A ordem de batalha do Exército Brasileiro na Primeira República (1889–1930) foi composta pela primeira vez de regimentos de infantaria, brigadas, divisões e regiões militares permanentes. Essa estrutura orgânica inspirada nos exércitos mais modernos substituiu a cadeia de comando rudimentar herdada do Exército Imperial Brasileiro, com numerosos regimentos e batalhões dispersos sem comandos superiores. Criada em meio a reformas militares mais amplas no Brasil, a ordem de batalha “no papel” nem sempre correspondia à realidade devido aos recursos limitados do Exército, com unidades não constituídas, ou com efetivos nominais inferiores aos reais.

Ao início da República, o Exército organizava brigadas e divisões somente para divisões de guerra. Havia uma organização territorial rudimentar, os “Comandos das Armas”, substituídos em 1891 pelos “Distritos Militares”. A “Reforma Hermes”, em 1908, agrupou os batalhões de infantaria em regimentos, e estes, em cinco “Brigadas Estratégicas”, que eram comandos de armas combinadas com estrutura semelhante a uma divisão. Parte dos regimentos de cavalaria foram agrupados em brigadas, e os Distritos Militares foram substituídos por cinco “Regiões de Inspeção Permanente”. As regiões sem forças estratégicas eram guarnecidas por unidades independentes como batalhões e companhias de caçadores. Em 1915 as Regiões de Inspeção Permanente foram substituídas por Regiões Militares, e as Brigadas Estratégicas, por “Divisões de Exército”, com brigadas de infantaria e artilharia subordinadas. Na última grande reorganização, em 1921, as Divisões de Exército tornaram-se Divisões de Infantaria, enquanto as Brigadas de Cavalaria tornaram-se divisões. As divisões permaneceram como as principais grandes unidades do Exército até as reformas dos anos 1970.

Contexto Reformas no Exército Brasileiro Em 1889 o Exército tinha quinze mil homens, podendo expandir a trinta mil se necessário. 35% das forças estavam no Rio Grande do Sul, região de fronteira, 10% no Rio de Janeiro (capital) e 5% em Mato Grosso, também fronteiriço. Essa distribuição de forças, representando uma missão dupla de defesa externa (especialmente visando a Argentina) e manutenção da ordem interna, manteve-se na República. O efetivo legal foi fixado em 24 877 homens pelo primeiro governo republicano, mas era normal que o efetivo real fosse menor, especialmente de praças. No modelo de serviço militar herdado do Império, não havia reservas e a mobilização rápida de grandes contigentes era difícil. O desempenho dessa força em campanhas como Canudos (1896–1897) e o Contestado (1912–1916) foi sofrível. O oficialato estava ciente do atraso do Exército, seu baixo orçamento, instalações e armamentos deficientes e despreparo profissional do efetivo, criando um consenso no Alto Comando da necessidade de reformas.

Em processos análogos a exércitos como o chileno e argentino, no início do século XX o Exército Brasileiro reorganizou o Estado-Maior do Exército, adquiriu novos armamentos, implementou o serviço militar obrigatório através da Lei do Sorteio, tornou regular a instrução e adestramento da tropa e profissionalizou a formação dos oficiais na Escola Militar do Realengo. As mudanças foram implementadas por administrações sucessivas no Ministério da Guerra, facilitadas pela repercussão da Primeira Guerra Mundial e impulsionadas pelos Jovens Turcos, oficiais reformistas que estagiaram no Império Alemão, e depois pela Missão Militar Francesa.

Em meio a essas reformas estava a criação de uma estrutura orgânica moderna, que era uma das carências constatadas em Canudos. Um grande projeto de reorganização do Exército foi elaborado pelo ministro da Guerra João Nepomuceno de Medeiros Mallet em 1901 e posto em prática, nas suas linhas gerais, pela “Reforma Hermes” de 1908. As próximas grandes reorganizações da ordem de batalha foram em 1915 e 1921, respectivamente nas administrações de José Caetano de Faria e Pandiá Calógeras no Ministério da Guerra; esta última reforma foi sob influência da Missão Militar Francesa. A força a organizar crescia: após a Primeira Guerra Mundial e a implementação do serviço militar obrigatório em 1916, a expansão do efetivo foi contínua. Segundo dados do ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra em 1941, o efetivo real do Exército chegou a trinta mil homens em 1920 e cinquenta mil em 1930.

Comparação com outros países miniaturadaimagem|Organização da 1.ª Divisão de Infantaria Americana na Primeira Guerra|esquerda Na primeira metade do século XX a maioria dos exércitos ocidentais organizava suas forças em regimentos e divisões de infantaria e cavalaria. O batalhão de infantaria era unidade tática básica e tinha oitocentos a mil homens. Alguns batalhões de infantaria ligeira ("caçadores") eram independentes e comandandos por tenentes-coronéis. Os demais, pelo sistema “continental", eram comandados por majores e agrupados em três ou quatro num regimento, que tinha três a quatro mil homens e era comandado por um coronel. Os regimentos da cavalaria eram equivalentes aos batalhões de infantaria, com quintenhos a oitocentos homens. Os regimentos de artilharia tinham dois a três “grupos”, “batalhões” ou “brigadas”, cada qual com duas a quatro baterias de quatro a seis bocas de fogo.

Dois regimentos de infantaria formavam uma brigada, de quator a seis mil homens, e cada divisão tinha duas ou três brigadas. A organização de duas brigadas com dois regimentos cada é dita quaternária ou quadrangular. A divisão tinha também um regimento ou esquadrão de cavalaria e unidades de artilharia, engenharia e apoio logístico, sendo assim a “grande unidade” básica com autonomia de operação, ao contrário da brigada, que tinha tamanho considerável mas unidades de uma arma só, sem o apoio necessário para ter autonomia. As divisões na Primeira Guerra Mundial tinham 12 a 16 batalhões de infantaria e de 15 mil homens, como nos exércitos francês e austríaco no início da guerra, a mais de 27 mil, como no Exército americano ao seu final. A divisão de cavalaria tinha um terço a metade do efetivo da divisão de infantaria (4 500 homens nos exércitos francês e russos a 9.269 no britânico), pois seus regimentos também eram menores. No período entreguerras a cadeia de comando foi encurtada pela abolição do escalão brigada, com três regimentos (organização ternária) sob a divisão. Com três batalhões cada, a divisão encolheu a nove batalhões de infantaria.

No Brasil a organização era rudimentar ao início da República, com unidades de nível batalhão dispersas pelo território nacional. Brigadas e divisões só eram constituídas em tempos de guerra. As unidades existentes eram pequenas: batalhões de infantaria com 425 praças, regimentos de cavalaria com 405, regimentos de artilharia de campanha um pouco menores, batalhões de artilharia de posição com 329 praças e batalhões de engenharia com 392. Anteriormente o Exército Imperial tinha efetivos em “pé de paz” e “pé de guerra”, mas em dezembro de 1889 um único efetivo foi fixado, próximo ao “pé de paz” imperial.

Regimentos de infantaria miniaturadaimagem|Uniformes de infantaria em 1917 O Brasil Reino teve regimentos de infantaria, mas desde a Regência o país tinha apenas um grande número de “exíguos batalhões”, cujo número chegava a quarenta em 1898, cada qual com quatro companhias. A reorganização de 1908 tornou o regimento a unidade básica da arma de infantaria. Os batalhões foram numerados de 1.º a 45.º, agrupados em quinze regimentos de três batalhões cada. Cada batalhão tinha três companhias.

Fora dos regimentos, a infantaria foi organizada em doze batalhões de caçadores, numerados de 46.º a 57.º, e treze companhias de caçadores. A lei distinguiu entre os batalhões “de linha”, dentro dos regimentos, e os batalhões de caçadores, mas desde a Guerra do Paraguai a forma de combate era mesma. Os regimentos 13.º ao 15.º foram dissolvidos em 1917 e seus batalhões tornados de caçadores, que passaram a ser numerados do 37.º ao 57.º. Em 1919 cada regimento passou a simplesmente ter 1.º, 2.º e 3.º batalhões, sem continuidade de numeração de um regimento a outro. Enquanto isso, a numeração dos batalhões de caçadores tornou-se independente, retornando a uma tradição brasileira. Também pertenciam à infantaria as cinco companhias de metralhadoras criadas em 1908, cada qual com três seções de três metralhadoras.

A reforma de 1921 incorporou aos regimentos as novidades da Primeira Guerra Mundial, principalmente a proliferação das armas automáticas. As companhias de metralhadoras foram extintas, pois agora cada uma das novas células táticas, os grupos de combate (GCs) de cerca de 15 homens, tinha uma arma automática própria, o fuzil-metralhador. Dois GCs, ou quatro em tempo de guerra, formavam um pelotão. Os sargentos liderariam os GCs, aumentando seu efetivo e responsabilidades. Outra mudança foi a criação de companhias “extranumerárias”, compostas do pessoal administrativo e de apoio ao comando. Anteriormente elas seriam chamadas de “estado-menor”, mas a necessidade de técnicos e especialistas era maior. A companhia extranumerária seria chamada de companhia de comando na terminologia atual. O regimento tinha também uma companhia de metralhadoras pesadas.

O regimento de 1908 era pequeno por padrões europeus, com pouco mais de quinhentos homens e batalhões de menos de duzentos homens. Na Guerra do Contestado alguns desses regimentos tiveram dificuldade para mobilizar uma única companhia para a campanha. Em 1921 o efetivo nominal de um batalhão de caçadores era de 516 militares, contra 386 num batalhão de infantaria dentro de um regimento. O regimento, por sua vez, já tinha 1 363. Entretanto, a condição do 8.º Regimento de Infantaria no período de 1928–30 ilustra a aplicação na prática do sistema dos regimentos. Tinha apenas dois batalhões, o 2.º na sede e o 1.º a sete horas de distância de trem, com vida autônoma e alheia à sede. O 2.º batalhão tinha apenas duas companhias, uma companhia de metralhadoras pesadas e uma companhia extranumerária. O quartel na sede tinha apenas 490 homens. O então tenente-coronel Estevão Leitão de Carvalho, nomeado comandante, não descreveu como anormal a situação do regimento que encontrou. Os efêmeros 14.º e 15.º RIs foram constituídos com efetivo de dois batalhões.

Os regimentos de infantaria perduraram até os anos 70, quando foram dissolvidos e seus batalhões subordinados diretamente às novas brigadas criadas; à época, nos anos 60, apenas um dos regimentos de infantaria estava completo.

Grandes unidades

Sistema de brigadas miniaturadaimagem|Sátira na revista O Malho sobre a estrutura criada com a Reforma Hermes|180px|esquerda Em 1888 o Exército Imperial havia constituído três brigadas, mas os comandos de brigada foram abolidos em 1891. As brigadas retornaram em 1908 numa estrutura mais complexa que qualquer organização anterior. A Reforma Hermes criou cinco “Brigadas Estratégicas”, três Brigadas de Cavalaria e uma brigada mista provisória. As regiões sem forças estratégicas eram guarnecidas por organizações sem brigada: as unidades de caçadores, três regimentos de cavalaria independente, dois grupos de artilharia de montanha e batalhões e baterias de artilharia de posição instalados nas fortificações.