A língua yawalapiti (yawála “tucum” + píti “povo”, em português, “povo do tucum”) é uma língua indígena pertencente à família arawak, utilizada pelo povo yawalapiti no Alto Xingu, dentro do Parque Indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso, Brasil. Trata-se de um idioma ameaçado de extinção, com pouquíssimos falantes nativos restantes, havendo constantes esforços para não deixar a língua desaparecer.
A população total do povo yawalapiti é cerca de 305 indivíduos, porém, a língua é falada plenamente por apenas três pessoas mais velhas das aldeias Yawalapiti e Caramujo. Esse número tem diminuído, pois os membros da comunidade se comunicam em línguas mais prevalentes da região, como o mehinaku, kamaiurá e kuikuro. Há sinais de revitalização do yawalapiti, com o uso do Método Mestre e Aprendiz e o crescente interesse de jovens na aprendizagem da língua, o que contribui diretamente para a preservação e continuidade de sua transmissão nas próximas gerações.
O yawalapiti era originalmente uma língua ágrafa, isto é, sem um alfabeto escrito. Com exceção de certos fonemas, a escrita yawalapiti é idêntica a sua transcrição fonética do alfabeto fonético internacional (AFI). A direção de escrita do yawalapiti é horizontal, da esquerda para a direita, como no português. Embora a língua seja essencialmente oral, o uso da escrita alfabética tem se tornado cada vez mais comum em contextos educacionais e na documentação da língua.
Estruturalmente, o yawalapiti é uma língua aglutinante, caracterizada pela junção de múltiplos morfemas em uma única palavra. Seu sistema nominal distingue entre nomes relativos, que exigem um possuidor, e nomes absolutos, que requerem um mediador de posse. A língua possui um sistema reduzido, mas produtivo, de classificadores nominais, que categorizam substantivos com base em características físicas. Além disso, ao contrário de outras línguas arawak, o yawalapiti não marca gênero nos prefixos de terceira pessoa, utilizando pronomes demonstrativos para essa distinção. Sua ordem de constituintes é predominantemente Sujeito-Objeto-Verbo (SOV).
Etimologia miniaturadaimagem|Tucum já maduro. O nome yawalapiti tem origem na própria língua yawalapiti e é composto pelos elementos yawála, que significa tucum (uma palmeira nativa da região, suas fibras e frutos são amplamente utilizados na produção de objetos artesanais), e píti, que significa povo, ou seja, "povo do tucum". No caso da língua em questão, existe apenas o endônimo, já que não há um exônimo distinto utilizado por outros grupos.
Distribuição
A fluência no yawalapiti está quase completamente restrita ao povo yawalapiti, sendo falada por um número extremamente reduzido de indivíduos. Em 2021, os falantes da língua representam uma pequena fração da população total, de cerca de 305 indivíduos, enquanto a maioria se comunica em línguas indígenas predominantes na região, como o mehinaku, kamaiurá e o kuikuro.
Em 2021, a língua yawalapiti conta com apenas três falantes plenos: Waripirá da aldeia Caramujo, Makawana e Makuku, ambos da aldeia Yawalapiti. Além deles, há um pequeno grupo de falantes parciais e lembradores, incluindo quatro mulheres mais velhas e alguns indivíduos que ainda mantêm certo conhecimento do idioma. Entre os aprendizes, destacam-se dois homens adultos que estão retomando o uso da língua, três jovens mulheres com conhecimento básico e duas crianças, de quatro e oito anos, que estão aprendendo o yawalapiti com os mais velhos. +Categoria do falanteGrau de proficiênciaNomeGêneroAldeiaFalante NativoProficiente, com certos esquecimentos de palavras e modos de se expressar.Warípirá HomemAldeia CaramujoMakawanaHomemAldeia YawalapitiMakúkuHomemAldeia YawalapitiFalante NativoAinda conseguem se comunicar na língua, embora apresentem esquecimentos de vocabulário e formas de expressão.ÑapirúMulherAldeia PaluxaioArupyMulherAldeia PaluxaioSanainMulherAldeia BatuviUléMulherAldeia Aturua Falante NativoConseguem se lembrar de algumas palavras e frases.KajanumáluMulherAldeia Awetý do Saidão Tsi’ápukú HomemAldeia Awetý do Saidão AwirinápuHomemAldeia HiuláyaJatamápukú HomemAldeia YpawúMayalúMulherAldeia LahatuaPairumáMulherAldeia CaramujoAirikáHomemAldeia PaluxaioAprendizes como segunda línguaAlto grau de proficiênciaTapíHomemAldeia YawalapítiGrau médio de proficiênciaWalámatíuHomemCrianças aprendizesEm fase inicial de aprendizagemUm menino e uma meninaAldeia Yawalapíti
Diásporas Os yawalapitis estão distribuídos em cinco aldeias dentro do Parque Indígena do Xingu. No entanto, um número crescente de jovens tem migrado para cidades próximas, como Canarana, Gaúcha do Norte e Querência. Nesse contexto, as línguas mais faladas entre os yawalapiti são o kamaiurá e o kuikuro, enquanto o uso do yawalapiti tem diminuído progressivamente.
Dialetos A língua yawalapiti não apresenta dialetos distintos, mas há variações fonéticas e fonológicas entre os falantes. Diferenças na pronúncia podem ser observadas entre indivíduos, como a alternância entre [t] e [tʃ], além do apagamento de /h/ em determinados contextos.
Essas variações foram registradas especialmente entre Aritana e Makawana, que foram criados na mesma aldeia, mas apresentam diferenças na pronúncia de certas palavras. Um exemplo disso é a expressão "vamos procurar", que pode ser pronunciada como [ˈaja aˈwauˈti] por um e [ˈaja aˈwauˈtʃi] por outro.
Apesar dessas variações individuais, a língua não se subdivide em variantes regionais ou dialetais, pois a comunidade falante é pequena e concentrada em um território restrito. O contato frequente com outras línguas indígenas do Alto Xingu tem influenciado o yawalapiti, mas sem resultar na formação de dialetos internos.
Línguas Relacionadas A língua yawalapiti forma com as línguas mehinaku e wauja um pequeno conjunto de línguas arawak. As línguas irmãs mais próximas desse pequeno conjunto são as línguas faladas pelos povos enawenê-nawê e pareci, localizados ao Noroeste do Parque Indígena do Xingu, e pelos teréna e kinikináw, localizados a sudoeste. Deste pequeno conjunto de línguas a que pertence a língua yawalapiti, considerando aspectos lexicais, morfossintáticos e fonológicos, ela se destaca como a mais diferente.
(† = língua extinta) +Comparação entre os vocábulos das línguas da família xaray-xinguPortuguêsYawalapítiMehinakoWaujaAvôatuatuatuArcoitaɨ̃tatãȷ̃ ɨtajCabeçakuʂutɨwɨtiwiCarneitinihĩtihɨtajCasapapaipajOssoapinapinapi 300 px| thumb |Mulheres Yawalapitis durante a Marcha das Mulheres Indígenas em Brasília (DF), 2019. História
História do Povo De acordo com a tradição oral, a primeira aldeia dos yawalapitis localizava-se na região do Médio Xingu e era chamada de Yawalapíti. Posteriormente, foram fundadas as aldeias Yakunipü, ao norte da aldeia Aweti, e Üuya (lagoa), próxima ao atual Posto Leonardo. Os yawalapitis também habitaram a região de Amakapuku, a três quilômetros ao sul desse posto, e posteriormente estabeleceram a aldeia Tipa Tipa (Rio das Pedras), onde atualmente residem.
A estrutura das aldeias refletia a organização social dos yawalapitis, com casas comunais dispostas em círculo e um pé de tucum de aproximadamente 30 metros de altura no centro, o que originou a denominação "povo do tucum". Artefatos como cerâmicas, machados de pedra e marcas humanas ainda são encontrados nos antigos assentamentos.
Nessas antigas aldeias, os yawalapitis passaram por situações difíceis, tendo sua população reduzida a 8 pessoas por feitiços, ou seja, mortes atribuídas a causas sobrenaturais, de acordo com as crenças do povo. Para os yawalapitis, algumas doenças e mortes não ocorrem por causas naturais, mas podem ser resultado de forças sobrenaturais ligadas à feitiçaria. Um ano após a tragédia, o Cacique Aritana foi assassinado por guerreiros awetý, levando alguns a se refugiarem entre os kuikuros, mehinakos e kamaiurás.
Durante esse período de reorganização, Orlando Villas Bôas desempenhou um papel crucial ao facilitar a reunificação das famílias yawalapiti. Inicialmente, o contato foi mediado por Nahu Kuikuro, que havia aprendido português e comunicou ao sertanista sobre a presença de Kanátu e Sariruá na aldeia Kuikuro. Orlando então organizou expedições para localizar outros yawalapitis dispersos entre os mehinako e kamaiurá, promovendo reencontros entre parentes.
Após a reunião dos yawalapitis, Villas Bôas incentivou casamentos para reforçar a coesão do grupo. Kanátu casou-se com Teporí Kamayurá, filha do cacique Kutamapü, enquanto outros membros da comunidade também se uniram a parceiros de diferentes etnias. Esses casamentos ajudaram na recuperação demográfica dos yawalapiti, mas também impactaram a transmissão da língua e das tradições culturais. A primeira criança nascida após a reunificação foi Aritana, neto do cacique Aritana, morto em um conflito anterior. Orlando emocionado com o nascimento, celebrou o evento como um símbolo da continuidade do povo yawalapiti. Porém, Aritana faleceu de COVID-19 em 2021.
O indigenista queria ver o povo crescer novamente e ver a alegria da população. Desde este momento, a população cresceu consideravelmente, chegando em 2021 a aproximadamente 305 pessoas.
Wátsu, prima de Aritana Yawalapiti, desapareceu na floresta em 2016 e nunca foi encontrada. Segundo os yawalapitis, ela encantou-se e tornou-se paʎɨ́ri, uma entidade ligada à natureza, conforme a cosmologia do povo.
Situação Atual Na década de 1990, o processo de formação dos jovens yawalapiti era marcado por uma rigorosa preparação cultural, com práticas como o uso de pinturas corporais, o fortalecimento físico e o aprendizado de várias habilidades tradicionais. A pintura corporal, por exemplo, era um privilégio reservado apenas aos guerreiros, que passavam por uma reclusão e seguiam um ciclo de aprendizado guiado pelos mestres. Durante esse período, os jovens eram instruídos em conhecimentos como o significado dos símbolos, a origem das pinturas, além de habilidades práticas como o uso de flautas, a construção de casas tradicionais e a confecção de itens culturais, como pentes e máscaras. Esses processos tinham como objetivo garantir a continuidade da cultura e a transmissão dos saberes ancestrais.
Entre 2000 e 2013, mudanças significativas começaram a afetar as tradições yawalapiti, especialmente a prática da pintura corporal. A introdução de influências externas, como a televisão e os modelos ocidentais de moda e comportamento, causou um afastamento dos jovens das práticas culturais. Muitos começaram a usar as pinturas de forma superficial, sem compreender seu significado e a complexidade dos rituais associados a elas. As tintas artificiais passaram a ser preferidas por sua facilidade de remoção, e a participação em cerimônias e rituais diminuiu. Esse enfraquecimento nas práticas culturais resultou em uma perda significativa de identidade e saberes tradicionais entre os jovens yawalapiti, o que tem gerado preocupação entre os mais velhos. Situação Sociolínguistica Em 2021, a língua yawalapiti está em risco de desaparecer, com apenas alguns falantes fluentes e poucos jovens que ainda mantêm o conhecimento. A maioria dos yawalapiti fala outras línguas, como mehinako, waujá, kuikuro, kalapálo e kamaiurá, além do português. Existem apenas três falantes fluentes da língua yawalapiti, juntamente com quatro lembradores. Esse afastamento e a presença de cônjuges de outras etnias dificultam a transmissão da língua para as novas gerações.
Apesar disso, há sinais de esperança, pois alguns jovens estão demonstrando interesse em aprender a língua yawalapiti, o que pode ajudar a preservá-la. Em algumas situações, os yawalapitis ainda falam sua língua com os mais jovens, mas, geralmente, os jovens respondem em línguas como o kamaiurá, kalapálo ou kuikuro.
Além disso, alguns membros da comunidade, como o Tapi Yawalapíti e seu primo Walamatíu, utilizam o Método Mestre e Aprendiz para promover o aprendizado da língua e tentar reviver a fluência entre os falantes.