O uapixana (ou wapishana) é uma língua da família linguística aruaque falada pelos uapixanas no Brasil e na Guiana.Ramirez, Henri (2019). Enciclopédia das línguas arawak: acrescida de seis novas línguas e dois bancos de dados. (no prelo)Ramirez, Henri, & França, Maria Cristina Victorino de. (2019). Línguas Arawak da Bolívia. LIAMES: Línguas Indígenas Americanas, 19, e019012. https://doi.org/10.20396/liames.v19i0.8655045 Atualmente, a língua possui entre 10 e 11 mil falantes que vivem na extensão do vale do rio Uraricoera, no Brasil e ao vale do rio Rupununi, na República Cooperativa da Guiana.

O Wapishana é uma língua indígena ameaçada de extinção e está cada vez menos sendo utilizada com primeira língua por jovens. Além disso, não é um idioma ensinado em escolas e seu nível de suporte é emergente, ou seja, é uma língua que possui algum pouco conteúdo em formato digital e/ou ferramentas de codificação. Etimologia

O termo Wapixana, apesar de ter etimologia desconhecida, é usado para designar, no Brasil e na República Cooperativa da Guiana, os falantes de dois dialetos mutuamente inteligíveis: Wapishana e Atoraí. Outros tantos nomes foram citados na literatura com referência a esse povo:

Wapityan Wapitschana Matisana Uapixana Vapidiana Attaraye Dauri Atorayu Vapidiana Verdadeiro Aturaiu Amaripás Maopitian Wapichiyana.

Os nomes variam de autor para autor, algumas vezes correspondem a meras variações gráficas, outras vezes atendendo a subdivisões dialetais. Os membros dessa etnia se autodenominam Wapichan [em que ch corresponde à palatal /tʃ/], sendo esse seu endônimo.

Termos tais como: Wapishana, Wapixana, Wapixana, Uapixana, entre outros acima, são formas como não-índios os tratam, sendo esses os exônimos da língua. Enquanto Atoraí (Aturaiu ou Atoradi), Amaripás (ou Amariba), Maopitian (Mapidiana ou Mapidiana), entre outros, correspondem às etnias que habitavam no passado o atual território dos Wapixana, cujas línguas convergiram (ou estão convergindo) ao longo dos anos para o atual Wapixana.

Família Linguística Do ponto de vista da classificação genética, a língua Wapixana é considerada como pertencente à família Aruák, também chamada de Arawák ou Arawakan. Outro termo usado para designar a família Aruák é Maipuran. Esta denominação foi empregada primeiramente por Filippo Salvatore Gilij, em 1782, que reconheceu o parentesco genético entre a língua Maipure do vale do Orinoco e a língua Mojo, falada na Bolívia, e, então, passou a denominar o grupo de Maipure ou Maipuran. Em verdade, o termo Maipuran (ou Maipure) foi o primeiro empregado para designar essa família linguística que, foi depois renomeada Arawak por Von den Steinen (1886) e Brinton (1891). Posteriormente, a tendência dos trabalhos comparativos foi usar o termo Maipuran para fazer referência ao grupo de línguas mais estreitamente aparentadas (a família propriamente dita) e empregar o termo Arawakan de forma mais abrangente, denotando um tronco linguístico que envolveria essas línguas Maipuran e outras línguas a elas também aparentadas, mas não tão proximamente, como Arauán, Guahíboan, Harakmbet e Puquina.

Na classificação de Payne (1991), a língua Wapixana encontra-se inserida no grupo Northern da família Maipuran. Esse autor analisou 203 conjuntos de cognatos envolvendo vinte e quatro línguas, que representam as principais ramificações dessa família linguística, oferecendo uma reconstrução fonológica do ProtoMaipuran para cada um desses conjuntos. Trata-se do primeiro trabalho sobre o tema com base verdadeiramente linguística, nos moldes do método comparativo, suportada por dados fonológicos, lexical e gramatical. Abaixo, há a classificação de Payne, destacado em negrito o Wapixana de forma a explicitar sua posição.miniaturadaimagem|546x546px|Filiação genética da língua Wapixana (Payne)|centro

Payne divide as línguas Maipuran em cinco principais grupos: Western, Central, Southern, Eastern e Northern, cabendo ao Wapixana integrar este último em companhia de dois subgrupos: Caribbean e Inland. O primeiro desses envolve a língua Garífuna e o subgrupo TA-Arawakan , que é composto das línguas Lokono e Guajiro. O segundo é composto do subgrupo North-Amazon, que reúne a língua Resígaro e o subgrupo Rio Negro (formado das línguas Achagua, Cabiyari, Curripaco, Piapoco, Tariano, Yucuna) e da língua Yavitero. Apesar do avanço obtido com trabalho de Payne, como o próprio autor reconhece, especialmente no que tange a subdivisão das línguas no interior da família Maipuran, há a necessidade de trabalhos adicionais.

Aikhenvald afirma que o principal obstáculo para o trabalho comparatista e para a subdivisão interna das línguas no interior da família Arauák advém da carência de dados adequados de muitas línguas. Ela considera que a grande extensão geográfica e a diversidade linguística dentro da família trazem problemas para a distinção entre fenômeno areal e fenômeno genético, fato crucial para a reconstrução morfológica. Conforme a autora, casos como o da distinção entre North Aruák e não-North Aruák, por exemplo, reclamam por investigações adicionais para decidir se essa divisão é genética, ou decorrente de diferentes padrões de difusão areal e, também, qual é o exato subagrupamento. Ela propõe uma subclassificação das línguas Aruák baseada no princípio areal-geográfico, representada ao lado direito, com o nome Wapixana em negrito para destacar sua posição.

Aikhenvald propõe apenas dois principais grandes grupos (em caixa alta), South and South-Western Arawak e North-Arawak. Embora em acordo com Payne quanto ao fato de que a língua Wapixana situa-se no North (NorthArawak), a autora insere essa língua, em companhia da língua Mawayana, no subgrupo Rio Branco que, por sua vez, em conjunto com outros três subgrupos (Palikur, Caribbean e North-Amazonian) integra o grupo maior North-Arawak.miniaturadaimagem|482x482px|Classificação genética da língua Wapixana (Aikhenvald) Notas: ! caracteriza línguas em perigo de extinção e † marca línguas extintas. Nomes entre parênteses são prováveis dialetos.|centro Distribuição Até a década de setenta do século XX, registrou entre 6.500 e 7.000 Wapixana residentes na região de savanas, campos ou lavrado do Território de Roraima, atual Estado de Roraima (Brasil), indo além das fronteiras com o Distrito de Rupununi, na Guiana Inglesa, atual República Cooperativa da Guiana, entre as latitudes 1° e 4° Norte e longitudes 59° e 62° Oeste observa ainda a existência de habitantes Wapixana isolados nas proximidades do rio Tawini e a nascente do rio Mapuera, Estado do Pará. miniaturadaimagem|Rio Rupununi Dados do Centro de Informação da Diocese de Roraima (CIDR) apontam para um número de 12.500 Wapixana, aproximadamente, que vivem distribuídos em trinta e cinco malocas espalhadas nas proximidades da fronteira entre os dois países. Segundo essa fonte, as malocas do povo Wapixana ocupam três áreas distintas, a saber: Surumu-Cotingo, Taiano-Amajari e Serra da Lua-Rupununi. Ainda conforme este relato, as malocas que ficam na área de Sorumu-Cotingo estão situadas no meio dos Makuxí, povo indígena Karíb, portanto, são de natureza mista. As que se situam na área do Taiano-Amajari encontram-se espalhadas à beira dos rios Uraricoera, Amajari e Parimé, e seus moradores sofrem uma dupla influência; os do Taiano são mais influenciados pela cultura não-indígena, enquanto aqueles que moram no Amajari são influenciadas pelo povo Makuxí. Por fim, as malocas que estão localizadas na área da Serra da Lua-Rupununi encontram-se entre os rios Branco, Quintauaú e Rupununi. Conforme essa fonte, é nesta última área que se encontra um maior grau de conservação dos hábitos originais do povo Wapixana, embora, do lado brasileiro, esse povo já tenha sofrido boa influência da cultura não-indígena, enquanto nas malocas do Distrito de Rupununi (Guiana) se mantenham mais conservados os traços tradicionais de sua cultura. No caso específico do Brasil, segundo publicação do CIDR, os Wapixana montam a 3.500 índios, aproximadamente, e encontram-se assim distribuídos: centro|miniaturadaimagem|593x593px|Distribuição dos Wapichana em Roraima +Distribuição dos Wapixana no território brasileiroáreamalocan° de falantesSurumu-CongoAraçá-Cotingo110Olho D'água90Perdiz-Surumu65Serra da Lua-RupununiApun62Canoani230Jacamin205Jaboti76Malacacheta280Moscou130Taba Lascada170Murupá137Pium-Tacutu151Taiano-AmajaríPium-Uraricoera158Anta102Anzol85Araçá-Amajarí110Flecha80Guariba-Amajari70Mangueira83Ponta da Serra73Barata283Livramento81Serra da Moça380Serra do Truaru80Truaru122Três Corações131 Dados mais recentes acerca da população Wapixana e sua localização geográfica afirmam que o número total seja estimado entre 10.000 e 11.000 pessoas que vivem na extensão que vai do vale do rio Uraricoera, no Brasil, ao vale do rio Rupununi, na Guiana. Neste último país, a população Wapixana é estimada em 6.000 habitantes e suas aldeias situam-se entre os rios Tacutu, Rupununi e Kwitaro, limitando-se ao norte, nas montanhas do Kanuku, com o território Makuxi e ao sul, com o território Wai-Wai. Em território especificamente brasileiro, as terras Wapixana estendem-se do rio Uraricoera ao rio Tacutu, e sua população gira em torno de 3.000 a 4.000 indivíduos em aldeias e 1.000 em cidades e fazendas. A maior parte das aldeias dos Wapixana em terras brasileiras situa-se na região Serra da Lua, entre o rio Branco e o rio Tacutu. As aldeias situadas no baixo rio Uraricoera são, em maioria, de população mista envolvendo Wapixana e Macuxi. centro|miniaturadaimagem|306x306px|Imagem de Maloca Wapichana

Dialetos e situação sociolinguística O Wapixana que hoje se fala é o resultado da convergência de outros dialetos (ou línguas). No atual território Wapixana, distinguiam-se até os anos trinta e quarenta do século XX, os seguintes povos distintos, mas próximos linguística e culturalmente: os Vapidiana Verdadeiro, provavelmente correspondentes aos Wapishana propriamente ditos, que se localizavam entre os rios Parimé e Surumu; os Karapivi, nos rios Surumu, Cotingo e Xumina; os Paravilhana, no rio Amajari; os Tipikeari, entre os rios Uraricoera, Mucajaí e Caunamé; os Atoradi (Aturaiú ou Atorai), na serra da Lua; e, finalmente, os Amariba, Mapidian (Mapidiana, Maopityan) e Taruma situavam-se principalmente no vale do rio Rupununi.

Há duas hipóteses para o predomínio do Wapixana sobre os demais subgrupos dialetais. A primeira sugere uma expansão do Wapixana para o leste e uma consequente incorporação por este dos demais grupos, então, fragilizados em função de epidemias provenientes do contato com brancos. A segunda hipótese supõe que, à medida que os outros subgrupos dialetais iam caindo em desuso, o Wapixana ia se fortalecendo, de modo a abranger todos eles. Na atualidade, porém, como constatado por Farage, parece haver apenas uma variação dialetal nítida envolvendo, de um lado, os habitantes do vale do rio Uraricoera e, de outro, aqueles do rio Tacutu/Rupununi. Provavelmente, tal distinção corresponde àquela percebida por Migliazza entre os dialetos Wapishana e Atorai, embora uma análise mais acurada, ainda não realizada, possa no futuro, talvez, revelar traços que remetam aos outros antigos dialetos.