A Classe Richelieu foi uma classe de couraçados operada pela Marinha Nacional Francesa, composta pelo Richelieu, Jean Bart, Clemenceau e Gascogne. As duas primeiras embarcações foram encomendadas em 1935 em resposta à Classe Littorio, da Itália. O projeto foi baseado na predecessora Classe Dunkerque, porém aumentado para acomodar os mais poderosos canhões de 380 milímetros e a blindagem necessária para protegê-los de armas do mesmo tamanho. Os navios precisavam ficar dentro do limite de deslocamento imposto pelo Tratado Naval de Washington, assim tiveram o mesmo arranjo da bateria principal colocado na Classe Dunkerque: duas torres de artilharia quádruplas na frente da superestrutura. A Classe Richelieu também incorporou novas caldeiras mais compactas que permitiram um casco menor e menos blindagem para alcançarem a velocidade máxima desejada. A Alemanha encomendou os couraçados da Classe Bismarck em 1936, fazendo com que a França encomendasse mais dois membros da Classe Richelieu, porém com projetos modificados. O Clemenceau receberia baterias secundária e antiaérea modificadas, enquanto o Gascogne teria uma de suas torres de artilharia transferida para a popa, além de outras mudanças.

Nenhum dos membros da classe estava pronto quando a Segunda Guerra Mundial começou em setembro de 1939. O Richelieu foi finalizado alguns dias antes da derrota francesa na Batalha da França, enquanto o Jean Bart foi rapidamente preparado para navegar durante a campanha. Ambas as embarcações fugiram para as colônias francesas na África: Richelieu para Dacar e o Jean Bart para Casablanca. Os trabalhos no Clemenceau e no Gascogne foram paralisados depois dos alemães terem ocupado a França. O Richelieu foi atacado e danificado duas vezes em julho e setembro de 1940 por forças britânicas que queriam afundá-lo ou coagi-lo a deserdar para a França Livre, já o Jean Bart foi danificado em novembro de 1942 por forças norte-americanas durante a Operação Tocha. As colônias francesas logo em seguida passaram para o lado dos Aliados e o Richelieu foi para os Estados Unidos a fim de passar por reparos e modernizações, mas o Jean Bart foi deixado incompleto. O Richelieu serviu com a Frota Doméstica britânica no início de 1944 e depois foi transferido para a Frota do Extremo Oriente, participando de várias operações contra forças japonesas no Oceano Índico. Ele esteve presente na rendição japonesa de Singapura no final da guerra em 1945.

O Richelieu, depois da guerra, participou da campanha que tinha o objetivo de restaurar o controle colonial francês na Indochina Francesa, retornando então para a França, onde pouco fez até o início da década de 1950. A Marinha Nacional, durante esse período, discutiu propostas para finalizar o Jean Bart como um couraçado ou convertê-lo em um porta-aviões, por fim escolhendo a primeira opção. Ele entrou em serviço em 1955 e participou da intervenção francesa na Crise de Suez em novembro de 1956. Entretanto, sua carreira ativa foi curta e ele foi colocado na reserva em 1957. Ambos foram usados como embarcações de treinamento e alojamentos flutuantes até a década de 1960; o Richelieu acabou vendido para desmontagem em 1968, com o Jean Bart tendo o mesmo destino em 1970.

Desenvolvimento A Marinha Nacional Francesa começou a construção dos dois pequenos couraçados da Classe Dunkerque no início da década de 1930 em resposta aos cruzadores pesados alemães da Classe Deutschland. A Marinha Real Italiana, a outra grande rival da França, anunciou em 11 de junho de 1935 que iniciaria a construção de dois couraçados de 36 mil toneladas da Classe Littorio em resposta à Classe Dunkerque. Os navios italianos seriam armados com nove canhões de 381 milímetros, muito mais poderosos que os oito de 330 milímetros dos navios franceses. A Marinha Nacional concluiu que seriam necessárias novas embarcações para conter os couraçados italianos, mantendo assim uma paridade. A construção de couraçados na época era regida pelo Tratado Naval de Washington, que limitava o deslocamento a 36 mil toneladas e canhões de até 406 milímetros.

Em 24 de julho, menos de duas semanas depois dos italianos terem anunciado seus couraçados, o comando naval francês emitiu especificações para um novo navio em resposta à Classe Littorio. Essas embarcações seriam construídas no limite do Tratado Naval de Washington: 36 mil toneladas de deslocamento e com uma bateria principal de oito canhões de 380 ou 406 milímetros. Os couraçados também teriam uma bateria secundária de duplo-propósito, seriam capazes de alcançar uma velocidade máixma de 29,5 a 30 nós (54,6 a 55,6 quilômetros por hora) e seriam protegidos por um cinturão de blindagem de até 360 milímetros de espessura. O vice-almirante Georges Durand-Viel, o Chefe do Estado-Maior da Marinha Nacional, era a favor de usar o desenho básico da Classe Dunkerque para reduzir o tempo necessário de desenvolvimento de projeto, mas com um tamanho maior a fim de levar em conta os aumentos de deslocamento, armamento e blindagem. Os navios da Classe Dunkerque tinham adotado um arranjo incomum da bateria principal que agrupava todos os seus oito canhões em duas torres de artilharia quádruplas instaladas à frente da superestrutura, com uma sobreposta a outra.

Estudos iniciais rapidamente demonstraram que uma bateria de 406 milímetros seria impossível se outras características fossem cumpridas dentro do deslocamento pedido. Seis propostas foram enviadas em 27 de novembro. A primeira, chamada de Projeto 1, era uma versão maior da Classe Dunkerque, enquanto os Projetos 2, 3 e 4 eram variações com os arranjos da bateria principal baseados na britânica Classe Nelson, com três torres de artilharia instaladas na frente da superestrutura. O Projeto 2 usava duas torres triplas e uma dupla, o Projeto 3 incorporava uma torre quádrupla e duas duplas, enquanto o Projeto 4 tinha todas torres triplas. Haviam também duas variantes, Projetos 5 e 5bis, que adotavam um arranjo ainda mais incomum de duas torres de artilharia quádruplas colocadas à meia-nau entre as superestruturas dianteira e traseira, tendo sido inspirados em ideias do almirante italiano Vincenzo De Feo. Os armamentos secundários dos projetos seriam doze canhões de 130 milímetros em torres quádruplas, assim como na Classe Dunkerque. Todos os seis projetos eram muito pesados e os dois últimos foram rapidamente rejeitados porque os ângulos de tiro da bateria principal seriam muito limitados.

O comando naval rapidamente escolheu o Projeto 1, pois este possuía o melhor equilíbrio de velocidade e poder de combate que poderia ser alcançado realisticamente dentro das limitações impostas pelo Tratado Naval de Washington e dos estaleiros franceses. Preocupações sobre o suposta inferioridade da bateria secundária quando comparada com navios estrangeiros fez com que o comando naval pedisse estudos para uma nova bateria de canhões de 152 milímetros, apesar do fato de que isso excluiria a possibilidade de armas de duplo-propósito. os projetistas enviaram duas propostas: cinco torres triplas ou quatro torres triplas, ambas com uma grande bateria antiaérea de canhões de 75 milímetros. Essas propostas vinham com problemas: primeiro, as armas antiaéreas eram sensíveis aos efeitos de choque das baterias principal e secundária, algo que necessitaria de um espaço adicional que não estava disponível; segundo, o Projeto 1 já estava muito pesado e a adição das armas iria aumentar o deslocamento ainda mais. O comando naval decidiu em 14 de abril de 1935 que novas montagens de duplo propósito para os canhões de 152 milímetros teriam de ser desenvolvidas.

O problema do peso foi resolvido pela adoção de um novo tipo de caldeira, chamada de Sural (abreviação de suralimenté, que significa "supercarregado"). Estas eram muito mais compactas do que aquelas usadas na Classe Dunkerque, o que, aliado ao fato da Classe Richelieu ter uma boca maior, permitiu que três caldeiras fossem colocadas lado a lado em vez de duas, assim o número de salas de caldeiras pode ser reduzido de três para duas, com o espaço de máquinas total sendo reduzido consideravelmente. Isto também reduziu em cinco metros o comprimento do casco que necessitaria ser coberto pela blindagem, pois essas áreas também necessitavam de grande proteção. O cinturão de blindagem principal teve sua espessura reduzida de 360 para 330 milímetros, porém o ângulo de inclinação foi aumentado para compensar a redução. Estas e outras pequenas reduções de blindagem em outros locais deslocaram o peso da bateria de 152 milímetros e colocaram o deslocamento dentro dos limites do Tratado Naval de Washington. Os trabalhos de projeto prosseguiram rapidamente e a Marinha Nacional encomendou os dois primeiros couraçados, Richelieu e Jean Bart, em 14 de agosto.

Apesar de ambas as embarcações terem permanecido dentro dos limites do Tratado Naval de Washington, a França mesmo assim violou os termos do acordo quando a construção do Richelieu começou em outubro de 1935. O tratado possuía um moratório sobre a construção de novos couraçados que foi ampliado pelo Tratado Naval de Londres de 1930, acordo este assinado pela França, mas não ratificado. Entretanto, franceses e italianos tinham conseguido uma exceção que lhes permitia construir até 71 mil toneladas de novos couraçados, pois suas frotas eram mais antigas que dos outros signatários. O Richelieu mais os dois navios da Classe Dunkerque elevaram o programa de construção naval francês para mais de 89 mil toneladas, com este total crescendo para 125 mil toneladas quando a construção do Jean Bart começou em dezembro de 1936. O Reino Unido protestou contra, porém a França ignorou isto ao afirmar que os britânicos tinham assinado unilateralmente o Acordo Naval Anglo-Germânico no final do mesmo ano, descartando assim cláusulas do Tratado de Versalhes que tinham restringido o tamanho e efetividade da frota alemã. Da perspectiva francesa, se os britânicos tinham cavalheirescamente fortalecido um inimigo da França, os franceses poderiam da mesma forma desrespeitar suas próprias obrigações com tratados em favor da autodefesa.

Projeto Características thumb|350px|Corte longitudinal do interior da Classe Richelieu Os navios da Classe Richelieu, como projetados, tinham deslocamento padrão de 37 850 toneladas e deslocamento totalmente carregado de 44 698 toneladas. Possuíam 242 metros de comprimento entre perpendiculares e 247,85 metros de comprimento de fora a fora. A boca era de 33,08 metros e o calado máximo chegava a 9,9 metros. A superestrutura dos navios era bem compacta devido às caldeiras Sural, que reduziram o tamanho dos espaços de maquinários. Isto por sua vez permitiu um castelo da proa mais longo que melhorou significativamente a manutenção marítima e ajudava a manter a proa seca em mares bravios. A superestrutura era bem mínima, tendo uma única torre de mastro diretamente atrás da torre de comando blindada, além de um pequeno convés diretamente atrás da chaminé.

As tripulações eram de 1 569 oficiais e marinheiros, porém este número mudou no decorrer dos anos, principalmente a medida que suas baterias antiaéreas eram revisadas. Os couraçados também carregavam várias embarcações menores, incluindo oito barcos a motor, duas lanchas, três lanchas a motor, dois baleeiros e quatro botes. A superestrutura compacta permitiu que as instalações aeronáuticas fosse expandida quando comparada com a Classe Dunkerque. Um convés da popa longo abrigava duas catapultas e um hangar de 37,5 metros de comprimento que conseguia acomodar dois hidroaviões Loire 130 com suas asas dobradas, com um terceiro transportado em cima do hangar; outras duas aeronaves podiam ser carregadas nas catapultas, prontas para lançamento. Essas catapultas eram dispostas en echelon, com a de estibordo mais para trás daquela de bombordo. Um guindaste era usado para recuperar os aviões depois deles terem pousado no mar próximos dos couraçados, podendo ser dobrado quando não estava em uso.

Propulsão