A língua kĩsêdjê (AFI: [ˌkĩ.se.ˈd͡ʒe]), também conhecida como khĩsêdjê, kĩsêdjê kapẽrẽ, suyá e suiá, pertence à família macro-jê, sendo do ramo jê. Ela é falada pelo povo kĩsêdjê, habitantes do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, Brasil.

O kĩsêdjê é considerado uma língua estável, já que possui aproximadamente 410 falantes (dado de 2017), parcela correspondente a grande parte da população kĩsêdjê.

A língua foi documentada pela primeira vez na década de 1990 pelo linguista Ludoviko Carnasciali dos Santos. Um registro mais detalhado e atualizado do kĩsêdjê tem sido feito por Rafael Nonato desde 2012 por meio do projeto de documentação PRODOCLIN.

A representação ortográfica do kĩsêdjê é feita por meio do alfabeto latino. A escrita foi desenvolvida por professores kĩsêdjê em conjunto com Carnasciali e posteriormente sofreu uma reforma ortográfica em 2013. A língua apresenta , utilizando tanto o alinhamento ergativo-absolutivo quanto o nominativo-acusativo, e segue a ordem de sentença sujeito-objeto-verbo (SOV).

Etimologia

Embora a língua e o povo sejam frequentemente chamados de suyá, eles atualmente se autodenominam kĩsêdjê. O nome significa "pessoas das aldeias queimadas", em referência à forma tradicional de construção de suas aldeias: queimava-se uma clareira na floresta e nela construia-se uma aldeia circular.

A origem do exônimo suyá não é bem documentada. Alguns apontam para o rio Suyá-Miçu como o possível origem, mas é o contrário: Suyá-Miçu significa "rio dos Suyá" em Trumai.

Distribuição

Os kĩsêdjê estão distribuídos em diferentes postos e aldeias no Alto Xingu. A aldeia mais populosa é Ngôjhwêrê, com cerca de 330 habitantes, enquanto os demais vivem nas aldeias Roptotxi, Ngôsôkô e Horehusikrô.

Línguas relacionadas O kĩsêdjê, como uma língua jê do ramo trans-tocantins, possui uma grande proximidade com as línguas apinayé e trans-araguaianas, especialmente com o tapayúna. De acordo com alguns kĩsêdjê, a língua tapayúna é uma forma arcaica da língua kĩsêdjê. +Comparação lexical entre línguas Trans-TocantinsPortuguêsApinajéXikrínKayapóTapayúnaKĩsêdjêmorder/ⁿʒa//ɲa//ɲã//ⁿta//nda/preto/t'ɨkɨ//tɯk//kakɾʌ̃tɯk//ʈʰɨgɨ//tʰɨkt͡ʃi/sangue/kaⁿbɾo//kamɾo//kamɾo//kaɾ̃o//kambɹo/terra/pɨka//pɯka//pɯka//hʷɨkʰa//hwɨkʰa/

História

História da língua A história oral conta que os kĩsêdjê vieram do Nordeste, passaram pelos rios Xingu e Tapajós e depois adentraram o Alto Xingu. Um grupo kĩsêdjê separou-se dos demais e seguiu para os rios Sangue e Arinos, posteriormente diferenciando-se como Tapayúna. Embora os Kĩsêdjê tenham contato com a sociedade não indígena desde 1884, o povo sempre teve como prioridade a preservação de sua identidade, garantindo a vitalidade de sua língua e de sua cultura. alt=Mapa do norte do Mato Grosso com duas setas, cada uma indicando uma aldeia habitada pelos Tapayúna. A aldeia mais acima do rio Suyá é Ngôsokô (ou Ngôsôgô), enquanto a outra é Kawêrêtxikô, a principal aldeia Tapayúna construída após o rompimento com os Kĩsedjê.|miniaturadaimagem|213x213px|Mapa mostrando as aldeias Ngôsokô (ou Ngôsôgô) e Kawêrêtxikô, sendo a última a principal aldeia Tapayúna construída após o rompimento com os Kĩsedjê. No Alto Xingu, os Kĩsêdjê sofreram diversos ataques dos Juruna, levando-os a subirem o rio Suyá-Miçu. Devido aos ataques, alguns Kĩsêdjê deixaram suas aldeias para viver com parentes e amigos Kamaiurá. Após um período de intenso conflito, os irmãos Villas Bôas propuseram a mudança dos Kĩsêdjê para as redondezas do Posto Indígena Diauarum, onde tiveram ainda mais contato com outros povos do Xingu, marcando o início da de incorporação de costumes e tecnologias alheias que os Kĩsêdjê julgavam úteis, adotando também alguns traços linguísticos, mas sem menosprezar a própria língua.

Entre 1969 e 1980, os Tapayúna viveram nas aldeias Kĩsêdjê, onde eram considerados "atrasados" devido ao seu desconhecimento de diversas práticas e costumes xinguanos. Em uma tentativa de enturmar-se, alguns jovens Tapayúna adotaram a língua kĩsêdjê, já que sua língua era considerada arcaica pelos Kĩsêdjê. A coabitação não agradou os Tapayúna, que deixaram a aldeia kĩsêdjê, construíram sua própria aldeia e posteriormente foram morar com os Metuktire, a fim de se afastar ainda mais dos Kĩsêdjê e reafirmar sua autonomia cultural e linguística.

História da documentação Os Kĩsêdjê, através de toda sua história e cosmologia, têm como fundamento a adoção seletiva de hábitos e tecnologias que julgam úteis, mas sempre preservando a sua própria cultura. No universo linguístico, isso se traduziu na adoção do alfabeto latino, na criação de diversas escolas indígenas e na capacitação digital.

A ortografia kĩsêdjê foi desenvolvida na década de 1990 com o auxílio do linguista Ludoviko Carnasciali dos Santos, o primeiro a documentar a língua. Posteriormente, em 2012, devido à insatisfação do povo kĩsêdjê com as ambiguidades presentes na escrita, uma reforma ortográfica foi realizada com o auxílio do linguista Rafael Nonato. Quanto às escolas indígenas, elas foram construídas nas aldeias Ngôsokô, Roptôtxi e Ngôjwêrê (aldeia mais populosa). Nelas é priorizado o ensino da escrita kĩsêdjê, com o português sendo ensinado como segunda língua. Além de seguirem o currículo elaborado por professores do Parque Indígena do Xingu em associação com o Instituto Socioambiental (ISA), as escolas também formam alunos pesquisadores que trabalham juntamente com equipes do ISA na documentação da língua kĩsêdjê.

Fonologia Consoantes

O kĩsêdjê apresenta 14 fonemas consonantais subjacentes, representados no Alfabeto Fonético Internacional (AFI) na tabela abaixo:

+Quadro consonantal do kĩsêdjêBilabialLabiovelarAlveolarPalatoalveolarPalatalVelarGlotalNasalSurda FricativaAproximanteAfricada Algumas consoantes apresentam variações entre as gerações. Alguns fones, como [ɲj] e [ɹ], são empregados majoritariamente por gerações mais velhas enquanto os jovens usam [d͡ʒ] e [ɾ], respectivamente.

Vogais O kĩsêdjê possui representados 17 fonemas vocálicos, 10 orais e 7 nasais, representados no AFI na tabela abaixo:

+Quadro vocálico do kĩsêdjêAnteriorCentralPosteriororalnasaloralnasaloralnasalAltaMédia-altaɘ̃Média-baixaBaixa

Transformações fonológicas

Epêntese Todas os enunciados kĩsêdjê terminam com uma vogal. Caso a última sílaba de uma palavra possua coda, adiciona-se uma vogal ao final, chamada vogal epentética.

Quando a consoante de coda não é // ou //, a vogal epentética será igual à vogal da sílaba anterior.

/ŋɹot/ → [ŋgɹoɾo] (plêiades) /mɘɹ/ → [mbɘɾɘ] (chorar)

Quando a nasal palatal () for a consoante de coda, a vogal epentética será [].

/pɘɲ/ → [pɘji] (chegar)

Quando a nasal bilabial () for a consoante de coda e a vogal anterior é nasal, a vogal epentética também será [].

/kʰumɛ̃n/ → [kʰumɛ̃ni] (muito)

Quando a nasal bilabial () for a consoante de coda e a volgal anterior é oral, acredita-se que a vogal epentética será igual à vogal da sílaba anterior, mas essa é somente uma generalização especulativa.

Alofonia consonantal Quando uma consoante nasal situa-se antes de uma vogal oral, ela é pós-oralizada.

/mɨ/ → [mbɨ] (rabo) /na/ → [nda] (chuva) /ɲɔ/ → [ɲjɔ] (lá) /ŋ/ → [ŋg]

Nessa mesma situação, a nasal palatal () também pode ser substituída pela africada pós-alveolar vozeada ().

/ɲɔ/ → [ɲjɔ] → [d͡ʒɔ] (lá)

Quando está em coda, a nasal palatal () é substituída pela aproximante palatal ().

/pɘɲ/ → [pɘji] (chegar)

Quando está entre vogais ou é a primeira consoante da palavra, a aproximante alveolar () é substituída pelo tepe alveolar ().

/aɹɘ/ → /aɾɘ/ (dizer) /ɹɔp/ → [ɾɔwɔ] (onça)

Quando está entre vogais devido à vogal adicionada em epêntese, a plosiva dental () é substituída pelo tepe alveolar () e a plosiva bilabial () é substituída pela aproximante labiovelar ().

/ɲɜt/ → [ɲjɜɾɜ]/[d͡ʒɜɾɜ] (batata) /ɹɔp/ → [ɾɔwɔ] (onça) Os fonemas //, // e // são realizados como [], [] e [] ou [], [] e [], respectivamente, em variação livre.

/kupã/ → [kupã] ~ [kubã] (cheirar) /ket/ → [ket] ~ [ked] (não) /ka/ → [ka] ~ [ga] (você)

Prosódia O kĩsêdjê segue um padrão de acentuação iâmbico. O acento primário cai sobre a última sílaba e o acento secundário sobre a antepenúltima sílaba, desconsiderando a sílaba formada pela epêntese.

/ˈpɘɲ/ → [ˈpɘ.ji] [ˌɲĩ.ɲã.ˈtɨ]

Fonotática A estrutura silábica do kĩsêdjê segue o padrão (C)(C)(C)V(C), ou seja, um ataque de até três consoantes, uma vogal e uma coda simplês. Toda sílaba deve ter um ataque (começar com consoante) a não ser que seja a primeira sílaba da palavra. A tabela abaixo mostra um exemplo para cada estrutura silábica possível no kĩsêdjê. +Estruturas silábicas do kĩsêdjêV/ama/ 'preste atenção'CV/kukʰen/ 'cotia'CCV/swakɔ̃/ 'coati'CCCV/ŋɹwa/ 'buriti' |- !CVC |/nɛt/ 'batata' |- !CCVC |/mɲen/ 'marido' |- !CCCVC |/kʰɹwɘɲt͡ʃi/ 'papagaio'

Ortografia O sistema de escrita usado no kĩsêdjê é o alfabeto latino, sendo lido da esquerda para a direita, de cima para baixo. A tabela a seguir exibe as letras, suas pronúncias e aproximações fonéticas. +Ortografia do kĩsêdjêLetraSomPronúncia (IPA)Aproximação com o português ou inglêsA a//alma â//rush ('correria' em inglês)à ã//maçã/ɘ̃/pronunciado como /ɘ/ nasalizadoÁ á//posição da língua entre quebra e cobraÊ ê//cedo//doceÉ é//presépioẼ ẽ//penteH h//arrasto (em algumas variantes)I i//minhocaĨ ĩ//cintoJ j//aranhaK k//camisetaKH kh//pronunciado como // aspiradoM m//moquecaN n//náuticoNH nh//aranhaNG ng//angústiaÓ ó//cobraÕ õ//ontemÔ ô//doceP p//patoR r//caroS s//sotaqueT t//tatoTH th//pronunciado como // aspiradoTX tx//tchauU u//mulaŨ ũ//mundoW w//quaseY y//posição da língua entre vida e mulaỸ ỹ//pronunciado como // nasalizado

Gramática

Pronomes

Pronomes pessoais Os pronomes pessoais do kĩsêdjê diferem de acordo com o caso, como representado na tabela abaixo. +Pronomes pessoais do kĩsêdjêPessoaNominativoErgativoAbsolutivoAcusativo1ªwairei-2ªkakarea-1ª+2ªkukwarewa-3ªØkôres- / Ø(ʰ)khu- / s- /Ø(ʰ)

A distinção de número é feita pela partícula aj, que denota plural.

Hẽn wa aj khãm sõmu. 'Nós o vimos lá.' Hẽn wa khãm sõmu. 'Eu o vi lá.'

Casos A língua kĩsêdjê apresenta quatro casos: ergativo, absolutivo, nominativo e acusativo. A marcação de casos em argumentos pronominais é feita pelo próprio pronome. Para argumentos não-pronominais, a marcação é feita por enclíticos: o enclítico re marca o caso ergativo, o enclítico ra marca os casos ergativo (em variação livre com re) e nominativo, e a ausência de enclíticos marca os casos absolutivo e acusativo.

Hẽn inãacusativo mu. 'Ela(e) viu minha mãe.' (ausência de enclítico) Hẽn inãabsolutivo thẽm khãm sõmu. 'Ela(e) viu minha mãe indo.' (ausência de enclítico) Hẽn inãre/inãraergativo khuru khãm sõmu. 'Ela(e) viu minha mãe correndo. Inãranominaitvo mbârâ. 'Minha mãe chorou.'

Pronomes possessivos A indicação de posse no kĩsêdjê é feita por meio dos pronomes pessoais absolutivos. Substantivos inalienáveis (como partes do corpo, familiares etc.) precisam de um possuidor.

Kôt inã ra imã ngêrê. 'Minha mãe pode brigar comigo.'

Substantivos alienáveis não precisam de um possuidor, mas podem recebê-lo.

Ikamby khikhre ra txi ro ikhikhre jakhre. 'A casa do meu irmão é maior que a minha casa.'

Substantivos impossuíveis precisam do intermédio de outro substantivo para ser possuído. Esse substantivo intermediário pode ser kiri, carregando sentido de 'animal de criação', ou nhõ, 'coisa' ou 'comida'. A maioria dos empréstimos lexicais são impossuíveis.

Ikit mbrytxi na wa mbaj kêrê. 'Perdi minha vaca (de criação).' Inhõ mbrytxi na wa mbaj kêrê. 'Perdi minha vaca (comida).'

Pronomes demonstrativos O kĩsêdjê possui três pronomes demonstrativos: itha (perto do falante), atha (perto do interlocutor) e nitha (longe de ambos).

Sák itha ra khajkhit re. 'Este banco é leve.' Sák atha ra khajkhit re. 'Esse banco é leve.' Sák nitha ra khajkhit re. 'Aquele banco é leve.'

Verbos

Tempo, aspecto e modo