miniaturadaimagem|163x163px|Coleta de dados de uma carcaça de uma baleia cinzenta A queda de baleia (whale fall), também referido na literatura como carcaça de baleia, é o fenômeno que ocorre quando uma carcaça de baleia afunda e chega ao fundo dos oceanos, a zonas de profundidades superiores a 1 000 metros, zona batipelágica, abissal ou hadal.Smith, Craig R.; Glover, Adrian G.; Treude, Tina; Higgs, Nicholas D.; Amon, Diva J. (2015). "Whale-Fall Ecosystems: Recent Insights into Ecology, Paleoecology, and Evolution". Annual Review of Marine Science. 7 (1): 571–596 doi:10.1146/annurev-marine-010213-135144 Estas regiões são caracterizadas por um teor muito reduzido de matéria orgânica e ausência de luz. Quando surge uma carcaça de baleia esta representa uma fonte de alimento dando origem a um ecossistema complexo e sustentável durante décadas.
Os primeiros registos deste acontecimento datam de 1970 com o início da exploração do fundo dos oceanos utilizando ROVs, (veículo submarino operado remotamente) que possibilita o acesso ao estudo destes ambientes profundos fornecendo conhecimento acerca da sua biodiversidade, habitats e sucessão ecológica. Aguzzi, J.; Fanelli, E.; Ciuffardi, T.; Schirone, A.; De Leo, F. C.; Doya, C.; Kawato, M.; Miyazaki, M.; Furushima, Y.; Costa, C.; Fujiwara, Y. (24 July 2018). "Faunal activity rhythms influencing early community succession of an implanted whale carcass offshore Sagami Bay, Japan". Scientific Reports. 8 (1): 11163 doi:10.1038/s41598-018-29431-5 Sendo o mar profundo um ambiente pobre em fontes de alimento, e as carcaças de baleias grandes fontes de matéria orgânica, estas funcionam como um hot spot biológico, atraindo variadas espécies e permitindo o rápido crescimento das populações. Este fator ligado ao ainda reduzido conhecimento destes ambientes profundos tem levado à descoberta de novas espécies até então desconhecidas.
Causas de Morte das Baleias Baleias de grandes dimensões, representadas pela maioria dos Mysticeti e os cachalotes, podem ter uma expectativa de vida de 80-90 anos dependendo da espécie, em casos extremos podem chegar aos 200 anos de idade (baleia-da-groenlândiaKeane, M. et al. (2015): Insights into the Evolution of Longevity from the Bowhead Whale Genome. Cell reportsVolume 10, Issue 1, 6 January 2015, Pages 112-122. https://doi.org/10.1016/j.celrep.2014.12.008). Além da morte devido à idade elevada, existem outras causas naturais, como predadores, principalmente Orcas. Na Argentina, ataques de gaivotões (Larus dominicanus) causam mortalidade elevada de em baleias-francas-austrais.Sironi, M., Rowntree, V., Di Martino, M., Alzugaray, L., Rago, V., Marón, C. F., & Uhart, M. (2018). Southern right whale mortalities at Península Valdes, Argentina: updated information for 2016-2017 (Vol. 67). Document SC Necrópsias de baleias encalhadas em praias revelaram outras possíveis fatores, entre elas a acumulação de biotoxinas, doenças infecciosas, desnutrição, parasitas (p. ex. Crassicauda boopisLambertsen RH. Crassicaudosis: a parasitic disease threatening the health and population recovery of large baleen whales. Rev Sci Tech. 1992 Dec;11(4):1131-41. PMID: 1305859) ou vírus (p. ex. Cetacean morbillivirus).
miniaturadaimagem|254x254px|Baleia de bossas enmalhado numa rede fantasma, HawaiiNo entanto, uma grande parte das mortes de grandes cetáceos são induzidas antropogenicamente. A caça de baleias foi dizimando os números dos animais nos últimos 200 anos até níveis preocupantes. Desde a proteção de baleias pela Comissão Baleeira Internacional, algumas populações conseguiram recuperar. Hoje em dia, o elevado impacto do homem no meio marinho, traz novos fatores, ameaçando as baleias de forma direta ou indireta. Colisões com navios raramente são reportadas, mas causam ferimentos letais com elevada frequência.International Whaling Commison: https://iwc.int/ship-strikes. Last access 09.02.2021<nowiki> De forma indireta, a atividade humana têm aumentado as mortes de baleias devido ás muitas formas de poluição: redes fantasma podem causar emalhamento, terminando em amputações ou até no afogamento dos animais. Quantidades crescentes de plástico e outras formas de lixo no mar (detrito marinho) aumentam a probabilidade de ingestão e acumulação nos intestinos dos animais.Mark Peter Simmonds, "Cetaceans and Marine Debris: The Great Unknown", Journal of Marine Sciences, vol. 2012, Article ID 684279, 8 pages, 2012. https://doi.org/10.1155/2012/684279 Também poluentes químicos têm sido detectados frequentemente como prováveis causas de doenças e mortes em baleias. Um fator perturbador menos óbvio mas essencial é a poluição sonora. O ouvido representa o sentido mais importante nos cetáceos, sendo indispensável para a realização de funções de vida básicas como alimentação, migração e comunicação. Repetidamente encontram-se arrojamentos de cetáceos mortos em massa, logo a seguir a zonas de atividades sonoras intensas como zonas de teste de sonares militares.
Pós-Morte miniaturadaimagem|Baleia morta flutuando na superficie do oceano Carcaças de baleias podem ser encontradas em terra (principalmente em praias), flutuando à superfície do mar, ou no fundo do oceano. O que acontece logo a seguir à morte de uma baleia depende de vários fatores, entre eles o local e a forma da morte. Uma determinante crucial é a flutuabilidade do animal. Se a carcaça tem densidade menor que a água do mar, vai se manter a flutuar à superfície (flutuabilidade negativa, atraindo predadores necrófagos como tubarões e aves marinhas (p. ex. petrel-gigante, Macronectes spp). Além do tamanho e peso do animal, a densidade e a flutuabilidade dependem da condição corporal do animal e do teor de gordura. Esses parâmetros variam entre espécies. Baleias de grandes dimensões como baleias azuis e comuns são mais prováveis de se afundarem rapidamente. Animais mais compactos como baleias de bossas, cachalotes e baleias francas têm tendência de flutuar, sendo uma característica já observada pelos baleeiros, causando uma preferência por estas espécies. Ao longo do tempo, a decomposição crescente do animal causa produção de gases, que contribuem para manter e aumentar a sua flutuabilidade. Mesmo assim, estudos sugerem uma taxa de afundamento de 90% de carcaças por causa da desnutrição da maioria das baleias que morrem devido a causas naturais. Funcionamento do ecossistema Ao chegar ao fundo dos oceanos a carcaça começa rapidamente a ser consumida, no entanto à medida que esta vai sendo consumida o tipo de tecidos disponíveis para consumo ao longo do tempo vai se alterando, assim os cientistas identificaram 3 etapas de sucessão biológicaHilário, Ana (2010) A vida depois da morte de uma baleia. Captar Ciência e ambiente para todos. vol 2 nª3: 21-28. .doi: https://doi.org/10.34624/captar.v2i3.14509 com a possibilidade da existência de uma 4 etapa ainda em debate.
1ª Etapa miniaturadaimagem|Um banquete de uma queda de baleia, gravado em no monte submarino Davidson, California, US|301x301px A primeira etapa começa assim que a carcaça chega ao fundo marinho, devido à existência de uma grande quantidade de tecidos moles - gordura, músculo e órgãos internos- esta é rapidamente povoada por necrófagos que se alimentam destes mesmos tecidos, podendo consumir entre 40 a 60 kg por dia e dependendo do tamanho da carcaça podendo durar até 2 anos.Hilário, Ana (2010) A vida depois da morte de uma baleia. Captar Ciência e ambiente para todos. vol 2 nª3: 21-28. .doi: https://doi.org/10.34624/captar.v2i3.14509
Espécies : tubarões de profundidade, Somniosus pacificus peixe-bruxa, Eptatretus deani Myxinas, Myxine circifrons Anfípodes
2ª Etapa A segunda etapa tem início logo após o consumo da maioria dos tecidos moles e perda de interesse por parte dos grandes necrófagos que caracterizam a 1ª etapa, dando lugar ao surgimento de espécies oportunistas que se alimentam dos restos de gorduras e de outros tecidos moles deixados para trás, esta etapa pode durar até 2 anos e caracterizada por uma baixa biodiversidade mas grande densidade de indivíduos. Espécies: Poliquetas Crustáceos
3ª Etapa Esta etapa é a mais longa e começa após o consumo total dos tecidos moles. É denominada por etapa sulfolítica transformando-se este num ecossistema quimiossintético sendo que o esqueleto passa a ser colonizado por bactérias especializadas na degradação dos lípidos neles contidos.Smith CR (1992). Whale falls – chemosynthesis on the deep seafloor. Oceanus 35: 74-78 Deming JW, Reysenbach AL, Macko SA, Smith CR (1997). Evidence for the microbial basis of a chemoautotrophic invertebrate community at a whale fall on the deep seafloor: Bone-colonizing bacteria and invertebrate endosymbionts. Microscopy Research and Technique 37: 162-170 Estes microrganismos utilizam sulfato (SO4) como fonte de Oxigénio e excretam sulfureto de hidrogénio (H2S), gás que embora tóxico para a maioria das espécies serve como fonte de energia por certas bactérias quimiossintéticas que utilizam o oxigénio dissolvido na água do mar para oxidar o sulfureto de hidrogénio e em conjunto com a água e dióxido de carbono formarem os hidratos de carbono necessários para o seu desenvolvimento.
4ª Etapa A 4ª etapa ainda está em debate mas alguns cientistas justificam que quando todos os compostos orgânico são consumidos e apenas restam os minerais nos ossos estas estruturas podem servir como substrato duro para a fixação de algumas espécies de filtradores.Hilario, Ana; Cunha, Marina R.; Génio, Luciana; Marçal, Ana Raquel; Ravara, Ascensão; Rodrigues, Clara F.; Wiklund, Helena (2015). "First clues on the ecology of whale falls in the deep Atlantic Ocean: results from an experiment using cow carcasses". Marine Ecology. 36 (S1): 82–90. Bibcode:2015MarEc..36...82H. doi:10.1111/maec.12246. ISSN 1439-0485
História
A ocorrência de fenómenos de quedas de baleias será tão antigo como a existência de baleias em si, ocorrendo de forma heterogénea pelo oceano e ao longo do tempo, com concentrações mais elevadas perto das rotas de migração.O primeiro registo de uma observação de uma carcaça de baleia no fundo marinho data de 19 de Fevereiro de 1977 e foi efetuada pela Marinha Americana através de um mergulho a bordo do batiscafo Trieste II.Vetter, Tom (2015). 30,000 Leagues Undersea: True Tales of a Submariner and Deep Submergence Pilot Esta carcaça encontrava-se já sem tecidos moles, tendo através de uma amostra de osso do maxilar sido identificada como uma baleia cinzenta. Little, C. T. (2010). "Life at the Bottom: The Prolific Afterlife of Whales". Scientific American. 302 (2): 78–82, 84. doi:10.1038/scientificamerican0210-78
Sendo que a primeira vez que foram detetados organismos quimiossintéticos a residir no interior dos ossos, em zonas anaeróbicas, foi efectuada pelo oceanógrafo da Universidade do Havaí Craig Smith em 1987, num mergulho efetuado pelo submersível Alvin (DSV-2) a uma profundidade de 1 240 metros na Bacia da ilha Catalina, no Oceano Pacífico ao largo da costa da Califórnia, sendo recolhidas as primeiras evidências fotográficas e amostras biológicas destes ecossistemas únicos.Smith, C. R.; Kukert, H.; Wheatcroft, R. A.; Jumars, P. A.; Deming, J. W. (1989). "Vent fauna on whale remains". Nature. 341 (6237) doi:10.1038/341027a0. S2CID 4355561
Quedas de baleias têm sido descobertas de forma natural, explorando o fundo marinho e encontrando carcaças por coincidência ou também iniciados por cientístas de forma experimental, afundando carcaças artificialmente para poder estudar este ecossistema temporal excepcional.
Impacto humano miniaturadaimagem|161x161px|Caça de chachalote na costa mexicana