O compartilhamento de arquivos ponto a ponto é a distribuição e o compartilhamento de mídia digital utilizando a tecnologia de rede ponto a ponto (P2P). O compartilhamento de arquivos P2P permite que os usuários acessem arquivos de mídia, como livros, músicas, filmes e jogos, usando um software P2P que busca outros computadores conectados em uma rede P2P para localizar o conteúdo desejado. Os nós (peers) dessas redes são computadores de usuários finais e servidores de distribuição (opcionais).

Nos primórdios do compartilhamento de arquivos, as transferências ocorriam predominantemente por meio de downloads no modelo cliente-servidor a partir de páginas da web, FTP e IRC, até que o Napster popularizou um aplicativo para Windows que permitia aos usuários enviar (upload) e baixar (download) arquivos em um serviço de modelo freemium. Gravadoras e artistas exigiram seu encerramento, e ações do FBI se seguiram. O Napster foi extremamente popular em seu auge, gerando um movimento comunitário a partir da cultura de mixtapes dos anos 1980 e deixando uma lacuna significativa na disponibilidade de música após seu fim. Após intensas discussões em fóruns e salas de bate-papo, concluiu-se que o Napster era vulnerável devido à sua dependência de servidores centralizados e à sua localização física; assim, grupos concorrentes se mobilizaram para construir sistemas ponto a ponto descentralizados.

A tecnologia de compartilhamento de arquivos ponto a ponto evoluiu por vários estágios de design. As primeiras redes, como a Gnutella, popularizaram a tecnologia em diversas iterações que usavam diferentes interfaces (front ends), a exemplo do Kazaa, LimeWire e WinMX, seguidas pela rede eDonkey e, posteriormente, por modelos baseados no protocolo BitTorrent. A Microsoft utiliza esse modelo para a distribuição de atualizações (no Windows 10), e diversos videogames online o usam como rede de distribuição de conteúdo (CDN) para transferir grandes volumes de dados sem incorrer nos altos custos de largura de banda inerentes ao uso de uma única fonte centralizada.

Vários fatores contribuíram para a adoção generalizada e para o aperfeiçoamento do compartilhamento de arquivos ponto a ponto, incluindo o aumento da largura de banda da Internet, a digitalização em massa de mídias físicas e a crescente capacidade dos computadores pessoais residenciais. Os usuários podem transferir um ou mais arquivos de um computador para outro pela Internet por meio de vários sistemas de transferência de arquivos e outras redes de compartilhamento.

thumb|Cronologia do software ponto a ponto

História No modelo do Napster, um servidor central indexava os usuários e seus conteúdos compartilhados. Quando alguém buscava um arquivo, o servidor pesquisava todas as cópias disponíveis e as apresentava ao usuário. Os arquivos eram então transferidos diretamente entre computadores privados (pares/nós). Uma limitação inicial era que apenas arquivos de música podiam ser compartilhados. No entanto, por depender desse servidor central, o Napster foi responsabilizado por violação de direitos autorais e encerrado em julho de 2001, reabrindo mais tarde como um serviço pago.

Após o encerramento do Napster, novos serviços ponto a ponto foram desenvolvidos, tais como a Gnutella e o Kazaa. Esses novos serviços permitiam o download de outros tipos de mídia além de música, como filmes e jogos.

Evolução da tecnologia O Napster e o eDonkey2000 usavam modelos baseados em servidores centrais. Como dependiam da operação contínua desses servidores, eram altamente vulneráveis ao encerramento centralizado. O declínio desses sistemas impulsionou o surgimento de redes como Limewire, Kazaa, Morpheus, Gnutella e Gnutella2, capazes de operar sem servidores centrais, eliminando essa vulnerabilidade ao conectar os usuários diretamente entre si de forma remota.

Ainda assim, essas redes dependiam de programas clientes específicos distribuídos centralmente, permanecendo suscetíveis a ações judiciais contra os desenvolvedores e distribuidores desses softwares.

A Sharman Networks, empresa responsável pelo Kazaa, encerrou suas atividades em 2006. A StreamCast Networks, criadora do Morpheus, fechou em 22 de abril de 2008, enquanto a LimeWire LLC encerrou as operações entre o final de 2010 e o início de 2011.

Esse cenário abriu espaço para o domínio do protocolo BitTorrent, que se diferencia de seus antecessores em dois pontos fundamentais: primeiro, nenhuma empresa ou indivíduo detém a propriedade exclusiva do protocolo ou dos termos "Torrent" e "BitTorrent", permitindo que qualquer desenvolvedor crie e distribua clientes compatíveis com a rede; segundo, os clientes BitTorrent não possuem mecanismos internos de busca. Em vez disso, os usuários recorrem a sites de terceiros, como IsoHunt ou The Pirate Bay, para localizar arquivos "torrent" — que funcionam como indexadores informando ao cliente como localizar e baixar os dados desejados. A combinação desses dois fatores resultou em um nível de descentralização que torna o BitTorrent extremamente difícil de ser desativado. De forma geral, as redes P2P costumam ser classificadas em três "gerações" com base em seus níveis de descentralização. As darknets, incluindo plataformas como a Freenet, são frequentemente consideradas redes de compartilhamento de terceira geração.

O compartilhamento de arquivos ponto a ponto também apresenta eficiência de custos. A despesa de administração do sistema é reduzida porque o próprio usuário atua como provedor e, em geral, como administrador. Assim, a rede pode ser monitorada pelos próprios participantes. Em contrapartida, grandes servidores exigem alto custo de armazenamento dedicado (alugado ou comprado), enquanto o modelo P2P dispensa o uso de um servidor dedicado.

Impacto econômico

Há um debate contínuo sobre o impacto econômico do compartilhamento de arquivos P2P. Norbert Michel, analista de políticas da The Heritage Foundation, destacou que diferentes estudos produziram "estimativas divergentes sobre o real impacto do compartilhamento nas vendas de álbuns".J. Michel, Norbert. , heritage.org, 23 de agosto de 2004.

No livro The Wealth of Networks, Yochai Benkler afirma que o compartilhamento de arquivos P2P é economicamente eficiente e que os usuários arcam com o custo total da transação e com o custo marginal do compartilhamento, ainda que isso "gere um dilema sobre a forma como a sociedade escolheu remunerar músicos e executivos da indústria fonográfica. Troca-se a eficiência pelos incentivos de longo prazo do setor. No entanto, é eficiente no sentido econômico tradicional, algo que não ocorreria se os usuários dependessem de conexões ou computadores subsidiados".

Um exemplo de cálculo de custo:

Com compartilhamento de arquivos ponto a ponto:

Com redes tradicionais de entrega de conteúdo (CDN):

Indústria musical O impacto econômico da violação de direitos autorais via P2P na receita da indústria musical permanece controverso. Diversos estudos apontam que o compartilhamento não autorizado reduziu as vendas de CDs e álbuns.Stan J. Liebowitz in a series of papers (2005, 2006) Contudo, isolar as relações de causa e efeito tem se mostrado complexo devido a múltiplas variáveis simultâneas, como a ascensão das lojas digitais, a redução de preços dos compact discs e o fechamento de lojas físicas independentes em favor de grandes varejistas.Smith, Ethan. 21 de março de 2007. "Sales of Music, Long in Decline, Plunge Sharply: Rise in Downloading Fails to Boost Industry; A Retailing Shakeout" , The Wall Street Journal Website

Indústria cinematográfica A Motion Picture Association (MPAA) relatou que os estúdios norte-americanos perderam US$ 2,37 bilhões em 2005 por conta da pirataria, representando cerca de um terço dos prejuízos totais do setor no país. O estudo da MPAA foi contestado por analistas por assumir que cada download ilegal equivalia diretamente a uma venda perdida, ignorando o fato de que muitos usuários não teriam comprado o filme se a opção gratuita não existisse. Por ter sido financiado de forma privada, a metodologia e os dados do estudo não puderam ser verificados publicamente. Em janeiro de 2008, durante negociações legislativas para pressionar universidades a combaterem a pirataria, a própria MPAA admitiu ter superestimado os dados de pirataria no meio acadêmico em até 300%.

Um relatório de 2010 encomendado pela Câmara de Comércio Internacional estimou que o download não autorizado de mídias custava bilhões de euros por ano às indústrias criativas europeias.Mundell, Ian. Piracy in Europe costs $13.7 billion, Variety. 18 de março de 2010. Estudos subsequentes projetaram um risco de perda de até 1,2 milhão de empregos no setor até 2015 caso a tendência permanecesse inalterada. A pesquisa aplicava uma taxa de substituição de 10% sobre o volume de downloads não autorizados, estimando quantas cópias seriam vendidas caso a distribuição ilegal fosse interrompida.Geoffron, Patrice. Building a Digital Economy , iccwbo.org, 17 de março de 2010. Índices elevados de pirataria de software e sistemas operacionais mantiveram-se comuns mesmo em regiões com leis rigorosas de propriedade intelectual, como nos Estados Unidos e na União Europeia.Moisés Naím (2007). Illicit: How smugglers, traffickers and copycats are hijacking the global economy, p. 15. Arrow Books, London. .

Percepção pública e uso Estima-se que, em 2004, cerca de 70 milhões de pessoas utilizavam redes de compartilhamento de arquivos online.Delgado, Ray. Law professors examine ethical controversies of peer-to-peer file sharing . Stanford Report, 17 de março de 2004. Segundo pesquisa da CBS News, quase 70% dos jovens de 18 a 29 anos consideravam o compartilhamento aceitável em certas circunstâncias, opinião compartilhada por 58% da população geral dos Estados Unidos que acompanhava o tema.Poll: Young Say File Sharing OK CBS News, Bootie Cosgrove-Mather, 2003-09-18

Em janeiro de 2006, 32 milhões de norte-americanos com mais de 12 anos já haviam baixado ao menos um longa-metragem via Internet, 80% dos quais exclusivamente por P2P. Entre os entrevistados, 60% não viam o download de filmes protegidos como uma infração grave, enquanto 78% consideravam o furto físico de um DVD em uma loja como uma infração extremamente grave.

Em julho de 2008, 20% dos europeus recorriam a redes P2P para obter música, enquanto apenas 10% utilizavam serviços digitais pagos, como a iTunes Store.17:41 GMT, Quinta-feira, 3 de julho de 2008, 18h41 (horário do Reino Unido). Technology: "Warning letters to 'file-sharers'" , BBC NEWS. Uma pesquisa da Tiscali no Reino Unido (2009) revelou que 75% dos entrevistados conheciam a diferença entre o uso legal e ilegal do P2P, mas divergiam quanto à responsabilidade legal: 49% atribuíam a culpa às empresas criadoras das redes P2P e 18% aos usuários individuais.MarkJ - 24 de fevereiro de 2009 (1:46 PM). "Tiscali UK Survey Reveals Illegal File Sharing Attitudes" , ISPreview UK News.

Na Suécia, uma pesquisa de 2006 indicou que 75% dos jovens eleitores (entre 18 e 20 anos) apoiavam o compartilhamento de arquivos mesmo quando cientes de sua ilegalidade.TT/Adam Ewing. 8 de junho de 2006, 09:54 CET. "Young voters back file sharing" , The Local. Estudos acadêmicos sugerem que ações rigorosas de fiscalização de direitos autorais muitas vezes geraram um efeito reverso (backlash), fortalecendo posições favoráveis ao compartilhamento entre os usuários de tecnologias P2P.Ben Depoorter et al. " Copyright Backlash" , Southern California Law Review, 2011.

Comunidades em redes de compartilhamento de arquivos P2P As comunidades desempenham um papel fundamental no funcionamento de diversas redes P2P, como BitTorrent, Gnutella e DC++. A estabilidade e a consolidação dessas comunidades dependem de fatores como afinidade de interesses, incentivos de custo e dinamismo de participação.

Atributos de interesse