David Cury (Teresina, 1963) é artista visual brasileiro. Atua em suportes diversos, da pintura à instalação, passando pela Escultura, Fotografia e Trabalhos para Contexto Específico ― exibidos, entre outros, na Somerset House (Londres, 2012), Museu Bozar (Bruxelas, 2011) e Carreau du Temple (Paris, 2005). De dezembro de 2015 a fevereiro de 2016, realizou A vida é a soma errada das verdades no Paço Imperial do Rio de janeiro. Em 2013 e 2014, recebeu duas seguidas indicações ao CIFO's Grants and Commissions Program (prêmio de aquisição & financiamento para a Arte Latino-Americana) na categoria mid-career artist ― concedido pela Cisneros Fontanals Art Foundation, com sede em Miami. Em 2010, participou da 29ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo com a instalação Antônio Conselheiro não seguiu o conselho, e recebeu indicação ao Prêmio Investidor Profissional de Arte (PIPA). Em 2009, ocupou todo o Espaço Monumental do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro com as instalações Há vagas de coveiro para trabalhadores sem-terra e Antônio Conselheiro não seguiu o conselho; e a intervenção Eis o tapete vermelho que estendeu o Eldorado aos carajás. Mestre em Artes Visuais (UFRJ), Especialista em História da Arte e da Arquitetura no Brasil (PUC-Rio), é desde 2002 orientador da oficina Antiformas de intervenção ― com foco em conceitualidade, multimeios, suportes estáveis e efêmeros ― na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio, onde vive e trabalha.

Vida e Formação David Abdala Cury é filho de Júlia Salomão Chaib e Abdala Jorge Cury. Pintor autodidata, aos 13 anos recebe menção honrosa dos críticos Frederico Morais, Carlos Maciel Levy e Francisco Bittencourt no Salão de Arte do Piauí, organizado em parceria com a Funarte. Muda-se para Recife quatro anos depois, em 1981. Após a graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Pernambuco, chega ao Rio em fevereiro de 1986 ― passando a conhecer, entre outros, os artistas Ascânio MMM, Fernando Leite, Manfredo Souzanetto, Ronaldo Macedo e Sálvio Daré; os críticos de arte Fernando Cocchiarale, Ronaldo Brito e Elmer Corrêa Barbosa; os filósofos Henrique Antoun e José Thomaz Brum; os historiadores Anna Maria Fausto Monteiro de Carvalho, Gustavo Schnoor, Jorge Czajkowski, Margareth Campos da Silva Pereira, Maria Luíza Fallabella, Myriam Andrade Ribeiro, Sônia Gomes Pereira e Vanda Klabin; a socióloga Rosza vel Zoladz; a antropóloga Liana Silveira; a bibliotecária do SPHAN Lygia Fernandes; a curadora do CEPEDOC/MAM-Rio Rosana de Freitas, a educadora Ana Maria Monteiro; os arquitetos Cláudia Muricy e Ivan Pascarelli; o fotógrafo Wilton Montenegro; e a jornalista de cultura Meise Halabi.

Com a Especialização em História da Arte e da Arquitetura no Brasil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1990) e o Mestrado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992), tornou-se professor de História da Arte, de Teoria da Arquitetura Moderna e Contemporânea e de Projeto Arquitetônico nas Universidades Gama Filho e Santa Úrsula.

Em paralelo, passou a assinar textos sobre Arte Contemporânea publicados em revistas, livros e catálogos especializados. É quando se iniciou sua trajetória internacional: em 1993, integra Sechs aus Rio, exposição coletiva na Maerz Gallery (Linz, Áustria). No mesmo ano, é o único artista com ateliê no Rio selecionado pelo The Tamarind Institute para o programa The Art of the Americas ― e realiza a mostra individual Mental Eyes em 1994, na The Cafe Gallery, em Albuquerque (Novo México, EUA). Em 1996, recebe bolsa-ateliê concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro ― sob curadoria e orientação de Fernando Cocchiarale, Katie van Scherpenberg, Lygia Pape, Paulo Herkenhoff e Waltércio Caldas. No período 2003-2004, é artista e palestrante convidado da Rede Nacional de Artes Visuais/Funarte.

Trajetória miniaturadaimagem|esquerda|DAVID CURY Antônio Conselheiro não seguiu o conselho, 2009 3.6 m x 8.4 m x 24 m contêineres (do tipo case), vidro, ferro, aço, alumínio, borracha, lâmpadas fluorescentes queimadas Espaço Monumental do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro [fotografia de Wilton Montenegro]

Nas últimas duas décadas, David Cury tem desenvolvido pinturas, instalações e intervenções de articulação dialética polarizada — buscando cruzar questões intrínsecas de arte com outras associáveis à vida contemporânea.

Desde Para a inclusão social do Crime (Funarte, Rio de Janeiro, 2003) até Antônio Conselheiro não seguiu o conselho (29ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, 2010) — passando por Há vagas de coveiro para trabalhadores sem-terra (Carreau du Temple, Paris, 2005); Paradeiro (Estação da Leopoldina, Rio, 2006); Hydrahera (Morro da Conceição, Rio, 2008); Corumbiara não é Columbine (Musée Bozar, Bruxelas, 2011); É com o sexo que os homens se deitam, pedindo como anões o seu ascenso (Somerset House, Londres, 2012) e Rasa é a cova dos vivos (Museu de Arte Contemporânea do Ceará, Fortaleza, 2013) — são trabalhos que assumem imediata margem ensaística; ou seja, durante o processo de execução ou montagem, eles podem variar em materialidade, estruturação e escala.

A mostra que realizou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro de agosto a outubro de 2009 teve como eixo alguns dos incontáveis conflitos fundiários no Brasil. Ela reunia duas instalações e uma intervenção (sobre a grande parede do Espaço Monumental) em que se cruzavam referências seminais da arte contemporânea com reincidências da história social brasileira. Episódios emblemáticos da questão agrária local — Canudos, Eldorado dos Carajás, Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra — resultaram ali em abstrações de dimensões públicas e caráter de situação, fisicamente instáveis, prementes à queda ou ao desaparecimento.

Mais recentemente, na instalação A vida é a soma errada das verdades (Paço Imperial do Rio de Janeiro, 2015-2016), David Cury propôs uma espécie de monumento crítico às formas estruturais de violência no Brasil. Por uma extensão longitudinal de aproximadamente 150 m², três núcleos temáticos convergentes e cruzados (violência social, violência política e violência moral) entregam uma espécie de praça cívica de sinal negativo — com textos do artista esculpidos em lajes de concreto armado. Elas acusam a falácia da Democracia, em modo grave, transparente, corrosivo e público.

Comentários Críticos

miniaturadaimagem|direita|David Cury - A vida é a soma errada das verdades, 2015. Concreto armado, aço, vidro, ferro, aço, cerâmica, madeira, resíduos de calcinação aprox. 150 m² (eixo da instalação com 15 lajes medindo 1.3 m x 1.3 m x 5 cm – cada uma) Paço Imperial, Rio de Janeiro [fotografia de Wilton Montenegro]

“No limite da crítica a esse quadro histórico, David Cury vem trabalhando os elementos da morte atual da pintura, radicalizando-os. Contra a valorização da expressão e do gesto, as suas telas resultam de conceitos (a arte e seus artistas referenciais), de métodos (a mesma e objetiva modulação do plano pictórico) e da subversão de repertórios (em lugar da investigação das propriedades expressivas e matéricas das tintas e cores, a utilização da monocromia tonal negra). Cury utiliza-se de um sistema modular de ocupação espacial para neutralizar, de modo quase absoluto, toda expressão (o sujeito) e seus resultados (o objeto) e criar uma espécie de não-pintura”― escreve o crítico de arte e curador Fernando Cocchiarale, em artigo para a Revista argentina Southward Art intitulado “Non-painting?” (2001).

Em texto acerca da mostra individual Os dias em claro na Galeria Anita Schwartz, no Rio de Janeiro (2004), o crítico de arte e curador Reynaldo Roels Jr teoriza: “Talvez a situação em que se encontra a pintura hoje — um tanto encurralada após a perda de sua posição secularmente central na história da arte — favoreça o tipo de interrogação de David, sobre as estratégias, os limites e os efeitos da pintura. E fazê-lo apenas no essencial, sem sobrecargas que, em vez de esclarecer, acabem por confundir. As restrições a que David submete a pintura são uma forma de limitar suas manobras para delas extrair o máximo de conteúdo. Ou, antes, concentrar a pintura, de modo controlado e consequente, para melhor dominar a fronteira do território que ela própria ocupa.”

miniaturadaimagem|esquerda|DAVID CURY - Eis o tapete vermelho que estendeu o Eldorado aos Carajás, 2009 7.9 m x 29 m etiquetas adesivas PIMACO (13 mm e 19 mm de diâmetro) Espaço Monumental do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro [fotografia de Wilton Montenegro]

“Diversamente da pintura gestual, que marcou uma parcela significativa de seus colegas de geração, na pintura de David Cury não há espaço nem motivo para que se prossiga divulgando a ideia do artista como uma espécie de herói, o último representante de um homem capaz de ações superlativas. A opção por gestos e motivos visuais simples e enxutos demonstram o valor da concentração e do foco como estratégia para obtenção de segurança e da afirmação da pintura como um território linguístico no qual a consciência se exercita e toma posse” ― defendem os curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos, por ocasião da mostra Geração da virada, 10+1: os anos recentes da arte brasileira realizada no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo (2007).

No Catálogo da 29ª Bienal Internacional de São Paulo (2010), os curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos destacam: “Em Antônio Conselheiro não seguiu o conselho, David Cury elege como eixo temático os conflitos fundiários no Brasil. A obra atualiza a história da disputa, no século XV, entre as cidades de Florença e Siena, retratada por Uccello em A batalha de São Romano (c. 1450). Esse episódio é aproximado ao imaginário da Guerra de Canudos (1896-97), um confronto entre o exército brasileiro e o movimento sociorreligioso liderado por Antônio Conselheiro no sertão do fim do século XIX. A montagem de Antônio Conselheiro não seguiu o conselho é instável e arriscada, com uma trincheira de mais de mil lâmpadas frias tubulares queimadas, lâminas de vidro, hastes de ferro e contêineres conectados por simples apoio, sem procedimentos de fixação”.

miniaturadaimagem|direita|DAVID CURY A aurora cospe o seu leite escuro (díptico), 2004 2 m x 6 m tela com lona crua, tinta acrílica Coleção Gilberto Chateaubriand, Rio de Janeiro [fotografia de Wilton Montenegro]

Curadora de Construction and Deconstruction at Brazilian Contemporary Art (1990’s – Today), realizada no Museu Bozar, em Bruxelas (2011-2012), Sonia Salcedo afirma que “as explorações de David Cury para com a Pintura — ele a pulveriza conceitualmente, de acordo com uma lógica de distensão, em uma explosão de pequenos pontos adesivados sobre a parede — se estendem ao espaço plástico, estético e até político, como por exemplo o relatado em Corumbiara não é Columbine: uma intervenção que criticamente vincula a execução de um número desconhecido de trabalhadores sem-terra por pistoleiros e oficiais militares contratados por agricultores em Corumbiara, no estado de Rondônia, em 1995, com o assassinato de 13 estudantes e professores por dois adolescentes da classe média alta em Columbine, no estado do Colorado, em 1999.”