Imprensa negra no Brasil é o movimento jornalístico voltado especialmente, mas não exclusivamente, para a documentação e debate público das questões envolvendo o negro brasileiro, como a discriminação racial, a recuperação da dignidade, identidade, história e cultura dessa parcela da população, bem como destacando o protagonismo de personalidades negras, propondo a desconstrução da ideologia da democracia racial e a formação de uma nova consciência coletiva e um novo paradigma social. A imprensa negra tem sido, desde sua origem, uma das expressões mais importantes e combativas do movimento negro brasileiro.
Origens
Ao longo do período colonial ocorreram muitos questionamentos da escravidão, mas em geral os negros eram vistos como seres inferiores aos brancos e meras peças de mercadoria, sendo praticamente desprovidos de qualquer direito. Neste longo período a imprensa foi proibida de atuar por determinação da Coroa portuguesa, mas folhetins, panfletos e livros circularam amplamente de forma clandestina, muitas vezes abordando temas reivindicatórios. Há registro de que em 1789, quando os negros baianos promoveram a Revolta dos Búzios, panfletos e manifestos foram afixados em casas e muros como forma de aglutinação dos amotinados e desejando comunicar à sociedade seu repúdio às desigualdades sociais e à discriminação racial.
A proibição da imprensa foi revogada em 1808, com a chegada da família real, mas o primeiro periódico brasileiro legalizado dirigido por negros e voltado para a população negra, O Homem de Cor, só foi lançado em 1833, no Rio de Janeiro. Era impresso na tipografia de Francisco de Paula Brito, um homem negro nascido livre e carioca que já trabalhava com impressão de jornais e que é tido como um dos pioneiros na luta contra a escravidão e o preconceito racial no Brasil. Teve apenas cinco edições, iniciando em setembro e encerrando em novembro do mesmo ano.Pinto, Ana Flávia Magalhães. De Pele Escura e Tinta Preta: a imprensa negra do século XIX (1833-1899). Mestrado. Universidade de Brasília, 2006, p. 17 Pouco após o aparecimento de O Homem de Cor foram lançados mais quatro periódicos: Brasileiro Pardo, O Lafuente, O Cabrito e O Crioulinho, todos ainda em 1833. Nenhum deles teve uma vida longa, mas exerceram um significativo impacto fora do meio especificamente negro. Segundo Ana Flávia Magalhães Pinto, esses primeiros jornais negros não se concentraram no problema da escravidão, mas compartilhavam uma ideia, de inspiração liberal e iluminista, de que os talentos e virtudes pessoais, e não a cor da pele, deviam ser a garantia da igualdade e da democracia. Isso não anulava a sua autoidentificação pela cor, mas deve ser entendido no contexto de surgimento desses jornais, quando foi apresentado projeto legislativo pretendendo estabelecer o critério da cor para acesso a patentes superiores da Guarda Nacional e para identificação na listagem de cidadãos capazes de votar, discriminando mesmo os negros legalmente livres e emancipados, o que violava o texto constitucional e as promessas de igualdade feitas pelo imperador D. Pedro I. Na interpretação de Pinto, enquanto que a escravidão era um instituto legal, a discriminação pela cor, embora grave e generalizada, era apenas um costume, e institui-la legalmente aumentaria os problemas enfrentados pelos negros em todas as áreas, assim como removeria todos os negros livres de posições estratégicas de comando militar, os privaria de direitos políticos e aumentaria o poder de controle do Estado sobre essa população.Pinto, pp. 66-83
Num contexto todo desfavorável aos negros, outros jornais levariam décadas para surgir, reaparecendo somente em 1876 em Recife através de O Homem: Realidade Constitucional ou Dissolução Social, que repisava a questão da ilegalidade da discriminação dos libertos e assinalava que o preconceito parecia aumentar à medida que mais e mais negros se emancipavam, além de fazer os primeiros protestos contra as teorias eugênicas pseudocientíficas e os projetos de branqueamento populacional. O Homem se distinguiu dos seus precursores por uma abordagem mais ampla e profunda das questões pertinentes aos negros, indicando que neste longo intervalo sem imprensa houve um significativo ganho em experiências e em conhecimentos para o estabelecimento de argumentos mais sólidos contra a escravidão e a discriminação, mas assim como os outros, teve vida curta.Pinto, pp. 84-92 A partir desta época o abolicionismo se torna a nota dominante na imprensa negra brasileira, reivindicando a integração plena do negro na sociedade."Memória da imprensa negra no Brasil". Observatório da Imprensa, 04/02/2020 Também circularam 31 folhas, pasquins e panfletos avulsos exclusivamente dedicados ao abolicionismo entre 1871 e 1888, ano da abolição da escravatura, a exemplo do Cidade do Rio, de José do Patrocínio, e da Gazeta da Tarde, de Ferreira de Meneses, embora nem todos fossem editados por negros, mas também por simpatizantes brancos da causa.Brasil, Bruno. "Imprensa negra e abolicionista no acervo da Biblioteca Nacional". Biblioteca Nacional, 15/04/2020
Surgiram vários periódicos importantes ainda no século XIX, como A Pátria e O Progresso em São Paulo, em 1899, e o longevo O Exemplo em Porto Alegre, em 1892. Embora mantivessem propostas específicas diferentes e às vezes conflitantes, tinham em comum o reconhecimento da necessidade de educação da população negra, objetivando levantar o estigma do negro e do mulato como pessoas sem capacidade intelectual e prepará-los para o mercado de trabalho, e desejando criar uma consciência identitária coletiva que pudesse unir as demandas de diferentes grupos e fortalecer a luta reivindicatória de todos. Também não pareciam ter nenhuma saudade da monarquia, extinta em 1889, apesar da estima dedicada à princesa Isabel, chamada "a libertadora", pois em várias matérias ficara assinalado que os gabinetes monárquicos haviam se alternado entre liberais e conservadores e pouco mudava a situação do negro, enquanto que o projeto de república parecia muito mais promissor, anunciando uma nova era de igualdade de direitos, de democracia e de plena cidadania. Mas se esses direitos foram assegurados na lei, na prática eles seriam constantemente aviltados, tomando força a enganosa ideia da democracia racial que alegadamente havia sido implantada, e logo aumentando a sensação entre os negros de que as promessas oficiais mais uma vez haviam sido ocas e que sua situação, em vez de melhorar, piorava.Pinto, pp. 140-148
Com efeito, estava entrando no país naquele momento uma massa de imigrantes europeus pouco qualificados que disputava mais ou menos o mesmo mercado de trabalho,Domingues, Petrônio. "Movimento negro brasileiro: alguns apontamentos históricos". In: Tempo, 2007; 12 (23) muitos que estavam no campo perderam seu local de moradia e foram empurrados para favelas urbanas, sem nenhuma estrutura ou apoio,Grijó, Wesley Pereira. "Que negro é esse na cultura da mídia? Uma análise a partir do contexto gaúcho". In: Revista da ABPN, 2012; 4 (8):52-67 uma lei de 1890 proibiu o ingresso de qualquer negro no país, circulava um discurso historiográfico pretendendo apagar a contribuição do negro para o crescimento na nação — mesmo no nível puramente econômico, que diria cultural — e as teorias de branqueamento populacional ganhavam novo fôlego, estendendo sua influência para dentro das primeiras décadas do século XX.Pinto, pp. 132-154Beneduzi, Luis Fernando. "Por um braqueamento mais rápido: identidade e racismo nas narrativas do álbum do cinqüentenário da imigração italiana no sul do Brasil". In: Antíteses, 2011; 4 (7):13-30Carvalho, Ana Paula Comin de. "O 'Planeta': apontamentos sobre a invisibilidade dos negros no RS e seus reflexos no campo da cidadania". In: Revista Humanas — Cidadania e Políticas Públicas, 2005; (26/27):179-191
Século XX Nas primeiras décadas do século XX, apesar da altíssima taxa de analfabetismo ainda prevalente entre a população negra, o número de jornais e revistas se multiplicou rapidamente, diversificando-se o seu perfil, acrescentando ao jornalismo político-reivindicatório o jornalismo literário e o noticioso.Rosa, Isabel Cristina Clavelin da. "Imprensa Negra: descobertas para o Jornalismo brasileiro". In: Estudos em Jornalismo e Mídia, 2014; 11 (1) Embora nesta época a imprensa negra tivesse uma circulação limitada, alcançando principalmente a reduzida parcela da população negra que sabia ler, era comum que os alfabetizados servissem como multiplicadores da informação, reunindo em torno de si um grupo de interessados e lendo os jornais em voz alta para eles. Neste sentido, a imprensa foi um agente educativo importante neste período, e foram constantes as matérias exortando que não se esperasse por projetos do governo e sim que os próprios negros tomassem a iniciativa de buscar voluntariamente sua educação. Segundo Gonçalves & Silva, "não há quase referência quanto à educação como um dever do Estado e direito das famílias. As entidades invertem a questão. A educação aparece como uma obrigação da família. A crítica ao descaso do governo para com a educação dos negros aparece na mesma proporção em que o protesto racial endurece, ou seja, se radicaliza". As publicações "salientam a importância de instrumentar-se para o trabalho, divulgam escolas ligadas a entidades negras, dando-se destaque àquelas mantidas por professores negros. Encontram-se mensagens contendo exortações aos pais para que encaminhem seus filhos à escola e aos adultos para que completem ou iniciem cursos, sobretudo os de alfabetização. O saber ler e escrever é visto como condição para ascensão social, ou seja, para encontrar uma situação econômica estável, e, ainda, para ler e interpretar leis e assim poder fazer valer seus direitos".Gonçalves, Luiz Alberto Oliveira & Silva, Petronilha Beatriz Gonçalves e. "Movimento negro e educação". In: Revista Brasileira de Educação, 2000; (15)