A manuscritologia bíblica ou crítica textual da Bíblia, outrora chamada de baixa crítica, é a ciência que cataloga, compara e estuda os manuscritos antigos da Bíblia (Antigo e Novo Testamentos) para determinação do texto mais exato ou mais antigo possível, apresentando ao final uma "edição crítica" emendada e um "aparato crítico" com um conjunto (exaustivo ou não) de variantes principais. Na disciplina de crítica textual, está incluído o estudo do material de escrita, forma de escrita, fontes documentais, história da transmissão, autenticidade, preservação do texto e diferentes versões do texto. Tudo isso é feito com base em pressupostos, teorias e metodologias determinadas pelos estudiosos.
Em crítica textual, o termo "crítica" tem o sentido de "separar e avaliar" os diferentes materiais de análise segundo alguns critérios científicos — é, por conseguinte, um exame ou avaliação minunciosa do conteúdo destes materiais. Segundo Paroschi, o termo "crítica" é usado "porque sua prática requer uma análise equilibrada e decisões inteligentes diante das questões textuais". Por causa da carga negativa que crítica ou crítico carregam popularmente, em consequência da ambiguidade do vocábulo, alguns estudiosos adotaram o termo "manuscritologia bíblica" em vez de "crítica textual da bíblia". Deve-se observar que a crítica textual não é restrita aos textos bíblicos, mas se aplica a toda literatura antiga — religiosa, filosófica, histórica etc. — para determinar o texto mais acurado possível. A crítica textual da Bíblia, como explícito no nome, é simplesmente a ciência aplicada ao estudo dos manuscritos bíblicos do Antigo Testamento (ou Bíblia Hebraica) e Novo Testamento.
Ciências correlatas
A crítica textual ou manuscritologia está relacionada a outras ciências como a filologia e a paleografia.
Filologia
A filologia é a ciência que estuda os textos e tudo que é necessário para torná-los acessíveis, linguística e culturalmente. Segundo Bassetto, o trabalho filológico tem por objetivo a "reconstituição de um texto, total ou parcial", ou a determinação e o esclarecimento de algum aspecto relevante a ele relacionado. Estende-se desde a crítica textual, cujo objeto é o próprio texto, até as "questões histórico-literárias, como a autoria, a autenticidade, a datação etc., e o estudo e a exegese do pormenor". As definições variam bastante notando-se que, muitas vezes, o termo filologia é usado no sentido estrito de crítica textual; contudo, a rigor, a filologia é a ciência mais ampla na qual está incluído o trabalho específico da crítica textual e também da crítica histórico-literária.
Paleografia
A paleografia (παλαιός, palaiós, "antigo"; , grafē, "escrita", lit. "escrita antiga") é o estudo da escrita antiga, especialmente o grego e o latim graças à vasta literatura dessas línguas. A paleografia estuda a escrita preservada em materiais portáteis e mais sujeitos a deterioração temporal. Já a epigrafia estuda as inscrições antigas em objetos fixos e menos sujeitos à deterioração (pedra, osso, metal).
A paleografia tem como objetivos:
identificar as letras e sinais gráficos antigos (óbelos, abreviações escribais, etc.) permitindo sua leitura; determinar a data e origem de um documento; estudar as características dos manuscritos como: material, formato, processo de confecção, estilo de escrita, iluminuras, divisões do texto, etc.
Objeto de estudo
Escribas ou copistas
Para o estudo de textos antigos é importante conhecer como eram confeccionados e copiados. Para isso é importante conhecer o trabalho dos escribas (ou copistas) que eram profissionais especializados na habilidade de escrita. Era uma função muito necessária no passado, visto que a maioria das pessoas não sabia ler e escrever.
Em algumas culturas (p.ex., entre os hebreus) os escribas eram pessoas livres que desempenhavam essa função, em outras culturas como a romana, eram escravos muito bem pagos pelo serviço prestado.
Material de escrita
No passado, diversos tipos de materiais eram usados para a escrita dependendo da finalidade: Pequenas formas de barro, pedras, ossos, madeira, metais, cerâmica, papiro, couro, papel etc. No caso dos textos bíblicos, os principais materiais utilizados eram o papiro e o pedaços de couro (pergaminho).
Papiro
O papiro (, papyros) foi o precursor do papel (e origem da palavra papel). É originário do Egito e exportado para todo o mundo antigo. Sua origem e finalidade o tornava um material muito caro. Era fabricado a partir do caule da planta de mesmo nome. A medula do caule do papiro (chamada pelos gregos de , bíblos, de onde provém a palavra bíblia) era fatiado, sobreposto e prensado ao sol até secar formando um material semelhante ao papel. O papiro era um material que durava muito tempo como atestou Plínio. Para isso, deveria ser preservado em local de clima seco e quente, que é o caso de exemplares de mais de 2 mil anos preservados até hoje. No entanto, em locais úmidos ou com mofo, se degradava muito rapidamente. O manuseio constante também contribuía para o desgaste dos livros confeccionados a partir desse material, fazendo com que manuscritos pouco manuseados se preservassem por mais tempo.
Pergaminho
O pergaminho é originário da cidade de Pérgamo, de onde o nome se origina. O pergaminho é o resultado do refinamento do couro rústico que era utilizado como forma de escrita antes. Era produzido a partir de peles de animais (principalmente carneiro, ovelha ou cabra), as quais eram submetidas a um banho de cal, em seguida, raspadas, polidas com pedra-pomes e colocadas para secar em molduras que as mantinham esticadas. Quanto mais jovem o animal, melhor era o pergaminho resultante. O melhor pergaminho era o velino, feito a partir da pele de vitelas (ou fetos bovinos abortados), pois era mais liso e fino, usado em obras especiais ou de luxo.
Papel
O papel toma seu nome do termo ("papiro"). Foi inventado na China entre o e II. Era fabricado a partir das fibras do cânhamo ou linho triturado e cálcio, alumínio ou sílica. No , se tornou conhecido na Síria e Egito, e só no na Europa. Cerca de 23% dos manuscritos gregos do Novo Testamento, dos séculos XIII ao XIX foram escritos em papel.
Formato dos manuscritos
Rolo
Os rolos consistem de várias folhas de papiro ou pergaminho coladas ou costuradas em série podendo chegar a cerca de 10 metros de comprimento. Rolos maiores que isso seriam de difícil manuseio, por isso eram menos utilizados. As obras mais extensas requeriam mais de um rolo.
O texto dos rolos eram escritos em colunas paralelas da esquerda para a direita, com cerca de 5 a 9 centímetros cada.
Códice
O códice (do latim, ou ) consiste em livros encadernados com várias folhas de papiro ou pergaminho presas por uma borda. Em caso de obras maiores, vários cadernos com, normalmente, 8 a 12 folhas dobradas, eram agrupados e resultavam em um volume, semelhante ao modo que são feitos os livros atuais.
Os papiros do Novo Testamento estão predominantemente em formato de códice, o que leva muitos a cogitarem que muitos autógrafos foram escrito desde o princípio nesse formato. Na verdade, o uso cristão do códice é tão vasto que chegou-se a sugerir que o formato foi criado pelos cristãos, o que hoje se sabe ter sido criado em Roma pelos romanos. Dois exemplos importantes de códices do Novo Testamento são o Códice Vaticano e o Códice Sinaítico, ambos do .
Problemas relacionados à manuscritologia bíblica
O grande problema da manuscritologia (ou crítica textual bíblica) é que o estudo se baseia somente em cópias de cópias dos originais, nenhum dos originais autógrafos foi encontrado.Scholz, Vilson. Princípios de interpretação bíblica. Editora da ULBRA, 2006.. O problema se torna mais preponderante ao verificar-se que essas cópias de cópias produziram, durante o processo de transmissão, uma vasta quantidade de "leituras variantes" ou erros escribais. Alguns calculam em cerca de de 300 mil variantes, outros elevam a aproximadamente 500 mil só do Novo Testamento.PRAZERES, Carlos Alberto. Crítica Textual do Novo Testamento: alterações no texto do Novo Testamento nos escritos de Bart Ehrman: corrupção nos dados ou na leitura dos mesmos?. Ijuí (RS): Revista Ensaios Teológicos, Vol. 2, n.º 2, 2016. Disponível em: http://ead.batistapioneira.edu.br/ojs/index.php/ensaios/article/view/155. Acessado em 9 de julho de 2020. Portanto, o trabalho da manuscritologia é catalogar, classificar, comparar e corrigir o texto bíblico, com base nos inúmeros manuscritos disponíveis.
A finalidade do estudo dos manuscritos antigos pode variar dependendo dos pressupostos e da orientação teórica adotada pelos estudiosos. Pode-se enumerar dois objetivos principais da crítica textual bíblica:
Determinar o texto original: Estudiosos tradicionais, estudam e comparam os manuscritos em busca de um texto mais próximo do original ou leituras verdadeiras entre as variantes. Paroschi afirma que o propósito da crítica textual é garantir maior fidelidade das palavras originais para um estudo mais apurado do texto neotestamentário, de modo que "correspondam da forma mais plena possível àquelas que os apóstolos e evangelistas escreveram tantos séculos atrás". Determinar o texto corrente nos primeiros séculos: Muitos estudiosos, como Lachmann, têm abandonado a busca pelo "texto original" ou "leituras verdadeiras", considerando tal tarefa impossível, e buscando a "restauração do texto em uso comum na Igreja por volta do ano 380". Esses estudiosos estão buscando apenas as leituras mais antigas entre aquelas atualmente disponíveis.
Há no meio acadêmico deliberações de sentimento religioso e ideológico de estudiosos que buscam avidamente a reconstituição mais fidedigna do "texto original" sem deixar margem para sérias dúvidas. Estes são normalmente estudiosos que acreditam firmemente que os textos foram inspirados e preservados por Deus no decorrer dos séculos. Por outro lado, outros mesmo crendo na inspiração dos autógrafos, não creem na doutrina da preservação, chegando a admitir, como Daniel B. Wallace, que várias partes do texto podem ter se perdido para sempre. Há também estudiosos que não creem nem na inspiração sobrenatural ou, muito menos, na sua preservação.
Metodologia Geral
Pressupostos e objetividade na análise manuscritológica
Existe aqueles que defendem ser possível uma abordagem neutra, imparcial e objetiva, colocando de lado pressupostos teológicos e filosóficos, e aqueles que afirmam que a suposta abordagem objetivamente neutra é impossível, sendo portanto, uma falácia. (ANGLADA, pp. 98–101)
No entanto, Graham Stanton faz a seguinte indagação:
(ANGLADA, p. 98).
Os da escola de Westcott-Hort defendem que é possível uma abordagem neutra, imparcial e objetiva, reclamando para sua escola o emprego de tal abordagem e acusando os defensores do Texto Recebido e Texto Majoritário de terem abordagens apriorísticas, teológicas e filosóficas. Por outro lado, no meio acadêmico a ideia de neutralidade tem perdido força, pois cada vez mais se reconhece a impossibilidade de objetividade neutra, já que todo pesquisador é um ser humano que possui crenças e pressupostos que influenciam mais ou menos suas pesquisas.
O que se faz necessário, portanto, é cada pesquisador e cada corrente da manuscritologia, ter consciência e declarar seus pressupostos (teológicos, filosóficos, etc.) e procurar observar o quanto eles têm influenciado suas pesquisas e conclusões.
Por exemplo, um pesquisador que tem consciência de que possui pressupostos (p.ex., da existência ou não de Deus, do naturalismo ou preternaturalismo, da inspiração e preservação ou não das Escrituras Sagradas), deve assumir que possui crenças a priori e que, desta forma, elas podem influenciar mais ou menos sua pesquisa e conclusões. Diante disso, esse pesquisador deve tomar precauções para que não passe por cima de fatos ou tire conclusões erradas, influenciadas somente por sua crença a despeito dos dados encontrados.