis na província da Cordilheira foi secularizada em 1915, e a dos guaraios em 1937, encerrando assim os esforços de séculos de trabalho. Muitos nativos voltaram para as florestas e as antigas cidades missionárias desapareceram. Na década de 1960, as poucas missões restantes eram frequentadas por frades austríacos e espanhóis.

Independência Criada uma dependência dos Charcas, a Bolívia, que a esta altura era chamada Alto Peru, foi anexada ao Vice-Reino de Buenos Aires em 1776. Um ano após a vitória de Antonio José de Sucre na Batalha de Ayacucho, houve o crescimento de um movimento nacionalista que motivou a luta pela independência, concedida em 6 de agosto de 1825. O país é nomeado após o famoso líder revolucionário Simón Bolívar, que trabalhou para libertar a América Hispânica do domínio da Espanha.

Na Bolívia, os movimentos independentistas em relação ao domínio espanhol ocorreram antes do que nas regiões vizinhas, mas os que ocorreram antes de 1780 não tiveram sucesso. Ao contrário do resto da América espanhola, a Igreja não fez nenhum pronunciamento oficial sobre o movimento de independência quando ele se fortaleceu na virada do século XIX. Em geral, a hierarquia e os escalões superiores do clero permaneceram ao lado do governo da metrópole, enquanto a maioria dos padres participou da luta pela independência. Os padres José Antonio Medina, José Andrés de Salvatierra e Juan Bautista Oquendo incitaram os movimentos populares de 1809 e 1810. O padre Muñecas era líder de um bando de guerrilheiros, e padres como Polanco e Mercado e o frei Justo atuaram como capelães dos guerrilheiros.

As vocações religiosas, abundantes durante o período colonial, diminuíram um pouco durante o primeiro século de independência. Ainda assim, durante o século XIX, várias instituições de caridade foram fundadas na recém-independente Bolívia, crescendo para mais de 50 em 1900. A maioria estava a cargo de congregações religiosas femininas, como as Irmãs do Bom Pastor, Irmãs de São Vicente de Paulo e as Servas de Maria. Institutos leigos e congregações religiosas mantinham hospitais, asilos e postos de primeiros socorros. O compromisso com a educação também aumentou notavelmente no decorrer da república, e, particularmente ordens religiosas e congregações como os jesuítas e franciscanos, passaram a gerir mais escolas. A maioria dos cursos de gramática eram gratuitos, especialmente nas em áreas rurais.

Durante o século XIX também surgiram importantes teólogos e publicações bolivianos. Periódicos como o El Cruzado, publicado em Sucre, e o La Cátedra, editado em La Paz, eram comandados por redatores religiosos. Entre os autores eclesiásticos de livros ou panfletos sobre assuntos religiosos destacaram-se Juan de Dios Bosque, em teologia e direito canônico; Jacinto Anaya, em Direito Canônico; Francisco María del Granado, famoso pregador; e Cayetano de la Llosa, autor de comentários sobre a vida devota. José María Izquierdo em Carta Aberta a Flammarion refutou o racionalismo; Pedro Aristides Zejas foi o autor de catecismos instrutivos; e Facundo Quiroga foi um famoso professor.

Século XXI Os efeitos do liberalismo anticatólico surgiram na Bolívia no final do século XIX, e começaram a se manifestar de forma concreta a partir de 1900. A lei de 11 de outubro de 1911 instituiu o casamento civil, enquanto outra lei, de 15 de abril de 1932, passou a permitir o divórcio. As universidades católicas estabelecidas durante o período colonial já estavam integradas ao sistema nacional de universidades estatais por políticos liberais que cortaram seus laços com a Igreja e fecharam as faculdades de teologia e direito canônico. Tais políticas atraíram uma crescente oposição de um vigoroso grupo de pensadores de base católica no início do século XX. Entre esses intelectuais estavam Donato Vázquez, Aurelio Beltrán, José Santos Machicao, Luis Paz e Mariano Baptista, o último dos quais foi eleito presidente da república durante a instabilidade política do governo entre os regimes liberal e conservador. O golpe de Estado de 1936 derrubou o último dos presidentes liberais, o reformista Daniel Salamanca, e instaurou um regime militar.

Em 1952 ocorreu um segundo golpe, levando à morte de 1.000 pessoas e levando ao poder o Movimento Nacionalista Revolucionário na pessoa do presidente Víctor Paz Estenssoro. Estenssoro nacionalizou as minas de estanho, estendeu o direito de voto a todos os adultos e distribuiu grandes porções de terras anteriormente pertencentes aos espanhóis entre as classes mais baixas. Em 1952, um grupo de leigos católicos começou a publicar o jornal diário secular Presencia. que passou a desempenhar um papel inestimável como a voz da Igreja contra os excessos de tortura, exílio e abusos dos direitos humanos da sucessão de ditadores militares durante os anos 1960 e 1970. Já no fim do século XX, o periódico veio a tornar-se uma voz influente para os pobres e povos indígenas da Bolívia.

Durante as décadas de 1940 e 1950, instituições de caridade administradas pela Igreja, como hospitais e postos médicos, estavam profundamente arraigados na vida do país e buscavam combater a chegada do comunismo, que se enraizaram na América Central e do Sul. Entre os agitadores comunistas Che Guevara se muda para a Bolívia em 1967, tentando mobilizar mineiros de estanho para se rebelarem contra o governo. Seus esforços não tiveram sucesso e ele foi executado em um ano. Em 1951 foi aprovada uma concordata com a Santa Sé, estabelecendo os parâmetros das relações entre Igreja e Estado.