miniaturadaimagem|360x360px|Apoteose de Homero (1827), Jean-Dominique Ingres A exegese alegórica de Homero é uma interpretação ou explicação da obra homérica, baseada no axioma de que o poeta não expressou explícita ou literalmente seu pensamento, mas escondeu-o atrás de relatos mitológicos, por meio de uma linguagem enigmática ou alusiva.

A forma mais antiga de exegese alegórica (do grego , "outro", e ,"dizer": que diz em outras palavras o que o poeta não expressou claramente), e ao mesmo tempo a mais constante da história, busca trazer à tona, no texto de Homero, um ensinamento físico, isto é, relativo à natureza (φύσις ) e a todos os fenômenos que aí ocorrem.J. Pépin, Mythe et allégorie, Études augustiniennes, Paris, 1976, p. 91.

Também podemos distinguir uma exegese alegórica teológica ou mística, relativa a deuses e mistérios religiosos, mas muitas vezes intimamente ligada à exegese física, com os deuses sendo assimilados a entidades naturais ou agindo sobre a natureza.

Finalmente, há também, mais tarde e menos frequente, uma exegese alegórica histórica (ou historicista) e ética (ou moralizante).

A interpretação alegórica de Homero, praticada desde os tempos antigos por quase todos os filósofos, em última análise cobre um período de pelo menos 2.500 anos. Se a exegese física não foi aplicada apenas ao autor da Ilíada e da Odisseia, mas a vários outros grandes poetas gregos e latinos antigos (Hesíodo, Virgílio, Ovídio), a de Homero é sem dúvida a mais abundante em depoimentos escritos.

Exegese física e teológica

Os rapsodos e os pré-socráticos Segundo Porfírio, o surgimento de uma linhagem de interpretação alegórica é traçado desde o século VI a.C., com Teágenes de Régio, sob uma postura defensiva dos sentidos simbólicos da narração mítica: com o início do pensamento filosófico, era criticada a leitura literal antropomórfica e imoral dos deuses de Hesíodo e Homero, tal como a atacou o pré-socrático Xenófanes de Cólofon e até mesmo Platão posteriormente em A República. Teágenes propunha uma leitura tanto física quanto moral e psicológica:"O discurso geral acerca dos deuses liga-se geralmente ao inapropriado, e mesmo ao inconveniente; pois os mitos que ele narra sobre os deuses não são convenientes. Para dissolver tal acusação, há quem evoque a maneira de falar; estes estimam que tudo foi dito sob o modo da alegoria e concerne a natureza dos elementos, como por exemplo, no caso de desacordos entre os deuses. É assim que, segundo eles, o seco combate o úmido, o quente o frio, e o leve o pesado; a água apaga o fogo, mas o fogo seca a água. (...) <Dizem que> ele organizou batalhas dando ao fogo o nome de Apolo, Hélio ou Hefesto, à água o de Posêidon ou Escamandro, à lua o de Ártemis, ao ar o de Hera etc. Do mesmo modo, acontecia-lhe de dar os nomes de deuses para disposições, Atena para a sabedoria, Ares para a insensatez, Afrodite para o desejo, Hermes para a fala, e associam <estas disposições> a eles. Este modo de defesa é muito antigo e de Teágenes de Régio, que foi o primeiro a escrever sobre Homero, considerando sua maneira de falar"Porfírio. Questões Homéricas, Y, 67-75 (8 A 2 DK). Citado em Oliveira, Loraine (2017). "A interpretação alegórica de mitos: das origens a Platão". Mirabilia 24. esquerda|miniaturadaimagem|270x270px|Rapsodo sobre uma bema. Ânfora do Pintor de Cleófrades (c. 490 a.C.) No entanto, já os rapsodos, ou homéridas, sucessores diretos de Homero (do ), deveriam, ao recitar os versos do Aedo, ser capazes de comentar ao mesmo tempo sobre o "significado" ou a "intenção” que o poeta tinha em mente.Cf. Platão, Íon, 530b-c, 533d-e; ver também Xenofonte, Banquete, III, 6. Os exegetas mais antigos de Homero, porém, cujos nomes conhecemos, são de fato Teágenes e Metrodoro de Lâmpsaco (século V a.C.):F. Buffière, Les Mythes d'Homère et la pensée grecque, Les Belles Lettres, Paris, 1956, et passim.

"Agamemnon representa o éter; Aquiles, o Sol; Helena, a terra; Alexandre, o ar; Heitor, a Lua; os outros têm nomes que lhes correspondem. Entre os deuses, Deméter representa o fígado; Dioniso, o baço; Apolo, bile."Texto de um papiro de Herculano, cujo conteúdo provavelmente remonta a Metrodoro. cf. F. Buffière, Les Mythes d'Homère et la pensée grecque, Les Belles Lettres, Paris, 1956, p. 127, nota 10; H. Diels, Die Fragmente der Vorsokratiker, Weidmannsche Buchhandlung, Berlin, 1912, t. I, p. 414, § 48).

Chegou aos filósofos pré-socráticos (séculos VI e e V a.C.) de comentarem o poeta na mesma perspectiva: além de Xenófanes,Cf. Diels-Kranz, fr. 10. atribuem-se referências por parte do pensamento de Tales de Mileto, Anaxágoras de Clazômenas, Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Demócrito de Abdera:

"Tomemos Tales de Mileto: admitimos que ele foi o primeiro a colocar, na origem do universo, a água como elemento primitivo [...] Mas qual é o verdadeiro pai dessa opinião? Não é Homero, quando diz: Oceano, pai de todos os seres?"F. Buffière, Héraclite, Allégories d'Homère, Les Belles Lettres, Paris, 2003, p. 26 e 27, § 22 ; cf. Homero, Ilíada, XIV, 246. "Aqui está como Empédocles formula a composição do universo: Às vezes a amizade rearranja e reúne a tudo, às vezes, por outro lado, o ódio e a discórdia raptam tudo. Ele dá à harmonia e à união o nome de amizade, e ao desacordo o nome discórdia. Antes dele, Homero alude a essa amizade e essa discórdia [...] na fábula de Afrodite e Ares. A primeira representa a mesma coisa que amizade em Empédocles; o segundo, é a discórdia."Pseudo-Plutarco. Sobre a Vida e a poesia de Homero, 99 à 101.

Pitágoras e os pitagóricos Pitágoras compartilha com Homero o raro privilégio de ver os versos atribuídos a ele serem qualificados como "de ouro". De fato, segundo seus biógrafos, o filósofo foi iniciado na leitura do Aedo por Hermodamas de Samos e, pelos relatos de Jâmblico, Estobeu e Eustácio de Tessalônica teria se inspirado na obra homérica, em particular no desenvolvimento de sua doutrina dos números e sobre a palingenesia ou metempsicose:

"O mito de Circe é uma alusão ao que Pitágoras e Platão ensinam sobre a mente. [...] Homero dá o nome de Circe ao movimento circular e periódico da palingênese."Estobeu. Éclogas físicas, XLI, 60. "Os companheiros de Odisseu são metamorfoseados em porcos e outros animais semelhantes. É uma alusão ao fato de que os espíritos dos homens tolos passam para corpos pertencentes a espécies animais. Sua queda os sujeita à revolução circular do universo que Homero chama de Circe (Círculo)."Pseudo-Plutarco. Sobre a Vida e a Poesia de Homero, 126. miniaturadaimagem|300x300px|Ilustração de William Blake ao livro exegético de Porfírio, Sobre o Antro das Ninfas na Odisseia. Segundo Porfírio, a história das jornadas ao mar simboliza o processo de encarnação do homem, sua descida ao corpo material, que é assim gradualmente purificado, e retorno à sabedoria.Struck, Peter T. (2010). «Allegory and Ascent in Neoplatonism». In: Copeland, Rita; Struck, Peter T. The Cambridge Companion to Allegory. Cambridge: Cambridge University Press. pp. 57–70 Os discípulos de Pitágoras foram inspirados por Homero em, por exemplo, impor a regra do silêncio:

"Quando Telêmaco diz: Que deus está dentro, entre aqueles que habitam a expansão do céu? [Odisseia, XIX, 40], seu pai assume nestes termos: Cale a boca, guarde para si o que vem à sua mente e não faça perguntas! Isso é o que ditam os deuses que habitam o Olimpo. [Ibidem, 42 e 43]. Apoiando-se nesta exegese, os pitagóricos não respondiam àqueles que, sobre os deuses, faziam perguntas perigosas, afrontosas e triviais."Estobeu. Antologia, XXXIII, 17.

O neoplatônico Porfírio (século III – início do IV) tornou-se ilustre pela redação das Questões HoméricasCf. H. Schrader, Quaestionum Homericarum ad Iliadem pertinentium reliquiae, Teubner, Leipzig, 1880 et Quaestionum Homericarum ad Odysseam pertinentium reliquiae, Teubner, Leipzig, 1890. e de O Antro das Ninfas, obras em que o texto de Homero é frequentemente interpretado alegoricamente com conceitos do neopitagorismo:

"Considerando a raça divina e a raça humana, os pitagóricos assumiram uma terceira, inteiramente venerável: a do rei ou do sábio. Homero foi o primeiro a localizar, entre deuses e homens, o rei [...]: Que eles próprios sejam testemunhas perante os deuses abençoados, perante os homens mortais e perante o rei."H. Schrader, Quaestionum Homericarum ad Iliadem pertinentium reliquiae, op. cit., I, 339 et 340.

Platão e os platônicos A obra de Platão (), por sua vez, contém comentários alegóricos de Homero, geralmente formulados por Sócrates:

"a necessidade de se estar familiarizado com um bom número de poetas, especialmente com Homero, o melhor e mais divino poeta de todos, e de apreender seu pensamento e não apenas aprender decoradas suas palavras, é uma questão de inveja; já que um homem nunca pode ser um bom rapsodo sem entender o que diz o poeta. Pois o rapsodo deve tornar-se um intérprete do pensamento do poeta para seu público; e fazer isso corretamente sem saber o que o poeta quer dizer é impossível."Platão. Íon, 530b-c "Pela famosa corrente de ouro, Homero não quer dizer outra coisa senão o Sol, mostrando assim claramente que enquanto a esfera celeste e o Sol se movem, tudo tem ser e tudo o preserva tanto entre os deuses quanto entre os homens; mas, se viessem a repousar como presos, todas as coisas desmoronariam e o que aconteceria seria, como dizem, uma revolta universal".Platão. Teeteto, 153c-d ; cf. ibid. 152e, 160d-e, 194c-d; "Homero, que, na linha “Oceano a origem dos deuses, e Tétis sua mãe” (Ilíada 14.201, 302) disse que todas as coisas são descendentes de fluxo e movimento; ou você não acha que ele quis dizer isso?"Platão. Teeteto, 142d. A mesma interpretação está também presente no Crátilo 402b.

Um diálogo fortemente dedicado a uma alegorização dos deuses é o Crátilo:

"Essa é uma questão mais importante, meu amigo. Os antigos parecem ter tido a mesma crença sobre Atenas que os intérpretes de Homero têm agora; ou a maioria destes, ao comentar sobre o poeta, diz que ele representa Atenas como mente (νοῦς) e intelecto (διάνοια); e o criador de seu nome parece ter tido uma concepção semelhante dela, mas lhe dá o título ainda mais grandioso de "mente de Deus"."Platão. Crátilo, 407a-b

Entre os mais famosos platônicos, Plutarco de Queroneia (I século e início do II) cita várias interpretações alegóricas do texto homérico; o Pseudo-Plutarco, autor do livro Sobre a Vida e a Poesia de HomeroFr. Dübner, Plutarchi fragmenta et spuria, Didot, Paris, 1865., dedicará um grande capítulo a esse tipo de exegese:

"Hefesto é qualificado como “coxo” porque o fogo sem lenha não funciona, nem o coxo sem bastão."Plutarco. Sobre a Face Visível no Orbe da Lua, 922b. "A propósito de Hera, que se embeleza para Zeus e o cinto mágico, podemos ver uma certa purificação do ar que se aproxima do elemento ígneo."Plutarco. Como Estudar Poesia, 19e

Fílon de Alexandria (século I) cita versos de Homero como autoridade em apologética a suas interpretações da Bíblia judaica, assim como outros autores judeus o fizeram antes.

Em seguida, vieram os neoplatônicos Porfírio (ver acima) e Proclo (século V), com o sexto tratado de seu Comentário sobre a República de Platão,G. Kroll, Procli Diadochi in Platonis Rem publicam commentarii, vol. I, Teubner, Leipzig, 1899, p. 69-205. onde se acumulam interpretações alegóricas do poeta: