A língua crioula indo-portuguesa de Damão e Diu, também conhecida como língua crioula de Damão e Diu e, pelos seus falantes, como Língua da Casa (em Damão) ou Língua dos Velhos (em Diu), refere-se a algumas variantes do crioulo indo-português falado no território indiano de Dadrá e Nagar Aveli e Damão e Diu, na União da Índia. Essas variantes originaram-se do crioulo original falado pelos chamados 'norteiros', habitantes dos antigos enclaves portugueses da costa oeste da Índia. Dada a etnia dos norteiros, é provável que o substrato da língua crioula de Damão e Diu seja o gujarati, enquanto o estrato é o português. Ela faz parte de um conjunto de línguas crioulas indo-portuguesas, como crioulo da região de Bombaim, que é fruto da interação entre o português e a língua marati.esquerda|miniaturadaimagem|263x263px|Entrada do Forte de São Jerônimo, DamãoAs variantes de Damão e Diu, faladas predominantemente em regiões que pertencem ao estado indiano de Gujarate, participavam das mesmas dinâmicas políticas e sociais, e sofreram as mesmas influências do português, inglês e gujarati, as três línguas faladas oficialmente nesses territórios. Por isso, podem ser descritas como uma única língua, compreendida mutuamente por diversas comunidades e tendo sistemas de escrita muito semelhantes. Antes da anexação do território pela Índia, o idioma passava por um processo de descrioulização, devido à padronização da Língua Portuguesa de Portugal no território de Goa. Apesar do idioma estar se extinguindo gradualmente, ainda existem cerca de 4.000 falantes do crioulo de Damão e 250 falantes do crioulo de Diu. Esse processo pode ser explicado pelo fato de que essas línguas eram amplamente faladas em pequenas comunidades durante o período colonial na Índia, porém recentemente, com a retirada da administração portuguesa na região, o uso institucional da língua foi substituído por outras línguas oficiais do Estado da índia.

Apesar de ter inúmeras semelhanças com o português, um traço bem marcante desse crioulo é a contração de diversos fonemas que ainda são usados no português, obedecendo aos princípios de brevidade e menor esforço. Essas transformações fonéticas podem acontecer no início, no meio ou no fim de palavras.

Classificação miniaturadaimagem|251x251px|Igreja de São Tomás, Diu A língua se classifica como crioula por ter sido formada durante o contato forçado de colonização de exploração de uma nação europeia sobre povos originários dos demais continentes. Nesse caso, eram os grupos dos indianos gujaratis que habitavam a região e os colonos portugueses. Esses grupos mantiveram um contato forçado por anos durante o período colonial português na Índia.

Seu estrato, o português, é uma das línguas da família românica, ou seja, das línguas derivadas do latim. A língua surgiu como variante meridional do antigo galego-português, consolidando-se durante o processo de Reconquista da Península Ibérica. O português falado nas regiões de Portugal e Galiza foi levado para as Índias durante a Era dos Descobrimentos. O português é falado por aproximadamente 270 milhões de falantes nativos e secundários, sendo considerada a sexta língua mais falada no mundo.

O substrato da língua, o gujarati, tem origem nas línguas arianas, subgrupo das indo-europeias. É a sexta língua mais falada na Índia, oficial apenas no estado de Gujarate e nos territórios de Dadra e Nagar Aveli e Damão e Diu. Por conta dos altos índices de migração indiana para a América do Norte e Europa, o gujarati é um idioma bem presentes nesses continentes. O gujarati é a sexta língua mais falada na Índia e a vigésima sexta mais falada no mundo, com 55,5 milhões de falantes nativos.

História Durante as Grandes Navegações, Portugal criou e estabeleceu diversas feitorias em cidades já existentes e ocupadas por diversos povos na Índia, como em Bombaim e Calicute. Todas essas regiões controladas por Portugal formavam a Índia Portuguesa, ou o Estado Português da Índia. No litoral noroeste, estavam as cidades de Damão e Diu, que foram enclaves litorâneos controlados pela Coroa Portuguesa desde a década de 1530. miniaturadaimagem|278x278px|Fortaleza portuguesa em Diu|esquerda Estima-se que o crioulo de Damão e Diu tenha começado a se formar na primeira metade do século XVI, porém só foi registrado em 1883, quando foi organizada uma expedição do filologista alemão Hugo Schuchardt, creditado como o fundador dos estudos de línguas crioulas. Schuchardt publicou um artigo de 16 páginas intitulado “Indo-Português de Diu” que, embora tivesse uma base de dados limitada, por muito tempo foi a única fonte fiável que descrevia a língua.

Durante quatro séculos e meio, no período da Índia Colônia, os territórios de Damão e Diu eram enclaves do Estado Português da índia, juntamente com Goa, Dadrá e Nagar-Aveli. Esses enclaves foram ocupados pela União Indiana em 19 de dezembro de 1961, porém Portugal só reconheceu a ocupação em 1974. Os territórios de Damão, Diu e Goa foram administrados pela União até 1987, quando Goa se tornou um estado dentro da índia e Damão e Diu foram reconhecidos como um território separado administrativamente.

No início do século XX, a língua crioula já era muito restringida, normalmente falada em pequenas comunidades e grupos familiares ou durante confissões em igrejas católicas, porém em situações sociais mais monitoradas, as pessoas davam preferência ao português e ao gujarati, sendo essa segunda geralmente aprendida durante a infância. Por conta dessa restrição, os norteiros normalmente se comunicavam nessas línguas apenas em pequenas comunidades ou grupos familiares. Até hoje o gujarati é o idioma predominante nessas regiões e estudos indicam que, em breve, prevalecerá sobre o crioulo, visto que outras línguas de origens parecidas já foram extintas, como o crioulo de Cochim. Por serem formados em regiões e grupos próximos étnica e socialmente, os crioulos indo-portugueses têm características comuns. Atualmente, essa língua crioula é falada por apenas alguns milhares de habitantes dessas regiões, principalmente entre as populações mais velhas.

Fonologia Por ser uma língua amplamente baseada no português, suas consoantes são essencialmente as mesmas, com exceção de [ɲ], representado por "nh" em português, que foi substituído pelo [ŋ] no crioulo de Damão e Diu, representado pela letra ŋ. Por fim, há o [ʒ], que no português pode servir de som para a letra g, mas não existe nesse crioulo. Em relação às vogais, a única mudança é a adição do schwa [ə], que não está presente na língua portuguesa.

Consoantes +Fonemas consonantais de Damão e DiuBilabialLabiovelarLabiodentalDental/AlveolarPalatalVelarNasalmnŋPlosivap bt dk gFricativaf vs zʃAfricadaʧ ʤVibranterAproximantewjAproximante laterall

Vogais As vogais fechadas, semifechadas e abertas podem ser nasalizadas. Na grafia do crioulo de Damão e Diu, isso é representado com um til sobre a vogal (ã, ẽ, ĩ, õ, ũ), semelhante ao que ocorre no português. +Fonemas vocálicos de Damão e DiuAnteriorCentralPosteriorFechadaiuSemifechadaeoMédiaəSemiabertaεɔAbertaa

Fenômenos fonológicos Os praticantes desse crioulo são conhecidos por contraírem diversos fonemas das palavras, tornando-as mais curtas quando comparadas às equivalentes em português. Por isso, as transformações fonológicas do português para o crioulo de Damão e Diu são muitas.

Dentre essas transformações, destacam-se os metaplasmos por supressão, especialmente as supressões de vogais. Isso pode ocorrer no início das palavras (aférese, como em acordar > korda), no meio (síncope, como em testemunho > testmuŋ) ou no fim (apócope, como em casa > kaz). Esse fenômeno ocorre também com a letra r no final dos verbos infinitivos.

Destacam-se também os os metaplasmos por transposição, que podem ocorrer palatalizando uma consoante, como em muito cedo > muxed, ou despalatalizando-a, como em sobrinho > subriŋ. Há também os metaplasmos por aumento, como em à noite > anot.

Escrita Por ser uma língua crioula falada por uma população pouco numerosa, a escrita da língua crioula de Damão e Diu não tem uma forma padronizada. Algumas formas escritas, normalmente utilizadas por comunidades pequenas de falantes mas com muitas variações, são baseadas somente na escrita portuguesa. Hugo Cardoso, no livro “O Indo-Português de Diu” (2009), propõe uma escrita padrão baseada no português e suplementada por letras do Alfabeto Fonético Internacional (IPA), de forma que cada letra corresponda estritamente a um fonema. Essa escrita é a mais utilizada no contexto acadêmico.

A escrita de algumas palavras pode mudar de acordo com a inicial da palavra que a sucede ou a última letra da palavra que a precede. Um exemplo é o pronome pessoal εl, que pode se tornar əl quando precedido por uma palavra que termina em -i.

Algumas palavras emprestadas do inglês, como courthouse e surprise, não seguem a mesma escrita do restante do idioma, sendo mantida a grafia original do inglês.

Ortografia Pela língua ser baseada no português, seu alfabeto é muito semelhante, apenas com as exceções que são feitas, a partir do IPA, para restringir a homografia. Algumas letras que podem representar dois fonemas no português representam apenas um neste alfabeto. As letras t, d, k, g, s, x, ch e j são adotadas exclusivamente para os fonemas /t/, /d/, /k/, /g/, /s/, /ʃ/, /ʧ/ e /ʤ/ respectivamente.

Além disso, utiliza-se as letras adicionais ε, ɔ, ə e ŋ, retiradas do IPA. Abaixo estão listadas as letras cujo uso é diferente daquele do português: +LetraDamão e DiuPortuguêsεε em pεdé em médio ou e em raqueteɔɔ em nɔsó em nó ou o em horaəə em dəpəy(não existe no português)kk em kabritc em casaŋŋ em apiŋa(não existe no português)zz em zaseyz em zebra ou s em casaxx em dexx em peixe ou ch em mechachch em chumast em algumas variantes, como em tiajj em janεld em algumas variantes, como em dia

Gramática As flexões do português são bastante reduzidas ou inexistentes neste crioulo. Os substantivos e verbos não têm flexões de gênero e número, elas são indicadas apenas pelos pronomes.

Pronomes Pronomes pessoais Os pronomes pessoais do crioulo são os indicadores de número, logo os outros elementos da frase não são modificados. Essa regra pode ser exemplificada nas frases: “nɔs vay nə kazəmẽt də mĩ irmã” (nós vamos no casamento da minha irmã) e “yo vay nə kazəmẽt də mĩ irmã” (eu vou no casamento da minha irmã), onde os pronomes são as únicas palavras que sofrem flexão de número.

Os pronomes, de forma geral, não sofrem flexão de gênero, com exceção da terceira pessoa do singular, apresentando a forma masculina el e a feminina εl. Apesar disso, o pronome el pode ser utilizado, de forma mais ou menos comum de acordo com o falante, como substituto de εl e elz, funcionando em ambos os gêneros e números.

O único pronome pessoal que pode ser modificado no caso oblíquo é o de primeira pessoa do singular, yo (caso reto) e mi (caso oblíquo). +SingularPlural1a pessoayo / mi (obl.)nɔs2a pessoauseusez3a pessoael (m.) / εl (f.)e(l)z

Pronomes possessivos Quanto aos pronomes possessivos, apenas os de primeira pessoa mantiveram a forma românica tradicional do português. Os demais, "teu/tua" e "seu/sua" foram substituídos respectivamente pelas contrações "de você(s)" e "dele/a(s)". +SingularPlural1a pessoamĩnɔs2a pessoadusedusez3a pessoadel (m.) / dεl (f.)de(l)z

Substantivos

Flexões Em relação às flexões, os substantivos podem variar muito no crioulo de Damão e Diu, já que não ocorre a separação de substantivos contáveis e incontáveis, palavras de valor semântico parecido podem ter ou não flexão de número. As palavras flexionáveis apresentam a adição do sufixo -s no final da palavra, semelhante ao que ocorre no português. No entanto, há modificadores comuns que podem ser utilizados em todos os casos, como bastãt (muitos) e aŋũ (alguns). Números também podem ser utilizados como indicadores de quantidade, como em “kwɔt adiw” (quatro raposas) ou “sey chumas” (seis travesseiros).