Água e Sal é um filme luso-italiano de 2001 do género drama, realizado e escrito por Teresa Villaverde e produzido por Paulo Branco. A longa-metragem de ficção é protagonizada por Galatea Ranzi, no papel de Ana, uma mulher cuja concentração parece ameaçada durante as suas deambulações diárias pela aldeia junto ao mar, os seus habitantes, visitantes, e pela praia. Água e Sal estreou a 31 de agosto de 2001 no Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde foi contemplado com uma menção honrosa no Prémio Elvira Notari. Comercialmente, Água e Sal foi lançado nos cinemas de Portugal a 15 de fevereiro, e em Itália, a 6 de dezembro de 2002.
Sinopse Ana vive numa pequena aldeia junto ao mar, com o marido e a filha. Esta mulher está presa a um casamento deteriorado. O marido parte por uns dias para Milão, levando a filha consigo. Ana fica e tenta concentrar-se para terminar um projeto que há muito começou. Porém, em vez de a ajudarem a atingir o seu objetivo, as suas deambulações diárias pela aldeia e pela praia ameaçam a sua concentração.
Ana salva um desconhecido da morte no mar, conhece Alexandre, fica a par dos problemas pessoais de Emília e recebe a visita da sua amiga Vera. Neste momento, tudo muda na sua vida. O desconhecido que salvou não esconde o seu interesse romântico em Ana. O seu amante surge para uma visita que se inicia tão rápido quanto termina. O marido de Ana retém a filha em Itália.
Elenco
Galatea Ranzi, como Ana (voz dobrada por Carla Bolito). Joaquim de Almeida, como Marido. Alexandre Pinto, como Alexandre. Miguel Borges, como Desconhecido. Lúcia Sigalho, como Senhora. Maria de Medeiros, como Vera. Chico Buarque de Hollanda, como Amante. Clara Jost, como Filha de Ana. Joel Miranda, como Rapazito. Ana Moreira, como Emília. Lula Pena, como Senhora #2.
Produção Água e Sal é uma co-produção europeia entre Portugal e Itália, liderada pela produtora Madragoa Filmes (produção executiva de Paulo Branco), com a Titti Films e Rádio e Televisão Portuguesa, com o apoio financeiro do Instituto Português do Cinema, Audiovisual e Multimédia, Eurimages e Tele+. A longa-metragem de 117 minutos de duração, foi gravada num formato 35 mm – dolby SR. O filme é dedicado a Clara Jost, filha de Teresa Villaverde, com a frase: «Que um dia há-de perceber as coisas que se podem perceber».
Desenvolvimento Teresa Villaverde escreveu o argumento de Água e Sal na Primavera de 2000, enquanto habitava em Trastevere (Roma). Atribuiu ao mesmo um tom intimista e autobiográfico, tendo admitido "que este filme foi o que mais precisei de fazer, pessoalmente".
Casting Integram o elenco colaboradores frequentes de Villaverde, como Alexandre Pinto, Maria de Medeiros e Ana Moreira. A atriz Galatea Ranzi, terá sido escolhida para interpretar Ana, em parte, por ser fisicamente muito parecida com Teresa Villaverde, tendo depois sido caracterizada para acentuar as semelhanças. A filha da realizadora, Clara Jost, interpreta também o papel de filha da protagonista. Admiradora confessa de Chico Buarque, a realizadora tentou convencer o artista a participar no filme até ser bem-sucedida. "Primeiro mandei-lhe um argumento. (...) Leu, e, pelo que me disseram — porque nunca falei com o Chico —, gostou muito. Mas disse que não, que não podia. Estava quase a começar a filmar quando recebi uma mensagem da pessoa intermediária (de Buarque) que me dava a entender que devia insistir." miniaturadaimagem|O filme foi rodado em Cabanas de Tavira.
Rodagem Água e Sal foi filmado no Verão, até o mês de outubro de 2000 em Cabanas, freguesia de Tavira (Algarve), um lugar ao qual estava familiarizada, uma vez que a família de Villaverde tinha aí um apartamento de férias. A sequência com o amante de Ana, interpretado por Chico Buarque, foi rodada em duas noites e sem anunciar a presença do artista no local. Segundo Villaverde, Buarque "chegava, ia-se embora e ninguém o chateava. Eu dizia-lhe: «Filma só uma noite». Ele dizia: «Tem de ser duas, porque se fizer tudo mal na primeira, quero poder repetir na segunda»". Lúcia Sigalho admitiu ter sentido dificuldades durante a rodagem na adaptação de um registo de teatro à técnica de interpretação em cinema: "Acho que estraguei o filme todo à Teresa Vilaverde, se ela não fosse tão boa realizadora, aquilo tinha sido uma tragédia".
Temas e estética Esta é uma obra de texturas e de luzes: do mar, de ruas ao mesmo tempo vibrantes e austeras, de noites espetrais e céus azuis. De facto, esteticamente, o filme é dominado pelo mar e a sua energia em contraste com os sentimentos das personagens. Neste aspeto, os espaços evocados em Água e Sal ecoam À Flor do Mar, filme de João César Monteiro no qual Teresa Villaverde integrou o elenco.
Há algumas referências à cultura brasileira no filme, sendo a mais proeminente, a arte de Chico Buarque, que interpreta um personagem e tem a sua canção O que Será que Será incluída na banda sonora. Villaverde assume que "o meu trabalho é mais influenciado pelo Chico que pela obra de qualquer cineasta".
Na sua nota de intenções, Teresa Villaverde, escreve: "Este filme é sobre alguém que precisou que o tempo parasse. A poesia sabe fazer parar o tempo, o cinema tenta". Expandindo esta ideia, a realizadora admitiu que pretendia fazer um filme que levasse os espetadores a interrogar-se sobre o seu próprio tempo e como o usam, mas acima de tudo, questionar-se acerca da necessidade de mudar de rumo. Este tem sido apontado como o filme mais autobiográfico da carreira da realizadora. Comparando consigo, Villaverde descreveu a protagonista, Ana, enquanto alguém que "queria que o tempo parasse para que pudesse respirar e inventar outro tempo, outra coisa onde se sentisse melhor. Em relação a mim, são coisas distintas. Se fiz este filme foi porque precisei de o fazer."
Distribuição Lançamento Água e Sal foi selecionado para edição de 2001 do Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde estreou na secção Cinema del Presente a 31 de agosto. Em Portugal, a ante-estreia do filme decorreu a 7 de fevereiro de 2002, no Cinema King (Lisboa). A distribuição comercial do filme em Portugal, pela Atalanta Filmes, iniciou-se a 15 de fevereiro do mesmo ano, onde estreou nos cinemas King e Monumental-Saldanha (Lisboa). A mesma distribuidora viria a editar Água e Sal em VHS. Em França, a longa-metragem foi distribuída a partir de 8 de maio de 2002, pela Gémini Filmes, e em Itália, a partir de 6 de dezembro de 2002, pelo Gruppo Pasquino.
Retrospetivas Após as suas estreias, o filme foi consecutivamente incluido em sessões de retrospetiva da filmografia de Teresa Villaverde, em Festivais internacionais de cinema de entre os quais se destacam os seguintes:
25ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Brasil, outubro de 2002). 33º Festival de Cinema de Mulheres de Créteil (França, março de 2011). 2ª edição do Festival Olhares do Mediterrâneo (Portugal, 2015). 10ª edição do Lisbon & Estoril Film Festival (Portugal, 2016).
Receção
Audiência Em Portugal, Água e Sal teve 3 600 espetadores nos cinemas. Nos cinemas franceses totalizou em sala 555 espetadores e, em Itália, 392.
Crítica Aquando a sua apresentação no Festival Internacional de Cinema de Veneza, Água e Sal foi contemplado com uma menção honrosa no Prémio Elvira Notari.
Esta obra é geralmente menos referida, quando não considerada "menor" na filmografia de Villaverde. Os cinéfilos do Público escreveram críticas negativas do filme. Kathleen Gomes destaca a dificuldade da realizadora em fazer o que o filme pretendia, parar: "Há uma mulher (Ana) em processo de recomposição, à procura do que nem ela sabe definir. Mas, se o filme tratará de lhe responder - anda à procura de uma libertação -, tudo o resto permanecerá em falta, com personagens que nem chegam a existir." Mário Jorge Torres, em concordância, comenta como "Alexandre Pinto e Ana Moreira, vindos de Os Mutantes, anterior (e mais sólida) aventura fílmica de Teresa Villaverde, aparecem também como sombras desamparadas de desejo incumprido de personagens, arrastam a sua impotência, ao sabor de um olhar intenso e fatalista." Luís Miguel Oliveira também compara negativamente com a anterior longa-metragem de Villaverde: "Percebe-se que é, em boa parte, um filme cifrado, e o problema talvez venha daí. Não pela cifra, mas pela necessidade, que Teresa Villaverde terá sentido, de preencher o filme com algumas âncoras narrativas para que ele não se resumisse à cifra - ou seja, para que não fosse incompreensível para o comum dos espetadores".
Internacionalmente, semelhantes reparos foram apontados ao filme. Emiliano Morreale (FILMTV) elogia a entrega de Galatea Ranzi, mas considera que "o problema é que, quando a relação entre a mulher e a paisagem é substituída por breves encontros com as personagens, o filme torna-se esquemático e mostra uma ausência imperdoável de curiosidade". Ver também Cinema de Portugal
Ligações externas
Categoria:Filmes de Portugal de 2001 Categoria:Filmes da Itália de 2001 Categoria:Filmes em língua portuguesa Categoria:Filmes em língua italiana Categoria:Filmes realizados por Teresa Villaverde Categoria:Filmes de drama de Portugal Categoria:Filmes de drama da Itália Categoria:Filmes de drama da década de 2000 Categoria:Filmes ambientados no distrito de Faro Categoria:Filmes ambientados na Itália Categoria:Filmes gravados no distrito de Faro