A gaita de foles (também chamada gaita galega, cornamusa, gaita e dialetalmente gaita de fole) é um instrumento da família dos aerofones, composto de pelo menos um tubo melódico (chamado ponteiro ou cantadeira, pelo qual se digita a música) e dum insuflador mediado por uma válvula (chamado soprete ou assoprete), ambos ligados a um reservatório de ar (chamado fole ou bolsa); na maioria dos casos, há pelo menos mais um tubo melódico, pelo qual se emite uma nota pedal constante em harmonia com o tubo melódico (chamado bordão ou roncão). É um instrumento modal, na maioria das vezes jônio (modo de dó).
A cantadeira possui a peculiar configuração de ser construída baseada numa nota (chamada tonal, geralmente soada com todos os furos fechados), e afinada noutra (chamada sensível, geralmente a primeira nota aberta), a qual rege a afinação da nota pedal soada pelo bordão (geralmente uma oitava abaixo da nota sensível da cantadeira). As possíveis afinações variam de gaita para gaita, geralmente em dó, ré, sol, lá, si ou si bemol.
Outra peculiaridade das gaitas de fole é integrarem o restrito grupo de instrumentos de ar que tocam contínua e mecanicamente, sem necessidade de pausa para o músico respirar.
Subdivisões morfológicas
Podemos dividir as gaitas de foles em três categorias relativas à morfologia do ponteiro, a peça onde o gaiteiro toca com os dedos: 1º as que possuem ponteiros cónicos e que regra geral funcionam com palheta dupla; 2.º as de ponteiros cilíndricos que costumam possuir palheta simples; 3.º e as de ponteiros cilíndricos duplos com palheta dupla e sem qualquer bordão a emitir nota pedal. Esta classificação refere-se unicamente ao modo como os ponteiros são torneados no seu interior e não ao seu aspecto externo já que pode acontecer que ponteiros com conicidade interna sejam cilíndricos no seu exterior e vice-versa. As palhetas, quer sejam de lâmina dupla ou simples, são geralmente feitas com cana-do-reino (Arundo donax). Já as palhetas de lâmina simples, são chamadas de palhão. Gaitas de foles com ponteiro cônico A conicidade do ponteiro atribui a estas gaitas de foles uma potência sonora relevante, devido à sua palheta dupla (cuja resistência das lâminas as tornam mais potentes do que as de palheta simples). A digitação do ponteiro costuma ser tocada em modo aberto ou semifechado. Nos seus bordões usam-se os palhões. São gaitas típicas da Espanha e de Portugal, com subdivisões no que se refere à classificação de outros pormenores (grupo ibérico, franco, bretão etc.). A maioria dos modelos é insuflado através do assoprete. Alguns exemplos de gaitas desse tipo: 20px| Gaita das Highlands (gaita escocesa, great Highland bagpipes ou pìobh-mhòr) – Terras Altas/Escócia † Þ 20px| Gaita das Bordas (Lowland pipes ou Northumbrian half-longs) – Bordas/Escócia e Nortúmbria/Inglaterra ‡ Þ 20px| Gaita irlandesa (uilleann pipes ou pìobh-uilleann) – Irlanda ‡ Þ 20px| Kaba (Kaba Gaida) – Montanhas Rhodope/Bulgária † Þ 20px| Gaita galega – Galiza e Portugal ‡ Þ 20px| Dudelsack – Renânia/Alemanha e Países Baixos ‡ Þ 20px|20px| Gaita asturiana – Astúrias e Cantábria ‡ Þ 20px| Zampogna (Zampogna di Scapoli) – Isérnia/Itália ‡ Ψ Ħ 20px| Gaita sanabresa – Zamora ‡ Þ 20px| Chevrette (Chabrette) – Limusine/França ‡ Þ 20px| Gaita Mirandesa (gaita portuguesa, gaita de foles ou gaita mirandesa) – Trás-os-Montes/Portugal ‡ Þ 20px| Cabrette – Auvérnia/França ‡ Ψ 20px| Grande cornamusa – Auvérnia/França ‡ Þ 20px| Bodega (Cabra) – Languedoque/França 20px| Biniou koz – Bretanha/França ‡ Þ 20px| Grande zampogna – Campânia/Itália ‡ Ψ Ħ 20px| Parlour pipe – Escócia ‡ Þ 20px| Sac de gemecs – Catalunha ‡ Þ Piva emiliana – (Piva emiliana) - Emìlia-Romanha/Italia ‡ Þ 20px| Musa do apennin – (Müsa apenninica) - Liguria/Italia ‡ Þ †: Ponteiro com palheta simples ‡:Ponteiro com palheta duplaÞ: bordão com palheta simples Ψ: bordão com palheta duplaĦ: Ponteiro duplo Obs.: as regiões supracitadas indicam os locais aos quais os referidos modelos são tradicionalmente vinculados.
Gaitas de foles com ponteiro cilíndrico miniaturadaimagem|Um escocês tocando sua gaita de foles em Edimburgo. Muitas gaitas de ponteiro cilíndrico começaram a ser populares a partir do barroco, por serem excelentes instrumentos de câmara. Isso deve-se ao facto de apresentarem um som geralmente mais doce e suave, graças ao seu torneado assim como à palheta simples e ao lúmen cilíndrico do ponteiro. A partir do período barroco proliferaram diferentes modelos do instrumento, em especial na França e Alemanha. Contudo há que frisar que existem modelos com palheta dupla no ponteiro e a sua digitação pode variar entre o aberto, o semifechado e o fechado – dependendo do modelo. Grande parte destas gaitas é insuflada por um fole mecânico (de ar-frio). Muitos modelos cilíndricos possuem ponteiro duplo. Alguns exemplos de gaitas com ponteiro cilíndrico:
20px| Smallpipe escocesa - Escócia 20px| Shuttle pipe – Bordas/Escócia 20px| Smallpipe nortumbriana – Nortúmbria/Inglaterra e Bordas/Escócia ‡ Þ 20px|border| Bohemischer Boch (Ceske Dudy) – Baviera/Alemanha e Boêmia/Chéquia † Þ 20px| Boha – Aquitânia/França † Þ 20px| Slaski (Slaski Gajdy) – Silésia/Polônia † Þ 20px| Mezoued (Zukra) - Tunísia † Ħ border|20px| Gajdy – Sérvia † Þ Ħ 10px| Säckpipa – Dalarna/Suécia † Þ 20px| Diple – Dalmácia/Croácia † border|20px| Dhzura (Dhzura Gaida) - Bulgária 20px| Surdulina (Zampogna) – Calábria/Itália † Þ Ħ 20px| Duda – Hungria † Þ 20px| Ciaramedda (Zampogna) – Sicília/Itália † Þ Ħ 20px| border|20px| Dudy – Grande Polônia/Polônia † Þ 20px| Tulum – Turquia † 20px| Gaida (gaita macedônica) – Macedônia do Norte † Þ 20px| Surle – Zagórjia/Croácia † Ħ 20px|border| 20px|border| Koza – Pequena Polônia/Polônia † Þ 20px| Musette de Cour – França ‡ Ψ Ħ †: ponteiro com palheta simples ‡: ponteiro com palheta duplaÞ: bordão (drone) com palheta simples Ψ: bordão (drone) com palheta duplaĦ: ponteiro duplo Obs.: as regiões supracitadas indicam os locais aos quais os referidos modelos são tradicionalmente vinculados.
Ar-quente e ar-frio Há ainda uma distinção entre as gaitas de foles: as que são insufladas por meio dum assoprete – chamadas de ar-quente por necessitarem do fôlego do músico –, e as que são insufladas por um fole mecânico conhecido por barquim – chamadas de ar-frio (ou cauld-wind no Scots). Na verdade essa distinção não é, musical e morfologicamente, muito relevante. Isso porque o sistema sonoro das palhetas, ainda que apresentando diferenças perante o nível de umidade de cada sistema, permanece praticamente o mesmo. Tanto é que muitos instrumentos tradicionalmente de ar quente são encontrados munidos de fole mecânico, e vice-versa. A distinção relativa ao torneado do ponteiro e os tipos de palhetas utilizados são muito mais relevantes para as classificações organológicas.
A distinção quanto ao torneamento da cantadeira e os tipos de palhetas utilizados são muito mais relevantes aos musicólogos.
Etimologia miniaturadaimagem|Um militar canadense no Afeganistão com sua gaita de foles. Não há certeza sobre a origem do termo gaita. De acordo com Joan Corominas, viria do gótico gaits (goat, cabra), mas muitos outros filólogos discordam dessa teoria, inclusive defendendo a hipótese de ser uma palavra de origem árabe, já que em árabe “ألغيْطه” (al-ghaytah) significa “palheta”. Já fole viria do latim follis (bolsa, almofada de vento). Em última análise, podemos “traduzir” o termo «gaita de foles» como bolsa de cabra, referência direta ao fole do instrumento.
Em muitas regiões distintas, o instrumento foi batizado simplesmente com o termo que designa o animal do qual se extrai o couro para sua bolsa: ghaida, gaida, gajdy, cabra etc.
Em português, registram-se oficialmente outros termos que definem gaita, todos galicismos a referir, originalmente, modelos franceses de gaita de foles: cornamusa; museta (há instrumento português homônimo similar ao oboé); musette.
Também, é curioso notar que a palavra gaiteiro no idioma português significa, diretamente, pessoa festeira, o que denuncia a associação do instrumentista aos eventos populares. Termo esse que distingue o instrumentista de gaita de foles daquele que toca harmônica, chamado gaitista.
As palavras folegar e fôlego compartilham da mesma raiz da palavra fole.
Polêmica sobre a grafia correta Muito se discute a respeito da correta grafia do termo. Presentemente, é pacifico que a grafia «gaita de foles» é a mais comummente utilizada. Sem embargo, há quem defenda que o instrumento, tradicionalmente mais arraigado entre as populações rurais, ainda é referido como gaita de fole nas regiões onde ainda é comum, como em Trás-os-Montes.
Uma das prováveis teorias é a de que eruditos da cena urbana tenham acrescentado o S em fole por referência aos instrumentos de ar frio, os quais usam um fole mecânico para insuflar o outro fole, a bolsa (feito as musetas), enquanto outros acreditam que a corruptela faz referência à forma latina do termo: follis.
Ocorre que, em qualquer idioma em que haja registro do termo, não se manteve a terminação IS, principalmente porque nos chegaram hoje versões do romanso, ou do latim tardio:
espanhol: fuelle francês: fou galego: fole, folitaliano: folle leonês: fuelle português: fo(l)leprovençal (> espanhol): fol romeno: foale veneziano: fola, folo, friul, fol(e)
Em especial, em galego registra-se gaita de fol ou gaita de fole, o que é relevante tendo em vista sua proximidade com o português. Ainda assim, de acordo com linguistas modernos, como Eva Arim do ILTEC, a expressão «gaita de foles», presentemente, é considerada, pacificamente, como a mais correcta em língua portuguesa, sendo que o vocábulo «gaita de fole» já só persiste na língua como um dialetismo. «Se é a forma com s que se encontra registada nos dicionários, é essa que devemos considerar correcta, ainda que dialectalmente possa ser usada a forma “gaita-de-fole"»
Há quem defenda, inclusive, que literários e músicos do cenário urbano, já em fins do século XIX, passaram a utilizar o termo gaita de foles para designar as musetas, como a gaita irlandesa, as quais possuem dois foles: a bolsa e o fole mecânico.
Cada secção, um termo thumb|312px|right|Gaita das Highlands nº01 Ponteiro ou Cantadeira Tubo melódico pelo qual se digita a música, cuja extremidade geralmente possui uma campânula.nº05-07 Bordão, Ronco ou Roncão Tubo melódico pelo qual se soa a constante nota pedal, geralmente distinguindo-se entre baixo e tenor quando há mais de um. A depender do modelo e costume, o bordão composto apenas de ombreira e copa é também chamado de ronqueta.nº03 Ombreira Sessão inferior do bordão, ligada ao soquete.nº06 Entremeia Sessão intermediária do bordão.nº05 Copa Sessão superior do bordão, cuja ponta geralmente possui um sino.nº04 <center>Soprete ou Assoprador<center> Peça pela qual se insufla o fole nos modelos de ar quente, regulado por uma válvula que impede a saída de ar pelo mesmo.nº03 Buxa ou Soquete <small>Peça pela qual ligam-se bordões, assoprador e cantadeira ao fole.nº02 Fole, Odre ou Bolsa Reservatório de ar, por meio do qual se soam as palhetas do instrumento. Fole mecânico Peça pela qual se insufla o fole nos modelos de ar frio, ligado por um tubo de plástico ou similar, e regulado por uma válvula.nº03 Palhetae Palhão Item que produz o som da gaita, a ser ressoado pelos tubos melódicos; composta de duas lâminas de cana-do-reino ou similar, unidas a um pequeno tubo chamado tudel, presas por um anel metálico ou similar chamado frenilho. Quando composta de uma lâmina simples, é chamada de palhão.nº08 Franjase Cordão Enfeites compostos por fios a enfeitar a veste do fole e/ou o cordão do bordão, muito comuns nos modelos ibéricos.nº08 Borlas Pingentes geralmente presos às extremidades do cordão.nº02 Vestimentaou Capa Tecido que envolve a bolsa, de forma ornamental.
História left|thumb|450px|O instrumento inserido no contexto popular na Idade Média.