Carmela Gross (São Paulo, 16 de fevereiro de 1946) é artista plástica e docente brasileira, professora emérita da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Sua produção artística assinala um olhar incisivo e crítico sobre a cidade contemporânea em sua dimensão política e social. O eixo comum, para além da diversidade dos contextos e das propostas elaboradas, está na relação entre o trabalho de arte e a cidade. O conjunto de operações que envolvem desde a concepção do trabalho, passando pelo processo de produção, até a disposição no lugar de exibição enfatizam a relação dialética entre a obra e o espaço urbano, entre a obra e o público/transeunte.

Ensino e Pesquisa Carmela Gross completou sua graduação em Artes na Fundação Armando Álvares Penteado (1969), em um curso concebido pelo professor Flávio Motta a partir de sua proposta para um Curso para Formação de Professores de Desenho, que se fundamentava no desenho, entendido como projeto e construção de formas sociais de liberdade e emancipação. Seus primeiros trabalhos como educadora, frente aos desafios da arte-educação do final dos anos da década de 1960, são desenvolvidos em praças públicas, aos domingos, com a proposição de atividades plásticas para criançasJornal O Estado de S. Paulo, 16 de setembro de 1966, p. 47 (1966-1971, Praça Dom José Gaspar e Parque Ibirapuera, São Paulo); trabalhou entre 1968 e 1973 no Centro de Educação e Arte, escola de arte para crianças e para a formação de professores de arte, dirigida por Fanny Abramovich; deu aulas na Escola de Belas Artes de São Paulo (1971/72 e 1981/84) e na Universidade de São Paulo, no Departamento de Artes Plásticas (1972-2015)Currículo Lattes: Maria do Carmo Costa Gross, onde trabalhou como professora e formadora de artistas e pesquisadores. Em 1981 obteve o título de mestre e em 1987 o de doutora, ambos sob a orientação de Walter Zanini.

Carreira artística Gross pertence a uma geração de artistas que começa a trabalhar nos finais dos anos da década de 1960 e inícios dos setenta – anos de enfrentamento da censura e da violência de Estado promovidas pela ditadura militar no Brasil.

Neste período, Gross acompanha muitos artistas de sua geração, atuando coletivamente no espaço público, nas ruas e em espaços alternativos, promovendo manifestações que incluem a performance, o happening, o teatro, o vídeo e o cinema. A incorporação de práticas e elementos da vida cotidiana no âmbito da criação e o rompimento com as categorias tradicionais da arte, com o forte apelo por novas experimentações no âmbito estético, desencadeiam uma série de novas práticas fora dos museus e do circuito tradicional das artes.

São deste período o movimento Arte na Praça (aulas de desenho e pintura para crianças e adolescentes, oferecidas gratuitamente aos domingos, na praça Dom José Gaspar, em São Paulo), Bandeiras na praça (manifestação com bandeiras produzidas por um grupo de artistas na praça General Osório, no Rio de Janeiro), a intervenção Escada (1968) na periferia de São Paulo, e os trabalhos apresentados da X Bienal Internacional de São Paulo, em 1969: A Carga, Presunto, A Pedra e Barril (1969), criados a partir de materiais brutos e apropriados na cidade (colchões, lona de caminhão, barris, palha, plástico).

Escada, 1968A Carga e Presunto, 1969A Carga, Barril e Presunto, 1969Presunto, 1969

Em 1969, a artista integrou a equipe de Paulo Mendes da Rocha, no projeto para o Pavilhão brasileiro na Feira Internacional de Osaka, Japão, juntamente com Flávio Motta, Marcelo Nitsche, Jorge Caron, Júlio Katinsky e Ruy Ohtake.

O caráter experimental e a relação com a cidade marcam profundamente o processo de trabalho de Gross. Os trabalhos procuram engendrar novas percepções artísticas que afirmam uma ação e um pensamento críticos e que trazem à tona a carga semântica do lugar, seja ele um espaço público, uma instituição ou o momento de uma exposição.

Entre os anos 1970 e 1980, seu trabalho desenvolve-se na investigação de materiais, técnicas e processos multimeios, suas combinações e seus diferentes modos de produção. O fio condutor destas operações é o desenho, entendido como traço, esboço e projeto, “marca dos gestos, dos pensamentos e dos processos que se solidificam na obra”MAMMÌ, L. "Desenhar, encarnar e organizar". In: Carne (Carmela Gross). Catálogo. São Paulo: Centro Universitário Maria Antonia, 2006.. São deste período as séries de Carimbos (1978), os desenhos do Projeto para a construção de um céu (1981), Quasares (1983), e outros trabalhos feitos em diferentes suportes como out-doors, cópias heliográficas, xerox, videotexto, vídeo, entre outros.

Carimbos, série Rabiscos, 1978Projeto para a construção de um céu, 1981Corpo de ideias, 1981Quasares, 1983

No final dos anos 1980, seu trabalho se desenvolve na pintura, em objetos tridimensionais e em pinturas-objeto, trabalhos que não são nem pinturas, nem esculturas – são objetos volumosos que se acoplam à superfície da parede ou ao chão, feitos de madeira pintada ou de alumínio fundido.

Nas décadas de 1990 e 2000, muitos de seus trabalhos ganham o espaço urbano. São instalações que se relacionam com a cidade pela escala e pela linguagem direta de materiais industriais, sendo freqüentemente abertas à participação ou interação do público. São deste período: Hélices (1993), Buracos (1994), A Negra (1997), Eu sou Dolores (2002), Hotel (2002), Aurora (2003), Uma casa (2007), Se Vende (2008), entre outros.

Gross já participou de oito edições da Bienal de São Paulo (em 1967, 1969, 1981, 1983, 1989, 1998, 2002 e 2021)Fundação Bienal, duas edições do Arte/Cidade (em 1994 e 2002)Projeto Arte/Cidade, duas edições da Bienal do Mercosul (em 2005 e 2020)Fundação Bienal do Mercosul, além de Bienais Internacionais na RússiaSecond Moscow Biennale of Contemporary Art, AFTER ALL, curadores: Fulya Erdemci e Rosa Martinez, Nova ZelândiaE-flux announcements - 5th biennial of art in public space:, Venezuela, Chile, Colômbia e EspanhaCanal Contemporâneo: "Valência olha para o sul", por Juliana Monachesi.

Exposições recentes Em 2010, a Pinacoteca do Estado de São Paulo apresentou uma exposição retrospectiva da artista, intitulada Um corpo de ideias, curadoria de Ivo Mesquita, compreendendo um amplo espectro de sua produção, entre desenhos, objetos e instalaçõesExposição Carmela Gross: um corpo de ideias .

Em 2016 o Museu da cidade realizou duas mostras simultâneas da artista, com curadoria de Douglas de Freitas, uma na Chácara Lane intitulada Arte à mão armada e outra na Capela do Morumbihttps://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,carmela-gross-exibe-antologia-na-chacara-lane-e-remonta-obra-na-capela-do-morumbi,10000076470. A primeira reuniu um conjunto significativo de obras, entre desenhos, fotos e documentos do arquivo da artista e mais a instalação Escada-escola; a segunda, realizou uma remontagem da instalação (Sem título), de 1992, que pertence ao acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP.

Em 2019, o Farol Santander, em Porto Alegre, apresentou a exposição individual Roda Gigante, que contou com uma seleção de obras entre 1969 e 2019, e com duas instalações de grandes dimensões: Roda Gigante (que dá nome à exposição) e Real People Are Dangerous.

Em 2021, participou da 34º Bienal Internacional de São Paulo, com uma instalação de 160 monotipias intitulada Boca do Inferno.

Em 2023, realizou a mostra Carmela Gross: Carimbos, no Instituto de Arte Contemporânea - IAC, São Paulo. A mostra reunia os materiais do processo de trabalho, além de exemplares da série original, de 1978.

Em 2024, realizou a exposição Quase Circo, com curadoria de Paulo Miyada, no Sesc Pompeia. A mostra reuniu trabalhos de diferentes períodos da carreira da artista, entre 1990 e 2024, e duas obras inéditas: Bandeira Pivô e a instalação de grande dimensões Gato. Principais instalações Imagem Descrição Buracos, 1994 Intervenção no espaço do antigo Matadouro Municipal de São Paulo, Projeto Arte-Cidade I, Secretaria de Cultura do Estado. A intervenção era constituída por 48 buracos, distribuídos regularmente no chão de um dos galpões, em uma área de aproximadamente 350m2. Os buracos tinham bordas irregulares, mas formatos e profundidades semelhantes. O arranjo dos buracos no chão, somado à baixa luminosidade do ambiente e às paredes em ruínas do edifício reverberavam o sentido de A Cidade Sem Janelas, título da exposição. Hotel, 2002 Luminoso de 3 metros de altura e 15 metros de comprimento, feito de lâmpadas fluorescentes tubulares e estrutura metálica, instalado na parte externa, no alto do edifício da Bienal, por ocasião da XXV Bienal Internacional de São Paulohttp://www.bienal.org.br/exposicoes/25bienal/fotos/4021. As estrias luminosas das lâmpadas formavam a palavra HOTEL, um grande anúncio luminoso que podia ser visto de longe e que assinalava, em vermelho, um espaço de relações transitórias, provisórias. Eu sou Dolores, 2002 Luminoso de 3 metros de altura e 25 metros de comprimento, instalado pela primeira vez em 2002, no antigo prédio do Sesc Belenzinho, por ocasião do Projeto Arte-Cidade Zona Lestehttps://www.pucsp.br/artecidade/novo/gross_int.htm. Em 2016, a instalação foi novamente apresentada na exposição Arte à mão armada, no Museu da cidade – Chácara Lane. A instalação era formada por estrutura metálica e lâmpadas tubulares vermelhas, organizadas de modo a formar a frase EU SOU DOLORES. Todo o enorme conjunto ocupava transversalmente uma das salas do edifício e extrapolava seus limites, deixando do lado de fora, a palavra EU. Aurora, 2003 “A palavra AURORA foi inscrita na parede com lâmpadas tubulares que emitiam uma luz de tonalidade rosa-violeta. Pela extensão do conjunto e o grande número de lâmpadas, todo o ambiente ficava intensamente tingido de uma luz rosácea. Lembrava a claridade da manhã. Mas não se tratava de representar uma luminosidade. AURORA foi inscrito na parede também como assimilação da forma dos grafites de rua, daqueles que são feitos nos muros da cidade grande. Aurora é nome de mulher e é também nome de rua. Aurora, como alguém lembrou, também é o nome do navio que fez história na Rússia em 1917. Aurora é ária de ópera e já fez sucesso como marchinha carnavalesca.” Carne, 2006 O ônibus-instalação fez parte do programa educativo Arte-Passageira do Centro Universitário Maria Antonia da USP, em São Paulo, durante o ano de 2006. O programa foi organizado pela equipe de educadores, que convidavam artistas para realizar intervenções em um ônibus. Este veículo seria o centro de atividades artísticas em escolas públicas de São Paulo. Para este programa, a artista conectou a ideia de carne ao ônibus. Para isto o veículo-máquina foi coberto inteiramente com muitas camadas de adesivo em vários tons de vermelho.. Mesmo com todas as peculiaridades de um ônibus, o veículo virou uma enorme “massa esponjosa” vermelha, na qual, dentro e fora, transparência e opacidade, porta, janela, capota, chão, teto e banco constituem uma unidade. No letreiro luminoso, indicativo do seu destino, lia-se a palavra CARNE. Sul, 2006 Luminoso com 200 m2, aproximadamente, montado pela primeira vez no hall central do Instituto Tomie Ohtake, fixado na estrutura metálica do teto. A partir do piso térreo, era possível olhar para cima e ler a palavra SUL, posicionada a uma altura de mais de sete metros acima do solo, construída por um conjunto de 255 lâmpadas fluorescentes brancas. Da parte superior, uma chuva de fios fluía para o chão, onde estavam os reatores. A disposição do trabalho no espaço produziu uma inversão: tinha que se olhar para cima, para um norte imaginário, para ler o SUL. Se Vende, 2008