Elisaldo Luiz de Araújo Carlini (Ribeirão Preto, 9 de junho de 1930 — São Paulo, 16 de setembro de 2020) foi um médico, psicofarmacólogo, professor universitário e pesquisador brasileiro. É considerado referência mundial e um dos pioneiros nos estudos farmacológicos sobre o potencial terapêutico da cannabis e de outras substâncias psicotrópicas.
Biografia Elisaldo nasceu na cidade de Ribeirão Preto, em 1930. Era filho de Francisco Araújo Carlini e Ana Ferreira Goyos Carlini. Ainda na infância, mudou-se para Piraju, no norte do estado de São Paulo, onde cursou os estudos primários em uma escola rural com quase nenhum recurso. Aos 11 anos, mudou-se para São José do Rio Preto, onde termina o curso ginasial.
Aos 15 anos, mudou-se para a cidade de São Paulo, trabalhou no secretariado da multinacional de gases industriais White Martins como office boy, ao mesmo tempo em que frequentou o curso científico noturno na Escola Estadual Caetano de Campos. Em 1952, ingressou na então Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), formando-se em 1957. Já a partir do segundo ano de curso, fez estágio no Departamento de Bioquímica e Farmacologia, sendo orientado pelos professores José Ribeiro do Valle e José Leal Prado.
Carreira Em 1960, ganhou uma bolsa da Fundação Rockefeller e ingressou no Departamento de Bioquímica da Universidade Yale, nos Estados Unidos, onde cursou o mestrado. Carlini retornou ao Brasil em 1964, quando lecionou brevemente no Instituto Biológico de São Paulo. No começo de 1965, passa a chefiar a disciplina de Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Em 1970, retorna à Escola Paulista de Medicina com o título de Professor Adjunto, onde fundou o Departamento de Psicobiologia e chefiou a disciplina de Psicofarmacologia, até 1995, quando assumiu o cargo de Secretário Nacional de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, onde permanece até março de 1997.
Em 1997, Elisaldo retornou à UNIFESP, onde funda o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), além de se dedicar a atividades de pesquisa e ensino para cursos de pós-graduação. Elisaldo tem cerca de 340 trabalhos científicos publicados, cerca de metade deles em revistas internacionais. Orientou 37 mestrados, 29 doutorados e participou de diversas bancas em concursos e defesas. Pesquisou plantas brasileiras com ação no sistema nervoso central e desenvolveu pesquisas sobre substâncias psicoativas, especialmente compostos derivados da maconha, como o canabidiol.
Elisaldo também foi condecorado duas vezes pela Presidência da República por seu trabalho científico pioneiro. Como Secretário Nacional de Vigilância Sanitária, entre 1995 e 1997, assumiu uma pasta que, segundo ele, tinha "uma fama medonha de corrupção", e relatou ter afastado quinze funcionários, fechado entre cem e cento e cinquenta laboratórios irregulares e cancelado mais de trezentos registros de farmácias de manipulação ligadas a fórmulas para emagrecimento. Sua gestão à frente da secretaria é apontada como um dos antecedentes da criação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), instituída pela Lei n.º 9.782, de 26 de janeiro de 1999, dois anos após sua saída do cargo. Foi ainda membro do Órgão Internacional de Controle de Entorpecentes (INCB), órgão eleito pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, entre 2002 e 2007. Seu trabalho contribuiu para a criação do PL 399/2015, que traz a possibilidade de cultivo e produção de remédio à base de cannabis no Brasil, existindo um abaixo-assinado que solicita que a lei leve o nome de Lei Elisaldo Carlini, em sua homenagem.
Formação de pesquisadores Além da produção científica, Carlini teve papel central na formação de pesquisadores brasileiros. O Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, que fundou em 1970, tornou-se um dos principais centros de psicofarmacologia do país, e entre os alunos e orientandos que por ele passaram estão nomes que vieram a liderar suas próprias áreas de pesquisa.
Sérgio Tufik — doutorou-se na Escola Paulista de Medicina em 1978, sob orientação de Carlini, com a tese Privação de sono paradoxal e sistemas dopaminérgicos cerebrais do rato. Tornou-se professor titular do Departamento de Psicobiologia da Unifesp e fundador do Instituto do Sono, consolidando-se como principal nome da medicina do sono no Brasil. Reinaldo Naoto Takahashi — concluiu em 1975 o mestrado em psicobiologia orientado por Carlini, com dissertação sobre a interação farmacológica entre os constituintes da Cannabis sativa. Doutorou-se na Universidade La Trobe, na Austrália, e consolidou na Universidade Federal de Santa Catarina uma linha de pesquisa em farmacologia de canabinoides. Antonio Waldo Zuardi — foi aluno de Carlini na Escola Paulista de Medicina, onde concluiu em 1980 o doutorado em psicobiologia, com tese sobre a interação entre o delta-9-tetra-hidrocanabinol e o canabidiol, orientada por Isac Germano Karniol. Na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, conduziu os primeiros estudos sobre os efeitos ansiolítico e antipsicótico do canabidiol em seres humanos. Fúlvio Rieli Mendes — fez mestrado (2000) e doutorado (2005) sob orientação de Carlini na Unifesp, com trabalhos sobre a farmacologia de plantas medicinais brasileiras. Professor da Universidade Federal do ABC, organizou com Carlini o livro Protocolos em psicofarmacologia comportamental, publicado pela Editora Unifesp.
Morte Elisaldo estava internado e morreu em 16 de setembro de 2020, em São Paulo, aos 90 anos, em decorrência de um câncer. Deixou a esposa, Solange Nappo, seis filhos, seis netos e dois bisnetos.
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