miniaturadaimagem|268x268px|Vitral com a frase "Deus é Um" (Egy az Isten) em uma igreja unitária em Budapeste, Hungria.
O unitarismo (ou unitarianismo) é uma corrente de pensamento teológico do cristianismo que afirma a unidade absoluta de Deus, rejeitando portanto a doutrina da Trindade, que afirma que Deus é uma unidade composta por 3 pessoas distintas.The Family Bible Encyclopedia, 1972. p. 3790. Os cristãos unitários afirmam a natureza unitária de Deus como o criador singular e único do universo, acreditam que Jesus Cristo foi inspirado por Deus em seus ensinamentos morais e que ele é o salvador da humanidade e filho de Deus, mas ele não é igual ao próprio Deus. Consequentemente, os unitaristas rejeitam os Concílios ecumênicos católicos e se situam fora do cristianismo tradicional e dominante.
O unitarismo foi estabelecido para restaurar o "cristianismo primitivo antes que as corrupções posteriores se instalassem". A igreja do unitarismo pode incluir denominações liberais, como os unitários universalistasque pregam a liberdade de cada ser humano para buscar o crescimento espiritual sem a necessidade de religiões, dogmas e doutrinas. Ou denominações cristãs unitaristas mais conservadoras, que consideram a Bíblia como única regra de fé e prática, assemelhando as demais religiões cristãs protestantes.
O nascimento da fé unitária no período pós Concílios, é próximo à Reforma Radical, começando quase simultaneamente entre os Irmãos Poloneses na Comunidade Polaco-Lituana e no Principado da Transilvânia em meados do século XVI; a primeira denominação cristã unitária conhecida por ter surgido durante esse tempo foi a Igreja Unitária da Transilvânia, fundada pelo pregador e teólogo unitário Ferenc Dávid (1520 – 1579). Entre seus adeptos estava um número significativo de italianos que se refugiaram na Boêmia, Morávia, Polônia e Transilvânia para escapar da perseguição religiosa perpetrada contra eles pelas Igreja católica Romana e Protestante Magisterial. No século XVII, uma repressão significativa na Polônia levou muitos unitaristas a fugir ou serem mortos por sua fé. Do século XVI ao XVIII, os unitaristas na Grã-Bretanha enfrentaram frequentemente perseguições políticas significativas, incluindo John Biddle e Theophilus Lindsey. Na Inglaterra, a primeira Igreja Unitarista foi estabelecida em 1774 na Essex Street, Londres, onde ainda se encontra a atual sede unitarista britânica.
Os unitários não devem ser confundidos com os unicistas. Os primeiros entendem que Deus é um ser único, o Pai de Jesus Cristo.I Co. 8:6, Jo. 17:3 Já os unicistas entendem que o Pai, o Filho e o Espírito são apenas manifestações diferentes do mesmo Deus.I Tm. 3:16 (na versão Almeida Corrigida Fiel), At. 20:28.
Apesar de sua origem em igrejas cristãs, é geralmente identificado com as correntes de combate ao trinitarismo, teve diversas manifestações ao longo da História, com apoio por vezes parcial ou total com outros movimentos que compartilham seu comum desacordo com o dogma da Trindade, como o subordinacionismo, o arianismo, o serventismo ou o socianismo.
História
Período apostólico e Primeiros Pais da Igreja Dado que a palavra e o conceito de Trindade, tal como se entende no sentido cristão, não constam no Novo Testamento, os unitários argumentam que o unitarismo teria seu início com o próprio Jesus, que, defendem, tinha consciência de ser simplesmente um homem enviado de Deus ao Mundo para transmitir Sua vontade, sem, todavia, ser divino, nem compartilhando da natureza do Pai. Ao longo dos três primeiros séculos do cristianismo aparecem diversos autores que afirmam a natureza "mais que humana" de Cristo e atribuem-lhe um caráter divino, ou semidivino, como filho de Deus.
Escritos cristãos do século I, não mencionam a trindade e indicam que os primeiros cristãos acreditavam em uma fórmula divina unitária mais parecida com a do Judaísmo. Os cristãos se viam como continuadores do monoteísmo judaico, mas reinterpretando a identidade de Deus à luz da pessoa de Jesus. A doutrina trinitária formal ainda não existia e o Pai YHWH era visto como o único Deus. (1Cor. 8:4-6 e Ef. 4:6). Entretanto, Jesus era chamado de "Senhor" (Kyrios) e colocado em posição única de autoridade e culto (Fp 2:9-11). E o espírito Santo aparece como poder/ação de Deus, às vezes personificado, mas não é descrito como uma “terceira pessoa” no mesmo nível do Pai e do Filho.
Durante o século II, Inácio de Antioquia, Justino e Irineu de Lião declararam uma cristologia elevada, mas com uma concepção subordinada e inferior ao Pai. Apenas Tertuliano por volta do século III passou a fazer as primeiras declarações da palavra Trinitas (Trindade), mas ainda de modo embrionário. Muitos historiadores acreditam que a doutrina da trindade "se desenvolveu gradualmente ao longo de vários séculos e por meio de muitas controvérsias". Esses estudiosos argumentam que "foi o Concílio de Nicéia e, mais especialmente, o Credo de Atanásio que primeiro deram ao dogma sua formulação definitiva"
Concílios Ecumênicos e Condenação de Ário A partir do século III, os subordinacionistas afirmavam que o Filho estava subordinado ao Pai e submetido a sua vontade, enquanto que outros pensadores cristãos começavam a trabalhar com a ideia do caráter divino de Jesus Cristo e sua identificação com a Divindade. Em outro extremo se situavam os que identificavam totalmente o Pai ao Filho, entendendo que o Pai também havia sofrido e morto na cruz (patripassianismo) e que Pai, Filho e Espírito Santo, não eram mais que modalidades ou manifestações de uma única realidade divina (sabelianismo ou modalismo). O primeiro a utilizar a palavra "Trindade" foi Tertuliano.
Ao chegar o e o Édito de Milão, todas estas discussões teológicas vieram definitivamente à tona e começou-se a defendê-las adversamente. Constituíram-se dois grandes grupos: os que afirmavam que o Filho havia sido criado por Deus no princípio, e que, portanto, não podia identificar-se com Ele, que se agruparam ao redor de Ário e de Eusébio de Nicomédia, e os que afirmavam que o Filho era consubstancial (homoousios) com o Pai, liderados pelo bispo Alexandre de Alexandria e especialmente por seu sucessor, Santo Atanásio. No Primeiro Concílio de Niceia (325) se aprovou oficialmente o dogma da Trindade e se condenou o arianismo como herético; uma decisão que, com os distintos caminhos dos anos seguintes, acabaria sendo confirmada pelo Primeiro Concílio de Constantinopla (381). Não obstante, o arianismo perduraria pelos reinos godos que ocuparam o Império Romano do Ocidente, em meados do . Ário foi condenado com seus escritos e seguidores. O veredito foi assinado por quase todos os bispos presentes. Eusébio e três outros, ao se recusaram a assinar, foram obrigados a seguir os demais pelas ameaças do imperador: somente Teonas de Marmárica e Secundo de Ptolemaida tiveram coragem de partilhar o destino de Ário e o acompanharam à Ilíria, onde se exilou. Decreto foi emitido, mandando a todos, sob pena de morte, que pegassem seus livros para serem queimados e rotulassem os arianos como porplírios.
Variantes no período de proibição Apesar de proibido pela Igreja Católica, vertentes cristãs unitárias ou Antitrinitarias, seguiram surgindo, como o Islamismo, que surgiu como uma sedição cristã/judaica em terras árabes lideradas por Maomé.
Reformas Protestantes e Perseguições Martin Cellarius (1499–1564), um amigo de Lutero, e Hans Denck (1500–1527) geralmente são considerados os primeiros pioneiros literários do movimento; a posição antitrinitária de Ludwig Haetzer não se tornou pública até depois de sua execução (1529) por anabatismo. Lutero se opôs ao movimento unitário e via o fundador do islamismo, Maomé, como um adepto dos ensinamentos de Ário.
Ao iniciar-se a Reforma Protestante no , numerosos intelectuais começaram a publicar seus próprios pontos de vista acerca da doutrina cristã, sem esperar o beneplácito de Roma, dentro do espírito protestante de livre exame da Bíblia. Um destes foi Miguel Servet, médico e teólogo espanhol. Em seus livros De Trinitatis Erroribus (1531), Dialogorum de Trinitate (1532) e Christianismi Restitutio (1553), questionou a base bíblica e racional da doutrina trinitária. Suas opiniões heterodoxas e sua liberdade de espírito, fizeram-no ser perseguido como herege pela Inquisição. Em Genebra foi preso pelos seguidores de Calvino e condenado a morrer na fogueira por negar a Trindade e condenar o batismo infantil (27 de outubro de 1553); Servet influenciou vários de seus contemporâneos. O estudioso lituano Piotr de Goniadz admitiu a validade de seus argumentos e convenceu uma parte da nascente Igreja Calvinista da Polônia, que formou a chamada Igreja Reformada Menor, mais conhecida como Irmãos Poloneses sobre os postulados antitrinitários. De outra parte, o reformado liberal Sebastião Castellio reprovou duramente Calvino em sua intolerância e seu fanatismo e proclamou a liberdade de consciência em assuntos de fé, um princípio que logo foi postulado pela tradição Unitária.miniaturadaimagem|Igreja fortificada de Dârjiu, na Transilvânia, da Igreja Unitária da Transilvânia. Esta é a única igreja fortificada unitarista que está na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO|265x265pxAlguns anos depois, o reformador humanista italiano Fausto Socino (1539-1604) desenvolveu sua própria obra teológica, marcada pelo Antitrinitarismo e o uso da racionalidade. Para Sozzini, a religião evocava questões que estavam "além da razão" (contra rationem), pelo que os credos deviam concordar com a razão humana. Sozzini encontrou refúgio na Polônia, onde foi recebido pelos Irmãos Poloneses, onde nunca chegou a ser membro oficial do grupo, por negar-se a ser batizado de novo. Na cidade de Racóvia, próximo à Cracóvia, os Irmãos Poloneses desenvolveram um grande centro de estudos que atraiu numerosos eruditos e intelectuais de diferentes países. Em 1605, um ano depois da morte de Sozzini, os sozzinianos da Igreja Menor publicaram o catecismo racoviano, resumo das doutrinas de seus mestre e que teve uma grande influência nos anos posteriores na Alemanha, nos Países Baixos e na Inglaterra. A Igreja Reformada Menor desapareceu em 1640 pela crescente intolerância na Polônia em decorrência do início da Contrarreforma.
Entretanto, o reformado húngaro Ferenc Dávid havia abandonado o calvinismo para pregar o cristianismo unitário na Transilvânia (região que atualmente se encontra na Romênia), influenciado pelo médico italiano Giorgio Blandrata, seguidor das ideias de Servet. O rei João Sigmundo da Transilvânia aceitou o unitarismo e ditou o primeiro édito de tolerância religiosa da história moderna da Europa, em 1568, para permitir a livre prática religiosa em seu país, incluindo o catolicismo. Este status especial perdurou com dificuldade, por conta da invasão da Transilvânia pela Áustria no e o domínio mais ou menos efetivo do Império Austro-Húngaro e, posteriormente da Itália fascista, após a Primeira Guerra Mundial, hoje existe entre os magiares as Igreja Unitária Húngara e Igreja Unitária da Transilvânia na Romênia.