Islamofobia é uma forma de discriminação em relação aos muçulmanos ou ao islamismo, considerado também uma forma de racismo ou intolerância religiosa. Expresso através do medo, ódio ou intolerância, bem como do sentimento de repugnância, da satanizaçãoBernard Lewis, The Crisis of Islam: Holy War and Unholy Terror. Op. cit., pp. 41-54.). ou do repúdio para com os muçulmanos, suas práticas religiosas, ou contra o islamismo, em geral.*Sandra Fredman, Discrimination and Human Rights, Oxford University Press, ISBN 0-19-924603-3, p.121. Yvonne Yazbeck Haddad, Muslims in the West: From Sojourners to Citizens, Oxford University Press, ISBN 0-19-514806-1, p.19 Islamophobia: A Challenge for Us All, Runnymede Trust, 1997, p. 1, cited in Quraishi, Muzammil. Muslims and Crime: A Comparative Study, Ashgate Publishing Ltd., 2005, p. 60. ISBN 0-7546-4233-X. Early in 1997, the Commission on British Muslims and Islamophobia, at that time part of the Runnymede Trust, issued a consultative document on Islamophobia under the chairmanship of Professor Gordon Conway, Vice-Chancellor of the University of Sussex. The final report, Islamophobia: A Challenge for Us All, was launched in November 1997 by Home Secretary Jack Straw
Este tipo de aversão tem crescido, sobretudo nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa, Índia e em Israel. Devido à intensificação do populismo de direita e extrema-direita como reação à presença crescente de população muçulmana, revela-se a produção massiva de desinformação e discurso de ódio à comunidade muçulmana no seu todo, o que também pode ser visto por alguns investigadores como um modo de extremismo e radicalização.
Por outro lado, a também radicalização de uma minoria muçulmana como canalização do medo às diferenças culturais e religiosas, ou como preservação identitária, encaminha-a ao fundamentalismo islâmico, com o enaltecimento e perpetração de ações violentas, inclusivamente em países árabes. É nestes que ocorrem maioritariamente estes ataques, que não sendo noticiados no "ocidente", também não são apoiados pela maioria da população local em países muçulmanos, tal como sucede, por exemplo, com a Al-Qaeda, ou o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS). Pelo contrário, os ataques realizados no "ocidente", são amplamente noticiados e divulgados, enfatizando as suas características truculentas.
O termo "islamofobia" aparece pela primeira vez na França na década de 1910, escrito como “islamophobie”, por Alain Quellien, reaparecendo principalmente a partir da década de 1970, sempre delineado como um enraizado repúdio aos muçulmanos e ao islamismo.Santos, Priscila Silva dos. O Estudo da Islamofobia através dos meios de comunicação. Revista Habitus:revista eletrônica dos alunos de graduação em Ciências Sociais - IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p. 79-90,10 de nov. 2016. Semestral. Disponível em:<https://revistas.ufrj.br/index.php/habitus/article/viewFile/11477/8427> O termo "islamofobia" ganhou notoriedade num relatório de 1997 do Runnymede Trust, que chamou a atenção para esta forma de preconceito como um grave problema social.
Cabe destacar que a discriminação face à comunidade muçulmana, no seu conjunto, aumentou exponencialmente após a resposta ideológica estadunidense consequente aos ataques de 11 de setembro de 2001, ocorridos nos Estados Unidos, apesar dos esforços da Organização das Nações Unidas para o reconhecimento formal da islamofobia, estabelecendo assim preconceitos, discriminações e ódios antimuçulmanos e anti-islâmicos, e colocando-os ao lado de outros fenómenos igualmente discriminatórios e excludentes, como o antissemitismo e o anticiganismo.
Origem 240px|miniaturadaimagem|direita|Manifestação na Tchéquia em 2015 A origem do termo islamofobia está situada em 1910 pelo autor francês Alain Quellien, doutor em direito, na sua obra "La politique musulmane dans l’Afrique occidentale française", que indica: "Islamofobia — Sempre existiu, e ainda existe, um preconceito generalizado contra o Islão entre as pessoas da civilização ocidental e cristã. Para alguns, o muçulmano é o inimigo natural e irreconciliável do cristão e do europeu, o islamismo é a negação da civilização e a barbárie, a má-fé e a crueldade são tudo o que se pode esperar de melhor dos muçulmanos."
Adicionalmente, a priori desta descrição já existiam atitudes extremamente negativas em relação ao islamismo e os seus praticantes. Logo após o aparecimento do próprio , particularmente por escritores do Médio Oriente, cujas instituições religiosas (por exemplo, cristãs) ou políticas (por exemplo, bizantinas) foram ameaçadas pela expansão da sociedade islâmica em toda a região.
Desta forma, existem historiadores que traçam as distorções estruturais do representadas pela islamofobia moderna desde a Europa medieval. Eles apontam evidências de atitudes antimuçulmanas subjacentes tanto às Cruzadas da Idade Média, quando os governantes cristãos buscavam conquistar terras governadas por muçulmanos, quanto às campanhas militares cristãs na Península Ibérica (anteriormente denominada "Reconquista", em si já um termo considerado tendencioso e simplificador), uma série de campanhas de estados cristãos que culminaram na captura da Península Ibérica no final do século XV.
Neste contexto são completamente esquecidas as contribuições da Era de Ouro Islâmica para a cultura ocidental entre os séculos VIII e XIII EC nos diversos campos do conhecimento: ciência e matemática (por exemplo, Alcuarismi e Albatani), astronomia (por exemplo, Azarcali e Alfragano), medicina (por exemplo, Avicena e Rasis), filosofia (por exemplo, Averróis, Alfarábi e Algazali). É igualmente de importância capital o facto dos textos da Grécia Antiga terem sido traduzidos e preservados por estudiosos árabes, não permitindo que se perdessem para sempre.
Muitos estudiosos acreditam que um catalisador chave para o desenvolvimento da islamofobia foram os estatutos de limpieza de sangre (do castelhano: "pureza de sangue") durante a Inquisição espanhola que discriminava qualquer pessoa com ascendência judaica ou muçulmana, independentemente de se terem convertido ao cristianismo. O Islão no seu início foi mais tolerante na Península Ibérica do que após a conquista por parte dos cristãos, que depois da retirada dos muçulmanos, empreendeu a islamofobia e o antissemitismo.inter alia Alexandre Herculano, History of the Origin and Establishment of the Inquisition in Portugal, trans. John C. Branner, 2003
Finalmente, acredita-se que a expansão do Império Otomano na Europa (particularmente o cerco de Viena em 1683) tenha enraizado na consciência coletiva europeia a ansiedade relativamente ao poder das nações islâmicas.
O , tal como outras grandes religiões, conheceu épocas em que inspirou nos seguidores ódio e violência: "Isto levanta a questão mais ampla da atitude das religiões relativamente à força e à violência e, mais especificamente, ao terrorismo. Os seguidores de muitas religiões, num momento ou noutro, invocaram a religião, na prática de assassinatos, tanto em pequena como em grande escala."
Esta hostilidade sistemática contra o estará ancorada no pensamento ocidental de raiz cristã, inspirada pelo espírito das cruzadas, pela expansão colonial ou, atualmente, na imperativa "Guerra ao Terror".
Existe uma longa história de estereótipos negativos do Islão na cultura europeia e americana que remonta às lutas medievais contra o Islão por parte dos clérigos cristãos, embora tenha se tornado um relato particularmente poderoso durante a era colonial, quando os administradores coloniais europeus e académicos orientalistas justificaram a conquista de terras asiáticas e africanas pela "missão civilizadora" que supunha.
O aumento da propaganda antimuçulmana nos Estados Unidos tem uma ligação profunda com grupos de direita e extrema-direita, bem financiados, que atacam o Islão regularmente. Um relatório recente da People for the American Way revelou o menu de táticas, frequentemente usado pelos extremistas antimuçulmanos: aproveitar a desinformação para argumentar que todos os muçulmanos são perigosos e que para proteger a liberdade é imperativo suprimir os seus direitos.
Mídia/Media Segundo a "Encyclopedia of Race and Ethnic Studies", os meios de comunicação social têm sido criticados por perpetrarem islamofobia; a investigadora inglesa e professora da Universidade de Keele Elizabeth Poole cita um estudo de caso no qual, ao analisar uma amostra de artigos na imprensa britânica de entre 1994 e 2004, conclui que os muçulmanos estavam sub-representados, e mostrados sob um foco negativo. Esses retratos, de acordo com Poole, incluem a imagem do islamismo e dos muçulmanos como uma ameaça à segurança do Ocidente e aos valores sociais desta parte do planeta.Encyclopedia of Race and Ethnic studies, p. 217 Benn e Jawad escreveram que a hostilidade contra o Islão e os muçulmanos estão "intimamente ligadas aos meios de comunicação social que retratam o Islã/Islão como bárbaro, irracional, primitivo e sexista."Benn; Jawad (2004) p. 165 Egorova e Tudor citam os pesquisadores europeus, em que sugere que expressões utilizadas nos meios de comunicação social como "terrorismo islâmico", "bombas islâmicas" e "violento Islã/Islão" já resultaram numa perceção negativa do Islã/Islão.See Egorova; Tudor (2003) pp. 2-3, que cita as conclusões de Marquina e Rebolledo: "A. Marquina, V. G. Rebolledo, ‘The Dialogue between the European Union and the Islamic World’ in Interreligious Dialogues: Christians, Jews, Muslims, Annals of the European Academy of Sciences and Arts, v. 24, no. 10, Austria, 2000, pp. 166-8. "
A feminista alemã Alice Schwarzer comenta: "Os direitos humanos são universalmente válidos e indivisíveis, independentemente da cultura e da religião". A propósito da situação das mulheres muçulmanas na Alemanha, queixa-se: "Qualquer denúncia de abuso é imediatamente rotulada de racismo".
Em tempos de polarização entre os populistas de direita, por um lado, e os islamistas, por outro, a compreensão dos processos de definição de "fronteiras" é fundamental para o fortalecimento das forças democráticas que promovem a coesão social. A dinâmica das comunidades muçulmanas, a sua contribuição ativa para uma sociedade civil vital, e o acesso a diversos grupos devido ao seu posicionamento interseccional devem ser, por isso, capazes de mediar entre diferentes intervenientes, ultrapassando as "fronteiras" existentes ao longo de vários marcadores de identidade.
Diversas iniciativas vêm surgindo com base nas sessenta recomendações enumeradas no relatório do Runnymede Trust, que visa aumentar participação muçulmana nos meios de comunicação e na política. Logo após a liberação do relatório Runnymede, foi criado o Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha para servir como uma organização guarda-chuva visando "representar os muçulmanos na esfera pública, o grupo de pressão no governo e outras instituições." O "Fórum Contra o Racismo e a Islamofobia" (FAIR), também foi criado, destinado a acompanhar a cobertura nos meios de comunicação e estabelecer um diálogo com organizações de comunicação social.Encyclopedia of Race and Ethnic studies, p. 218
Críticas ao conceito de islamofobia Juntos Contra o Novo Totalitarismo Na sequência da polémica das caricaturas da Jyllands-Posten sobre Maomé, publicadas por este jornal dinamarquês em 2005, um grupo de 12 escritores, incluindo Salman Rushdie, assinou um manifesto intitulado "Juntos Contra o Novo Totalitarismo" no jornal satírico francês Charlie Hebdo, escrevendo: "recusamo-nos a renunciar ao nosso espírito crítico por medo de sermos acusados de “islamofobia”, um conceito que confunde a crítica ao Islão, como religião, e a estigmatização daqueles que nele acreditam."