Ezechiele "Ezequiel" Ramin (Pádua, 9 de fevereiro de 1953 Cacoal, 24 de julho de 1985) foi um missionário católico comboniano italiano, assassinado em Rondônia em 1985.

Biografia Ezechiele Ramin nasceu em Pádua (na região do Vêneto) em 1953, o quarto de seis filhos de uma família modesta. Estudou no Liceo classico de uma escola católica (Collegio Vescovile Gregorio Barbarigo), onde tomou consciência da pobreza generalizada em todo o mundo. Isso o motivou a juntar-se à organização beneficente Mani Tese ("Mãos Estendidas"), organizando vários mutirões para arrecadar fundos a fim de apoiar pequenos projetos relacionados à associação.

Em 1972, decidiu ingressar no instituto religioso dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus; estudou em Florença, depois em Venegono Inferiore e finalmente em Chicago, onde se formou na Catholic Theological Union e serviu na Paróquia de Santa Ludmila. Após ter experiência em trabalho missionário com nativos americanos empobrecidos em Dakota do Sul e, posteriormente, por um ano, na Baja California, foi ordenado sacerdote em 28 de setembro de 1980 em sua cidade natal, Pádua. Foi designado para uma paróquia em Nápoles, mas, após o terremoto de Irpinia em 1980, mudou-se para San Mango sul Calore para auxiliar as vítimas; retornou a Nápoles em 1981, onde organizou uma das primeiras manifestações pacíficas contra a Camorra. No ano seguinte, mudou-se para Troia, Apúlia, onde atuou como ponto focal para grupos vocacionais.

Cacoal Em 1984, ele foi designado para Cacoal, em Rondônia. Em 20 de janeiro de 1984, chegou a Brasília, onde fez cursos de aperfeiçoamento em pastoral, e finalmente a Rondônia em julho daquele ano.

Em Cacoal, Diocese de Ji-Paraná, ele se deparou com uma situação difícil: os muitos pequenos agricultores da região eram oprimidos, por meio de ações legais e ilegais, pelos latifundiários locais. Além disso, as tribos indígenas Suruí haviam sido forçadas recentemente a se tornarem sedentárias, com a alocação de terras pelo governo brasileiro, e estavam ficando inquietas.

Inspirado pelos ensinamentos de Dietrich Bonhoeffer, ele se colocou na linha de frente em sua luta por justiça, tentando levá-los a um protesto pacifista em vez de iniciar uma revolução armada.

A situação em que se encontrava levou-o a temer pela sua vida. No início de 1985, foi ameaçado de morte; em muitas das cartas que escreveu à sua família nesse ano, questiona-se se algum dia os voltará a ver.

Morte e consequências Em 24 de julho de 1985, Ramin, juntamente com o líder sindical local Adilio de Souza, presidiu uma reunião na Fazenda Catuva em Ji-Paraná, tentando persuadir os pequenos agricultores ali empregados a não pegarem em armas contra os latifundiários, contrariando um pedido de cautela feito por seus superiores. Em seu caminho de volta com de Souza, ao meio-dia, ele foi atacado por sete pistoleiros que atiraram nele mais de 50 vezes. Antes de morrer, ele sussurrou as palavras "Eu os perdoo". Como o corpo de Ramin não pôde ser recuperado por seus companheiros missionários por cerca de 24 horas após sua morte, um grupo de indígenas Suruí manteve vigília até a chegada deles.

Ramin foi sepultado no Cemitério Maggiore de Pádua.

Alguns dias após sua morte, o Papa João Paulo II declarou Ramin um "mártir da caridade". Dom Ivo Lorscheiter, então presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, inspirou-se no assassinato de Ramin para instar a sociedade brasileira a trabalhar por uma profunda “mudança estrutural”.

A reação dos agricultores locais ao assassinato de Ramin contrariava os seus ensinamentos: em novembro do mesmo ano, um proprietário de terras e o seu gerente geral foram mortos pelas mesmas pessoas que Ramin estava a tentar ajudar, e alguns dias mais tarde outro gerente de quinta foi baleado.

Em 1988, dois dos homens que atiraram em Ramin – Deuzelio Gonçalves Fraga e Altamiro Flauzino – foram condenados a 24 e 25 anos de prisão, respectivamente, pelo tribunal de Cuiabá. Outros não foram identificados nem presos.

Alguns anos após a morte de Ramin, outro padre comboniano de Pádua, Pietro Settin, visitou a área onde Ramin foi assassinado, descobrindo que Adilio de Souza, o líder sindical que estava com Ramin no dia de sua morte, havia se tornado proprietário de um pedaço de terra. Settin teorizou que ele poderia tê-lo recebido em troca de trair Ramin.

Outras atividades Os principais passatempos de Ezechiele Ramin eram andar de bicicleta e jogar futebol; ele também escrevia poesia. Suas numerosas cartas para amigos e familiares foram reunidas e publicadas em um volume editado por Ercole Ongaro e pelo irmão de Ramin, Fabiano, intitulado Testimone della speranza – lettere dal 1971 al 1985. Várias delas (em italiano) estão disponíveis ao público.

Ele também produziu um número considerável de desenhos, especialmente a carvão , que foram tema de uma exposição realizada em 2010 em sua cidade natal, Pádua, promovida pelo município local e organizada por Maria Cristina Ferin, Federica Millozzi e Fabiano Ramin. Vários deles já haviam sido reunidos em um livro e publicados.

Ele documentou suas experiências por meio da fotografia.

Homenagens Diversas iniciativas em honra de Ezechiele Ramin são realizadas regularmente tanto em sua cidade natal, Pádua, quanto no Brasil, principalmente ligadas à promoção de protestos pacíficos em vez de revoluções armadas e ao despertar da consciência e do interesse dos jovens pelo mundo missionário.

Em 2005 – o vigésimo aniversário de sua morte – ele foi lembrado pelo arcebispo de Pádua, Antonio Mattiazzo, em uma iniciativa sobre mártires modernos; no mesmo ano, uma escultura de bronze de Ettore Grego em memória de Ramin foi inaugurada pelo prefeito de Pádua, Flavio Zanonato, na Piazza San Giuseppe, em frente à igreja que Ramin costumava frequentar quando criança e jovem.

Também em 2005, a União Teológica Católica de Chicago, onde Ramin estudou, encomendou um ícone com sua imagem ao renomado pintor de ícones Robert Lentz, que representou Ramin com uma rola para simbolizar sua crença na não-violência. A presença de uma auréola ao redor da cabeça de Ramin é, no entanto, imprópria de acordo com a iconografia católica, já que Ramin não foi oficialmente reconhecido como santo. Lentz, porém, frequentemente adicionou auréolas a ícones que representam pessoas não convencionalmente reconhecidas como santos, como Albert Einstein, César Chávez e Heȟáka Sápa (Alce Negro).

Em 2010, ele e a Irmã Dorothy Stang foram escolhidos pelos missionários combonianos no Brasil como símbolos da luta do povo local pela posse da terra. Em 2018, o dia da XIII Peregrinação “da Floresta” em Anapú e da III Peregrinação “do Padre Ezequiel Ramin” coincidiu com a XI Peregrinação “da Terra e das Águas” de Rondônia, em Rondolândia, rememorando os dois missionários mártires.

Além de uma coleção de suas cartas para amigos e familiares, três outros livros sobre a vida de Ramin foram publicados: Lele – creare primavera, de Ezio Sorio, Lele vive, de Paulo Lima, e Ezechiele Ramin: la forza di una testimonianza, do também missionário comboniano Giovanni Munari.

Em 1998, a RAI, a rede de televisão nacional italiana, encomendou La casa bruciata, um filme para televisão inspirado na sua vida. Foi realizado por Massimo Spano com uma banda sonora de Ennio Morricone e contou com Giulio Scarpati.

Dois municípios italianos deram o nome de uma rua em homenagem ao "Padre Ezechiele Ramin": Pádua, a cidade onde nasceu, e Roma.

Cadoneghe, na província de Pádua, dedicou-lhe um auditório e Pádua deu o seu nome a uma escola pré-escolar. Novamente em Pádua, a associação sem fins lucrativos Angoli di Mondo (Cantos do Mundo) abriu um centro de informação pública, o Centro di Documentazione Ezechiele Ramin. Em 2011, a Administração Municipal de Cologno Monzese lhe dedicou uma árvore no novo Jardim dos Justos.

A paróquia de San Riccardo di Andria em Andria (na Apúlia) dedicou sua sala de reuniões e recreação a Ramin.

No Brasil, em Picos (Piauí), a associação Angoli di Mondo apoiou a construção e ativação de um centro de acolhimento diurno para crianças de rua que recebeu o nome de Ramin. Em 2018, o prefeito de Rondolândia instituiu o "Dia do Servo de Deus, mártir em Rondolândia-MT, Ezequiel Ramin", a ser comemorado anualmente em 24 de julho.

Em 2015, a Verbo Filmes, produtora ligada à Congregação do Verbo Divino, lançou o documentário “Ezequiel Ramim – O Mártir da Opção pelos Pobres”, produzido em parceria com os Missionários Combonianos.

Causa de beatificação Os missionários combonianos estão promovendo a causa do martírio de Ramin (e, portanto, seu status de beatificado). Entre a comunidade missionária comboniana na América Latina, diz-se que "para eles e para as pessoas que o conheceram, Ramin já é um santo". Ele é considerado uma "testemunha da fé". Os combonianos também o propuseram como um dos "protetores" do Sínodo para Amazônia.

Sua causa recebeu o nihil obstat em 2016. Em abril de 2016, abriram-se tanto o inquérito diocesano na Diocese de Ji-Paraná, quanto o inquérito rogatória na Diocese de Pádua. Em 25 de março de 2017, concluíram-se a fase diocesana e rogatória do processo de beatificação; em seguida, os documentos foram enviados para a Congregação para a Causa dos Santos.

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