miniaturadaimagem|289x289px|Soliferro ibero encontrado na «Bastida de les Alcuses» (Museu da Pré-história de Valência)
O soliferro ou soliférreo (), por vezes chamado saunion, «Os lusitanos entraram em combate com armaduras leves, protegidos principalmente por escudos que variavam entre o celtibero, distintamente espinhoso, e outros menores e mais redondos chamados tarjas. A principal arma ofensiva era uma lança (a saurion) (...)» é um tipo de arma branca perfurante, própria da Antiguidade clássica, mais concretamente, um tipo de lança de arremesso de origem hispana. «O saunion, chamado soliferro pelos romanos, era também usado pelos iberos.»
Foi criada por molde a satisfazer a necessidade de dispor dum projéctil que pudesse alcançar os 30 metros de distância ao ser arrojada, e que tivesse o poder perfurante suficiente para atravessar, a essa distância, os escudos e as couraças. Tinha a pesponta de ser uma arma que, se atirada em salvas, fosse capazes de semear a desordem nas formações inimigas, deixando-as em desvantagem, nos combates corpo-a-corpo, que se desenrolassem logo de seguida.
A solução ibérica, para este problema, passara por conceber uma lança metálica inteiriça, forjada duma só peça de ferro, com um comprimento na ordem dos 2 metros. Em contrapartida, em Roma, a solução materializou-se na criação do pilo.
Etimologia Soliferro é o nome latino desta arma, solus, que significa «só», e ferrum, que significa «ferro». Os celtiberos, contudo, chamavam a esta lança saunion.
Descrição In totum, o soliferro media entre metro e meio a dois metros de comprimento.
Além disso, dispunha de uma ponta ou ferrão, com cerca de 6 a 8 centímetros de comprimento, que podia assumir diversos formatos: por vezes, tratava-se meramente duma extremidade aguçada do hastil ou pértigo metálico; se bem que, o mais usual, era que o ferrão tivesse entre duas a quatro aletas, as quais poderiam estar dotadas de um ou mais ganchos, concebidas para dificultar a remoção do ferrão de dentro das feridas da vítima.
O hastil férreo é de secção circular, com cerca de um centímetro de grossura ao meio, sendo que era mais grosso ao meio e mais fino nas extremidades. Para facilitar a aderência, a parte do meio do hastil teria entalhes ou facetas com 10 centímetros, de feição a que a mão que estivesse a segurar na arma não escorregasse com o suor.
O peso e a densidade consideráveis do material do hastil em muito contribuíam para potenciar a capacidade perfurante do soliferro, de tal ordem que, apesar de o ponto de incisão ser estreito, a força imprimida ao lançamento era de tal ordem, que era possível ao projéctil trespassar um alvo até ao meio do hastil, sem que houvesse atrito significativo. Com efeito, o soliferro estava ideado para ser capaz de trespassar os escudos romanos sem que houvesse perdas significativas de impulso do lançamento.
História Origens esquerda|miniaturadaimagem|Soliferro e pontas de flecha ibéricas. Necrópolis de Los Collados (Almedinilla, Córdova). O soliferro foi encontrado dobrado sobre si, um acto de inutilização, o que fazia parte dos rituais fúnebres da época. Museu Arqueológico Nacional de Espanha
As informações disponíveis sugerem que o soliferro surgiu na zona da Aquitânia e Languedoc, a norte dos Pirenéus, por torno do , tendo-se espalhado pela Península Ibérica mais tarde, tanto pelas zonas pastorais celtas, como pelas zonas do Levante espanhol e da Andaluzia, então ocupadas pelos iberos. Foi na Ibéria onde o soliferro alcançou maior popularidade, de tal ordem que sabemos, graças a dados arqueológicos e fontes literárias coevas, que continuava em uso, por ocasião da chegada dos romanos à Península, em finais do , coexistindo com a falárica ou pilo ibérico.
Uso bélico Quando Aníbal Barca tentou conquistar Roma pelos Alpes, inúmeros mercenários celtiberos engrossaram as hostes do seu exército. Na Segunda Guerra Púnica, o soliferro desempenhou um papel importante, no âmbito das escaramuças.
Posteriormente, chegou a figurar dentre a panóplia do exército romano, se bem que de pouca dura, porquanto os legionários desvalorizavam o soliferro, dada a carestia inerente ao seu processo de fabrico, quando havia alternativas igualmente eficazes e mais baratas, como o pilo. O soliferro desapareceu no final da Guerras Cantábricas, por ocasião das quais o império romano subjugou a totalidade da Península Ibérica.
Costumes Dada a dispendiosidade do fabrico desta arma, o soliferro estava associado à classe guerreira, mais abastada, dos povos que habitavam a Península Ibérica. Usava-se em paralelo com a cetra, o escudo dos celtiberos, com um em cada mão.
Nos rituais fúnebres era prática comum que os guerreiros ibéricos fossem sepultados com as respectivas armas dobradas e inutilizadas. A razão de ser deste costume era dúplice:
por um lado, atentas as fontes literárias da época, como seja Heródoto ou Luciano de Samósata, faz-se fé de que os povos da ibéria acreditavam que ao vergar as armas desta maneira e ao sepultá-las com o respectivo dono, se garantia que aquelas o acompanhariam, intactas, para o mundo dos espíritos;Rafael Treviño Martinez, Rome's Enemies (4) : Spanish Armies 218-19 BC (Men at Arms Series, 180) por outro, há autores que defendem que isto poderá ter sido uma prática que visava desencorajar a profanação de sepulturas recentes, em busca de armamento.
Categoria:Armas de arremesso Categoria:Lanças romanas