Daphne Anne Caruana Galizia (nascida Vella; Sliema, 26 de agosto de 1964 - Bidnija, 16 de outubro de 2017) foi uma escritora, bloguer e ativista anticorrupção maltesa que escreveu sobre os acontecimentos políticos em Malta. Ela dedicou-se ao  jornalismo de investigação, fazendo reportagens sobre a corrupção governamental, nepotismo, clientelismo, alegações de lavagem de dinheiro, ligações entre a indústria de jogos de azar online de Malta e o crime organizado, o esquema de obtenção da cidadania em troca investimento em Malta e pagamentos do governo do Azerbaijão.

Construiu a sua reputação nacional e internacional ao denunciar regularmente a má conduta de políticos malteses e pessoas politicamente expostas.

Apesar da intimidação e ameaças, processos por difamação e outros processos judiciais, Caruana Galizia não deixou de publicar artigos. Ela foi presa pela policia de Malta duas vezes.

As suas reportagens foram publicadas no seu blog Running Commentary, que criou em 2008. Ela foi colunista regular do The Sunday Times of Malta e mais tarde do The Malta Independent. O seu blog consistia em reportagens de investigação e em comentários seus sobre a actualidade, alguns dos quais foram considerados como ataques pessoais por determinados indivíduos, o que levou-a a uma série de batalhas legais. Em 2016 e 2017, ela revelou uma série informações e alegações controversas e delicadas sobre  vários políticos malteses e o escândalo dos Panama Papers.

No dia 16 de Outubro de 2017, Caruana Galizia foi assassinada perto da sua casa quando uma bomba que tinha sido colocada no seu carro rebentou. Este ato foi condenado nacional e internacionalmente. Em Dezembro de 2017, três homens foram presos pelo atentado. A polícia prendeu Yorgen Fenech, o dono da empresa 17 Black, sedeada no Dubai, no seu iate no dia 20 de Novembro de 2019 por estar associado ao assassinato.

Em abril de 2018, um consórcio internacional com 45 jornalistas, publicou o Projecto Daphne (The Daphne Project), um trabalho colaborativo que visou completar o seu trabalho de investigação. O prémio GUE/NGL para Jornalistas, denunciantes & Defensores do Direito à Informação, foi criado em 2018, em homenagem a Galizia.

Biografia Daphne Anne Vella nasceu no dia 26 de Agosto de 1964, em Sliema. Era a mais velha de quatro irmãs, filhas do empresário Michael Alfred Vella e da sua esposa Rose Marie Vella (nascida Mamo). Estudou no Convento de Santa Doroteia em Mdina e na St Aloysius' College, em Birkirkara. Frequentou Arqueologia na University of Malta Archaeology, especializando-se em Anthropologia em 1997.

Caruana Galizia entrou em contacto com a política no final da adolescência, tendo sido presa aos 18 anos por ter participado em protestos contra o governo. Em 1985, casou com o advogado Peter Caruana Galizia, neto de John Caruana e bisneto de E.L. Galizia e A.A. Caruana. O casal teve 3 filhos, Matthew, Andrew and Paul. Matthew foi membro do International Consortium of Investigative Journalists. A família deixou Sliema em 1990, mudando-se para Bidnija, uma aldeia nos arredores de Mosta.

Carreira Caruana Galizia trabalhou como jornalista no The Sunday Times of Malta em 1987, tornando-se numa colunista regular de 1990 a 1992 e novamente de 1993 a 1996. Foi editora associada do The Malta Independent , em 1992, manteve-se como colunista nos dois jornais durante toda a sua carreira. Para além disto, trabalhou como consultora noutros meios de comunicação e como relações públicas.

Foi também a editora fundadora da revista Taste and Flair, que era distribuída mensalmente com o The Malta Independent on Sunday. As duas publicações foram unidas numa única revista chamada Taste&Flair em Julho de 2014, Caruana Galizia permaneceu como editora até à sua morte. Taste&Flair é agora publicada pela Fundação Daphne Caruana Galizia.

Em Março de 2008, ela criou o blog intitulado Running Commentary, onde colocava reportagens resultantes das suas investigações e comentava sobre assuntos da actualidade e figuras públicas. O blog era um dos sites mais populares de Malta, com mais de 400.000 visualizações - mais do que a circulação combinada dos jornais do país.

Devido ao seu trabalho e às suas opiniões Caruana Galizia recebeu ameaças. A porta da frente da sua casa foi incendiada em 1996. Cortaram a garganta ao cão da família e colocaram-no na entrada da casa. Anos mais tarde o carro do vizinho ardeu e pensa-se que terá sido por engano e que o alvo era ela. Em 2006 houve outro incidente, pegaram fogo à casa enquanto a família dormia lá dentro. Depois de Caruana ter criado o blog, o seu terrier Zulu foi envenenado e o seu collie Rufus foi morto a tiro.De acordo com o seu filho Matthew, as ameaças eram diárias, desde telefonemas, recados colados na porta de casa, mensagens de texto, emails e comentários no blog dela.

Foi presa no dia 8 de Março de 2013 por quebrar o silêncio político na véspera da eleição geral de 2013, após postar vídeos a zombar com Joseph Muscat. Foi questionada pela policia durante várias horas antes de ser libertada.

Em Novembro de 2010, após ter comentado sobre a conservação da Villa Guardamangia (a casa onde moraram a Princess Elizabeth e o Prince Philip da Grã-Bretanha no início do seu casamento), Caruana Galizia foi descrita pelo The Daily Telegraph como a principal comentadora de Malta.

Outras grandes histórias e controvérsias em torno das revelações dos Panama Papers e as alegações de que Chris Cardona visitara um bordel durante uma visita oficial à Alemanha em Janeiro de 2017, colocaram-na na ribalta.

Em 2016, Caruana Galizia questionou a forma de como o milionário britânico Paul Golding adquiriu o Palazzo Nasciaro em Naxxar, e em meados de 2017, ela tornou-se numa fervorosa critica do novo líder nacionalista da oposição Adrian Delia, afirmando que ele lavara dinheiro para uma empresa envolvida numa rede de prostituição no Soho.

Panama Papers A 22 de Fevereiro de 2016, Caruana Galizia's Running Commentary blog reportou que o ministro maltês Konrad Mizzi tinha ligações ao Panamá e à Nova Zelândia. Isto obrigou o ministro a revelar a existência de um fundo fideicomisso registado na Nova Zelândia dois dias depois, alegando que este tinha sido criado para administrar os bens da sua família. No dia 25 de Fevereiro, Caruana Galizia revelou que o chefe de gabinete do primeiro-ministro Joseph Muscat, Keith Schembri, possuía um fundo semelhante na Nova Zelândia, que por sua vez tinha uma empresa do Panamá.

A divulgação pública dos Panama Papers em Abril de 2016 confirmou que Mizzi era dono da empresa Panama Hearnville Inc., e que Mizzi e Schembri também tinham fundado a empresa Tillgate Inc. As empresas pertenciam à Orion Trust New Zealand Limited, os mesmos fiduciários da Mizzi e dos fundos de Schembri na Nova Zelândia, Rotorua e Haast, respectivamente.

Como a primeira pessoa a divulgar o envolvimento de Mizzi e Schembri's nos Panama Papers, ela foi nomeada pelo Politico como uma das "28 pessoas que estão a moldar, abanar e a fazer tremer a Europa." A publicação descreveu-a como "uma WikiLeaks feminina, numa cruzada com a falta de transparência e corrupção em Malta."

Em 2017, ela alegou que Egrant, outra empresa do Panamá, pertencia a Michelle Muscat, mulher do primeiro ministro Joseph Muscat. Muscat declarou que estas alegações fora a razão pela qual ele antecipou as eleições gerais para 2017, que reconduziram ao poder o seu partido. Caruana chamou a atenção que uma eleição antecipada já estava planeada.

O título do seu último post no blog, antes de ser morta dizia: "Aquele vigarista do Schembri estava hoje no tribunal, alegando que não é um vigarista", terminava com a linha "Agora há bandidos por toda parte para onde quer que olhes. A situação é desesperante."

Em 20 de Novembro de 2019, a polícia prendeu Yorgen Fenech, proprietário da empresa 17 Black sedeada no Dubai, no seu iate. Essa empresa constava no trabalho de investigação efectuado por ela sobre os Panama Papers e o envolvimento de Keith Schembri e Konrad Mizzi neles, este último renunciou a seus cargos no governo no dia 26 de Novembro.

Schembri foi preso, e libertado dois dias mais tarde, o que provocou uma onde protestos na ruas da capital, Valletta. A partir de 20 de Novembro, multidões começaram a pedir a resignação do Primeiro Ministro Joseph Muscat depois de ele ter dito que era capaz de perdoar o "intermediário" do assassinato.

Calúnia e casos de difamação criminal Em 2010, Caruana Galizia usou seu blog para criticar a magistrada Consuelo Scerri Herrera e esta apresentou uma queixa criminal na polícia. O caso foi retirado em Novembro de 2011.

Em maio de 2017, o proprietário e presidente do Pilatus Bank, Ali Sadr Hasheminejad, processou-a num tribunal do Arizona, em seu próprio nome e em nome do Pilatus Bank. Pedia US $ 40 milhões por danos. Caruana Galizia nunca recebeu uma notificação sobre isso e o processo foi retirado poucas horas após sua morte.

Durante 2017, o Banco Pilatus, ameaçou por escrito todos os meios de comunicação não governamentais de Malta, mas só cumpriu a ameaça no caso de Daphne Caruana Galizia. Todos os outros meios de comunicação haviam concordado em fazer alterações ao seu conteúdo online. Um dos visados informou que cartas ameaçadoras foram enviadas 12 horas antes da morte de Daphne Caruana Galizia.

Em Fevereiro de 2017, foi criado um fundo legal, financiado por crowdfunding, para cobrir quatro mandados de precaução - que congelaram os activos de Caruana Galizia no valor de 50.000€ - pelos danos máximos por difamação possíveis em lei. Estes mandados foram instituídos pelo vice-líder do Partido Trabalhista e Ministro da Economia, Chris Cardona, e pelo seu representante na de política na presidência da UE, Joseph Gerada.

No momento de sua morte, Daphne Caruana Galizia enfrentava 48 processos por difamação.

Morte

Por volta das 15h do dia 16 de Outubro de 2017, Daphne Caruana Galizia estava a conduzir perto de da sua casa em Bidnija, quando uma bomba colocada no Peugeot que alugara explodiu, matando-a instantaneamente. A explosão ocorreu na Bidnija Road e o veículo ficou espalhado em vários pedaços nos campos mais próximos.

Caruana Galizia ia no banco do condutor, mas os seus restos mortais foram encontrados pelo seu filho Matthew, a 80 metros do local da explosão. Ele escreveu no Facebook: “Eu olhei para baixo e havia partes do corpo da minha mãe à minha volta”. Foi o sexto atentado com uma bomba colocado num carro, em Malta desde o início de 2016 e a quarta fatalidade. A casa de Caruana Galizia não estava sob vigilância policial desde 2010, excepto durante as eleições. Segundo fontes policiais, ficou ainda mais desprotegida quando o Partido Trabalhista voltou ao poder em 2013.

A abertura de um inquérito público sobre se o assassinato de Daphne Caruana Galizia podia ter sido evitado, estava nas mãos do então primeiro-ministro maltês, Joseph Muscat. Este, não abriu de imediato um inquérito público, por isso os herdeiros de Caruana Galizia, pediram-lhe formalmente por carta que fosse aberto um, no dia 9 de Agosto de 2018, com base na opinião legal de Doughty Street Chambers e Bhatt Murphy Solicitors.

Reacções miniaturadaimagem|Flores, velas e tributos a to Daphne Caruana Galizia deixados nos pés do Great Siege Monument, que fica no lado oposto ao tribunal em Valletta. A família acusou as autoridades maltesas por nada fazerem contra uma crescente "cultura de impunidade" em Malta, dizendo que Joseph Muscat, Keith Schembri, Chris Cardona, Konrad Mizzi, o procurador-geral Peter Grech e uma longa lista de comissários de polícia ao não agirem, foram politicamente responsáveis ​​por sua morte. A família dela recusou-se a apoiar publicamente a proposta de o governo oferecer uma recompensa no valor de um milhão de euros a quem desse informações sobre o caso, e apesar da pressão do primeiro-ministro e do presidente, insistiu que o primeiro-ministro deveria renunciar.