Espécies exóticas são todas as espécies que se encontram fora da sua área de localização natural, cuja introdução e/ou disseminação a outros locais possui o potencial de ameaçar a diversidade biológica local a qual foi exposta. De acordo com o grau de invasão e danos causados ao ecossistema, a espécie exótica pode receber outras denominações. Espécies exóticas podem ser chamadas de espécies invasoras, quando provocam impactos negativos que são significativos ao novo ecossistema introduzido, podendo prejudicar espécies nativas por conta de interações com elas, como competição ou predação. Podem também oferecer riscos à saúde humana, sendo essas de interesse médico, e também à economia, quando se estabelecem como pragas biológicas.LUZ, M.; PAIVA, P. Nem tudo o que vem de fora é inimigo. Espécies exóticas, introduzidas ou invasoras, têm diferentes efeitos no ambiente onde proliferam. Ciência Hoje, n. 336, p. 50-51, 2016.
O processo de introdução dessas espécies é geralmente influenciado por ação antrópica, através de meios de transporte, como navios, mas também por ações comerciais. A partir disso, ao ser realocada em um ambiente semelhante ao seu habitat original, a espécie pode ser capaz de sobreviver e de se reproduzir, mesmo que, a princípio, poucos indivíduos tenham sido introduzidos. Sendo assim, a capacidade e velocidade de uma espécie em se dispersar, se reproduzir e se adaptar ao ambiente influenciam a sua caracterização como uma espécie invasora, que pode assim passar a afetar a sobrevivência de espécies nativas.
O número de espécies exóticas marinhas aumentou em decorrência do transporte dos seres humanos e rotas comerciais marítimas, ao longo do tempo. São reconhecidos três principais vetores para a introdução de espécies em diferentes habitats: (i) construção de canais, por exemplo, o canal de Suez e o canal do Panamá que, por meios artificiais, promoveram intercâmbio de espécies entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, e os oceanos Pacífico e Atlântico, no Caribe, respectivamente; (ii) transporte de navios, através de incrustações no casco, nos tanques, ou na própria água de lastro e (iii) introduções propositais, ou seja, maricultura, incluindo espécies associadas a cultivos.NAYLOR, R. L.; WILLIAMS, Susan L.; STRONG, D. R. Aquaculture--A gateway for exotic species. Science, v. 294, p.1655-1656, 23 Nov. 2001.ÇINAR, M. E. Alien polychaete species worldwide: current status and their impacts. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom, v. 93, n. 5, p. 1257-1278, 2013.
O transporte de espécies marinhas apresenta grave ameaça aos ecossistemas marinhos. Entre as mudanças que podem ocorrer, é possível citar a reestruturação da cadeia alimentar, introdução de novos agentes de doenças ou parasitas, alteração as estruturas do habitat, competição, perda de biodiversidade, entre outros. O problema também é intensificado pelas mudanças climáticas e poluição no mar.STACHOWICZ, J. J.; WHITLATCH, R. B.; OSMAN, R. W. Species diversity and invasion resistance in a marine ecosystem. Science, v. 286, n. 5444, p. 1577-1579, 1999. O agravamento do aquecimento global é um outro fator que permitiu que espécies exóticas conseguissem ampliar sua distribuição em regiões onde anteriormente não poderiam sobreviver e se reproduzir.WALTHER, Gian-Reto et al. Alien species in a warmer world: risks and opportunities. Trends in ecology & evolution, v. 24, n. 12, p. 686-693, 2009. Além disso, causam graves prejuízos às economias dos países, provocando uma perda econômica anual de pelo menos $120 bilhões nos Estados Unidos e $15 bilhões na China.
Diversos poliquetas, em especial a família Sabellidae, são conhecidos por viajar o mundo em cascos de navios. Por exemplo, diversas espécies que são originárias do Mar Vermelho e da região do Indo-Pacífico acabam sendo caracterizadas como exóticas em decorrência de tal transporte no Mar Mediterrâneo. Nele, ocorrem também espécies provenientes do Oceano Atlântico.ARIAS, A.; BARROSO, R.; Anadón, N.; & PAIVA, P. C. On the occurrence of the fireworm Eurythoe complanata complex (Annelida, Amphinomidae) in the Mediterranean Sea with an updated revision of the alien Mediterranean amphinomids. ZooKeys, n. 337, p. 19, 2013.
O grande sucesso dos poliquetas invasores depende, principalmente, do transporte adequado até uma nova localização e de condições favoráveis nesse novo habitat, como ausência de predadores e disponibilidade de recursos.HAYDEN, B. J.; INGLIS, G. J.; SCHIEL, D. R. Marine invasions in New Zealand: a history of complex supply-side dynamics. In: Biological invasions in marine ecosystems. Springer, Berlin, Heidelberg, p. 409-423, 2009 Ademais, outras características podem auxiliar os anelídeos no sucesso da invasão, como as formas de reprodução e sua facilidade de adaptação ao novo ambiente.
Exemplos A seguir, foram destacados exemplos de espécies exóticas e invasoras em Annelida. Este tópico foi dividido em Oligochaeta, Hirudinea e Polychaeta, respectivamente. A escolha da divisão se deu por questões didáticas, pois se tratam de grupos bem conhecidos e morfologicamente distintos.
Oligochaeta
Família Naididae (Ehrenberg, 1828)
Os anelídeos pertencentes a essa família variam de tamanho, desde milímetros a centímetros, a depender da subfamília. Possuem olhos e brânquias, e são capazes de nadar.PECHENIK, J. A. Biologia dos Invertebrados 7ed. McGraw Hill Brasil, 2016. Foram encontradas, até o momento, 17 espécies exóticas da família Naididae na Polônia, sendo que cada uma delas tem uma origem distinta:DUMNICKA, E. Alien Naididae species (Annelida: Clitellata) and their role in aquatic habitats in Poland. Biologia, v. 71, n. 1, p. 16-23, 2016.
Origem na região pôntico-cáspia: Potamothrix hammoniensis, P. moldaviensis, P. heuscheri, P. vejdovskyi, P. bavaricus, P. bedoti, Psammoryctides barbatus, P. albicola, P. moravicus, Tubifex newaensis, Isochaetides michaelseni, Paranais simplex e P. frici.
Origem na América do Norte: Quistadrilus multisetosus, Limnodrilus cervix.
Origem na Ásia: Branchiura sowerbyi (espécie termófila). Origem no Sul da Europa ou Norte da África: Tubifex blanchardi (espécie termófila).
É comum que se reproduzam assexuadamente por fissão, sendo essa a principal, ou a única, forma de reprodução de algumas espécies.
Há dúvidas sobre o tipo de introdução de duas espécies: Potamothrix hammoniensis e Psammoryctides barbatus. Milbrink and Timm, sugerem que essas espécies começaram a colonizar as águas europeias logo após o período glacial; dessa forma, não podem ser consideradas exóticas de acordo com a definição da Convenção sobre Diversidade Biológica. É possível também que tenham recolonizado naturalmente as águas europeias após o período glacial, tendo sobrevivido à glaciação em refúgios no sul e leste da Europa (incluindo a região pôntico-cáspia). No entanto, há a possibilidade de que elas tenham sido introduzidas juntamente com a carpa Cyprinus carpio L., 1758, frequentemente criada na Europa desde a época medieval. C. carpio também tem como origem a bacia pôntico-cáspia, mas uma população natural habitava a área de drenagem do Danúbio no Pleistoceno. Os peixes introduzidos na Polônia podem ter se originado de ambas as áreas, portanto a dispersão de espécies de Naididae da região pôntico-cáspia, bem como outras espécies do sul da Europa, juntamente com os peixes é bastante provável. Estudos genéticos, bem como de registros de cerdas em sedimentos subfósseis das espécies de Naididae, poderiam determinar o tempo de seu assentamento na Europa Central com mais precisão. Até que o problema da migração natural ou da introdução dessas espécies seja resolvido, elas são consideradas como espécies exóticas na Europa.
As outras espécies de Naididae são, sem dúvidas, exóticas. Algumas delas, como P. moravicus, I. michaelseni, P. vejdovskyi, P. bedoti, T. blanchardi e L. cervix, foram encontradas apenas esporadicamente na Polônia.
O maior número de espécies exóticas na Polônia foi encontrado em corpos d’água alterados ou produzidos pelo homem. Oito espécies de Naididae foram encontradas em lagos aquecidos por usinas elétricas em Konin, onde também foram encontradas muitas espécies exóticas de outros grupos de invertebrados. Seis a oito espécies exóticas foram encontradas em reservatórios situados no curso inferior dos rios poloneses e na lagoa levemente aquecida de Szczecin, enquanto apenas uma a três espécies foram registradas nos demais reservatórios estudados, situados no curso superior de Vístula e seus afluentes.
Entre as espécies exóticas de Naididae registradas na Polônia, apenas P. hammoniensis, e talvez P. barbatus, poderiam ser consideradas espécies invasoras - ambas são comuns nas profundezas de lagos eutróficos, onde espécies nativas como T. tubifex e Limnodrilus spp., ambos oligoquetas clitelados, desapareceram. P. hammoniensi ainda é responsável por influenciar a composição de comunidades bentônicas em lagos de água profunda.
Lumbriculus variegatus (Müller, 1774) A espécie Lumbriculus variegatus apresenta um prostômio cônico, sem probóscide e coloração vermelho escura, sendo a região anterior mais clara do que o resto do corpo.MARCHESE, M. R.; DOS SANTOS, M R.; LIMA, J. C. S.; PAMPLIN, P. A. Z. First record of introduced species Lumbriculus variegatus Müller, 1774 (Lumbriculidae, Clitellata) in Brazil. BioInvasions Rec, v. 4, n. 2, p. 81-85, 2015.
L. variegatus é conhecido por ter uma notória capacidade de regeneração de seus segmentos. Dessa forma, é muito comum que se reproduzam assexuadamente, por fragmentação seguida de regeneração. A alta taxa de sobrevivência de seus fragmentos e uma rápida regeneração segmentar, associada com a rápida autotomia, fazem com que a espécie seja capaz de sobreviver e povoar diversos locais, mesmo sob pressões predatórias. miniaturadaimagem|329x329px|Lumbriculus variegatus (Müller, 1774). |alt=|esquerda As formas assexuais possuem corpos longos e vasos sanguíneos laterais ramificados na extremidade posterior, e, tanto a cabeça quanto a cauda tendem a ter segmentos em regeneração. Formas sexuais são escassas em L. variegatus, porém apresentam uma grande variabilidade no número e localização dos órgãos reprodutivos.
L. variegatus é encontrado ao longo da América do Norte, Europa e norte da Ásia. A espécie também foi introduzida na África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Mais recentemente, foi encontrado na Patagônia, Argentina, onde diversas outras espécies exóticas se estabeleceram.
A espécie tem preferência por habitats rasos em margem de lagoas, lagos, riachos rios. Seus microhabitats favoritos incluem folhas e troncos em decomposição, bem como sedimentos na base de vegetações emergentes e musgos.
No Brasil, ela foi introduzida no estado de Minas Gerais. Entretanto, a sua introdução e estabelecimento nos locais brasileiros em que foram encontrados ainda não são totalmente compreendidos. A hipótese defendida por é de que sua introdução se deu a partir de lojas de aquarismo, uma vez que diversos oligoquetas são usados como alimento para peixes. Alguns oligoquetas são capazes de formar cistos, como uma estratégia adaptativa para a sobrevivência à desidratação ou frio. Assim, L. variegatus poderia ter sido introduzido como adultos vivos ou cistos.
L. variegatus pode ser caracterizada como uma espécie invasora, devido a sua rápida dispersão e seu sucesso adaptativo. Sua presença pode causar desequilíbrio nas relações existentes em comunidades bentônicas, impactando na cadeia alimentar desse ecossistema. Além disso, há um risco iminente de transmissão de doenças zoonóticas, devido à presença de L. variegatus em ambientes urbanos, dado que estes animais podem ser hospedeiros intermediários do parasita Dioctophyme renale, que afeta vários mamíferos, incluindo humanos.
Lumbricus terrestris e Octolasion lacteum miniaturadaimagem|272x272px|Lumbricus terrestris (Linnaeus, 1758).