António Egídio Henriques de Araújo (Calheta, – Funchal, personalidade incontornável da história da Madeira do Século XX, engenheiro eletrotécnico, foi Vogal e Vice Presidente da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal (1931 - 1954), Presidente e vice-presidente da Comissão Distrital da Assistência.
Foi um grande empreendedor, empresário notável, dotado de grande iniciativa, foi gerente e administrador de várias empresas, entre as quais a ECM - Empresa de Cervejas da Madeira - (1934-1975) que foi fundador, gerente e administrador.
Casou duas vezes e foi pai de dezanove (20) filhos tendo em descendência direta sessenta e sete (67) netos e 113 bisnetos.
Faleceu no Funchal a 27 de dezembro de 1977, "... um homem que a todos nós deixou importantíssimo legado de honradez, austeridade e espirito de iniciativa... o eng.º António Henriques de Araújo tinha uma só palavra - a da verdade - e um só comportamento - o da Honradez..." segundo Ernesto Rodrigues no DN da Madeira.
Biografia
Nasceu na freguesia dos Prazeres, Calheta, Madeira, a 1 de setembro de 1891, filho de José Gomes Henriques de Araújo (24.02.1856 - 25.02.1944) e de D. Maria Isabel Neves Farinha (04.03.1869 - 31.12.1937) que casaram a 17 de fevereiro de 1887.
Cursou o Liceu do Funchal e depois seguiu para Lisboa, a fim de tirar o curso de engenharia eletrotécnica, mas, em 1911, e por sugestão de um seu parente que havia regressado do estrangeiro, ao saber da sua ambição, aconselha-o que abandone a Universidade de Lisboa e se matricule numa Escola de Engenharia em Londres. Assim o fez, formando-se em 1915, com as mais altas classificações.
Em 1916 com a entrada de Portugal na Grande Guerra (1914-1918) ofereceu os seus préstimos e, como oficial miliciano, partiu para a França. Notado logo pelos seus superiores, as suas altas qualidades de técnico competente, foi imediatamente nomeado chefe dos oficiais do C.E.P. de Paris onde prestou relevantes serviços como Alferes Equiparado de Engenharia.
Terminada a guerra, em 1918, volta para Londres onde casou a 05.08.1919, pela primeira vez, com D. Phoebe Janet Melvill (06.12.1919 - 09.09.1927), de nacionalidade escocesa, com quem teve três filhos. No Funchal, viria a casar uma 2ª vez na Igreja de São Pedro a 07.02.1929, depois de viúvo, com D. Maria Beatriz Malheiro (4 de janeiro de 1910) , com quem teve dezassete filhos. De sua descendência direta teve sessenta e sete (67) netos e cento e onze (111) bisnetos.
Em finais 1919 voltou à Madeira, sua terra natal, onde foi professor provisório do Liceu e convidado para exercer as funções de engenheiro da Fábrica Leão, à qual deu um grande desenvolvimento, fundando em 1934 a Empresa de Cervejas da Madeira (E.C.M) que dirigiu até à década de 70.
Conhecido por Engenheiro, havia quem dissesse que não se podia intitular dessa forma, por se dizer que o curso não seria reconhecido em Portugal, ao que respondeu, que nunca assim se intitulou apesar de recordar que durante a 1º Guerra ter sido Alferes Equiparado de Engenharia ao serviço do Exercito Português.
Numa carta que escreveu, contou, que quando chegou à Madeira não ingressou em partidos políticos, queria consolidar antes a sua vida material. No entanto, devido a situação da região e do pais, rapidamente mudou de opinião, não ingressou em partidos políticos mas aceitou pertencer a comissões de dirigentes do Centro Católico Português, no qual serviu como Vice-presidente da Comissão Executiva lidera pelo Dr. Teodorico Fernandes.
Junta Geral do Distrito do Funchal
Nas eleições de 1925, foi candidato como independente e eleito pela Calheta, para procurador da Junta Geral do Distrito do Funchal, tendo presenciado a algumas sessões da junta, assistindo a cenas de pugilato comuns na época, antes de ser afastado por se ter "provado" a existência de irregularidades numa das secções de voto por onde tinha sido eleito.
Depois do Golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, segundo o Eng. António Egídio Henriques de Araújo, verificou-se a tendência de estagnação do progresso da Madeira. Assim, em 1930, a convite do Governador Coronel José Maria de Freitas, passou a ser Vice Presidente da Comissão Administrativa da Junta Geral sob a Presidência do Engenheiro Luís Acciaouli. Por ter sido afastado do cargo o então presidente, o Eng. Araújo ficou na presidência em exercício. Em consequência das repetidas recusas para o exercício do cargo de presidente, foi nomeado o Dr. João Abel de Freitas, que se sabe, condicionou a aceitação do cargo se o Eng. António Egídio Henriques de Araújo fosse nomeado para o cargo de vice-presidente, não só por serem amigos, mas essencialmente por conhecer os pontos de vista e o trabalho realizado desde 1926 na Junta Geral mais tarde apresentado ao Presidente do Governo Oliveira Salazar. Entre 15 de janeiro de 1935 e 8 de março de 1947, durante cerca 12 anos, são notáveis a quantidade de obras de grande envergadura, qualidade e importância que foram concretizadas na Região Autónoma da Madeira.
Com a saída do Dr. João Abel de Freitas da presidência da Junta Geral, em 1947, o Eng. António Egídio Henriques de Araújo, ficou como presidente interino, mas segundo Alberto Vieira, " … não aceitou por motivos particulares …" (família e atividade empresarial) o cargo de presidente, que havia sido proposto pelo Dr. João Abel de Freitas que tinha ascendido a Governador Civil da Madeira.
Face a esta recusa, o novo Governador Civil convidou o Dr. João Figueira de Freitas com quem colaborou de novo como Vice-Presidente entre 1947/1951, dando continuidade à concretização de projetos e obras de grande relevância para a Região. miniaturadaimagem|281x281px|Jardim Botânico da Madeira Após complicações políticas locais, o Dr. João Figueira de Freitas, foi substituído pelo Eng. Agrónomo António Camacho Teixeira de Sousa na presidência da Junta, ficando novamente o Eng. Araújo em serviço na junta. No entanto e segundo testemunho do Eng. Araújo, nunca foi nomeado oficialmente vice-presidente para que o pudesse substituir durante as ausência como deputado na República, criando assim alguns embaraços. Apesar de tudo, entre 1951 e 1954 colaborou e trabalhou intensamente na Junta Geral, tendo sido responsável por vários orçamentos (1952, 1953 e 1954) numa altura em que (palavras suas) seria inevitável a intervenção do Governo Central, para que a Junta pudesse continuar a desempenhar o papel que lhe estava confiado. Após alguns desentendimentos com o então presidente, apresentou através de carta dirigida ao presidente do Governo Central a 6 de janeiro de 1954, a sua demissão do cargo.
Assim foi, durante 24 anos, entre 1930 e 1954 foi vogal, vice-presidente da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, tendo papel preponderante na organização, na elaboração de orçamentos, em obras e realizações da Junta Geral, desempenhando papel de grande importância para o desenvolvimento do arquipélago da Madeira.
Das variadíssimas realizações salienta-se:
Classificação oficial das estradas da Madeira determinada pelo decreto nº28.592 de 14 de abril de 1938. Doação à Junta Geral dos terrenos para a construção do Estádio dos Barreiros - 24 de fevereiro de 1939. Na Misericórdia do Funchal e na Junta Geral conclui a construção do Hospital dos Marmeleiros, uma das primeiras casas hospitalares do País - 1931 e ampliação em 1940; Construção do Liceu Jaime Moniz inaugurado em 1946 Negociação/expropriação por utilidade pública da Quinta das Cruzes, na qualidade de Presidente substituto da Junta Geral do Funchal - 9 de fevereiro de 1948; Plano de Fomento do Porto Santo, que segundo as Ilhas Zarco foi resultado de "... um memorial do Eng. António Egídio Henriques de Araújo, presidente substituto da Junta Geral, que sob o patrocínio do Ministro das Obras Públicas, Engenheiro José Frederico Ulrich, obteve despacho ministerial favorável favorável a 30 de junho de 1951...". Segundo Arantes e Oliveira este Plano foi uma " Verdadeira obra de inteligência e de carinho ela ficará sem duvida na história do Porto Santo como um dos mais notáveis documentos." Exposição escrita ao estado central para a compra da Quinta Deão; Construção da Levada do Norte uma das mais importantes obras da Madeira - 1952; Estudo e compra dos terrenos para criação e instalação do Jardim Botânico da Madeira - 1953. Após este estudo a Junta Geral decidiu adquiriu a Quinta do Bom Sucesso para a instalação do Jardim Botânico, inaugurado sob orientação do Eng. Rui Vieira em 1960; Rede Elétrica da Calheta - PT - 1 de outubro de 1955;
Comissão Distrital da Assistência
Foi vice-presidente da Comissão Distrital da Assistência e depois nomeado presidente por alvará do governador do Distrito, sucedendo assim ao Eng. Rui Vieira. A posse deste novo cargo foi-lhe dada no Palácio de S. Lourenço a 20 de outubro de 1961 terminando a 11 de março de 1964.
Em 29 de Janeiro de 1963, apresenta por escrito ao então Governador do Distrito Autónomo do Funchal o Dr. João Inocêncio Camacho de Freitas, o seu pedido de demissão de Presidente desta Comissão, por razões de saúde e por não concordar com a centralização dos serviços assistenciais, que levaram a diminuição de receitas que aumentaram o problema Hospitalar da Madeira e não concretização da promessa da construção do novo edifício da Escola Salesiana de Artes e Ofícios do Funchal.
Fábrica Leão - Empresa de Cervejas da Madeira
miniaturadaimagem|275x275px|ECM - Rua Alferes Veiga Pestana Em 1919, após a chegada à Madeira, trabalhou, geriu e administrou a Fábrica Leão que pertencia à Sociedade Araújos, Tavares e Passos Ld.ª fundada em 1922.
Em 1934, após a falência do Banco Henrique Vieira da Silva e devido a grande recessão que se seguiu, como sócio e administrador das empresas “Araújo, Tavares e Passos, Lda.” e Sociedade da “Água do Porto Santo Lda.”, realizou uma cessão de quotas, da primeira para a segunda empresa, alterando a razão social para “Empresa de Cervejas da Madeira, Lda. (ECM)” admitindo na mesma altura dois novos sócios: “H.P. Miles” & “Leacok & e Companhia Lda.
Surgia assim a “Empresa de Cervejas da Madeira” que resulta assim da fusão das duas únicas fábricas de cerveja da Madeira – “Fábrica Leão” e “Fábrica Miles” propriedade de “Araújo, Tavares e Passos, Lda.” e “H.P Miles & Companhia”, respetivamente.
Daqui, resultou que a “Água do Porto Santo Lda.” ficou com 47%, a “H.P Miles & Companhia” com 47% e a “Leacok & e Companhia Lda.” com os restantes 6% da nova empresa.
Em 1965, no comando da ECM e em resultado das boas relações que tinha com Humberto Pelágio administrador da Central de Cervejas, propõe que a “Água do Porto Santo Lda.” e a “H.P Miles & Companhia” cedam, cada uma, 15% das suas quotas á Sociedade Central de Cervejas, evitando assim uma concorrência no mercado da cerveja da Madeira que poderia se fatal para a ECM.
Em 1974, a quota de 32% propriedade da “Água do Porto Santo Lda.” na Empresa de Cervejas da Madeira foi nacionalizada, com graves prejuízos que dai advieram. A quota nacionalizada, após Revolução Portuguesa de 1974, ficou então na posse, o Governo Regional da Madeira que a vendeu em 1999 ao atual proprietário.
A ECM, entre várias bebidas, produziu a brisa maracujá, a laranjada e a cerveja Coral.
Sociedade de Água do Porto Santo miniaturadaimagem|272x272px|Casa das Águas - Fábrica - Porto Santominiaturadaimagem|273x273px|Máquina de enchimento - Porto SantoApós a nacionalização da ECM, manteve-se como gestor e administrador da Sociedade de Água do Porto Santo, cujo edifício/fábrica da água, construído em 1922, imponente e de estilo apalaçado, foi registado em 1959 na Sociedade de Águas do Porto Santo.