O Plan Rubber (Plano Borracha, em livre tradução) foi o codinome dado pelos militares dos Estados Unidos à operação anfíbia do Joint Basic Plan for the Occupation of Northeast Brazil, J. B., Serial 737 (Plano Básico Conjunto para a Ocupação do Nordeste do Brasil, Conselho Conjunto, Série 737, em livre tradução), de 21 de dezembro de 1941. Este era um plano de invasão e ocupação da costa do nordeste do Brasil a partir das praias de Natal pelas Forças Armadas dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. O plano jamais chegou a ser executado devido ao sucesso das iniciativas diplomáticas em andamento junto ao ditador brasileiro Getúlio Vargas.
O saliente nordestino do Brasil é onde a América do Sul mais se aproxima da África, e portanto oferecia aos estrategistas estadunidenses uma ponte aérea através do Oceano Atlântico e uma plataforma para a patrulha marítima na Batalha do Atlântico. Desde o final dos anos 1930, a região fazia parte do perímetro defensivo dos EUA em seu planejamento militar. A partir de 1941 as Forças Armadas do Brasil reforçaram seu litoral ao norte da capital no Rio de Janeiro, até então quase indefeso, mas autoridades da administração estadunidense de Franklin D. Roosevelt consideravam essas defesas insuficientes e temiam que o Estado Novo brasileiro se alinhasse às Potências do Eixo ou fosse derrubado por um golpe pró-Eixo.
Uma intervenção terrestre no Brasil foi objeto de planos anteriores como o Pot of Gold, de maio de 1940, e o Lilac, de novembro de 1941. O Plan Rubber tinha como objetivo principal a cidade de Natal, que seria ocupada pelo Corpo de Fuzileiros Navais. Reforços do Exército dos Estados Unidos prosseguiriam por terra a Fortaleza e o Recife. Desembarques adicionais ocupariam Belém, Salvador e Fernando de Noronha. Os planejadores não esperavam que a resistência do Exército Brasileiro, Marinha do Brasil ou Força Aérea Brasileira fosse eficaz, e os reforços brasileiros teriam que vir do sul numa viagem marítima de oito a doze dias. Entretanto, a geografia difícil das praias (exceto em Salvador) e o mau adestramento dos tripulantes das embarcações de desembarque poderiam causar elevadas baixas.
Os planos militares eram a alternativa para o caso das negociações diplomáticas falharem. Estas já começavam a surtir efeito meses antes da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos EUA, em agosto de 1942. As Forças Armadas dos EUA receberam permissão para operar bases aéreas e navais no saliente nordestino, tornando os planos de invasão supérfluos. O aeroporto de Parnamirim, perto de Natal, tornou-se uma das mais movimentadas bases aéreas estadunidenses durante a guerra.
Preocupações estadunidenses no Brasil Relevância geográfica miniaturadaimagem|esquerda|O Estreito do Atlântico e a definição do Exército Brasileiro para o saliente nordestino, em amarelo e vermelho Em 1938, ainda antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, planejadores militares estadunidenses já estudavam um conflito com a Alemanha, Itália e Japão (as futuras Potências do Eixo). O perímetro defensivo dos Estados Unidos, conforme alguns planos, chegaria até o paralelo de 10° S na América do Sul, o que incluiria o saliente nordestino do Brasil, mas omitiria o Cone Sul. Isto corresponde ao conceito da "Quarter Sphere", cujos vértices seriam a ilha de Terra Nova, o Alasca, o Arquipélago de Galápagos e o Nordeste do Brasil. A Quarter Sphere contrapunha-se ao conceito tradicional, de defesa somente dos Estados Unidos continentais e do Mar do Caribe, e à "defesa hemisférica", que abrangia todo o continente americano.
O controle de Galápagos ou do saliente nordestino permitiria a um oponente dos EUA atacar o Canal do Panamá. O extremo leste do Brasil é o ponto mais próximo da América do Sul à África, chegando a um mínimo de 2 900 quilômetros de distância entre Natal e Dacar. A linha imaginária entre as duas cidades é o "Estreito do Atlântico" e pode ser uma das definições da fronteira entre os Atlânticos Norte e Sul. O Estreito é uma posição privilegiada para separar as duas partes do Atlântico ou atravessar de um continente a outro. À época, a viagem aérea durava apenas oito horas. O desenvolvimento do poder aéreo e da ponte aérea África-Natal mudava os cálculos na defesa do continente americano. Para os estrategistas estadunidenses, Natal seria o ponto de desembarque provável de uma invasão alemã ao Brasil.
Em janeiro de 1939 o subsecretário de Estado Sumner Welles já levantava a hipótese de um golpe germanófilo contra Vargas, seguido de uma invasão alemã pelo Estreito do Atlântico. O cenário foi estudado pela Marinha no outono. Após 1940, a pressão alemã sobre o governo de Vichy francês criou o temor de que este abriria a África Ocidental Francesa, incluindo Dacar, à presença da Wehrmacht. A distância desta cidade a Natal é menos da metade da distância Natal-Norfolk. Se havia realmente intenção alemã de atacar os EUA a partir da África é um assunto polêmico. Em 1960, uma publicação do Centro de História Militar do Exército dos EUA constatou que havia planos alemães para a Espanha, Gibraltar (Operação Félix) e Marrocos, mas nenhuma evidência que eles se estendessem a uma invasão transcontinental ao Brasil. Ainda assim, aos olhos dos militares americanos, tal invasão parecia claramente o próximo passo depois da África. Para o historiador Frank McCann, as limitações alemãs tornam tal cenário fantasioso, mas os planejadores estadunidenses não tinham informação perfeita e precisavam analisar cenários pessimistas.
miniaturadaimagem|alt=Mapa da rota aérea do Atlântico Sul, passando por dos Estados Unidos para Porto Rico, Trinidad, Guiana, Belém, Natal, a ilha de Ascensão e a Libéria ou Gana|Principais aeroportos da rota aérea do Atlântico Sul Em dezembro de 1941, o Atlântico Sul tornou-se a única via aérea possível para acessar o norte da África e a Europa. O ataque japonês à base de Pearl Harbor colocou os Estados Unidos diretamente no conflito mundial, que até então envolvera basicamente as potências europeias e suas colônias, e interrompeu a via aérea de transporte até sua colônia nas Filipinas, onde as tropas do general Douglas MacArthur estavam sitiadas. O inverno fez cessar o tráfego no Atlântico Norte. Os aeroportos de Natal e Recife estavam a menos de 1 750 milhas náuticas de Freetown, Serra Leoa, por onde aeronaves de transporte da Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos poderiam entregar cargas prioritárias, pessoal e as próprias aeronaves para a África do Norte, Oriente Médio, Índia, Burma, China e Filipinas. Além disto, as bases aéreas e navais na região poderiam ser usadas na Batalha do Atlântico para patrulhar o Atlântico Sul contra os U-Boats alemães que ameaçavam a navegação.
Defesas vulneráveis miniaturadaimagem|General Mascarenhas de Morais, comandante da 7.ª Região Militar entre 1940 e 1943|esquerda Nos EUA, os planejadores temiam a vulnerabilidade das defesas brasileiras no saliente e no restante do país. Segundo uma análise do Departamento de Guerra de janeiro de 1939, as cidades litorâneas brasileiras estavam "quase completamente indefesas", e inexistia defesa antiaérea, mesmo no Rio de Janeiro e São Paulo. O comentário pode ter sido exagerado, mas a vulnerabilidade militar brasileira era real. Os 60 mil homens do Exército Brasileiro em 1939 careciam de armamento moderno e concentravam-se ao sul do Rio de Janeiro, negligenciando as 2 500 milhas de litoral ao norte. O Exército dos Estados Unidos julgava que só uma presença terrestre estadunidense seria suficiente para defender a região. As defesas terrestres e aéreas brasileiras não resistiriam a uma força combatente moderna.
Até abril de 1941 a presença do Exército Brasileiro na 7.ª Região Militar (7.ª RM), correspondente aos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão, era limitada, composta principalmente por um Batalhão de Caçadores (BC) em cada capital estadual. O comando regional de 1940 a 1943 foi exercido pelo general Mascarenhas de Morais, que mais tarde comandaria a Força Expedicionária Brasileira. O Teatro de Operações de Este e Nordeste (TO - E/NE), responsável pela 7.ª e 6.ª (Bahia e Sergipe) RMs, era comandado pelo general Estevão Leitão de Carvalho desde fevereiro de 1942.
Numa correspondência de fevereiro de 1941, o adido militar Lehman W. Miller argumentou contra o envio de militares estadunidenses ao Nordeste enquanto o Brasil não se sentisse ameaçado, pois a opinião pública brasileira era contrária ao Eixo, mas sensível à violação da soberania nacional. Mas o temor do Exército dos EUA era justamente que os brasileiros não reagissem a tempo. Dutra e Góis Monteiro reconheciam a vulnerabilidade do saliente. Os oficiais do Exército queriam fortalecer sua instituição e defender o Nordeste sem recorrer à assistência militar terrestre dos EUA. Este rearmamento, entretanto, esbarrava na pequena industrialização do país e dependia de fornecedores estrangeiros (alemães ou estadunidenses).
Ao longo de vários anos, o Ministério da Guerra brasileiro concentrou no Nordeste efetivos nunca antes vistos. Reservistas começaram a ser convocados na região em 24 de julho de 1941. Unidades logínquas foram deslocadas ao Nordeste e transformadas ou absorvidas por outras. O transporte de tropas ocorreu pelo mar, cuja vulnerabilidade seria exposta pelos torpedeamentos de navios brasileiros por U-Boats alemães em 1942. A inexistência de ligações ferroviárias ou rodoviárias do norte ao sul do país era a grande debilidade do teatro de operações nordestino. A alternativa segura, o rio São Francisco, estava com infraestrutura negligenciada. Nas melhores condições, o percurso Rio de Janeiro–Pirapora–Juazeiro–Recife demorava quinze dias de viagens penosas.
Mesmo com todos os reforços, as defesas terrestres no litoral eram tênues e descontínuas. Fora dos grandes portos, muitas vezes não havia mais do que pequenos grupos de vigilância. Havia a possibilidade de se retirar ao interior do país para uma resistência prolongada, mas qualquer força regular numerosa teria dificuldade em se manter por muito tempo no semiárido nordestino.
Unidades brasileiras na região miniaturadaimagem|Canhões Krupp de 88 e 75 mm do Exército Brasileiro Em dezembro de 1941, Natal sediava o 16.º Regimento de Infantaria (16.º RI), a 1.ª Companhia do 1.º Batalhão de Engenharia (1.ª/1.º BE) e o 4.º Grupo de Artilharia de Dorso (4.º GADô), equipado com duas baterias de canhões Schneider de 75 mm. O 1.º Grupo do 3.º Regimento de Artilharia Antiaérea (I/3.º RAAé), que incluía duas baterias de canhões Krupp 88 mm, chegou em 15 de janeiro de 1942. Em João Pessoa havia o 15.º RI e a 3.ª Bateria do 4.º Grupo de Artilharia de Dorso (3.ª/4.º GADô). O interior da Paraíba sediava o 22.º BC em Campina Grande, aonde chegou o 1.º Grupo de Obuses (1.º GO) em 6 de janeiro de 1942. Fortaleza tinha o 23.º BC, desde antes da guerra, e o novo 29.º BC. Maceió, São Luís e Teresina respectivamente tinham o 20.º, 24.º e 25.º BCs desde antes da guerra.
O Recife e Olinda sediavam o 14.º RI, a 2.ª Companhia Independente de Guardas, a Bateria de Metralhadoras Antiaéreas (Bia de Mtrs AAé), a 2.ª Bateria Independente de Artilharia Automóvel (2.ª Bia IAAu) e a 4.ª Companhia Independente de Transporte (4.ª Cia Ind de Trans). As duas baterias e mais a 3.ª/4.º GADô foram unificadas em 2 de janeiro no Grupo Independente de Artilharia Mista (GIAMx), sediado em Olinda. A respeito da bateria de metralhadoras, única existente no Nordeste, uma inspeção em abril observou que "a bateria antiaérea está praticamente desmuniciada e o fabrico de sua munição ainda constitui um problema não resolvido". O 3.º Esquadrão de Trem Automóvel foi organizado em fevereiro de 1942, e no mês seguinte, a Ala Moto-Mecanizada do 7.º Regimento de Cavalaria Divisionário (Ala Moto-Mec/7.º RCD). O interior de Pernambuco sediava o 21.º BC em Caruaru.