Alexandre Borba Chiqueta (São Paulo, 2 de dezembro de 1983), mais conhecido como Gaules, é um streamer, youtuber, filantropo e ex-jogador profissional de Counter-Strike brasileiro. Ele começou sua carreira profissional na g3nerationX (g3x) em 2001, quando a equipe foi para a final da World Cyber Games. Em 2007, o time migrou para o MIBR, inicialmente com Gaules como líder, e mais tarde como treinador da equipe. Naquele ano, ganharam a DreamHack Winter 2007, uma conquista que "ajudava a moldar o papel do treinador nos esports do Brasil".

Em 2008, durante sua faculdade de marketing, ele deixou sua carreira de esports para trabalhar na Samsung, ficando responsável pela área de informática e conseguindo parcerias. Por volta de 2010, no entanto, decidiu sair da empresa e voltou para os esports, criando diversos projetos como a Seleção Brasileira de Games e a Brazil Gaming League. No entanto, Gaules começou a se afastar das empresas, e "se viu sem nada"; foi diagnosticado com depressão, e tentou suicídio em dezembro de 2017. A partir daí, começou a "transformar a situação"; pediu ajuda para velhos amigos da g3x e começou a fazer transmissões na Twitch para coisas como pagar o aluguel e remédios.

A partir de 2018, Gaules passou a ser reconhecido como streamer. A ESPN disse que ele era "o maior fenômeno da Twitch brasileira" do ano. Em 2020, ele venceu no Prêmio eSports Brasil como o melhor streamer do ano e como a personalidade do ano, e foi o segundo streamer mais assistido do mundo na Twitch. O TechTudo e o Globo Esporte reconheceram-no como um destaque nos esports em 2020. Ele também teve atenção por seus atos filantrópicos, que inclui participação em projetos contra a COVID-19 e para preservação do meio ambiente.

Carreira 2000–2006: Monkey Tatuapé e criação da g3nerationX Aos 17 anos, no início dos anos 2000, Gaules frequentava a lan house Monkey Tatuapé. Segundo ele, seu sonho era participar do time de Counter-Strike de lá; ele pedia diariamente para fazer parte deste, mas sua proposta era sempre rejeitada. Gaules queria participar do time, pois: "Primeiro porque eu não tinha condições de pagar [pelas horas] e o patrocínio dos jogadores era jogar de graça enquanto não havia nenhum cliente. E também porque queria estar no melhor time da lan house que eu frequentava". Ele acreditava que estava apto para participar do time, pois, conforme ele, "Eu estudava o jogo. Eu assistia o melhor da lan jogando, porque eu não tinha dinheiro para pagar a hora. Eu ia para o campeonato porque eu queria estar naquele ambiente todos os dias para conseguir a minha chance".

Cansados com a insistência de Gaules em pedir diariamente para participar do time, a Monkey Tatuapé decidiu colocá-lo como líder de um "time júnior" da lan house. Apesar de isto deixar Gaules desanimado, ele percebeu que havia duas formas de "encarar" a situação: "ou como uma coisa ruim ou como uma oportunidade de entrar no time principal. Montei o time com outros jogadores muito novos e começamos a treinar contra eles". Em 2001, ele teve a oportunidade de viajar com o time principal para o Rio de Janeiro e disputar a primeira seletiva da Cyberathlete Professional League no Brasil. Um dos jogadores do time estava jogando mal, e Gaules, que foi chamado para substituí-lo, relembra: "Nem troquei equipamentos nem nada, só sentei no computador e viramos aquela partida. Aí eu não saí mais do time".

No entanto, Gaules ficou por pouco tempo no time principal. A franquia de lan houses decidiu montar uma seleção, escolhendo os principais jogadores para formar apenas uma escalação, e Gaules ficou de fora. Assim, ele decidiu criar sua própria equipe, a g3nerationX (abreviada como g3x), criada em 27 de julho de 2001, com Igor "vip" Melro, Rodrigo "crash" Rodrigues, Mee e Feijaum, que também frequentavam a lan house. O primeiro campeonato da equipe foi na inauguração de outra lan house da Monkey, a Monkey Santa Cruz, onde seria mostrado também a seleção do local. A g3x foi à lan house e venceu esta seleção, e Gaules relembrou: "Todo mundo ficou questionando de onde a gente tinha surgido. Todos os holofotes estavam na seleção e conseguimos muita visibilidade [ganhando deles]".

Depois da vitória, Gaules, vip e crash continuaram na g3x, mas Mee e Feijaum saíram, dando lugar a Rafael "BlooD" Frid, Raphael "cogu" Camargo e Carlos Henrique "Kiko" Segal. Com esta escalação, a g3x alçou seu primeiro voo internacional e venceu a etapa brasileira da World Cyber Games (WCG). Eles conseguiram a vaga para a final mundial do torneio, em Seul, na Coreia do Sul. Com Guilherme "Carva" Carvalhaes no lugar de Kiko, a g3x conseguiu a 7-8ª colocação no campeonato. Depois disso, a g3x teve um período "hegemônico", segundo a ESPN. Gaules relata que o time ficou do final de 2001 até 2003 "sem perder partida". Nesse período, houve uma "ruptura", e Kiko e cogu foram para outras equipes. Entre 2004 e 2006, a g3x ganhou campeonatos como a LatinCup (2004), a World Cyber Games Brasil (2005) e a CPL World Season 2006: Brazil. Em 2006, acabou a parceria com a Intel do time, deixando as coisas "complicadas", segundo a ESPN.

2007: migração para a MIBR e DreamHack Winter Em 2007, com a iminência da liga de esports Championship Gaming Series (CGS), Gaules conversou com Paulo "pvell" Velloso sobre a possibilidade de uma parceria com a equipe MIBR que, até então, era uma arquirrival.

"Ele convidou o nosso time para virar MIBR [já que o MIBR principal participaria da CGS e não disputaria mais torneios de 1.6]. Foi um convite legítimo, me dando respaldo para cuidar, administrar e decidir quem entra e sai. Me reuni com os jogadores da g3x, expliquei a situação e fizemos uma votação".

Na ocasião, o time era formado por Gaules, Thiago "btt" Monteiro, Norberto "Lance" Lage, Lincoln "fnx" Lau e Wellington "ton" Caruso. Gaules conta que maioria decidiu ir para o MIBR devido à estrutura. Ele começou a jogar e gerenciar o time. Mais tarde, pvell procurou Gaules para relembrar que Bruno "bit" Lima, o único remanescente da equipe que foi à CGS, merecia uma vaga entre os titulares da MIBR. No entanto, só havia cinco vagas para seis jogadores, então Gaules escolheu ceder seu lugar. Ele contou: "Sugeri que eu virasse o treinador e o pvell gostou muito da ideia [...] Meu sonho era jogar, mas eu era o líder e não podia abandonar ninguém. Foi nessa movimentação que a gente criou um dos times mais fortes, se não o mais forte, que já tivemos". Em novembro de 2007, Lance e Olavo "chucky" Napoleão trocaram de lugar, e Gaules voltou a atuar ao lado dos ex-companheiros da g3x.

A equipe da MIBR foi disputar a DreamHack Winter 2007. Apesar de ter vaga garantida no torneio, Gaules optou por jogar a seletiva BYOC (bring your own computer, em tradução livre, "traga seu próprio computador").

"Se a gente não tivesse capacidade de ganhar a BYOC, não estaríamos prontos para sermos campeões do mundo. Chegamos na final da BYOC contra o Spirit of Amiga (SoA), que era um grande time, e saímos atrás. "Ali eu fiquei me perguntando o porque tinha decidido jogar a BYOC. Estávamos jogando com computadores e monitores alugados e colocando cinco pessoas num espaço que cabia quatro. O ton teve que usar o teclado no colo em alguns mapas."

Apesar dessas complicações, a MIBR venceu a SoA "de virada", e foi disputar a competição principal. A equipe foi campeã invicta e, de acordo com Gaules, a conquista "ajudava a moldar o papel do treinador nos esports do Brasil [...] Eu me sentia como parte do time, só não estava com um mouse e um teclado na mão. Todos falavam que a gente venceu com seis jogadores".

2008–2016: Samsung, volta aos esports e Seleção Brasileira de Games Em meados de 2008, Gaules estava concluindo a faculdade de Marketing e conseguiu um estágio na Samsung. Assim, ele decidiu deixar sua carreira nos esports para trabalhar em um emprego formal, "ganhando muito menos e trabalhando muito mais". Gaules cuidava da área voltada a informática e conseguiu boas parcerias para torneios, equipes e jogadores, como um patrocínio da Samsung para a MIBR. Na expectativa de ser contratado em definitivo antes de 2010, Gaules era avisado: "Você só vai ser admitido depois de se formar", mas ele conta que "Depois de uns 6 ou 7 meses de estágio, eu falei que ou eles me contratavam ou eu sairia. Acabou que fui o primeiro funcionário a ser contratado sem o diploma".

Gaules conta que a Samsung dava prêmios "a cada seis meses ou um ano para as pessoas que faziam a diferença na empresa" e Gaules foi um deles. Ele foi convidado pela empresa a ir à WCG 2010 acompanhar a delegação brasileira, que contava com Gabriel "FalleN" Toledo e outros pela compLexity Gaming. Lá, Gaules viu que o Brasil "ainda estava muito distante dos outros países", então decidiu deixar a empresa e retornar aos esports.

Gaules abriu uma produtora com o objetivo de criar vídeos para times e marcas do mercado brasileiro. Ele comandou o projeto da Mandic e iniciou a Seleção Brasileira de Games (SBG) em 2011; isso conseguiu "profissionalizar mais os times", segundo ele.

"Mostramos que com assessoria, jornalista, fotógrafo, marketing, comercial, atendimento e outras funções dentro de um time, você conseguiria fazer algo com mais retorno para as marcas que estavam investindo. E isso foi replicado".

Outros projetos de Gaules também começaram a surgir, como a Brazil Gaming League, a Agência X5 e a Mega Arena X5.

"Eu participei ativamente de todas essas frentes. Como jogador, treinador, gerente, dono de time, organizador de evento, transmissão. Eu consegui uma bagagem que me fez entender de todos os cenários possíveis, pois eu participei da criação, onde é mais difícil."

2017–2018: depressão, tentativa de suicídio e recuperação Em 2017, Gaules começou a se afastar das empresas, pois não queria mais "ser dependente das outras pessoas". Ele escolheu fazer de um projeto em uma agência para assessorar times, eventos e jogadores, mas conta que não se encontrou dentro da agência, o que fez a situação piorar. Gaules foi diagnosticado com depressão severa, e ele "se viu sem nada": "Foi quando eu quebrei. Acabei fazendo escolhas erradas em questão de investimento. Eu estava literalmente quebrado [...] investi em coisas que não deram certo". Em dezembro de 2017, ele tentou cometer suicídio.

"Eu parei e pensei que nem aquilo [o suicídio] eu consegui fazer, então significava que tinha alguma coisa muito grande por vir".

"Foi aí que eu resolvi transformar essa situação. Eu não tinha mais sócio, namorada, emprego, dinheiro no banco e nem lugar para morar. Foi aí que descobri que eu tinha construído uma história que não tinha preço."

Gaules alugou um apartamento sem ter garantias e, com seu computador e sua webcam, recorreu a seus amigos na antiga época dos esports para pedir ajuda. Ele disse que apenas os jogadores Mee, Apoka, vip e Crash lhe ajudaram. Gaules "precisava de ajuda para comer, viver e ter uma tranquilidade de 2 ou 3 meses para [se] reerguer".

Em 2018, com o apoio da velha equipe da g3x, Gaules começou a fazer transmissões na Twitch, decidindo "streamar como quem vai morrer no dia seguinte". Gaules "se reinventou e renasceu ao lado dos novos e velhos fãs", que são chamados de "tribo" por ele. Ele já fazia vídeos para o YouTube, mas decidiu fazer transmissões pois "era a única coisa que eu via na minha mente que eu conseguiria fazer." Ele disse que seguir este caminho foi "natural".

"Eu vi que [a Twitch] era um ambiente que a maioria queria status, fama e dinheiro. E eu estava ali só porque eu não queria mais passar fome, não queria depender de ninguém e queria fazer as pessoas se sentirem melhores. Para mim, era uma grande terapia".