thumb|Lição de música com liras. Cerâmica grega do Revivalismo da música antiga é um campo de pesquisa musicológica e um florescente movimento de prática musical que diz respeito à interpretação contemporânea de peças de música antiga do Ocidente, objetivando obter um resultado sonoro não apenas autêntico em termos históricos, em conformidade com as intenções do compositor e com a tradição prática original, mas também convincente para o público de hoje. A faixa cronológica abrangida pela música dita "antiga" varia conforme o autor. Geralmente é contemplada a música produzida até o início do Classicismo, mas de uma maneira geral o conceito de revivalismo se aplica a toda música cuja tradição interpretativa foi em algum momento interrompida e perdeu-se no todo ou em parte, e precisa ser reconstruída a partir de hipóteses e de informação fragmentária ou indireta.Haskell, Harry. The Early Music Revival: A History. Courier Corporation, 1996, pp. 9-11Lieberman, Carol. "Back to the future: Postmodernism and the early music revival". In: The European Legacy — Toward New Paradigms, 1997; 2 (1)

Delimitação do campo thumb|left|Trecho de música bizantina com notação neumática thumb|left|Duas gravuras do tratado Syntagma Musicum de Michael Praetorius ilustrando instrumental dos séculos XVI e XVII

O movimento de reconstrução historicamente informada de música cuja tradição interpretativa se perdeu tem se revelado um campo altamente polêmico desde seu início. Há várias razões para as divergências de opinião. Por mais bem documentado literária ou iconograficamente que um determinado acervo musical possa ser, quando ele não tem registros sonoros que sirvam de termo comparativo ou uma tradição de prática ininterrupta, a interpretação das evidências indiretas que restam em geral é controversa e sempre conserva um elemento de incerteza. Mesmo quando a tradição existe, ela pode ter se modificado sutil e gradativamente ao longo do tempo, resultando em diferenças significativas no longo prazo. A partitura nunca diz tudo o que é necessário saber para tornar uma execução aceitável, dependendo de uma série de convenções não escritas que no tempo de sua criação eram de domínio público, mas cujos princípios depois foram ultrapassados e esquecidos em virtude da renovação incessante do gosto musical. Os próprios instrumentos se modificaram com o passar dos séculos, assim como os sistemas de afinação e notação musical. As fontes de informação podem ser escassas e contraditórias, e música de tempos muito remotos em geral carece de quase toda base informativa. Ao mesmo tempo, relatos literários podem descrever em detalhe como se devia executar uma peça, sobrevivendo, de fato, vários tratados e tutoriais antigos sobre composição e sobre técnicas de execução instrumental, vocal e regência, mas os termos técnicos mudaram de significado e as apreciações estéticas via de regra são imprecisas ou subjetivas demais para fornecer uma base firme para a reconstrução.

Além disso, a correção, eficiência e plausibilidade de uma performance musical e sua capacidade de persuasão do ouvinte dependem de uma larga variedade de fatores, muitos deles altamente subjetivos ou fortemente influenciados pelo contexto cultural, político e social de cada época. A transformação incessante do contexto da cultura, se por um lado torna impossível desvendar com precisão como era entendida e interpretada a música do passado, por outro lado foi um dos fatores que levaram à sua recuperação, aproveitando a mudança na sensibilidade e no entendimento do público que se operou principalmente a partir de meados do , capacitando-o a apreciar intelectual e esteticamente música que havia saído do repertório padrão há séculos e que por muito tempo permaneceu considerada primitiva, diferente ou estranha demais para interessar e satisfazer as plateias contemporâneas.Harnoncourt, Nikolaus. O Discurso dos Sons: Caminhos para uma nova compreensão musical. Zahar, 1988, pp. 13-48 thumb|Exemplo de notação em tablatura para vihuela do tratado Orphenica Lyra de Miguel de Fuenllana (1554). A partitura oferece uma indicação muito esquemática da composição, e muito permanece a cargo do intérprete

Complica a situação a existência de uma variedade de possibilidades interpretativas aceitáveis para uma mesma peça musical, como foi bem documentado em fontes literárias, e para muitos tipos de música nunca houve critérios rígidos de interpretação, sabendo-se que dava-se grande liberdade para os executantes em vários aspectos, incluindo a escolha do instrumental, a invenção de partes adicionais ad hoc, o acréscimo de ornamentação e outros, uma liberdade que para um músico ou um ouvinte acostumado com o repertório e as práticas românticas, pós-românticas e modernas seria inadmissível. Muitos tipos de música antiga jamais foram registrados em partitura de modo integral, sendo anotadas apenas as linhas principais e sendo dadas indicações apenas esquemáticas para as partes e elementos não anotados serem suplementados ao critério do executante. A problematização do revivalismo da música antiga também passa pela irresolvida polêmica que cerca o conceito de autenticidade em sua própria definição e em seu uso como um critério de valor. Como refere o musicólogo e historiador Harry Haskell,

"Autenticidade é um conceito significativo e um critério legítimo para avaliar uma performance? O revivalismo musical é um sintoma de decadência cultural, como dizem alguns, ou é simplesmente uma outra manifestação do anseio por raízes de nosso mundo desenraizado? A mania pela música antiga de hoje reflete um interesse genuíno na música em si, ou é meramente um fascínio por instrumentos desconhecidos e sonoridades não familiares? O conceito de 'repertório padrão' foi ultrapassado? O que tudo isso pode nos dizer a respeito do estado atual de nossa cultura musical?"

As variáveis e incertezas são tantas que para muitos críticos a tentativa de reviver a música antiga não pode pretender passar do nível do experimento e da conjetura.Leech-Wilkinson, Daniel. The Modern Invention of Medieval Music: Scholarship, Ideology, Performance. Cambridge University Press, 2002, pp. 189-214 Apesar disso, e de todas as correntes discordantes, o movimento revivalista de um modo geral se revelou um sucesso de público, tornando-se uma das áreas mais ativas em todo o campo da música erudita,Bowan, Kate. "R. G. Collingwood, Historical Reenactment and the Earoly Music Revival". In: Pickering, Paul A. & MaCalman, Iain (eds.). Historical Reenactment: From Realism to the Affective Turn. Palgrave Macmillan, 2010, pp. 134-158 e tem gerado copiosa bibliografia especializada, demonstrando que as hipóteses interpretativas se mostraram convincentes o bastante para reintroduzir e firmar no repertório contemporâneo um vasto acervo musical que permanecera esquecido nos arquivos e bibliotecas por muito tempo.

História Século XIX

Cada época, e se poderia dizer também, cada país ou região, estabeleceu seu próprio sistema musical, tornando o problema da reconstrução da música europeia muito complexo devido à grande variedade de tradições. A Europa só desenvolveu um sistema musical que se pode chamar de unificado na passagem do para o XIX, quando se firmou o sistema tonal de afinação temperada igualmente, a notação musical e o instrumental assumiram sua feição moderna, a partitura começou a ser anotada com um elevado nível de precisão em todas as partes, e as práticas de ensino e execução foram normatizadas e homogeneizadas em larga escala, principalmente através da influência das academias e conservatórios musicais. Então, no emergiu e se consolidou uma linguagem musical pancontinental, cuja tradição se perpetua até hoje sem interrupção. Praticamente todas as outras tradições mais antigas foram ultrapassadas e esquecidas mais ou menos completamente ao longo desse processo. Com o advento da gravação fonográfica, o sistema europeu moderno encontrou um outro elemento poderoso para conquistar uma hegemonia em todo o Ocidente.

Neste mesmo período a homogeneização da linguagem, o estilo frequentemente barulhento e bombástico da música romântica e a limitação do repertório padrão já começavam a se tornar desconfortáveis para alguns estudiosos, parte do público e músicos práticos. Ao mesmo tempo, o movimento romântico entre outras coisas desencadeou um renascimento do interesse pelos folclores regionais e pela música medieval, sendo redescobertas e editadas diversas obras de tempos antigos. Contudo, para o público em geral, e mesmo para a maioria dos estudiosos da época, essa música esquecida só guardava um interesse histórico. Escrita para sistemas de afinação diferentes, instrumentos diferentes, sistemas compositivos diferentes e para uma sociedade e cultura diferentes, onde os critérios estéticos eram outros, e dependendo para sua realização de convenções não escritas cuja memória se perdera, ela era considerada aberrante, estranha e mesmo primitiva, numa época em que ainda se acreditava que a evolução da música ao longo do tempo havia sido um progresso contínuo sempre em direção a um estado melhor e mais depurado. Nesse contexto, para tornar essas peças redescobertas palatáveis para o público oitocentista, invariavelmente elas passavam por arranjos e adaptações, muitas vezes radicais, que as descaracterizavam profundamente, revestindo-as de um pesado manto romântico, e a descaracterização aumentava no ato de execução prática, sendo conduzidas de acordo com os preceitos próprios da música romântica. É um bom exemplo da visão da época o que aconteceu por ocasião da redescoberta da Missa de Notre Dame, de Guillaume de Machaut: Raphael Georg Kiesewetter considerava impossível que música como aquela fosse novamente apreciada a não ser como sintoma de pedantismo, e mesmo seu editor, François-Louis Perne, assim se referiu a ela: thumb|Guillaume de Machaut em uma miniatura francesa do , numa cena alegórica na qual a Natureza lhe oferece três de seus filhos: o Senso (Razão), a Retórica e a Música. A imagem é um claro documento do grande prestígio que o compositor granjeara em seu tempo

"Não há como negar que a harmonia de sua missa não tem nenhum atrativo para um ouvido refinado. Seu efeito é duro e selvagem, a cada passo o som é traído por falsas relações, por quintas e oitavas paralelas que se sucedem aos saltos. Os fundamentos dessa harmonia são compostos nada mais nada menos do que por quartas, quintas e oitavas. Raramente aparece uma terça ou uma sexta para suavizar a dureza que resulta desse arranjo bizarro. Devemos acrescentar que o ritmo desta composição não é mais digno de nota do que sua harmonia. Assim os modernos devem julgar essas peças como monstruosidades. Mas deve-nos surpreender a grandeza do gênio exigido para compor uma missa inteira em quatro partes sem empregar nada além de quintas, quartas e oitavas, e formar em cada voz uma melodia similar ao cantochão principal".Apud Leech-Wilkinson, p. 159