Ciclo do café foi um período da história econômica do Brasil, iniciado em meados do século XIX e findado em 1930, no qual o café foi o principal produto da economia brasileira. O ciclo do café sucedeu ao ciclo do ouro, que chegara ao fim após o esgotamento das minas algumas décadas antes, e pôs fim à crise econômica gerada por essa decadência.

O café foi trazido ao Brasil em 1727, mas não fora produzido em grande escala, tendo sido cultivado sobretudo para consumo doméstico. Sua produção ficava bem atrás da de outros produtos. Posteriormente, o café ascendeu econômica e produtivamente devido a um cenário interno e externo favorável que tornou seu plantio vantajoso.

A produção de café se desenvolveu rapidamente ao longo do século XIX, de modo que na década de 1850 já era responsável por quase metade das exportações brasileiras. A região centro-sul foi escolhida para o plantio por oferecer as condições climáticas mais apropriadas e por ter solo mais adequado, conforme as necessidades do cafeeiro. A primeira grande região cultivada foi o Vale do Paraíba, e o trabalho nas lavouras era feito com mão de obra escrava. Com a decadência produtiva dessa região, o café foi levado para o oeste paulista, onde encontrou seu segundo grande local de cultivo. Começou a ser usada aí a mão de obra livre, especialmente a dos imigrantes europeus (em sua maioria italianos) que chegavam em grande número ao país no final do século XIX e início do XX.

O ciclo do café deixou marcas profundas no país, e suas consequências são perceptíveis ainda hoje. Foi durante esse período que o estado de São Paulo alcançou a primazia política e econômica que tem hoje. O café também deu forte impulso à industrialização, à construção de ferrovias e à urbanização.

Antecedentes

Decadência da mineração e crise econômica

Nos primeiros dois séculos do período colonial, o Brasil tinha uma economia exclusivamente agrícola, sempre havendo um grande produto que era o centro da economia. Foi assim durante o ciclo do pau-brasil, do açúcar e do algodão. Esse cenário só mudou no século XVIII com a descoberta de ouro e diamantes, dando início ao chamado ciclo do ouro, passando a agricultura para o segundo plano. Embora não fosse um produto agrícola, percebia-se o mesmo padrão — o ouro passou a ser o principal produto da economia colonial, até seu declínio. Este ocorreu na segunda metade do século XVIII, período que ficou conhecido como o renascimento agrícola. Voltaram-se a plantar, principalmente, os mesmos produtos de antes.

Esse retorno à agricultura se deu sobretudo pelos seguintes motivos:

Esgotamento das jazidas devido à quantidade e à rapidez com que o ouro foi extraído; Rápido desenvolvimento da sociedade europeia ao longo do século XVIII; Aumento das atividades econômicas e das relações comerciais no mundo no mesmo século, prenúncio da Revolução Industrial; e, mais tarde; Abertura dos portos, que permitiu que o Brasil vendesse seus produtos para outros países além de Portugal, incentivando o aumento da produção agrícola.

O fim do ciclo do ouro gerou, também, uma crise econômica, durante a qual o poder de compra da população foi bastante inferior ao da fase áurea da mineração. Foi uma crise longa, que só terminaria no século seguinte, durante o período regencial (1831-1840), com a ascensão do café, que iria tomar o lugar do ouro como o principal produto da economia brasileira. O café também solucionou a "Crise da Independência", uma crise caracterizada por uma duradoura estagnação das exportações durante o período da Independência do Brasil.

O café no Brasil antes do ciclo

thumb|300px|Primeiras Mudas de Café (1760), obra do pintor italiano Alfredo Norfini, retratando provavelmente o transporte das primeiras mudas do Pará ao Rio de Janeiro, fato ocorrido em 1760. No canto inferior direito, nota-se um cafeeiro sendo regado.

O café era cultivado no Brasil desde que fora trazido ao país em 1727 por Francisco Palheta. Gradualmente, o produto se espalhou pelo território nacional, mas não era cultivado comercialmente; sendo destinado, sobretudo, ao consumo doméstico. A cultura do café ficava muito atrás da do açúcar e do algodão. Além de o produto não possuir grande importância nos mercados mundiais, o café era difícil de se plantar, pois o cafeeiro é uma planta delicada que necessita de muitos cuidados; requerendo certas temperaturas, chuvas regulares e solo apropriado, além de demorar de dois a quatro anos para crescer e produzir grãos.

Contudo, alguns motivos explicam porque se tornou vantajoso plantar café:

Nos primeiros anos do século XIX, o café se tornou mais requisitado, tendo se tornado, ainda no século XVIII, o principal alimento de luxo nos países ocidentais; A Inglaterra e a Holanda já cultivavam e vendiam o produto em grandes quantidades em suas colônias; Os Estados Unidos, que consumiam muito café, após terem conquistado sua independência, diminuíram muito as compras do produto feito nas colônias inglesas, começando a procurá-lo em outro lugar. O Brasil foi escolhido por sua proximidade, sendo o transporte mais fácil. Durante a Guerra Civil, a escassez levou ambos os lados do conflito a procurarem alternativas ao produto (ver: Substitutos do café).

O ciclo

Propagação e cultivo do café

thumb|300px|Rio Paraíba do Sul, no canto inferior do mapaO café começou a ser plantado próximo do litoral, em quantidades relativamente pequenas quando comparadas ao montante que seria produzido posteriormente. As primeiras plantações surgiram nos vales das montanhas que circundam a cidade do Rio de Janeiro. Os cafezais acompanharam o litoral, ultrapassando a província do Rio de Janeiro e chegando a São Paulo. No começo do século XIX, essa faixa costeira era uma importante zona produtora.

Nesse contexto, o primeiro grande cenário da lavoura cafeeira foi o vale do rio Paraíba (entre Rio de Janeiro e São Paulo). Tendo começado a ser cultivado em 1825, o vale reunia, em meados do século XIX a "maior parcela da riqueza brasileira". As plantações seguiam o padrão das grandes plantations norte-americanas — vastas propriedades monoculturais que usavam trabalho escravo. Subindo o rio, os cafezais atingiam São Paulo e a região fronteiriça de Minas Gerais.

Em 1887, por exemplo, Bananal era o segundo maior município escravista do estado de São Paulo, com 4.182 habitantes. Sendo menor apenas que Campinas, que possuía 9.986 habitantes. Ocupava também a segunda posição em termos de valor dos escravizados que ali viviam: 2.604 contos de réis (em Campinas eram 6.851 contos de réis). Podendo Bananal ser considerado como um dos municípios "da maior importância cafeeira".TAUNAY, Affonso de E. História do café no Brasil. v. 6. tomo 4. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1939.

No período de acelerado crescimento da cultura cafeeira na região do Vale do Paraíba, mais especificamente entre 1836 e 1837, a então vila de Bananal produziu 64.822 arrobas de café (quase 1 tonelada); 11% do total da produção da Província de São Paulo. Em Bananal, estavam estabelecidas 82 fazendas com 8 engenhos de açúcar e 12 destilarias de aguardente. Cada uma delas teve seu local de implantação cuidadosamente analisado:Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.

O café costumava ser cultivado de forma não a mais apropriada:

esquerda|miniaturadaimagem|Fazenda Santa Clara, em Santa Rita de Jacutinga, Minas Gerais, foi uma das maiores fazendas de café do período.

Mais tarde, no fim do ciclo, repetir-se-ia com o café o que acontecera com os outros produtos econômicos: o café passaria por uma fase de intensa prosperidade, seguida por outra de estagnação e decadência. Esse declínio foi causado pelo esgotamento dos recursos naturais devido a um sistema de exploração intensivo e descuidado. O mesmo padrão pôde ser observado com outros produtos, como o ouro, o açúcar, o algodão, e, no início da história colonial, o pau-brasil. Não só a forma de cultivo era semelhante à de ciclos anteriores, mas também a fazenda em si tinha semelhanças com modelos de propriedade rural anteriores. Assim, como os engenhos de açúcar, a fazenda contava com instalações que faziam dela uma unidade quase autossuficiente.

O Vale do Paraíba foi responsável pelo avanço do café até 1870, quando o oeste paulista ultrapassou sua produção. Depois de desgastado o solo do Vale, o café seguiu para o interior, atravessando a serra do Mar e a serra da Mantiqueira, onde encontrou o planalto de terra roxa, resultante da decomposição de rochas basálticas de origem vulcânica — melhor tipo de solo para o cafeeiro. Ao contrário do Vale, havia em São Paulo grandes planaltos, sobre os quais se estenderam enormes superfícies cultivadas. Formou-se um "mar de café". No final do século XIX, o café atingiu também o extremo-oeste da província de São Paulo. No oeste paulista, investiu-se na mão de obra livre, especialmente a dos imigrantes que chegavam em grande número.

Mão de obra

thumb|Escravos fotografados numa fazenda de café (c.1882). thumb|Imigrantes italianos (início do século XX).

No Vale do Paraíba, utilizava-se a mão de obra escrava. O trabalho dos escravizados era controlado a partir do casarão da fazenda e a lei vigente estava completamente ao lado do fazendeiro. Havia ainda os castigos corporais (ver: Instrumentos de tortura do Brasil escravocrata).

A escravidão era a engrenagem econômica da fazenda. Nas senzalas viviam numerosos escravos africanos e crioulos, encarregados da derrubada das matas, plantio, capinas, colheita e preparo do café. Ou seja, além dos trabalhos com o café, os escravizados eram responsáveis por todas as tarefas braçais que faziam com que as fazendas funcionassem e fossem lucrativas, incluindo os cuidados dentro da casa grande e outras tarefas dispostas ao longo da propriedade rural: carpinas, serradores, marceneiros, pedreiros, pintores e preparadores de tintas, ferreiros, oleiros, alfaiates, sapateiros para os senhores e os escravos, seleiros etc.Affonso D'Escragnolle Taunay. A propagação da cultura cafeeira. 1934

Existiam também os escravizados domésticos, que trabalhavam no serviço pessoal do fazendeiro e de sua família. Entre eles, havia as mucamas-arrumadeiras, mulheres que ocupavam-se da arrumação da casa, das refeições e até mesmo de preparar os banhos da família senhorial e de seus hóspedes. Nas cozinhas e despensas predominava a figura feminina, cada uma com sua especialização: cozinheira-chefe, ajudantes, doceiras, biscoiteiras, entre outras. Às crianças escravizadas era dada a responsabilidade do asseio de tachos e panelas.Affonso D'Escragnolle Taunay. A propagação da cultura cafeeira. 1934

Os homens criados domésticos eram geralmente copeiros (serviam a mesa) ou pajens (camareiros de confiança). Os boticários e enfermeiros completavam o quadro de trabalhadores masculinos. Dentre os femininos ainda se empregava um verdadeiro esquadrão de lavadeiras e engomadeiras.

A população Livre e Escravizada do Vaae do Paraíba Paulista, no ano de 1872, era a seguinte:ligação=https://pt.wikibooks.org/wiki/Ficheiro:Popula%C3%A7%C3%A3o_Livre_e_Escravizada_do_ano_de_1872.png|semmoldura|700x700px

Mas, com a proibição do tráfico de africanos em 1850, tornou-se cada vez mais difícil e caro a aquisição de cativos. Por algum tempo, os produtores puderam contar com o tráfico interno, desviando escravos das regiões empobrecidas do norte para o sul mais próspero (ver seção "Migração forçada de escravos"). O constante aumento da produção, todavia, exigia uma força de trabalho cada vez maior, e fazia-se necessário encontrar alternativas para solucionar a escassez de mão de obra.