thumb|278px|Selo soviético de 1942 comemorativo do 500.º aniversário do nascimento de Alicher Navoi

Nizamadim Ali-Xir Heraui (), Alicher Navoi ou Ali-Xir Navai (; em chagatai e : ; — ), conhecido como autor literário principalmente como Nava'i, foi um poeta, escritor, político, linguista, pintor e místico sufista do ramo maturidita do hanafismo que é considerado um maior expoente da literatura em língua chagatai, embora também tenha escrito algumas obras em persa, sob o pseudónimo de e (muito poucas) em . Era de etnia turca e acreditava que o chagatai e outras línguas turcas eram superiores ao persa para fins literários, um ponto de vista incomum no seu tempo, que defendeu na sua obra “” (literalmente: "Comparação das Duas Línguas" ou "Julgamento entre as Duas Línguas"), baseando a sua opinião na maior riqueza e maleabilidade do léxico turco em relação ao persa.

Nos países e comunidades turcófonas, Nava'i é frequentemente considerado por muitos como o fundador da literatura em turco, embora em rigor esta já existisse vários séculos antes do seu nascimento. De facto, a ele se deve a inclusão do turco na lista restrita das maiores línguas literárias do mundo e a padronização da língua chagatai, que durante muitos séculos teve o mesmo papel entre os turcófonos que o latim teve nas culturas com línguas românicas. Como poeta, continua a ser especialmente popular e reverenciado nos países da Ásia Central, Afeganistão e no Turquestão chinês (Sinquião). Desde o período soviético que é aclamado como o poeta nacional do Usbequistão.

Biografia Alicher Navoi nasceu em Herate, quando esta cidade, que atualmente se encontra no noroeste do Afeganistão, era a capital do Império Timúrida. Sob o governo dos timúridas, Herate tornou-se um dos principais centros de cultura e erudição do mundo islâmico. Alicher pertencia à classe dos emires chagatais da elite timúrida. O seu pai, ("o Pequeno") foi um oficial superior no corte de Xaruque Mirza , que sucedeu ao seu pai Tamerlão no trono imperial timúrida. A sua mãe foi governanta dum príncipe no palácio imperial. foi governador de durante algum tempo. Após a morte do pai, quando Alicher ainda era jovem, , neto de Xaruque e governador de Coração, tomou-o a seu cargo.

O jovem Navoi foi colega de escola de , que depois seria o monarca timúrida entre 1469 e 1506. A família de Alicher foi forçada a abandonar Herate em 1447, devido à instabilidade política que se seguiu à morte de Xaruque nesse ano. A família regressou a Coração após a ordem ter sido restabelecida em 1450. Seis anos mais tarde, quando tinha 15 anos, Alicher e Huceine Baicara foram para Mexede (atualmente no Irão oriental) com Babur ibne Baysunghur. No ano seguinte Babur morreu e Alicher e Baicara separaram-se. O segundo empenhou-se em ganhar poder político, enquanto Alicher continuou os seus estudos em Mexede, Herate e Samarcanda. Após a morte do imperador em 1469, Huceine Baicara tomou o poder em Herate e chamou Alicher para o seu serviço. Alicher abandonou então Samarcanda para voltar a Herate, ficando ao serviço do seu colega de estudos e imperador timúrida até à sua morte em 1501. Foi sepultado em Herate. Huceine Baicara foi ao seu funeral e ficou três dias de luto em casa, chorando o seu amigo de toda a vida. Para que os cidadãos de Herate prestassem homenagem coletivamente ao seu poeta falecido, foi organizado um banquete.

Alicher levou uma vida de estilo ascético, nunca tendo casado, tido concubinas ou filhos.

Obras thumb|left| em Nixapur, Irão, uma das muitas obras dirigidas por Navoi

Pouco se sabe sobre as obras de Alicher antes de, em 1469, ter entrado ao serviço do imperador timúrida Huceine Baicara, seu companheiro de estudos na juventude. O especialista em história islâmica e da Ásia Central Barry Hoberman distingue quatro facetas de Alicher, que ele refere como "quatro Mir Ali Shir Nava'is": a do político e administrador público, a do promotor e administrador de obras públicas e privadas, a do mecenas do ensino, artes e letras e finalmente a de escritor.

Como político e oficial superior da corte imperial timúrida, Alicher foi sobretudo um conselheiro e confidente de Huceine, com quem manteve uma amizade muito próxima, apesar de por vezes complicada. Embora alguns historiadores europeus notem que ele nunca foi vizir nem teve cargos do tipo ministerial, foi alguém que deteve muito poder de facto, que esteve muito envolvido na alta política, chegou a ter alguns cargos oficiais e em algumas ocasiões a sua autoridade era comparável à dum vizir. Pelo menos uma vez, em 1479, foi governador de Herate enquanto Huceine esteve ausente. Apesar de ser certo que as atividades políticas e administrativas lhe roubavam tempo à sua óbvia paixão pelas artes e ensino, aparentemente Navoi sempre teve um sentimento genuíno de dever tanto em relação ao seus soberano como ao bem do estado.

Navoi promoveu ou dirigiu também numerosas obras de construção. Há registos de que, só em Coração, restaurou ou financiou cerca de 370 mesquitas, madraças, bibliotecas, caravançarais, hospitais e outras instituições de ensino, religiosas e de caridade em Coração. Em Herate foi o responsável por 40 caravançarais, 17 mesquitas, 10 mansões, 9 hamãs, 9 pontes e 20 reservatórios de água. Entre as construções empreendidas por Alicher contam-se o mausoléu do poeta místico do Faridudin Attar em Nixapur e em Herate. Foi um dos principais con contribuidores para a arquitetura de Herate, que nas palavras do historiador René Grousset se tornou "a Florença daquilo que justamente se chamou o Renascimento Timúrida". Para o financiamento destas obras, é provável que tenha usado a sua influência na corte e os sues próprios e consideráveis recursos.

Foi também um impulsionador e mecenas do ensino, das artes e das letras, músico, compositor, calígrafo, pintor, escultor e um escritor admirado e celebrado ao ponto do historiador do mundo islâmico Bernard Lewis lhe chamar "o Chaucer dos turcos". Além de ter sido um escritor prolífico e muito versátil, Alicher esteve envolvido em todas as formas de expressão criativa. Entre os seus amigos artistas ou intelectuais, alguns deles, senão todos, por si patrocinados, contam-se os historiadores persas e o seu neto , os pintores de miniaturas Bezade e Xá Muzafar, os músicos Cul Maomé, Xeiqui Na'i e Huceine Udi, e o ilustre poeta persa Jami. A este último, Navoi dedicou uma composição laudatória, o ("Quinteto dos Impressionados").

Impulsionador da literatura turca thumb|upright=0.6|Alicher Navoi numa miniatura da escola de Herate do

Apesar da sua relevância noutros campos, Navoi é célebre e reverenciado sobretudo pelo seu papel primordial no impulso que deu à literatura em língua turca. Alicher está longe de ter sido o inventor da literatura turca, que quando ele nasceu já existia há pelo menos sete séculos, mas que antes dele era vista pelos literatos seus contemporâneos como rude e plebeia. Navoi teve um papel fundamental na padronização da língua chagatai, uma língua literária, resultante dos idiomas vernaculares turcos falados na Ásia Central e em Coração. De forma semelhante ao que ocorreu com o no graças a Geoffrey Chaucer, o chagatai tornou-se uma língua literária nacional ao nível do e do com Navoi, que foi o primeiro escritor com grande notabilidade a escrever grande parte das suas obras em turco.

Não obstante a classe dominante no Império Timúrida, a que Navoi pertencia, fosse turca ou turco-mongol, o mesmo acontecendo com uma parte considerável da população comum, na primeira metade do a cultura dominante em Herate, como na generalidade dos territórios timúridas, era a persa. O brilho, esplendor e prestígio da cultura persa, da qual existiam numerosas realizações materiais na Ásia Central desde há muitos séculos, teve um forte impacto nos turcos da Ásia Central, que a adotaram completamente. Os autores de origem turca preferiam escrever em persa, a língua que era exaltada no Oriente muçulmano como a língua da cultura e do ensino, e os pintores turcos imitaram os modelos persas clássicos.

Antes do era frequente que obras de caráter informal e popular fossem escritas em dialetos turcos, quer usando formas do alfabeto árabe, quer usando outros sistemas de escrita. Entre os primeiros autores relevantes pioneiros no uso de turco em obras literárias estão Sakka-ki, Lutfi, Yaqini e . Estes autores depararam-se com um problema complicadíssimo, que era escrever poesia que seguisse as regras de versificação perso-árabe numa língua que não era adequada a essas regras. Problema esse que ultrapassaram explorando habilmente toda a gama do vocabulário turco e potenciais formações gramaticais e tomando emprestadas palavras e expressões árabes e persas. Algumas obras primitivas escritas em chagatai são reconhecidamente de mérito e duradouras, nomeadamente a poesia de Lutfi. No entanto, havia muitas variações na língua dos primeiros escritores em chagatai, ao ponto de se verificarem variações de autor para autor na mesma cidade. Tudo isso mudou com Navoi, que com as suas 30 obras principais, escritas ao longo de 30 anos, conseguiu padronizar o idioma chagatai e, com a excelência inimitável da sua poesia, fez com que o turco passasse a ser aceite como um veículo literário legítimo. Navoi provou que os puristas da literatura árabe e persa estavam errados quando afirmavam que o turco era uma língua "bárbara", incapaz de expressar de forma elegante, subtil e poderosa ideias complexas e emoções elevadas.

Principais obras literárias Os poemas mais célebres de Nava'i encontram-se nos seus quatro divãs : ("Maravilhas da Infância"), ("Testemunhos da Juventude"), ("Maravilhas da Idade Média") e ("Vantagens da Velhice"). Outros trabalhos importantes foram de índole técnica, que seriam úteis para outros poetas turcos, como o ("A Medida das Métricas"), um tratado detalhado sobre métricas poéticas. Foi também autor do ("Conjuntos de Homens Distintos"), uma monumental compilação composta por mais de 450 esboços biográficos de poetas mais ou menos seus contemporâneos, que é uma fonte importantíssima para os historiadores modernos da cultura timúrida.

Muhakemetü'l-Lugateyn Provavelmente a obra mais apaixonada de Navoi é a última que escreveu, o “” (ou Muhakamat al-Lughatayn; literalmente: "Comparação das Duas Línguas" ou "Julgamento entre as Duas Línguas"), que terminou em dezembro de 1499, treze meses antes de morrer. Neste ensaio, é feito um apelo veemente a favor da língua turca. Com o objetivo de incitar autores de origem turca a usar o chagatai em vez do persa nos seus escritos, nessa obra Navoi esforçou-se por demonstrar a sua convicção na superioridade do turco sobre o persa como língua literária. O Muhakamat é apontado por estudiosos como «a declaração definitiva do poeta sobre o assunto que lhe é caro» e «um exemplo perfeito duma obra final de um autor que também constitui a sua última vontade e testamento.»