"Se Essa Rua Fosse Minha", também conhecida como "Se Esta Rua Fosse Minha" ou "Nesta Rua", é uma cantiga tradicional em língua portuguesa, difundida no Brasil e em Portugal. Sua autoria e a origem exata da letra e da melodia são desconhecidas. A forma atualmente mais conhecida reúne estrofes sobre ladrilhar uma rua para a passagem da pessoa amada, um bosque chamado Solidão e o roubo recíproco do coração.
A estrofe inicial pertence a uma família de coplas tradicionais sobre preparar ou calçar uma rua para a passagem da pessoa amada, documentada em diferentes regiões da Península Ibérica e das Américas. Em estudo comparativo, José Manuel Pedrosa situou a matriz geográfica desse motivo na Espanha, onde encontrou maior número, variedade e antiguidade de versões, embora tenha observado que a documentação disponível não permitisse datar essas formas com segurança muito antes do século XIX.
Origem
Em 1991, o pesquisador espanhol José Luis Puerto estudou um conjunto de 22 estrofes tradicionais relacionadas ao tema da "rua empedrada", recolhidas principalmente em Castela e Leão. Os versos aparecem em cantos relacionados ao namoro e ao casamento, como rondas, alboradas e cantos de bodas. Puerto identificou nesse conjunto um fundo poético comum castelhano-leonês, que considerou possivelmente extensível a outras regiões da Península Ibérica.
José Manuel Pedrosa ampliou o levantamento em 2007, no estudo Las calles empedradas: canción y fórmula, reunindo variantes da Espanha e comparando-as com registros do México, da Colômbia, de Portugal e da tradição sefardita. Pedrosa situa na Espanha a matriz geográfica dessa família de cantos, onde encontrou maior número, variedade e antiguidade de versões documentadas. O autor ressalva que a falta de documentação mais antiga não permite datar com segurança esses versos muito antes do século XIX.
Oneyda Alvarenga, ao tratar das rodas infantis brasileiras, distinguiu aquelas de origem ibérica das que teriam surgido no Brasil. Para a autora, "Nesta Rua", formada pelas estrofes do bosque chamado "Solidão" e do roubo recíproco do coração, seria uma das rodas de criação nacional mais difundidas e constituiria musicalmente uma modinha. Ela observou ainda que a melodia aparecia, com texto diferente, numa coletânea de cantos populares brasileiros de Júlia de Brito Mendes.
Histórico
Ano País Local Fonte Registro 1843 Brasil Recife, Pernambuco O Artilheiro "Se esta rua fosse minha / Eu mandava alcatifalla / Com mantas de carne sêca / Em honra da grande galla!" 1859 Espanha Andaluzia Fernán Caballero, Cuentos y poesías populares andaluces "La calle en que vives / Si fuera mía, / De brillantes y perlas / La empedraría." 1865 Espanha — Emilio Lafuente y Alcántara, Cancionero popular "Esa calle en que vives / Si fuera mía / De brillantes y perlas / La empedraría." 1869 Portugal Açores Teófilo Braga, Cantos populares do Archipelago açoriano "Esta rua tem pedrinhas / eu hei-l'as mandar tirar / com biquinhos de alfinete / para o meu bem passear." 1870 México Cholula, Puebla Vicente T. Mendoza e Virginia R. de Mendoza, Folklore de la región central de Puebla "Esa calle en que vives / si fuera mía / de brillantes y perlas / la empedraría." A fonte atribui a versão a Cholula em 1870; o registro foi comunicado e recolhido no México em 1942. 1882 Espanha — Francisco Rodríguez Marín, Cantos populares españoles Entre as variantes reunidas aparecem "Tengo que empedrar tu calle / Con realillos de a ocho cuartos / Para que vayas á misa / Sin romperte los zapatos" e "Esa calle en que vives / Si fuera mía / De perlas y brillantes / La empedraría". 1883 Brasil Sergipe Sílvio Romero, Cantos populares do Brazil "Si esta rua fôra minha / Mandaria ladrilhar / Quer de prata, quer de ouro / Para meu bem passear." 1884 Brasil Bahia Alfredo do Vale Cabral, Gazeta Literária Versão recolhida em 1880: "Si esta rua fosse minha / eu mandava ladriar / de pedrinhas de diamante / para meu bem passeiar." 1884 Portugal Açores Alfredo do Vale Cabral, Gazeta Literária "Se essa rua fosse minha / eu mandava ladrilhar / de pedrinhas de brilhante / para o meu amor passar." 1886 Portugal Teixoso, Covilhã Alberto Pimentel, Revista do Minho "Esta rua tem pedrinhas / Hei-de-lh'as mandar tirar / Com biquinhos d'alfinetes / Para o meu amor passar." 1889 Brasil Recife, Pernambuco Relato sobre o primeiro carnaval do Clube Vassourinhas, publicado em 1939 Segundo o relato, os integrantes do clube desfilaram cantando "Se esta rua fosse minha / eu mandava ladrilhar / com pedrinhas de brilhantes / para o meu bem passar". 1896 Brasil Rio de Janeiro Figueiredo Pimentel, Os meus brinquedos Sob o título "Nesta rua", registra uma brincadeira de roda com os versos "Nesta rua tem um bosque / Que se chama Solidão / Nesse bosque mora um anjo / Que roubou meu coração" e a resposta "Si roubei teu coração / Tu roubaste o meu tambem [...] E' porque te quero bem". 1896 Brasil Santos, São Paulo Oskar Nobiling, Coletânea de canções brasileiras Versão fornecida pela Sra. Müller: "Nesta rua tem um bosque / Que se chama solidão, / Dentro dele mora um anjo / Que roubou meu coração. / Se esta rua fosse minha, / Eu mandava ladrilhar / Com pedrinhas de diamante / Para meu amor passar." 1900 Brasil Maranhão Jornal da Tarde "Nesta rua tem um bosque / Que se chama Solidão... / Nesse bosque mora um anjo / Que roubou meu coração." 1902 Portugal Alentejo António Tomás Pires, Cantos populares portuguezes Registra duas variantes: "Esta rua tem pedrinhas / hei de mandal-as tirar / com biquinhos d'alfinetes / p'r'o meu amor passear" e "Esta rua tem pedrinhas / hei de mandal-as tirar / craval-a de diamantes / para o meu bem passear". 1908 Brasil Rio de Janeiro João do Rio, A Alma Encantadora das Ruas "Se esta rua fosse minha / Eu mandava ladrilhar / De pedrinhas de brilhante / Para meu bem passar." 1918 Espanha Cáceres Rafael García-Plata de Osma, Demosofía extremeña. La musa de los cantares "Si esta calle fuera mía / yo la mandara empedrar / con naranjos y limones / y en cada esquina un rosal."
Variações
Numerosas variantes da cantiga foram registradas no Brasil e em Portugal. No Rio Grande do Sul, Rose Marie Reis Garcia e Lilian Argentina Braga Marques realizaram, entre 1978 e 1985, uma pesquisa sobre brincadeiras infantis em 50 localidades do estado. As autoras classificaram a cantiga como "generalizada no estado" e registraram sua letra, melodia, forma de execução e variantes regionais encontradas.
Na forma apresentada pelas autoras, a cantiga compreende as estrofes de "Nesta rua [...] tem um bosque", "Se eu roubei [...] teu coração" e "Se esta rua [...] fosse minha". Foram registradas alterações tanto na letra como na melodia. Na Vila Passo das Pedras, em Porto Alegre, por exemplo, foi recolhida a forma "Se esta rua [...] fosse minha / Eu mandava [...] ladrilhar / Com pedrinhas [...] de brilhantes / Para o meu [...] amor passar"; em Passo Fundo, uma variante combina elementos das estrofes e substitui o destinatário pelo verso "Para [...] a mamãe poder passar".
Dulce Martins Lamas incluiu Nesta rua, nesta rua em seu estudo sobre a música brasileira de tradição oral, apresentando a letra das três estrofes e sua partitura. Lamas classificou-a entre as rodas infantis e considerou que a cantiga parecia ter "se originado de alguma modinha brasileira". Segundo sua análise, a melodia registrada no Rio de Janeiro está em compasso quaternário simples, apresenta inicialmente uma tendência modal mixolídia e posteriormente o sétimo grau elevado, assumindo caráter tonal.
Em Portugal, Miguel Nuno Marques Carvalhinho registrou em pesquisa etnomusicológica realizada na Beira Baixa uma versão cantada em Louriçal do Campo. A estrofe "Esta rua tem pedrinhas / Quero as mandar tirar / [...] / Para o meu amor passear" integrava a canção Salta o paspalhão para o meio, classificada pelo pesquisador como canção de lazer e utilizada para dançar aos domingos.
Em estudo sobre as Cirandas de Heitor Villa-Lobos, a musicóloga Juliana Wady identificou correspondentes portugueses para cinco dos dezesseis temas utilizados pelo compositor. Para a Ciranda n.º 11, Nesta rua, nesta rua, a autora apontou uma versão textual publicada no Cancioneiro Popular Português, de José Leite de Vasconcelos, e incluiu a peça entre os temas que apresentam relações com a tradição portuguesa.
Arranjos e gravações
O compositor brasileiro, Heitor Villa-Lobos, registrou a cantiga em duas séries para piano. Em Cirandinhas, composta em 1925, a peça n.º 11 recebeu o título Nesta Rua Tem um Bosque; em Cirandas, de 1926, a peça n.º 11 recebeu o título Nesta Rua, Nesta Rua.
Em 1936, Mário Lago e Roberto Martins assinaram um samba intitulado Se Essa Rua Fosse Minha. A gravação de Luiz Barbosa, acompanhado pelos Reis do Ritmo, foi realizada em 12 de novembro de 1936 e lançada pela Victor.
Letra Versão popular da cantiga: Se essa rua fosse minha Eu mandava ladrilhar Com pedrinhas de brilhantes Para o meu amor passar
Nessa rua tem um bosque Que se chama solidão Dentro dele mora um anjo Que roubou meu coração
Se eu roubei teu coração É porque te quero bem Se eu roubei teu coração É porque tu roubaste o meu também
Na mídia A cantiga é referenciada no conto "Que se chama solidão" do livro Invenção e Memória de Lygia Fagundes Telles. Ver também Cantiga de roda
Categoria:Canções de música folclórica Categoria:Brincadeiras