Gisberta Salce Júnior (São Paulo, 5 de setembro de 1960 – Porto, 22 de fevereiro de 2006) foi uma mulher trans, imigrante brasileira, que fazia trabalho sexual, vivia com HIV/AIDS e estava em situação de rua em Portugal, na cidade do Porto.
Gisberta saiu do Brasil para a França aos 18 anos, para fugir a uma vaga de homicídios contra pessoas trans em São Paulo e, com 20 anos, chega a Portugal. Em 2006, após vários dias de agressões físicas e sexuais, foi vítima de transfobia por parte de um grupo de 14 rapazes entre os 12 e os 16 anos e acabou morta num poço, no Porto, aos 45 anos.
Vida Origens e juventude Angelina Muro Salce e Gisberto Salce, mãe e pai de Gisberta, tiveram oito crianças. Gisberta, sendo uma mulher trans, foi atribuída como do sexo masculino ao nascer, e recebeu o nome próprio do pai, tendo o apelido "Júnior", sido acrescentado. Mais tarde, o nome próprio caiu e Gisberta adotou o nome pelo qual é conhecida atualmente, de forma a reconhecer a sua identidade de género.
Segundo a irmã, Jacine Salce, que tinha 12 anos ao Gisberta nascer, a irmã tinha “uma pele mimosa, muito branquinha” e sempre "gostou muito de dançar". Jacine também conta que Gisberta, vestia roupas da sua irmã e considerava Gisberta a sua "bonequinha de brinquedo”. Gisberta, segundo a irmã, "gostava de brincar com as meninas e a gente não ligou”.
A mãe Angelina chegou a sentir que algo estava errado com a sua criança mais nova. Tendo inclusive, um dia, sido levada a um médico e dito que ela “era assim” por "excesso de mimos". A criança cresceu e, aos 14 anos, após o pai morrer, avisou à mãe que “ia ser mulher”.
Gisberta tinha um expressão de género feminina na casa de pessoas amigas, e na presença da família optava por roupas mais livres de conotações de género. Aos 18 anos, decidiu sair do país e partir para França após notícias de discriminação e mortes ligadas a transfobia na Casa Verde, em São Paulo.
Pelo meio voltou ao Brasil, fez hormonização, colocou silicone e outros procedimentos no rosto. Passou dois anos em França e seguiu para Portugal, tendo-se instalado no Porto, onde acabaria por passar os últimos 20 anos da sua vida.
Primeiros anos em Portugal Gisberta começou a fazer espetáculos no palco de bares como o Bustos, Syndicato e Kilt, um dos primeiros bares gay do Porto, nas galerias do Hotel Malaposta, onde Gisberta começou a aparecer.
Gisberta, em suas apresentações, muitas vezes personificou Marilyn Monroe:
De dia, Gisberta costumava tomar café com as suas amigas e passear os seus dois cães:
Trabalho sexual Gisberta fazia trabalho sexual na Rua de Santa Catarina. Os espetáculos davam pouco dinheiro.
O trabalho sexual fazia parte de Gisberta praticamente desde a sua chegada a Portugal.
Saúde O piorar da sua saúde começou com o consumo de drogas e o aumentar da infeção do VIH a emagreceu. Começou a aparecer, nas associações Migalha de Amor e Espaço Pessoa para comer, tomar banho e conversar. Nuno Câmara Lima, enfermeiro que trabalhou num projeto do Espaço Pessoa que “apoiava pessoas que exerciam trabalho sexual”, algumas com consumo de drogas, outras com infeções sexualmente transmissíveis, acompanhou Gisberta.
Primeiro contacto de Nuno com Gisberta tinha acontecido anos antes, nos tempos áureos da imigrante brasileira.
Gisberta vivia com VIH e nunca quis receber tratamento, opção que manteve até ao fim:
O histórico médico de Gisberta incluía uma lista vasta de doenças. Segundo o que foi apurado pela investigação, Gisberta vivia com VIH pelo menos desde 1996. Além disso, foi-lhe diagnosticada tuberculose pulmonar, pneumonia e candidíase laríngea, que, segundo os boletins clínicos, lhe causou astenia, anorexia, febre, anemia, dificuldades respiratórias e mialgia.
Gisberta chegou a receber tratamento no Hospital Joaquim Urbano durante 22 dias, apesar de estar sem documentos. Depois, esteve ainda numa comunidade terapêutica em Setúbal mas fugiu.
Situação de sem-abrigo Junto à saída da comunidade terapêutica veio o consumo de drogas “mais pesadas”, como a própria terá relatado ao enfermeiro, o abandono do trabalho sexual, do sustento e da casa que tinha no centro do Porto, na Travessa do Poço das Patas.
“Começou a ir para casas com rendas cada vez mais baixas, depois passou por vários bairros sociais, até cair naquele buraco”, aponta Nuno, referindo-se à barraca que montou no edifício na Avenida Fernão de Magalhães. A doença tirou-lhe o sustento: o trabalho sexual.
Gisberta era “querida pelos técnicos todos” e “mostrava fotografias da família, mostrava fotos dela em jovem, uma menina mesmo”. Com 40 e poucos anos, chegava ao Espaço Pessoa, tomava café, comia qualquer coisa, via televisão, conversava um pouco, ficava umas horas. “Chegava à meia-noite e ia para o canto dela.”
Conheceram o espaço apenas depois da morte, em fotografias, parte do material para reportar os acontecimentos.
Gisberta era também apoiada pelo “Coração da Cidade”, o departamento social da “Migalha de Amor”. A associação fundada por La Salete Correia dos Santos dava jantares a cerca de mil pessoas em situação de sem-abrigo. Gisberta era uma delas.
La Salete fundou a associação em 1995 e os anos de experiência deram-lhe frieza a traçar um padrão de vida de pessoas como Gisberta.
Últimos meses de vida No final de 2005, três adolescentes, Fernando, Ivo e Flávio começaram a reunir-se para fazer graffitis num edifício abandonado no Porto. Era nesse edifício que Gisberta tinha encontrado um sítio para viver. Dentro do edifício construiu uma barraca, com as suas coisas. A mãe de Fernando dedicava-se ao trabalho sexual e a criança ficava com uma ama. Essa casa era frequentada “por pessoas associadas à vida noturna do Porto” e foi precisamente aí que a mãe de Fernando e o filho se começaram a relacionar com Gisberta. O contacto perdeu-se durante algum tempo. Mais tarde, com 14 anos, foi Fernando quem identificou Gisberta no edifício abandonado onde, juntamente com Ivo e Flávio, se ocupava a pintar murais.
Os três rapazes conversaram com ela e, a partir daí, começaram a visitá-la regularmente. Entre uma conversa e outra, Gisberta “relatou-lhes os problemas de saúde de que padecia”, verbalizou a fraqueza e a SIDA, síndrome “de cujos sinais físicos exteriores todos aqueles menores bem se aperceberam”. A partir daí, os três menores começaram a levar comida a Gisberta. Além, chegaram “a confeccionar-lhe refeições no local”, consta no processo.
Divulgação da existência de Gisberta Fernando, Ivo e Flávio falaram de "um homem que 'tinha mamas' e 'parecia mesmo uma mulher'" aos colegas da Escola Augusto César Pires de Lima e da Oficina de São José, instituição tutelada pela Igreja Católica que acolhia 11 dos 14 rapazes, entretanto encerrada depois de vários escândalos com abusos sexuais e desvio de dinheiro, somado ao suicídio do diretor na fase mais ativa do julgamento. Aos três jovens juntaram-se mais onze, ávidos de ver Gisberta.
Primeiras agressões Aquele prédio tornou-se ponto de encontro para agredir a imigrante brasileira. Nem todos a agrediram, nem todos o fizeram no mesmo dia. Mas, a partir de 15 de fevereiro de 2006, os 14 jovens dividiram-se em grupos e encontravam-se no edifício para agredirem Gisberta.
Num dos primeiros episódios, os menores constataram que Gisberta se encontrava no interior da tenda e um deles ordenou-lhe que se levantasse e gritou-lhe: ‘Não te disse já que não te queria aqui?’. Gisberta saiu da barraca, ao mesmo tempo que respondia que não tinha para onde ir. Ato contínuo, Flávio empunhou uma pedra de que se tinha munido e arremessou-a na direção da mulher, atingindo-a na região frontal e na parte anterior da região parietal esquerda.
Gisberta caí no chão a sangrar. Alguns minutos depois, conseguiu levantar-se mas David rasteirou-a, provocando-lhe nova queda. Aí, todos os elementos, com exceção do Vítor Santos, se lançaram sobre Gisberta e em conjunto agrediram-na com paus e a pontapé. Com as dores, Gisberta começou a gritar e o grupo pôs-se em fuga com receio de serem surpreendidos pelos seguranças do parque de estacionamento que ficava perto do prédio.
O mesmo grupo inicial de três, que chegou a cozinhar arroz naquele local para Gisberta, encontrou-se no dia seguinte, a 16 de fevereiro, para agora ali a agredirem. Ao chegarem junto da sua cabana, aperceberam-se que o estado de enfermidade de Gisberta se tinha agravado, devido às agressões da véspera, impedindo-a mesmo de se manter em pé. Gisberta estava deitada em cima de um colchão, tremia, falava em tom quase inaudível e apresentava sangue já seco na cabeça. Os três menores perguntaram a Gisberta se queria ajuda, tendo a mesma respondido que "apenas queria um cigarro e que a deixassem em paz”.
Os três foram-se embora e dirigiram-se para as aulas, mas logo foram substituídos por seis do mesmo grupo. José António disse a José Alexandre para despir “a Gi” mas ele recusou porque a Gisberta “cheirava mal e tinha SIDA”. Assim, o primeiro aliou-se a Jorge Ismael e, juntos, ocuparam-se a arremessar pedras e a baterem com paus nos joelhos e nas pernas. Gisberta gritou e o grupo fugiu. Por uns momentos.
Voltaram para perto de Gisberta, voltaram a ordenar-lhe que se levantasse, ela voltou a responder que não conseguia, e eles voltaram a agredi-la com paus e ao pontapé, segundo o que lê-se no processo. Deitada no chão e impossibilitada de se defender devido à sua debilidade física e à superioridade numérica dos agressores, Gisberta apenas se encolhia e cobria com o cobertor, gritando "não faz isso, cafajestes!’” Depois das agressões, os menores destruíram a barraca de Gisberta.
Últimos dias 18 de fevereiro de 2006 Pelas 14h30, Gisberta estava fora da tenda, deitada de lado, tapada com um cobertor e só com a cabeça descoberta. David, um dos seis que tinham combinado novamente deslocar-se ao edifício para agredirem Gisberta, ordenou Gisberta que se levantasse. Ela respondeu que não conseguia “pois estava muito mal”. Mais pontapés. “Durante as agressões, a vítima chorava convulsivamente, devido às dores que sentia”. Ainda assim, “os menores continuaram a agredi-la da mesma forma”. David chegou a agarrar num barrote em madeira com cerca de 1,5 metros de comprimento por 20 centímetros de diâmetro e deixou-o cair sobre o corpo dela, atingindo-a ao nível do abdómen. Tal pancada "provocou um grande sofrimento”, concluiu a investigação do caso.
19 de fevereiro de 2006 Parte do grupo ia cumprir a rotina de agressões quando se deparou com uma Gisberta deitada no chão, vestida com uma camisola e nua da cintura para baixo. Completamente imóvel. Chamaram por ela, mas Gisberta não conseguiu falar. Soltou apenas um gemido. Foi tocada então nas pernas com uma vara mas ela não se mexia.
21 de fevereiro de 2006 Passou um dia e, a 21 de fevereiro, lá voltou outra parte do grupo. Gisberta estava fora da tenda, deitada sobre umas pedras, “com as pernas encolhidas”. Nas pernas viam-se “arranhões e esquimoses”. Gisberta continuava nua da cintura para baixo.
Pensaram Gisberta estar morta, a prová-lo estava a ausência de resposta às perguntas dos menores, a palidez da cara e alguns “sinais de que não respirava, apesar de terem colocado junto à sua boca a chama de um isqueiro aceso”. Nesse dia, avisaram outros membros do grupo que Gisberta tinha morrido.
A reunião do dia seguinte era, agora, para se “desfazerem do corpo” — porque temiam ser responsabilizados e por “alguns deles acharem que a vítima tinha direito a ‘um funeral’”. Foi descartada a possibilidade de enterro, porque não tinham utensílios para fazer um buraco e de incendiar o corpo da mulher com receio de que o fumo pudesse atrair a atenção de alguém, designadamente dos seguranças do parque de estacionamento.
Depois de mais ideias, optaram por lançá-la a um poço existente no edifício. Porque o local tinha água suficiente para ocultar a vítima. Depois, combinaram ainda recolher todos os paus que tinham servido para as agressões.