O Panará (kre = código ISO 639-3 correspondente), também denominado Krenhakarore, Krenakore, Krenakarore e Kreen-akarore,Moseley, Christopher (ed.). 2010. Atlas of the World’s Languages in Danger, 3rd edn. Paris, UNESCO Publishing. Online version: http://www.unesco.org/culture/en/endangeredlanguages/atlas é uma língua indígena do Brasil atualmente falada nos estados do Mato Grosso e sul do Pará, mais precisamente na Terra Indígena Panará (Guarantã do Norte em MT e Altamira PA), que se encontra nos entornos do Rio Peixoto de Azevedo e nascente do Rio Iriri.

Atualmente, a língua possui 380 falantes de uma população étnica de 540. Segundo esses números, o Panará se encontra em situação vulnerável, ou seja, a maioria das crianças fala a língua, porém isso pode estar restrito a determinados ambientes. De acordo com outra escala, a Escala de Ameaça Aglomerada (Agglomerated Endangerment Scale - AES), ela está na categoria de mutação (shifting), que é quando a geração em idade fértil possui conhecimento suficiente na língua para usar entre si, mas não transmite às suas crianças. É devido a isso que oficinas e estudos vêm sendo feitos com professores locais para padronizar a gramática da língua e impedi-la de cair em desuso. direita|miniaturadaimagem|300x300px|Crianças Panará brincando O nome ‘Panará’, auto-denominação da própria comunidade, significa ‘gente’ nessa língua - algo provavelmente derivado das palavras 'panariá' (indígena) e 'puará' (homem). Suas outras nomenclaturas comuns derivam de atribuições dos Kayapó ao povo Panará, que significam “cabeça cortada redonda”. Isso se relaciona ao modelo tradicional de corte de cabelo deles, o qual é um elemento fenotípico de extremo valor na cultura dos Panará. Seu corte se associa a um determinado status social.

Classificação A língua pertence ao tronco linguístico Macro-Jê, um dos principais troncos das línguas indígenas brasileiras. Pertence ainda à família Jê e subfamília Jê Setentrional junto com línguas como Apinayé, Kayapó, Suyá e as línguas Timbira.<ref name=":7">DOURADO, Luciana Gonçalves. Aspectos morfossintaticos da Lingua Panara (Je). 2001. 240p. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP. Disponível em: <<>http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/269111</>>. Acesso em: 25 de abril de 2021.</ref>

Há muitos indícios de que a língua surgiu como uma variante do Kayapó do Sul, observados majoritariamente na ortografia e fonética semelhantes. +Kayapó vs. PanaráPortuguêsKayapóPanarábocaçakuásakwabraçoipáhì’pácabelokinhì’kìcanelaitéitácaolhointónóintonocotovelopakuçúpakusúdentesuásualínguaçuntótsutótimãocykiásikyanarizçâkrésakrenucaimpútimputiolhosintóinto

Fonologia O Panará possui um extenso inventário fonético no qual predominam vogais em relação às consoantes.

Consoantes As consoantes do Panará são muito semelhantes às do português, com exceção dos fonemas padronizados /ɲ/ e /ŋ/ e dos fonemas de mais de um ponto de articulação. É importante notar também que, no Panará, quando consoantes nasais precedem uma vogal oral, ou uma consoante aproximante, elas são pós-oralizadas e desvozeadas. Além disso, a fricativa glotal [</>h] não é considerada mais fonêmica, sendo distribuída na ortografia de acordo com a prosódia. +Consoantes com um ponto de articulação (em IPA)BilabialLabiovelarAlveolarPalatalVelarOclusivaptkNasalmnɲŋVibranterFricativasAproximantewj +Consoantes com mais de um ponto de articulaçãoBilabialAlveolarVelarGeminada oclusivap͡pt͡tk͡kGeminada nasalm͡mn͡nGeminada fricativas͡s

Vogais Nessa língua, as vogais podem ser divididas entre orais e nasais, curtas e longas. A nasalidade, de modo igual ao da língua portuguesa, é indicada pelo sinal diacrítico da tilde (ou til). Já a distinção entre curtas e longas ocorre pelo suprassegmento longo [ː], indicado por dois pontos triangulares.

As vogais /oː, ɔː, õː, eː, ẽː/ são foneticamente compreendidas com ditongação, respectivamente como [ow, ɔw, õw̃, ej, ẽj̃ ]. Exemplo: /poː/ [pow] (chegar)

Ademais, na língua ocorre também a redução de vogais abertas: a vogal /a/ pode ser reduzida a [ɐ] ou [ə] em sílabas átonas. +Vogais (curtas e longas) do PanaráoralnasalAnteriorCentralPosteriorAnteriorCentralPosteriorFechadaarredondadau , uːũ , ũːnão-arredondadai , iːɯ , ɯːĩ , ĩːɯ̃ , ɯ̃ːSemifechadaarredondadao , oːõ , õːnão-arredondadae , eːẽ , ẽːMédia-ə , əːə̃ , ə̃ːSemiabertaarredondadaɔ , ɔːnão-arredondadaɛ , ɛːAbertanão-arredondadaa , aː

Epêntese A epêntese está presente em muitas palavras que iniciam ou terminam com [i] no Panará. O [i] final epentético só ocorre em palavras com codas oclusivas → /tɛp/ → [ˈtɛːpi] ‘peixe’. Já o [i] inicial epentético pode ser obrigatório, opcional ou antigramatical em dependência da raiz da palavra. A tabela a seguir indica o uso deste, em que [T] se refere a uma consoante oclusiva, [CC] se refere a uma consoante geminada e [NT] a uma consoante nasal em caso de pós-oralização, como [m͡p, n͡t, n͡s, ŋ͡k]: +Tabela de epêntese de Lapierre[i] inicial emRaíz com inicial [T]Raíz com inicial [CC]Raíz com inicial [NT]monossílabaopcionalobrigatórioobrigatóriopolissílabaantigramaticalopcionalopcional +Exemplos para cada instância gramatical:Monossílaba [T]/tu/ → [tu ~ iˈtu] ‘barriga’Monossílaba [CC]/kkjɯt/ → [ikˈkjɯːti] ‘anta’Polissílaba [CC]/ppẽkə/ → [pẽˈkə ~ ippẽˈkə] ‘roupas’Monossílaba [NT]/ŋo/ → [iŋˈko] ‘água’Polissílaba [NT]/nɔpə̃ː/ → [tɔˈpə̃ː ~ intɔˈpə̃ː] ‘pequeno buraco’

Escrita A ortografia para o Panará tem sido desenvolvida nos últimos 20 anos pela própria comunidade - em especial pelos Panará formados como professores que trabalham nas escolas locais - com o auxílio de workshops de alfabetização propostos tanto por organizações não-governamentais quanto pelo governo brasileiro. Eles utilizam o alfabeto latino, porém as letras b, c, d, f, g, l, q, v, x e z não são empregadas. A letra y é considerada uma vogal, e possui pronúncia diferente da consoante y no português.

Uma outra distinção significativa entre a língua portuguesa e o Panará é que os fonemas nasais no último são grafados com o sinal diacrítico tilde, e não possuem a alternativa de serem seguidos por consoantes nasais. Exemplo: [ĩ] que é grafado como ‘ĩ’ no Panará, mas é representada por ‘im’ ou ‘in’ no português.

O tamanho das vogais é fonêmico, assim como sua nasalização, e é representado pelo dígrafo da vogal. Quanto às consoantes, a pós-oralização nasal é representada por um dígrafo, nasais codais são representadas por n, e geminadas - antes representadas por uma pausa glotal - são agora representadas por um dígrafo. Por último, nas combinações fonéticas [m͡p, n͡t, n͡s, ŋ͡k], as consoantes nasais são representadas pela letra n. +Ortografia das vogais[i] = i[ɯ] = y[u] = u[ĩ] = ĩ[ɯ̃] = ỹ[ũ] = ũ[iː] = ii[ɯː] = yy[uː] = uu[ĩː] = ĩĩ[ɯ̃ː] = ỹỹ[ũː] = ũũ[e] = ê[ə] = â[o] = ô[ẽ] = ẽ[ə̃] = ã[õ] = õ[eː] = êê[əː] = ââ[oː] = ôô[ẽː] = ẽẽ[ə̃ː] = ãã[õː] = õõ[ɛ] = e[a] = a[ɔ] = o[ɛː] = ee[aː] = aa[ɔː] = oo +Ortografia das consoantes[p] = p[t] = t[s] = s[k] = k[pp] = pp[tt] = tt[ss~ts] = ss[kk] = kk[m] = m[n] = n[ɲ] = n[ŋ] = n[w] = w[r] = r[j] = j

Morfossintaxe Nomes Pronomes pessoais No Panará, os pronomes pessoais podem ser divididos entre pronomes pessoais livres e pronomes pessoais clíticos. Os pronomes pessoais livres apresentam uma base única para o singular, à qual se agregam sufixos para formar o dual, o plural e o paucal (este apenas na terceira pessoa).

O panará é uma língua dativa e instrumental-comitativa, ou seja, também difere casos de quem se beneficia/ prejudica com a ação e o instrumento ou companhia de quem executou a ação. Enquanto ações direcionadas no português são dadas por verbos pronominais, sem distinção de casos, e a partícula ‘com’ no português indica tanto instrumento como companhia, nessa língua o pronome já indica cada situação.

Exemplo de benefactivo:

|+ |kamerã |ø |-kari |-ra |-kyẽ |-sõ |-ri |kan |ĩkieti |ĩkyẽ |mã |- |vocês.ERG | REAL.TR |2PL.ERG |3SG.PL |1.DAT |dar |PERF |cesta.ABS |muita |eu |BEN |- | colspan="11" |‘vocês me deram muitas cestas’

‘eu’, no caso, é benefactivo pois se beneficia com a ação. No português, é representado por ‘me’ para indicar direcionamento da ação, para quem foi feita, sem nenhum juízo de valor, pois não é uma língua dativa.

Os pronomes se diferem então no caso *absolutivo-ergativo, dativo (benefactivo-malefactivo; quem se beneficia/prejudica com a ação) e instrumental-comitativo (instrumental se refere a instrumento ou meio pelo qual o sujeito realiza a ação, comitativo se refere à companhia com a qual o sujeito exerceu a ação). Com exceção do caso absolutivo, que é não-marcado, os outros casos são seguidos de posposições, as quais indicam sua função. Pronomes livres não podem ocupar a posição de objeto indireto locativo.

+Tabela pronominal livreNúmeroPessoaABSPTBERGPTBBENMALICOMCOMABS/ERGSingular1aĩkyẽMeĩkyẽ hẽEuĩkyẽ mãĩkyẽ peĩkyẽ howĩkyẽ kõ -2akaTeka hẽTuka mãka peka howka kõ -3amaraSemara hẽElemara mãmara pemara howmara kõ -Plural1aĩkyẽmeraNosĩkyẽmerã**Nósĩkyẽmerãĩkyẽmera peĩkyẽmera howĩkyẽmera kõmĩ, pa***2akameraVoskamerãVóskamerãkamera pekamera howkamera kõ -3amarameraSemaramerãElesmaramerãmaramera pemaramera howmaramera kõ -Dual1aĩkyẽra -ĩkyẽrã -ĩkyẽrãĩkyẽra peĩkyẽra howĩkyẽra kõ -2akara -karã -karãkara pekara howkara kõ -3amarara -mararã -mararãmarara pemarara howmarara kõ -Paucal3amarapyyra -marapyyrã -marapyyrãmarapyyra pemarapyyra howmarapyyra kõ -

No alinhamento absolutivo-ergativo, o sujeito da intransitiva declina da mesma forma que o objeto direto (absolutivo) e o sujeito da transitiva declina sozinho (ergativo). Como esse alinhamento difere do da língua portuguesa, foi feita uma adaptação da tradução para seguir o padrão.

Nos casos ergativo e benefactivo não-singular há a nasalização da última vogal do pronome ao invés da posposição.

Ambos aparecem com função de sujeito de verbo transitivo ou intransitivo; pa é derivado do homônimo ‘gente’ e pode se referir a ‘ele(s)’, já mĩ majoritariamente ocorre como exortativo (estimulante).

Os pronomes clíticos, por sua vez, possuem uma distribuição divergente da dos pronomes livres. Predominantemente, ocorrem de modo individual (sem a presença de nomes ou pronomes livres), como argumento do verbo; todavia, podem também co-ocorrer com os pronomes livres, com função anafórica. É argumentado que possam ser tratados como clíticos de co-referência aos argumentos nucleares (sujeito, objeto direto e objeto indireto), pois possuem um comportamento muitas vezes ambíguo como argumento pronominal vs. marcador de concordância.

Existem quatro formas de clíticos pronominais, que ocorrem sempre à esquerda da raiz do verbo, podendo ser co-referentes nos seguintes casos:

Absolutivo, para o sujeito da intransitiva no modo realis, o objeto direto da transitiva, o benefactivo, o malefactivo, o instrumental-comitativo, o comitativo e o inessivo; Ergativo, para o sujeito da transitiva no modo realis; Nominativo, para sujeito de verbo transitivo e intransitivo no modo irrealis; Dativo, como alternativa, para o benefactivo e comitativo.

+Tabela pronominal clíticaNúmeroPessoaAbsolutivoNominativoErgativoDativoSingular1ara∅ri ~ rekyẽ2aa ~ hati(a)kakã3a∅titimãPlural e paucal1ara, pa, mĩtimĩne ~ rekyẽ2ari(a)tiri(a)kari(a)kã3ara∅ne ~ remãDual1aramẽmẽrimẽ ~ rememẽ2aamẽtimẽkamẽkamẽ3amẽtimẽtimẽmẽ

Flexão de número Nomes que se referem a coisas animadas no Panará admitem flexão de número dual, plural e paucal (indica um grupo pequeno, de 3 a 10 componentes). Coisas inanimadas geralmente são seguidas de numerais. Enquanto o singular é não-marcado, a flexão das demais formas se manifesta nos pronomes independentes e nos proclíticos e prefixos juntos ao verbo.

Exemplo de prefixo verbal:

|+ |kamerã |ø |-kari |-ra |-kyẽ |-sõ |-ri |kan |ĩkieti |ĩkyẽ |mã |- |vocês.ERG | REAL.TR |2PL.ERG |3SG.PL |1.DAT |dar |PERF |cesta.ABS |muita |eu |BEN |- | colspan="11" |‘vocês me deram muitas cestas’